Diário de um professor desempregado

diario de um professor desempregadoQuarta-feira, 21 de Agosto

Não consigo mais ter paz.

Aproxima-se o fim do mês. Com ele vem o dia de S.Receber, vem também o fim do contrato, o início do desemprego, o medo da verdade.

Já passei a barreira dos quarenta (o ano passado!) e não saber se vou ter dinheiro para pagar a renda em Setembro, se quer se vou ter subsídio depois da passagem pelo Centro de Emprego, a espera lenta e tortuosa pela colocação, sabe-se lá onde e sabe-se lá quando, sabe-se lá que disciplina e que ano letivo, não me deixam ter paz.

Quinta-feira, 22 de Agosto

Tenho que tratar do carro antes de ter trabalho. O que resta do meu carro não é bem um carro; é uma pilha de nervos! É mais um meio de transporte para poder ir trabalhar. O que vale é que as professoras contratadas, algumas delas, também casam, uma delas pelo menos, é a minha sorte! O mecânico é casado com uma colega (e amiga) e faz-me um preço camarada (muito camarada) por trocar a correia da distribuição, o rolamento e mais não-sei-o-quê. Deixei lá a viatura.

Sexta-feira, 23 de Agosto

Dia de São Receber!

Um quarto do ordenado ficou no mecânico. Custo de mão-de-obra: zero! Nem sei como é que se paga um favor destes.

Ainda cheguei a tempo de fazer o almoço para a minha quase-esposa.

De tarde visitei o Multibanco. Paguei a CaboVisão, cuja data limite de pagamento expirou ontem e, por mais que os mais velhos digam que no tempo deles, não era preciso nada disso e que se tem de poupar, a verdade é que para me manter competitivo tenho que ter estas modernices: carro, Internet, telemóvel (essa fatura já estava em atraso à mais de duas semanas!) e casa. Sim, renda de casa. Não posso ir morar para a casa da mamã, lá na aldeia, porque lá não há trabalho, não podemos ir morar para a casa dos sogros (ou quase-sogros) porque lá não há espaço. Isto é engraçado! Reli as minhas palavras e problemas destes são próprios de um rapazinho de vinte anitos, não de um homem com mais de quarenta.

Sábado, 24 de Agosto

Faltam dois dias para acabar a medicação para a tensão. Faltam mais de quinze para a consulta. Tenho de ir ao serviço complementar de saúde, fazer uma consulta para continuar com a medicação até ter consulta.

O Centro de Saúde parece uma escola: outsourcing para contratar um segurança, tal como na escola; outsourcing para contratar médicos, essa ‘tá boa, eu também já trabalhei para uma empresa contratada pela escola para me pagar os extras que eu fazia no agrupamento onde já trabalhava, os contratos externo de médicas são ainda mais espantosos: como não há médico de família para os utentes desse posto médico, eu incluído, o centro de saúde contrata uma empresa que disponibiliza um médico, temporariamente, para acompanhar os utentes que não tem médico. E depois querem que este país não abra falência! Que coisa mais estúpida. À minha frente estava uma senhora com um puto que frequenta o 3ºciclo, passou do 7º para o 8º, comentava ela com a emigrante ilegal que estava ao lado: “Ele teve seis negativas no primeiro período, mas depois dei-lhe os medicamentos que a médica mandou e ele passou de ano.” – parei a minha leitura, fiquei de olhos baixos mas muito atento à conversa – “É que eu tenho medo que ele para o ano chumbe! Então venho já à médica!” – e eu às vezes preocupo-me com a minha competência…

Eu digo emigrante ilegal porque a conheço pessoalmente. O que eu não sabia, nem sequer lhe pergunto se será verdade, é que ela se dedique ao comércio ilegal de medicamentos, é que a sacada que ela trouxe da farmácia, só pode ser para comercializar!

Em relação ao médico que me atendeu e passou nova recita para controlar a tensão arterial bom, digo eu que sou professor e habituado a muita coisa, que ele não tenha respondido ao meu “Boa tarde, Sr. Dr.”, ou que tenha respondido com “Então diz lá?”, ainda vá que não vá, mas como era o último utente da tarde, e ainda a tarde ia a meio, até pensei que o homem perdão: que o Sr. Doutor me medisse a tensão. Mas não. Falsas esperanças. Realmente o que se poderia esperar de um médico que deixou o diploma junto com o do Major Valentão, lá em terras de África, depois do 25 de Abril?

Kit AlemãoDomingo, 25 de Agosto

Ir à praia! Agora quer ir à praia!

A minha quase-esposa hoje está de folga. Então quer ir à praia. Ora ir à praia são 35km x 2. amanhã, que ela também está de folga, é dia de ir à secretaria da escola buscar o papel para o desemprego; o certificado da ação de formação de Julho; o resultado da avaliação de desempenho e a contagem do tempo de serviço, ora sempre são… ir e vir, 170km! Chega muito bem como passeio! Podemos aproveitar e juntar o útil ao agradável. Optamos por ficar em casa e enturmar os gatos. São quatro. O mais velho, o Banzé, já vive comigo à mais anos do que a minha quase-esposa, foi encontrado por ela debaixo do carro. Este gato foi a primeira resposta ao meu convite para vir morar comigo. “Queres companhia? Tens aqui um gato.” Se não foram estas as palavras, foi mais ou menos assim que me respondeu. A Princesa é uma gata que a minha quase-esposa alimentou durante mais de meia década à porta do trabalho dela, juntamente com uma colónia, até ao dia em que foi brutalmente atropelado, ainda hoje coxeia (a gata!) O Markus e a Ariel apareceram-me à frente do carro no mês passado. Ora eu não ia passar com uma tonelada de metal por cima dos bichos, não é? Seria também a minha morte, a minha quase-esposa encarregar-se-ia de ficar viúva antes do casamento. Era de noite e cada um deles cabia-me na palma da mão e ainda sobrava a ponta dos dedos. É óbvio que foram abandonados ali no meio do pomar! Como? Gatos selvagens fogem dos humanos! Ainda por cima recém nascidos fogem ao menos ruído. O que é que nós andávamos a fazer nas estradas secundárias rurais junto aos pomares numa noite de verão? Ora, também é óbvio: passamos parte da noite num hotel com muitas estrelas.

Já os divulgamos na Internet para adopção mas é muito difícil ter sucesso nessa demanda, então se os abandonaram, vão agora adoptá-los? E nós em consciência, se os recolhemos da rua, do abandono, temos, é nossa obrigação, assumir as responsabilidades inerentes a esse acto. Quer isto dizer que os gatitos vinham cheios de pulgas e existe o perigo de contágio aos gatos cá de casa; quer isto dizer que vêem doentes, despesa no veterinário; quer isto dizer que a falta do leite materno é sinónimo de umas primeiras semanas de risco; quer isto dizer que um gajo não consegue estar descansado meia hora a ver televisão! Ora passa um gatito pela cabeça ou outro sobe pela perna acima, (o gatito não tem consciência da diferença entre calças e calções, ora ao subir pela minha perna, não espeta as unhazitas na ganga) ou então porque um dos mais velhos começa lá a assoprar por todo o lado, à briga para tentar estabelecer uma hierarquia naquilo tudo! Enfim, acabou por ser um domingo diferente.

