Category Archives: LIVROS E LEITURAS

Alguns dos livros que li recentemente.

Até lá abaixo – Tiago Carrasco

Assim dá gosto ler. Assim o prazer da leitura volta a ter lugar de destaque. Assim vale a pena ter um sofá confortável. No ano letivo passado, 2017-2018, dei aulas de Português Língua Não Materna no Agrupamento do Alto do Lumiar, mais especificamente na Musgueira e nas Galinheiras. Para perceber melhor e poder explicar aos alunos o contexto cultural de onde os colegar eram oriundos, fiz algumas apresentações sobre a Costa do Marfim; Guiné; Angola; Moçambique; as plantas que crescem no deserto africano, entre outras e… tinha um aluno de Bafatá, que contou como é que eram lá as coisas na terra dele. Então não que na aventura “Até lá abaixo” os personagens passam por lá! Até falam nos Bijagós! Curioso, coincidente, eu sei lá, foi muito fixe estar a ler o que os meus alunos disseram na primeira pessoa. Alunos e amigos! O professor Rúben de matemática vem do Lubango, partilhei com ele que descrevi a Fenda de Tundavala aos miúdos, ´tá lá no livro; recordo as fotografias das curvas da Serra da Leba, ’tá lá no livro, das mulheres das tribos… ’tá lá no livro. A coisa é mais abrangente, o Marcelo Saraiva, que não o vejo há mais de vinte anos, trabalhou numa ONG lá pelas terras do Senegal; a minha amiga Catarina que fundou a Associação Simba Children’s Rights; do grande Jorge Tempera que queria ir para Marrocos andar de bicicleta (já foste?)… Além de uma grande aventura que parece ficção e de um excelente, limpo, nítido, real espelho da realidade africana, é permanente “a boca” à precariedade laboral em Portugal, mesmo naquele patamar que o senso comum possa considerar (erradamente) confortável.

A geração que me precede deixou muito a marca da guerra do ultramar. Lembro que Portugal não é só Lisboa. Por falar nisso, ali na Amadora, onde o flagelo do desemprego é gritante, mistura-se um bocado as coisas entre marginalidade, pobreza e gente que se farta de trabalhar, ficando diluídos, aqueles que se fartam de trabalhar, na sombra da realidade com mais impacto, tal como quem ia ajudando estes três viajantes “Até lá abaixo”. Ou seja, para mim foi uma leitura que extravasou em muito, as páginas do livro. Considero que a minha informação acerca das terras africanas ficou atualizada. A minha amiga Patsy, que é nascida e criada na África do Sul, agora minha vizinha, pergunta-me se não há a versão em inglês.

O rinoceronte negro está oficialmente extinto, é a grande diferença de 2010 até hoje.

Fiquei a pensar qual será a desculpa, que o Tiago Carrasco irá arranjar, para ligar Açores, Madeira, Cabo Verde e S.Tomé e Príncipe? Os meus alunos São Tomenses contaram coisas fantásticas! E já agora, faz lá uma viagem, ou o rali Trans-Siberiano, é que também tive alunos que vieram lá dessas bandas.

Obrigado Eudora por me teres emprestado o livro. Acho que o vou comprar.

Gory Vaz! Votos de boa leitura. (este ano a Gory dá PLNM)

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O Grito da Gaivota – Emmanuelle Laborit

Ver o mundo pelo ponto de vista dos óculos. São dois mundos, um dentro do outro, porque o que está fora pensa que o outro mundo está dentro. Não, não são dois mundos. São apenas o mesmo com gente que comunica diferente. Com “O Grito da Gaivota” Emmanuelle Laborit dá a oportunidade a quem ler para abrir os ouvidos para o mundo dos outros, para o nosso mundo, para aquele mundo onde somos todos gente de pleno direito.

“(…) São precisas muitas palavras, têm a sua maneira própria de raciocinar, de construir as ideias, diferente da minha, da nossa.

As pessoas que ouvem começam a frase pelo sujeito, depois vem o verbo, o complemento, e por fim «a ideia». «Eu decidi ir ao restaurante comer ostras».

(Adoro ostras.)