Segunda-feira, 26 de Agosto

Isto custa sempre. Custa sempre abandonar a escola. Por todas as escolas por onde passei, no momento da partida, só vêem à memória as coisas boas e as lágrimas caem pelo rosto. Sim, sou um homem com mais de 40 anos, pensei que já estivesse vacinado, mas isto custa sempre. Os sorrisos das crianças, os abraços, vê-las crescer… independentemente daquele que me riscaram o carro, que me atiraram pedras, que me roubaram, os momentos mais felizes são os que vêem à memória na hora da partida. Trabalhar com crianças é uma alegria. É esta a resposta à minha quase-esposa à pergunta porque é que eu tremia tanto quando estava na secretária.

Terça-feira, 27 de Agosto

Estou um bocado farto disto.

Mais uma pessoa daquelas que não sabe o que perguntar e que pergunta “Então quando é que vocês têm filhos?” e depois a argumentação é sempre a mesma, mostrando completa ignorância em relação ao que quer que seja que eu diga, continuando a usar as mesmas frases de sempre que toda a gente menos informada da condição de ser pai usa: “Tudo se cria!” e eu tento responder que, tal como a minha chefe me ensinou, e aí parece que a coisa começa a sortir algum efeito, pois, deve ser por causa de eu referir a minha chefe, parece que me dão alguma atenção quando digo “tudo se cria bem e tudo se cria mal”, quando continuo a dizer que a minha experiência pessoal enquanto professor… sou logo interrompido pela história de não-sei-quêm que fez não-sei-o-quê e tal… Não pretendo ser mal educado, mas as pessoas não querem saber de mim, ou do que eu digo absolutamente para nada, estão apenas interessadas em expressar a sua opinião em relação à minha pessoa e à minha vida, não como ela na realidade é, mas sim como eles sugerem que deveria ser enquanto vou a tempo, chiça!

Ao chegar ao computador revivi um momento muito curioso que se passou lá na escola, acho que até já referi isso no facebook: “Estava a beber um cafezinho no intervalo das aulas e, verdade seja dita é um dos melhores cafés do país! Pelo menos dos locais que conheço, e  conversa puxa conversa e conversava com a colega do lado que chegou esta semana e já está a completar a volta a Portugal. Por isso é que nós, professores, conhecemos tão bem a nossa gastronomia. Eu do centro, a colega com quem conversava do norte e a que se juntou à conversa, do interior. Não sei se já lá vai o tempo em que se falava de restaurantes pelo país fora, nós os três, que num instante passamos a quatro, limitámo-nos a falar de café. De quatro para meia dúzia foi o restinho do instante e enquanto o diabo esfrega um olho, dois dedos de conversa, chegámos a nove mais um, nove mulheres e eu, que fui rapidamente coadjuvado por um professor de matemática e outro e EV(eT). Veio mesmo a calhar para ele fazer ali as contas, não é que nós não saibamos, mas a malta da matemática tem destas coisas: dá-lhes para fazer contas! E, neste grupo, tal como dizia o outro na canção “muito mais é o que nos une, que aquilo que nos separa”, somos todos contratados e a média das idades é de 40 anos. O que me leva a escrever é que nenhum destes doze, destas nove mulheres e três homens, têm filhos. Todos pela mesma razão. Não, não somos só nós, há mais contratados nestas e noutras escolas que também encaixam no perfil, não estavam era ali naquele momento. As colegas de Educação Física por exemplo, estavam lá longe à chuva. Senti-me normal, numa condição precária, a mendigar emprego, à rasquinha com dinheiro insuficiente para poder ir trabalhar, de consciência tranquila em relação ao que está ao meu alcance para fazer e não fiquei feliz por não ser o único.”

O mecânico que tem dois filhos, é casado com uma professora contratada e, todos os contratados e contratadas que eu conheço e que tenham filhos, um dos cônjuges está profissionalmente estável. (e não é professor!)

Estou um bocado farto disto.


image03510Quarta-feira, 28 de Agosto

O que é que eu hei de fazer para não ficar a pensar no desemprego, na falta de dinheiro, na incerteza que o futuro me reserva, nas avarias mecânicas enfim: nas dificuldade da vida? Já sei! Vou ver televisão! Afinal de contas pagamos uma pipa de massa para ter aqueles canais todos, mais vale que veja alguns. Hoje é dia AXN. A série Castle é… como é que hei de dizer… a gaja é bonita, não acredito que alguém consiga correr de saltos altos de pistola em punho; o escritor é um ideal para qualquer um que escreve em blogues, tudo perfeito: humilde, simpático, podre de rico, muito influente portanto um personagem demasiado ficcional, digamos que esta série é uma primeira abordagem à ficção a sério, está quase a beijar a completa ilusão, tudo perfeito, tudo certinho e tudo muito bonito. O Mentalista é uma série que não percebo, estou ali a seguir atentamente a linha de raciocínio quando ela não existe, o final é uma surpresa qualquer que o personagem principal já tinha descoberto logo no início do episódio e mais ninguém tinha topado coisa nenhuma, além de que até tinham sido seguido umas pistas que induzem a investigação a passar ao lado do alvo. Mentes criminosas: espectáculo! O perfil do criminoso vai sendo elaborado ao longo do episódio, pelo somar de consequências é construído o personagem que comporta em si as causas que levam ao crime, quando nos é dado a conhecer o personagem em busca, torna-se o corolário lógico de todo um raciocínio já justificado durante o crescente desenrolar da história. CSI? Tudo perfeito. Tecnologia de ponta, o cabedal das gajas e dos gajos, a roupa, os carros, a rapidez de respostas, até o clima. Aquilo não é uma série televisiva, é uma utopia. The Mob doctor, não vejo. Perseguição? Gosto da roupa, tem pinta, calças de ganga simples, casacos de linhas direitas simples e botas de pele simples, sem adornos. Investigação Criminal, é mais uma série à americana, aquele espírito militar, aquela entre ajuda e honra entre eles que apenas serve para colorir a morte dos mais pequenos influenciados pela treta do american dream, para irem morrem longe numa guerra qualquer que não é deles. Há também o Alvo Humano mas como já vi a primeira série, não se justifica ver segunda vez. Gostei da Brigada Anti-Vício, falavam de temas que mais ninguém parecia ser capaz, era como se fosse, era e ainda é: tabu! Ninguém ousa falar de crimes sexuais. Mas o mais espectacular é o facto de falarem em flamengo, muito fixe! The Big Bang Theory pfuuu… valha-me Deus, existe quem invista dinheiro naquilo?

Quinta-feira, 29 de Agosto

Ora bem, mais um dia de férias.

Para não ser mais do mesmo senão farta… então, para variar hoje é dia FOX. É que isto das séries é bom, são assim episódios curtinhos, se um gajo adormecer, não se perde grande coisa, não se perde o fio à meada, a continuação de uns episódios para os outros é muito pouca e na hipótese de até ter sido um episódio fixe, pode sempre ver-se a repetição.

Em relação à opção, não há assim grande opção, ou é “The Bridge” ou então “Segurança Nacional”, de resto… não há assim mais nada que valha a pena. The bridge ‘tá fixe, mostra ali uma realidade que ninguém quer ver. Afinal as pessoas não são perfeitas, os pobres existem e a corrupção domina. A Segurança Nacional também está espetacular porque ninguém ousa acreditar na verdade pois não é nada conveniente que a realidade seja de acordo com o que um par de agentes pressupõe que seja a verdade, então é melhor despedi-los. Depois aqui começa a ficar interessante, cada vez que é necessário alguém competente, recorre-se a quem se despediu por conveniência, a tal pessoa que sabe a verdade. É novamente uma série de grande tráfico de um influências, onde se desmarcara que os poderosos são cruéis, muito cruéis. Mesmo escondidos atrás de um fato e de uma gravata. Não sei como é que ainda não proibiram esta série.

De resto, o que é que eu hei de escrever no diário para a posteridade? Tudo o que toda a gente já sabe? Que os professores contratados não têm uma vida de sonho, que há professores pobres que não passam férias no Algarve, nem em lado nenhum? Ora isso não é novidade, não vale a pena registar.

Sexta-feira, 30 de Agosto

Página da DGRHE, da DGAE, o raio que parta, ver o verbete, ansiedade, concursos, resultados dos concursos, alguma informação que seja, qualquer coisa de palpável, mas não, é tudo abstracto e a única coisa concreta é a ansiedade e incerteza portanto escrever o comum num diário, não traria nada de… de curioso a uma eventual leitura mas, o que me disseram hoje na pêra, isso sim deu-me alento! Um dos ucranianos que anda lá comigo na “apanha da pêra” perguntou-me se eu ia trabalhar no domingo. Eu respondi-lhe a verdade, que não, domingo iria fazer um peditório para um dos supermercados das grandes superfícies. Parou, olhou para mim, eu parei também, e fui inquirido: – O que é que ganhas com isso?

Nada. – foi a minha resposta. E foi também o pouquinho de motivação que faltava, eu ainda não tinha carregado tanto a bateria como pensava. Fiquei feliz, contente comigo mesmo por poder ir pedir para ajudar a matar a fome àqueles sessenta animais que as pessoas abandonaram, e eles, coitados, não têm culpa nenhuma.

Pois é, não é preciso ser-se nenhum Sherlock para ver que a bota não bate com a perdigota. A dificuldade é assumir a realidade e desde terça-feira que o ciclo se repete, lá ando eu a colher fruta, pois o futuro é tão incerto e as finanças são tão certas, que o melhor é seguir o exemplo da formiga. O meu diário é o reflexo daquilo que eu gostaria que tivessem sido estes dias.

image02434Sábado, 31 de Agosto

Gozo um bocado com um brasileiro que anda lá a apanhar peras connosco, digo que ele parece português, eis a razão: trabalha durante as férias; ao fim de um dia de torreira ao sol ainda vai ao local de trabalho fazer umas coisas que o patrão pediu e, tal como a cereja em cima do bolo a firma decretou lay-off! Estávamos nós a falar de dinheiro, o caso é muito simples embora para quem está de fora possa não parecer: recebo o ordenado e o subsídio no final do mês de Agosto, o vencimento serve para sobreviver no mês de Setembro; faço a requisição de prestações de subsídio de desemprego e, se esse dinheiro vier no final de Setembro, muito bem, governo-me com ele, se não, recorro ao subsídio de férias; quando for colocado, se for colocado antes do meio do mês, o que nunca me aconteceu, a secretaria da nova escola, ainda me paga no mês corrente, o normal tem sido só receber no final do segundo mês de trabalho; entretanto até lá, para equilibrar o barco, chega o subsídio último à frente; dou baixa, ou melhor já tenho que ter dado baixa do subsídio de desemprego e normalmente isto nunca funciona e eles continuam-me a pagar mesmo já estando eu colocado. Ao ser colocado longe, isso implica transporte ou residência temporária, tendo o ordenado sido sempre à conta até à penúltima semana do mês, para fazer face a estas despesas, existe o dinheiro das peras. Estas contas resolvem-se no final do ano civil: a segurança social pede para devolver o que me pagou a mais e, pela altura do natal, já estou com os ponteiros acertados, já recebo o ordenado certinho e o que recebi a mais de desemprego existe para ser devolvido. Tem sido todos os anos assim. Exceto o ano passado. O ano passado, com o aproximar da crise, aproveitei em Agosto para mudar para uma renda de casa mais barata, não fui às peras, não houve subsídio junto com o ordenado, o de desemprego não chegou a vir porque, felizmente e graças Deus, fui colocado em Setembro e… – Como é que você se desenrascou? – eu acho que ele está a ficar mesmo português, já emprega termos como “desenrasca”! Somos amigos há mais de uma década e ele sabe da minha situação financeira tal como eu sei da dele. O curioso é que ele chegou cá como mão-de-obra não qualificada e hoje, graças a Deus e fruto dos dois trabalhos que manteve, consegue pagar casa própria, eu? Só me consigo lembrar do Astérix e daquela malta toda, devo ter sido dos últimos portugueses a ter recorrido ao crédito.

Domingo, 1 de Setembro

Este país é uma anedota. Hoje é dia de peditório. Não foi só hoje, aquilo está organizado para o fim-de-semana todo. Uma escala de voluntários e domingo à tarde toca-me a mim e à minha quase-esposa. Primeiramente é feito o pedido, esclarecendo quem somos, ao que vamos e o que pretendemos, à direção da grande superfície em questão. Eles concordam ou não, aceitam ou não. Já fiz muita coisa desta, mas para cães é a primeira vez. Isto promete porque vou ter que argumentar com as pessoas! Quando fiz para o Banco Alimentar, foi relativamente fácil, pois este é sobejamente conhecido, quando fiz para a Cruz vermelhar Portuguesa, a coisa também foi fácil, o difícil é aguentar as lágrimas! Só por… curiosidade: uma vez, estava com um amigo, esse ainda mais pobre do que eu e com um passado ligado à miséria, não à pobreza mas à miséria, quando se aproxima de nós um senhor com três filhos e um carrinho cheio de compras e… : “Estão a ver filhotes? Foram estes senhores (Cruz Vermelha) que me ajudaram quando eu precisei, agora a nossa vez de contribuir para ele ajudarem outros que precisem”. – Eu ainda estiquei a mão para cumprimentar o senhor, o Carlos fez uma festa na cabeça da menina e, quando eles deixaram lá o carrinho cheio e foram embora, nós os dois fizemos uma pausa para ir chorar um bocadinho sem ser à frente daquela gente toda. Ainda não estava bem recomposto, eis senão quando surgem três russos, três russo gigantes, com prendas embrulhadas e a tentarem, no pouco português que conseguiam “Este para menina até 10 anos”… foi uma sensação, melhor: foram sensações inolvidáveis! Os russos tinham saudades dos filhos. Como é a primeira vez com cães a coisa promete, pois tenho me conseguir comportar à altura para poder ajudar os animais e não para ajuizar os humanos. Não vai ser fácil. Não vai ser fácil, porque nem sequer chegou a ser. Os gajos da grande superfície, isto parece mentira, os gajos da grande superfície onde foi feito o peditório, não pediram reforço de alimentação para cães e gatos. O stock foi esgotado no sábado de manhã. O camião com o reforço só chega segunda-feira.