Na língua gestual exprime-se em primeiro lugar a ideia principal, seguidamente acrescentam-se os detalhes e compõe-se a frase. Quanto aos pormenores, posso ficar horas a fazer gestos. Ao que parece, sou tão gulosa de detalhes como de ostras. ” – página 116

“Isto pode parecer uma anedota, mas aquele conflito, que acontece amiúde entre surdos e quem ouve, sobretudo quando estamos em grupos numerosos, irrita-me. Acredito firmemente na possibilidade do diálogo entre os dois mundos, as duas culturas. Vivo com pessoas que ouvem, comunico com elas, vivo com surdos e ainda comunico melhor, é natural. Mas o esforço que é necessário fazer para se conseguir essa comunicação, somos sempre nós que o fazemos. Pelos menos é essa a minha impressão pessoal. Procuro ainda, obstinadamente, a união nessas relações. Gostaria de ver desaparecer a desconfiança. Mas não consigo.” – página 132

Um Artista do Mundo Flutuante – Kazuo Ishiguro

Como é que tanta coisa coube num espaço tão pequeno? Um livro pequenito, lê-se de uma assentada, se bem que eu não o fiz, estragava o prolongamento do prazer da leitura, tretas, tive foi pouco tempo, mas é de ficar colado à leitura. Como é que foi possível em apenas dois anos cronológicos escrever tanta coisa? Na sinopse podemos ler: “1948. O Japão reconstrói as suas cidades após a hecatombe da II Guerra Mundial ” – e aqui a narrativa é fantástica porque os olhos e a vida do personagem retratam em poucas mas intensas palavras a paisagem antes e após – “Retirado, o mestre pintor Masuji Ono passa os dias a cuidar do jardim na companhia das duas filhas adultas e pequeno neto” – e nisto consegue narrar a cultura da época em relação à educação de três gerações e respetivas mudanças – “e os serões a beber e a conversar com velhos amigos no barzinho sossegado do costume.” – e também  aqui, mentalidade e urbanidade espelham o antes e o pós-guerra – “Porém, o constante assédio do passado e as memórias de uma vida e carreira profundamente marcadas pela ascensão do militarismo japonês conjuram sombras que ameaçam seriamente a tranquilidade da sua reforma.”  – com uma mestria inenarrável! Foi quase como estar à conversa com um… com uma pessoa muito culta, de uma certa idade, calmo, sabedor mas sobretudo disposto admitir eventuais erros, pois vai cabendo ao leitor fazer o seu juízo de valor de acordo com o conhecimento daquele momento cultural mas, não foi bem «estar à conversa» devido à profundidade do personagem, foi mais ouvir falar, como que uma palestra intimista, um pouco mais que uma tertúlia – “Uma delicada tragicomédia familiar, que é também um retrato subtil e comovente do Japão do pós-guerra.”

Vou citar o «The New York Times Book Review» porque não consigo dizer melhor: “Os bons escritores abundam, mas os bons romancistas são muito raros. Kazuo Ishiguro é uma dessas raridades. Este seu segundo romance é o tipo de livro que aumenta a consciência do leitor, ensinando-o a ler com mais sensibilidade.” – é que elevou tanto a fasquia para a simplicidade que… aqueles calhamaços de seiscentas páginas à volta do mesmo, parecem trabalhos da escola. A coroa de comentários é a do «The Japan Times»: “Este romance é uma análise genial do tumulto vivido no Japão pós-guerra, um tempo em que as certezas haviam sido derrubadas, a hierarquia das gerações parecia invertida e mesmo a geografia das cidades fora alterada. Tudo isto é pungentemente visto através de um homem que, sendo rejeitado pelo futuro, escolhe também rejeitar o seu próprio passado.”

Quando Éramos ÓrfãosNunca me deixes

Cárcere invisível – Francisco Costa

«Cárcere invisível» um dos melhores livros que li ultimamente. Publicado em 1949 “Cárcere Invisível «expõe dramas contemporâneos, entesta por múltiplos caminhos de vida, “analisa seres que se debatem na degradação e na tortura dos que buscam e não acham. Mas transcende todo esse mundo para nos dar uma síntese”.” E é tal e qual como nos diz na sinopse. É muito fácil a identificação com o personagem principal que se mantem fiel aos seus princípios apesar das tentações, das tendências culturais, das obrigações morais culturalmente impostas, um personagem que não se resigna, que não aceita ser carneirinho e não cinge a sua vida a clicar nos likes do facebook, sendo um homem integro quase que beija a marginalidade ferindo os seus princípios mas, mantendo-se integralmente fiel a si, aos seus princípios morais forjados na sua própria opinião. Durante toda a leitura o título fica preso a todos os parágrafos notando-se perfeitamente como um homem livre está preso.