Segunda-feira, 2 de Setembro

Gente, gente, gente e muita gente. Toda a gente com pressa e a reclamar com a falta de rapidez do serviço, parece o Centro de Saúde, mas não é, é o Centro de Emprego!

A minha quase-esposa como estava de folga aproveitou, foi comigo e sempre deu um passeio pela baixa da cidade. Eu, como de costume, levo o meu livrinho e fico lá tranquilo à espera, afinal quem precisa de subsídio sou eu, não adianta de nada ter pressa. O problema é que no meio de tanto barulho, não dá para um gajo se concentrar minimamente a ler, é mais fácil no metro!

Encontramos uma ucraniana nossa amiga, fomos vizinhos aqui na santa terrinha e, confesso que a conversa com ela me deixou inquieto. Está preocupada com o futuro dos filhos, o mais velho a chegar à universidade, o mais novo a começar a escola e eles não sabem para onde ir, onde acabar de criar os filhos, qual o país que apresenta algumas condições para que eles possam ter esperança que os filhos tenham um futuro um bocadinho melhor que o deles. O que se está aqui a passar – disse ela – eu já vi acontecer na Ucrânia! Primeiro acabou o sistema de saúde, depois a escola veio por aí abaixo… – interrompi questionando, ainda que inocentemente mas com esperança – Então e a justiça? – Ah isso!? Nunca houve! – foi a resposta pronta na ponta da língua. O que está aqui a acontecer em Portugal, eu já vi acontecer na Ucrânia! – e aquelas palavras fizeram eco na minha cabeça. Continuamos conversando e eles, na última década já passaram pela Espanha, que está uma vergonha, pior do que aqui, embora tenha sido muito bom no início, já passaram pela Alemanha, que também pifou, agora o marido está a trabalhar na Suiça, onde o mais velho está a passar férias, ela na porta do Centro de Emprego em Portugal e não sabem o que fazer à vida. Estão a ficar portugueses.

Se na viagem ao para lá notei um ruído estranho, ao para cá, como chegamos de carro de rali, dissiparam-se ao dúvidas: o escape rompeu.

Terça-feira, 3 de Setembro

A conversa de manhã no pomar andou à roda da política. Alguém descobriu que os autarcas ao fim de 12 anos de serviço público recebem uma indemnização para voltar à vida civil e aquilo foi um corrupio de soluções para matar a fome em África, que até os russos voltaram a ser uma grande força económica, os são apenas meia dúzia de gatos pingados que vão levar no cornos quando cá chegarem e, basicamente, porque isto é apenas um diário e não uma reportagem ou estudo sociológico, pode resumir-se assim: os mais velhos acham que se deve dar oportunidade aos comunistas; a juventude, pelo menos aquela por ali empoleirada, não vota, não querem saber dessa escumalha para nada, deviam era proibir os gajos de ser assim e, por mais extraordinário que possa parecer, um deles estudante universitário até é contra os subsídios dos funcionários públicos! Não vale a pena enervar-me com a ignorância dos outros. É engraçado, e dizer “engraçado” é ridicularizar a situação, como é que gente que não vota, têm tanta opinião inútil, mas pronto, cada um é como cada qual…

Voltando ao que é realmente importante, ao que é mais importante, já saíram os resultados dos concursos da mobilidade interna. Na escola onde dei aulas, onde vivi, onde fiz finalmente amigos, porque todas as outras até aqui, nunca deu tempo de estar lá tempo suficiente para esse tipo de relacionamento, nessa escola… foram colocados apenas quatro professores… ocupando os três grupos para os quais eu poderia concorrer. Isto custa, é uma tristeza muito profunda. Sente-se de dá de dentro. Pode ser que amanhã passe…

image00316Quarta-feira, 4 de Setembro

Enquanto que os profs nas escolas e nas suas casas preparam o ano letivo eu… preparo-me para ir apanhar peras.

Quinta-feira, 5 de Setembro

Choveu. Até aqui nada de mais, chuva é uma coisa boa. Excepto quando se vai para baixo de uma árvore apanhar os frutos! Como se não bastasse a molha que se apanha debaixo da árvore, o chão fica todo enlameado. O que por sua vez também não é assim grande problema quando se olha para ele mas, o caso muda de figura quando meio quilo de terra, não é fica, é vêem agarrado aos pés. Isto de manhã! O pomar da tarde era de árvore velhas com a copa muito larga, torna-se muito difícil trabalhar. Subir e descer, subir e descer… foi um dia cansativo. Estou estafado.

Nem de propósito! À hora de jantar telefonou-me uma amiga com quem trabalhei estes últimos anos. É que durante o dia questionaram-me como é que era a conversa dos professores, aquando do regresso à escola sobretudo qual a minha reação ao tema férias. Contei-lhes a verdade, que algumas comentam onde é que foram passar as férias, outras interrompem daqui ou dali, contando momentos, ou nem sequer poderei chamar-lhe interrupção, é apenas participar na conversa. Quando chega a minha vez, faz-se silêncio. Passei as férias a trabalhar o pronto. Confesso que não gosto muito quando a malta diz que é bom, sempre estou entretido a fazer qualquer coisa. É que trabalhar na agricultura, no pico do verão, depois de ter dado aulas um ano letivo inteiro e, no momento que antecede o desemprego, não é propriamente um entretenimento. Parafraseando o Sr. Zé que tem um sentido de humor extraordinário: “Eu gosto tanto disto, que até venho todos os dias sem vontade!”.  O tema do telefonema foi mesmo esse: “Então essas férias?” e como se não magoasse, sei muito bem que a intenção é a melhor, ainda falta o “Já cá estamos todas, sentimos a tua falta.”

Sexta-feira, 6 de Setembro

Os ranchos nas peras até são engraçados:

  • A malta nova não leva nada a sério, que os pais se queiram enganar quando dizem que é uma experiência que faz bem, para verem o que custa ganhar a vida, a verdade é que estão apenas a enganar-se a eles próprios, porque aquela malta nova não encara aquilo como trabalho, ou função, ou tarefa, ou ainda outra treta qualquer. A verdade é que estão apenas interessados em rir, estabelecer contatos uns com os outros, mandar mensagens e, tal como na escola, estudar que é bom, nada!
  • Os mais velhos, todos têm reforma; todos têm casa paga e todos se queixam que isto está mau. São os melhores para se trabalhar. Ritmo certo, disposição alegre, às vezes rabugenta mas isso já é o vinho a falar, mas sempre dispostos a mandar e aceitar uma piada.
  • Os do meio tentam chegar à malta nova, quando se apercebem que têm de trabalhar por e para eles… fogem para junto dos mais velhos. É tarde, já as equipas estão funcionais e os mais velhos enjeitam.
  • No meio dos do meio temos ainda uma subclasse de licenciados. Nota-se perfeitamente que estão ali fora da zona de conforto.

Sábado, 7 de Setembro

Não se nota a diferença entre este dia e os outros. Trabalhar, muito calor, almoçar debaixo de uma árvore no meio da terra, trabalhar, muito calor, chegar a casa ligar o computador, duche e ver os sites do Ministério da Educação, consultar os blogues da especialidade, espreitar o Facebook dos amigos professores sempre com a esperança vã de… uma notícia qualquer que me favoreça.

Sábado à noite? Dormir, estou estafado.

mercedes ouro 1Domingo, 8 de Setembro

Não sei se hei de escrever a realidade ou a ilusão. A ilusão é como eu gostaria que tivesse sido, a realidade é como foi. Se bem que temos que viver na realidade, um pouquinho de ilusão não faz mal nenhum, ou pelo menos sonhar um pouquinho, sempre é a melhor forma de motivação que vou encontrando: sonhar, iludir-me que isto um dia será melhor.

Então vá, fomos à praia! “Com esta juventude, estamos entregues aos bichos!” é o que se diz por aí. Alhos e bugalhos, falta de respeito e comportamentos de quem está completamente sozinho na praia. Verdade seja dita, a esta geração ainda falta muito para saírem da juventude, agora já se apregoa e bem, que a nova vaga de juventude vai até aos vinte e cinco anos. Se calhar ainda empurraria a fasquia um pouquinho mais para cima, se calhar. “Tudo está perdido…” Mas não! Diria eu, a solução está nas “Bolas de Berlin”! Sim, bolas de berlin, com creme e sem creme e até pão com chouriço. E mais ainda: “Pão com chouriço light!” – foi o pregão mais fixe que ouvi os escuteiros que por ali andam. Andam? Não, aquilo dá trabalho. Enquanto que os pais daquela malta que está por ali… com comportamentos repreensíveis, podem estar, ou fingir que estão preocupados com os filhos, outros há que não. Sabem que eles andam na praia a trabalhar. Comentava isto com o casal que nos foi lá tentar salvar o resto do almoço. Enquanto nós fomos beber cafezinho, duas cadelas abandonadas tomaram de assalto o nosso resto de frango assado e, muito surpreendido ficou o casal, quando fui ao carro buscar ração, enquanto a minha quase-esposa lhes dava a nossa água para beber. Mas voltando à conversa acerca da juventude: estava eu a ficar tranquilo quando o meu interlocutor remata com: “Os pais estão descansados porque sabem onde andam os filhos, assim já podem eles fumar a sua ganzazinha em paz!”. Pois parece mentira! Até na praia estou a pensar como um professor! Preocupado com os filhos dos outros…

Segunda-feira, 9 de Setembro

Andava à procura dos papéis do desemprego para ir ao médico quando encontrei a carta fechada da Segurança Social. A minha quase-esposa deve tê-la retirado do correio e pô-la ali para que eu visse. O meu pedido foi diferido, tenho direito a subsídio de desemprego. Ainda bem que vou ao médico, pois até me sinto doente. Números redondos assim de cabeça e com os valores em bruto, recebo metade. Mais subtrair os 6% anunciados pela televisão e acresce ainda que ao fim de 181 dias o valor será cortado em 10% (vou fazer o mesmo quando começar a trabalhar, ao fim de seis meses pago menos 10% de impostos).

No posto médico mostrei aquelas papeladas todas do desemprego mas (cá está o tal do mas) como não tinha nenhuma a dizer “Declaração para os devidos efeitos”, tive que pagar, obviamente, a consulta. Fui num instante ao Multibanco, (eh! eh! eh! o Word reconhece automaticamente a palavra Multibanco com letra maiúscula!!! Vá-se lá saber porquê?!) ficou lá ¼ do ordenado mínimo e ainda vamos a 9.

Terça-feira, 10 de Setembro

Arranjar o escape e o dinheiro outra vez, esperar que o gajo me deixe ficar a dever. Mesmo que não queira, esta é uma preocupação constante. Isto das finanças funciona assim: quando for colocado não sei quando nem onde, e agora repete-se o círculo no meu cérebro, mesmo não querendo ter estas preocupações, não consigo evitar, como é que eu faço para ir até, ir e voltar; na eventualidade de ser muito longe, terei que pernoitar e ficar lá, se, e escrevo se mas não é coisa que nunca tenha acontecido, ser colocado antes da secretaria da escola e esta já ter fechado as contas para esse mês, recebo no final, se não, que foi como aconteceu nas outras vezes todas, recebo apenas no final do mês seguinte. Ora como é… como é evidente, sim, é uma evidência, salta à frente dos olhos! Um quarto de ordenado mínimo não chega para isso tudo. Nos outros anos esta é a altura em que o subsídio chega à frente. Ora como já o ano passado não houve dinheiro, embora o direito a ele esteja consagrado na lei, embora o tribunal constitucional de fachada tenha dito que sim, que tenho esse direito, embora este ano não, e esse foi o ano passado, no ano passado safei-me com recurso ao crédito que, como é óbvio, cá está outra vez a evidência, se o dinheiro foi sempre à conta, ainda não está pago, este ano tenho pedido a Deus nas minhas orações matinais, e agora mais recentemente nas da hora do almoço e inclusive à noitinha, ajuda. Pois não sei mesmo como é que os governantes querem ter professores à disposição nestas condições. Na televisão o ministro da educação (curioso: a máquina escreve Multibanco com letra maiúscula automaticamente e ministro não) já vêm apregoando que não há dinheiro para as escolas públicas mas que se pode atribuir subsídio às privadas. Não era disto que eu estava à espera, não estava à espera de ter um par de cursos superiores, de ter habilitação para leccionar desde o primeiro ano escolar até ao décimo segundo e andar aqui nesta tristeza depois dos quarenta anos, desta não estava à espera. A vida é mais fácil quando se tem emprego. Isto está mau, mas a verdade é que já esteve pior. Quando eu era criança, em cima da mesa da cozinha, tínhamos apenas uma jarra de flores frescas e agora tenho um cesto com pão e outro com fruta.

Quarta-feira, 11 de Setembro

Horários a concurso com 7, 6, 5, 4, 3 e 2 horas (não há com 1) de trabalho por semana. Eis a verdade, publique-se! O ministro da educação pode apregoar aos sete ventos que existem horários para preencher, deveria era contar a verdade toda, que quem trabalha apenas 7 horas por dia não se safa, quanto mais 7 horas por mês, deveriam ter vergonha!