“(…) quando isto acontece, minhas senhoras e meus senhores, consola-nos a alma encontrar um adversário franco e leal, que nos combate pela frente e não pelas costas, melhor ainda: que combate as nossas ideias sem atingir as nossas pessoas. É desse quilate o doutor bandeira Bastos. Hão de VV. Ex.as ouvir, no estribilho do Hino que a digna regente desta casa compôs e ensaiou para a presente cerimónia, esta verdade cantada pelos gaiatos, cujo Lar muito deve à dedicação e desinteresse deste homem, senhoras e senhores, que, dizendo-se ateu, procede afinal como não procedem certos ateus que se dizem cristãos!” – página 315

Um excelente, de primeiríssima água, retrato cultural da época.

E agora completamente fora de contexto, apenas por prazer de leitura, transcrevo uma parte… deliciosamente poética: “Mas ao chegarmos ao largo do Município, o ar estava tão macio e os prédios em volta pareceram-me tão mesquinhos que me recusei a fechar-me em casa; e, passo a passo, com raras palavras entre longos silêncios, chegámos à entrada do castelo. Vi um terreiro irregular, entre velhas muralhas, e à esquerda a Torre de mármore, que ainda se implantava, muito alta, roçada pelas nuvens ligeiras. Enfiando pela escada íngreme, que descansa em dois ou três andares abobadados, assomei por uns momentos ao varandim de pedra, suspenso em volta da Torre; e finalmente emergi mais acima, no mirante ameado, aberto sobre o mundo! Em baixo, vê-se a cidade compacta cingida ao lombo e aos flancos do seu monte; para além, para todos os lados, é o imenso Alentejo. Estava quase todo verde, naquele dia de março, até ao círculo do horizonte. A brisa zunia nas arestas de pedra, apenas para acentuar o silêncio!” – página 317

Nós não somos quem pensamos ser – Albert Clayton Gaulden

“Muitas seitas e líderes espirituais usam táticas de controlo para tornarem os seguidores dependentes. É perigoso e manipulador para um organização, ou para um líder, controlar a vida de outra pessoa, dizer-lhe como rezar e aquilo em que acreditar e roubar-lhe a liberdade de cometer erros pelo caminho” – página 21

“Quando bebias, incitei-te a seguires a via mais dura de regresso a Deus. O alcoolismo permitiu-te que quebrasses uma vida que não estava a funcionar contigo. Os passos que deverias dar depois de estares sóbrio haviam de te conduzir à verdadeira pessoa que nasceste para ser. O ego sugeria que mudasses das bebidas fortes para o vinho, ou que precisavas de umas férias. O ego nunca mencionou o nome de Deus. Deus e o perdão são anátemas para o ego.”  – página 41

“Mas tenho tido a maior das dificuldades em saber quem é Deus e o que espera Ele de mim. Tenho tido as mesmas dificuldades com Deus que o resto da humanidade, porque O procuramos da mesma forma: tentamos descobrir que Deus é em vez de permitirmos que Ele se revele.” – páginas 73,74

O monge urbano – Pedram Shojai

“(…) Alimentamo-nos das pessoas com quem convivemos, dos livros que lemos, dos espetáculos que vemos e dos ambientes que frequentamos. Tudo faz parte de uma inteligência universal que nos ajuda a sentirmo-nos ligados a vibrantes de vida. Tudo está vivo e imbuído de consciência.” – página 75

Reiki: A energia que restaura o equilíbrio humano – Irene Soares

“Quando não cuidamos de nós, sobretudo quando não aceitamos as dificuldades da vida e não vivemos de acordo com a nossa consciência, a nossa vitalidade vai enfraquecendo.

Tornamo-nos pessimistas e guardamos as memórias negativas do passado com mágoa, ressentimento e revolta.

Reagimos a elas com raiva e ódio, sentimo-nos vítimas do mundo e deixamos que a culpa e o medo nos destruam.

Desta forma, começam a formar-se bloqueios no nosso campo energético, que impedem o fluir normal e natural da Energia Vital.” – página 25

“(…) Efetivamente, só nos é possível influenciar o rumo da nossa vida no «aqui e agora», pois o passado já não existe e o futuro será o resultado do presente.” – página 75