Quinta-feira, 12 de Setembro

Privatizam a saúde, privatizam o ensino, já para não falar na justiça, pois essa já não existe há muito tempo, ‘tá certo, ainda há uns quantos muito ricos que tem dinheiro para pagar isso tudo. Mas, esses muito ricos que existem, têm, todos, atrás da grande fortuna, um grande crime. Não há, dessa gente rica que consegue suportar um hospital privado, uma escola privada, não digo um tribunal privado porque isso está fora de moda há décadas continuando, não há quem seja honesto. Todos eles, todos eles fogem aos impostos e lucram de forma ilegal. Esta gente, esta escumalha que está a comer os pobres, que está a devorar o Estado Social, quando tiver tudo comidinho, vai alimentar-se de outro prato típico, diria… pescadinha de rabo na boca.

vibradorSexta-feira, 13 de Setembro

Há uma grande decalage entre a realidade e a percepção que as pessoas têm dela. Seja de roda das peras ou de outra tarefa qualquer, constata-se um grande alheamento da população em geral para com o seu dever cívico. Somos um povo habituado a pedir “os nossos direitos”, limitando-nos a esperar que alguém faça alguma coisa, seja lá o que for, para que isto passe, seja lá o que quer que seja que “isto” quer dizer. Desresponsabilizando-se assim das suas responsabilidade enquanto ser social.

Há muito conformismo e aquela história de aguardar pelo D. Sebastião, na qual ninguém assume a realidade, ou seja que testemunhou a morte do Rei, que não foi capaz de dar a vida para salvar o El-Rey, que não fez nada, apenas assistiu, ou, se calhar mais real ainda, até fez alguma coisa, até combateu e mesmo assim o rei morreu, serve como desculpa para a inércia.

Convém relembrar que o homem se organizou social e voluntariamente. Aquele que diz que vive bem sozinho é o primeiro a acusar-se de ignorância, pois ao dizê-lo, di-lo a alguém.

Vou explicar melhor a coisa para que não reste dúvidas, para que não me restem dúvidas, para que eu fique descansado em como me percebi: todos aqueles que não querem saber disto para nada, já, de uma forma ou de outra beneficiaram das coisas do Estado, dos bens e serviços públicos, daquilo que é pago com dinheiro dos impostos.

Terça-feira, 12 de Novembro

Não. Tenho que voltar ao diário. Tenho que voltar a deixar registos para a posteridade. “Quando tudo o resto falha, siga as instruções”. E as instruções, se bem me lembro eram: registar para a posteridade o que me vai acontecendo pois tenho a esperança que não se volte a repetir. Assim sendo, desta forma, registado fica um momento histórico do que em tempos idos, me aconteceu. Quer dizer, isto está um bocado complicado, assim será: “um registo histórico”, quando chegar o futuro. Não sei se me explico?

Hoje fui almoçar fora. Também mereço. É uma espécie de um prémio que me atribuo semanalmente apenas porque sim. Uma espécie de um luxo. Já que estou aqui por estas bandas de Belém, mesmo ao lado do palácio, do centro histórico das nossas memórias gloriosas enquanto povo, tenho, quero aproveitar para desfrutar um pouco disto tudo. E também verdade seja dita que por mais 70 cêntimos que o preço da senha de almoço na escola, posso ir almoçar fora. Mais nada. A outra verdade é que só compro a senha de almoço de vez em quando, p’rái uma vez a cada quinze dias, três semanas, das outras vezes também almoço, como é óbvio, só que carrego o almoço às costas. Como aliás sempre fiz desde os meus tempos de juventude. Não sei lá por que carga de água é que isso agora é notícia. Se calhar é preciso fazer notícias? Para os mais despercebidos, a notícia deveria ser o oposto, tipo: “Portugueses queixam-se que ganham mal, mas vão almoçar fora” – e isto seria o lead. Depois no desenvolvimento seria fácil de explicar matematicamente a repercussão dessa despesa a longo prazo. Mas explicar apenas matematicamente… porque explicar às pessoas que almoçar fora todos os dias é um encargo financeiro que muitas não podem suportar, apenas o fazem por questões de status… lá está! Não seria novidade digna de registo para a posteridade. Seria apenas uma simples e ordinária, comum diria mesmo, constatação de que os portugueses vivem acima das suas possibilidades. Sim, é possível! Existe uma coisa chamada crédito. É como a educação dos filhos: primeiro deixa-se tudo, tudo é permitido; depois proíbe-se e por fim… correr tudo mal e ninguém quer perceber porquê, ou finge que não percebe ou, e agora a verdade, prefere a mentira a assumir a sua responsabilidade no falhanço. Não obstante, fui almoçar fora! Passei as últimas três horas a tentar ajudar, colaborar, resolver os problemas da minha direcção de turma, depois de duas horas de aulas, duas horas de viagem em transportes públicos, esquivando-me ou melhor recorrendo aos transportes alternativos por causa da greve, mas isso não é novidade, e além do mais, quinta-feira há mais, portanto tudo decorre sem ser digno de registo para a posteridade até que… fiquei sentado em frente ao noticiário. Que é como quem diz: em frente à televisão. Uma da tarde. Prime time ou outra treta qualquer para cobrar a publicidade mais cara ou seja lá o que for porque toda a gente está a ver. E é aí que reside o problema. Agora que já reflecti, pois entre escrever no computador e o momento da ocorrência, passaram algumas horas, o problema está mesmo “na gente”. Então não é que a notícia de abertura foi sobre futebol! Um jogo que ainda não aconteceu. Sete minutos! Sete minutos. Uns longos sete minutos nos quais passou uma… uma notícia! Com direito a reportagem em direto da Suécia, sim da Suécia! O repórter entrevistou, repito: deu em direto uma notícia na qual o jornalista entrevista uma senhora que vende num quiosque de rua. Aquilo deve ser gente muito bem informada – é lá malta dos prémios Nobel. Acerca da sua opinião, sim o repórter questionava a senhora acerca da opinião dela sobre o jogo de futebol que irá acontecer mais logo à noite – não sei se a noite lá se a noite cá, desde que seja à hora a que as pessoas já tenham saído do trabalho para poder ir ver o jogo, ‘tá tudo bem! – a senhora encolheu os ombros e riu-se. Foi o que eu consegui perceber da entrevista em inglês. Como se não bastasse, pois obviamente que não bastou, se não, não teria entrevistado mais gente, eis que entrou no café a seguir ao quiosque e questionou o proprietário – penso que seja o dono pois estava atrás do balcão a limpar copos. Não tinha mais nada para fazer, estava lá apenas um cliente. O que o barman opinou também não sei, mas que ele ficou de copo na mão, a fazer um brinde para a televisão, lá isso ficou.

biquiniSexta-feira, 13 de Setembro (versão b)

Fui colocado! Fui colocado! Fui colocado! Fui colocado! Fui colocado! Fui colocado! Fui colocado! Fui colocado! Fui colocado! Fui colocado! Fui colocado! Fui colocado! Fui colocado! Fui colocado! Fui colocado! Fui colocado! Mas… f***-**! Foi de cá um susto! Já no final do dia, depois das peras, depois do duche, quando a minha quase-esposa chegou a casa, andava eu de roda das listas. Nada. E nada quer mesmo dizer zero. Desapareci. C’um c******!

Busca automática nas listas não funciona. Não funciona? Mas que raio de m**** é esta? Se não for a busca automática, como é que eu me safo? Fiz download das listas de colocação do grupo 220, busca automática, nada. Zero. Não estou colocado. Novo download das lista de colocados do grupo 110, assim já dá para fazer busca automática, népia, não fui colocado. Agora é a vez do grupo 550, download – já nem sei se hei de escrever download ou fazer copy paste – busca automática do meu apelido, népia, nada, nestum com figos, nadinha. Bom, não fui colocado, pensei legitimamente. Deixa cá, já agora, consultar em que lugar é que estou na lista de graduação, será que ainda falta muita gente até chegar a minha vez? Download da lista de não colocados no grupo 220, não estou. Não estou? Então que raio de coisa? Valha-me Deus! O que é que me aconteceu desta vez? Onde é que fui parar? Que merda é esta? Não há nada que não me aconteça? F***-**! Tirei da prateleira o dossier com a prova impressa de que concorri. Que pânico. Download da lista dos não colocados no grupo 110. Busca automática. Nada. Até estou nervoso agora, um par de meses depois do sucedido, é que aquilo é um sofrimento f*****! Então não estou nem nas listas de colocados, nem nas de não colocados, mas o que é isto? Falta verificar na do 550. Download. Busca pelo apelido. Nada. Sexta-feira, final do dia, quem é que me pode ajudar? Fim de semana ‘tá tudo fechado. Vou ter um ataque cardíaco até lá! … tenho que fazer aqui uma pausa…

Eu já pedia de lágrimas nos olhos a que Deus me valesse. Só quem passa por estas situações é que sabe o que elas custam.

Ouvem-se chaves e a porta a bater. Chegou a minha quase-esposa e encontrou-me neste estado. Expliquei conforme pude o que se estava a passar. Ajudou-me prontamente. Ligou o computador dela e repetimos ambos os mesmos procedimentos. A presença dela acalmou-me um pouco. Seguiram-se uns momentos de silêncio até que: “Ó Zé! Ó Zé! Ó Zé! Anda cá! Anda cá! ‘Tás aqui!”

Fui colocado pelo 550 e eu não tinha visto. Antes assim. É uma substituição temporária. É só um mês. Mas pronto. É uma colocação.

Eu acho que “mas pronto” é uma não frase.

Segunda-feira, 25 de Novembro

“Just another day at the Office” ou então “just another day at school” ainda poderia ser “just another manic Monday” mas, bem vistas as coisas foi apenas um dia c’mózoutros, uma normal segunda-feira de escola. “Deitar cedo e cedo erguer” é de doidos! Mas é segunda-feira e a semana espreita logo às cinco e um quarto. Um frio do caraças, geada com fartura, transportes e mais transportes, hoje até nem houve greve nenhuma e, escola. Sete tempos. Quatro de manhã. Abrir a mochila e tirar o almoço. Eu já nem sei se aquilo é uma mochila “da escola”, ou um restaurante portátil! Três tempos de tarde e, porque tinha programado uma reunião com uma encarregada de educação com um problema grave para resolver, muito grave, daqueles que não vou escrever no diário – e muito menos na Internet, a privacidade das pessoas é para respeitar – resolvi telefonar a meia tarde para confirmar. Telefonei para um atendedor de chamadas. Resto da aula. Fim das aulas cinco da tarde. Fui p’ró facebook. Cinco e meia, fui pr’ó blogue. Seis, atulizei informação sobre a manifestação de quarta-feira. Seis e meia comecei a desesperar porque da escola até à minha casa, ainda são duas horas de caminho e, do fim da tarde em diante, os expressos já não partem com a mesma frequência! Sete horas “Vou-me embora!” – pensei. E fui. Cheguei a casa eram vinte p’rás dez. O despertador toca às cinco e um quarto.

(Repararam no detalhe? Em inglês os dias da semana ainda se escrevem com letra maiúscula.)

5Segunda-feira, 18 de Novembro

Hoje cheguei a casa – eh… é claro que é “hoje”, se isto é um diário! “Cheguei a casa”, aah… então? Havia de ter sido na rua? Não obstante, siga: quando cheguei a casa, o jantar estava pronto, fixe! – Assim disse que cheguei à hora de jantar, que não estava sozinho e transmiti alegria. Então é mesmo isso que eu quero! – Fomos jantar para a sala, a minha querida quase- esposa tinha gravado o noticiário e queria que eu visse determinada notícia. – quer dizer, agora que escrevo isto até que não devia estar assim tão contente como isso, pois chegar à hora de jantar e para ver o noticiário das oito, teve que ser gravado, é porque não era assim tão cedo como isso para um gajo que tenta acordar às cinco e um quarto da manhã! Mas o entusiasmo era tanto… que nem liguei para tal coisa.

Então a notícia consistia numa reportagem mesmo, precisamente, tal e qual, nos e dos locais que passei a frequentar. Era mesmo a propósito dos transportes que apanho. Os mesmos locais, as mesmas paragens, o mesmo número de elétrico – que para mim é novidade, é a primeira vez que vou de elétrico para o trabalho – que são roubados.

Mas aquilo é só luxo: até os carteiristas são internacionais! Como se já não bastassem os ladrões da casa, ainda vêm os de fora roubar a gente. Se bem que os de fora só roubam estrangeiros, não me parece que nenhum português que frequente aquela linha carregue consigo – e carregar é a expressão – 300 ou 400€. Claro que também os há que carreguem tais quantias, não andam é naquelas linhas de elétrico, usam carro de luxo para se deslocar. Não obstante, alternativa é andar de autocarro. Pois a reportagem também mostrou aqueles a que recorro. Vejo agora que como alternativa à greve de metro, também são roubados os percursos que frequento. Para a história, não apenas para o meu diário, fica a pena a que o juiz condenou um dos carteiristas portugueses: “Não pode roubar – roubar não, furtar – Não pode furtar mais pessoas no 15. Fica proibido.” Agora o gajo rouba no 36. Para a história fica também o gajo da Troika que foi roubado no 28. Espetacular! Eu não uso o 28. E vou já avisando os ladrões que me queiram roubar: eu dou-vos todo o dinheiro que tenho de bom grado! Não me cortem o bolso das calças para ficar com uma mão cheia de moedas! A carteira e o “passe” fazem-me muita falta! No sítio das notas apenas podem ser encontrados recibos do Multibanco!

Domingo, 1 de dezembro

“Nem sempre, nem nunca”, gosto deste slogan! Sobretudo por ser uma das expressões da minha quase-esposa. Ela tem razão! Assim, com esta desculpa disfarçada de argumento, a gente lá vai curtindo. Ora, fomos almoçar fora. Como é domingo, passei a semana inteira, como é costume, portanto como é perfeitamente normal e por conseguinte não digno de registo para a posteridade, a almoçar na sala de aula. Não sou caso único, não é significativo, é normal. Portanto (não reclamem, ainda não comecei a estudar p’rá prova portanto ainda posso ir repetindo os elementos de ligação frásica…) lá fomos nós ao restaurante mais baratinho que conhecemos: o shopping. Na viagem de ida começaram as novidades: as putas. Eu ainda sou do tempo em que as putas paravam de trabalhar depois do fim do turno das quatro. Noutros tempos, enquanto aguardava colocações, ia trabalhando nas fábricas. A economia já há muito tempo que descobriu o “outsourcing” e as empresas que disso tiram proveito, tanto as de trabalho temporário como as de suposto trabalho permanente, recorrem a malta, que como eu que não querem um vínculo profissional porque aguardam algo melhor, para explorarem. Então é assim: uma empresa precisa que alguém faça o trabalho mas não quer contratar trabalhadores porque isso dá trabalho e despesa, então paga menos por hora a uma empresa que faça isso por eles, do que pagaria se tivesse que contratar trabalhadores. A empresa contratada por sua vez, vai usufruir do dinheiro para alimentar uns quantos e pagar ainda menos por hora ao trabalhador temporário, eu! O que me convém ser temporário porque posso ser colocado a qualquer momento. É melhor do que trabalhar a recibos verdes pois assim eles procuram trabalho por mim. Bom, e nessa altura, na estrada nacional nº1, as putas deixavam de trabalhar por volta das quatro da tarde, que era quando se verificava a mudança dos turnos e por conseguinte o movimento de trânsito com potenciais clientes diminuía e não se justificava estar ali a atacar. Pois isso era dantes… hoje, domingo, dia 1, dezembro, hora de almoço, estão lá duas! Tal não é a crise! Ficamos curiosos: quem é que será que vai às putas ao domingo à hora de almoço?

Já no shopping a minha quase-esposa comentou pelo fato de estarmos em extinção. Pensei que se referisse ao caso dos outros casais presentes terem filhos… mas não, queria mesmo dizer que éramos os únicos portugueses. Não gostei. Eu ando há não sei quanto tempo a apregoar que somos europeus e tal, até publico uns artigos no blogue a falar da Europa, mas nada. Ela insistiu. Eu acho que isso é agarrar-se a uma coisa do passado e quando nos agarramos ao passado ele puxa-nos para baixo. “Olha à tua volta, ó seu cabeça de atum!” – e eu olhei. Ela nunca me tinha chamado cabeça de atum! – os clientes à minha direita eram africanos, dois homens já entrados na idade que parecia que estavam completamente sós no restaurante, quer pelo volume, quer pela linguagem; à minha esquerda um casal de brasileiros com um bebé e uma criança pequena; na mesa atrás da Sofia, também um casal com dois filhos, mas russos, ou lá perto; o resto? Mesas vazias. Dos empregados – que agora se diz colaboradores – nenhum era português e eu quase que ia jurar que andava por lá uma chinesa. Portanto, e agora é que é mesmo para concluir, não sei lá por que carga de água é que malta reclama um feriado que apregoa ao vento do passado, um dia de independência dos espanhóis? Mas esta malta ainda pensa que nós somos uma nação independente, um estado livre? Mas que raio de gente tão mal informada. Então mas quem é que manda no país? Somos nós os Portugueses ou são os de fora? Então desde quando é que nós mandamos na nossa casa quando temos de pedir dinheiro aos outros para sobreviver? E desde quando é que um Estado-Nação pode pedir esmola a um banco europeu sem os donos dos bancos privados comerem a parte deles, darem a autorização e considerar-se independente? A lei não permite. Não há cá empréstimo a país nenhum sem a autorização dos privados. Portanto querem comemorar o quê? Querem feriado porquê? Quais portugueses? É que olhando à minha volta, já há alguns anos a esta parte, que eu sei que sou/somos europeus. Uma das putas nem portuguesa é! (nós conhece-mo-la de vista, é nossa vizinha. Simpática, por acaso).

Terça-feira, 19 de novembro

O jornal. Até o jornal me guardaram. Já bastava o noticiário de ontem gravado, hoje também temos mais do mesmo: o noticiário das oito está outra vez gravado e, até o gajo do café deu o jornal à minha quase-esposa, para que me o possa mostrar, isto começa bem, ou melhor: isto acaba mal. Já trocava o começar pelo acabar ainda não tinha visto o teor das notícias, pois não foi difícil de adivinhar, se é para que eu veja, tem a ver com a minha escola! Claro que num jornal sensacionalista a coisa não poderia ser boa, e não era.

Diapositivo34Quinta-feira, 5 de dezembro

Hoje foi dia de matar saudades dos amigos, dos colegas de trabalho e até mesmo dos amigos e colegas dos tempos de universidade. Existem três formas possíveis de ligação contratual dos professores à escola. Já apaguei várias vezes o que acabei de escrever pois ainda temos os avençados, os técnicos mas para explicar o meu intuito serve: os professores do Quadro Escola; os professores dos Quadro de Zona Pedagógica que consiste num espaço delimitado geograficamente que comporta em si vários agrupamentos escolares e, os outros: os contratados. Só podem subir na carreira e por conseguinte no ordenado os professores com vínculo ao Estado, isto é: os de QE e os de QZP, nós contratados não somos tidos nem achados nisto pois não somos professores, não ingressamos na carreira. Esperamos quatro anos pelo concurso que abria vagas para o QZP, o tal Quadro de Zona Pedagógica, caso entrássemos para aí, ficaríamos com um vínculo ao Estado e pronto, bem-bom. Concorrermos 47 000, quarenta e sete mil, desses quarenta e sete mil, 47 000 entraram 3. Sim, três professores. Agora, com as informações vindas a público acerca do número de professores inscritos para a prova de conhecimentos e competências para se poder concorrer para o ano que vêm à vaga de contratado, a tal que pode ser, será certamente de horário incompleto, estão inscritos quase 40 000, quase quarenta mil, eu sei que estou a repetir os números, pois constatei, informação não oficial, apenas minha que 7 000, sete mil professores contratados, empregados ou não, já desaparecerem das listas, dos números de professores precários. E assim se vai reduzindo este número nas estatísticas para futura manipulação das mesmas a favor do governo pela sua atuação em prol da eliminação da escola pública. Curiosa e infelizmente que desde sempre, desde sempre talvez seja um bocado exagerada, sendo realista é apenas desde os tempos da escola secundária que constato que o maior entrave à educação, não é a falta de estudo dos alunos mas o Ministério de Educação. Agora, há um par de décadas a esta parte, sinto que tenho de me defender, enquanto professor, do Ministério de Educação. É isto que infelizmente quero deixar registado para a posteridade no meu diário, que sinto que tenho que me defender do Ministério de Educação. É um efeito perverso, pervertido que tem esse Ministério. Era suposto colaborar para formar gratuitamente a geração do futuro, tal facto só já existe nos livros de história.

Depois da manifestação tive mesmo que ir beber um cafezinho com um daqueles amigos que moram cá no coração. Teve mesmo que ser. Eu bebo muito café, ele bebe o dobro! Fomos ao café na estação do Campo Grande, de onde partem expressos para o resto do mundo e, agora vou voltar à prova de avaliação de competências e de desempenho de docente, “são dois cafezinhos, se faz favor!” e responde-me de lá o “colaborador” dois pontos travessão, isto é só para fazer um compasso de espera: – Você já foi professor de um filho de um amigo meu!

Quarta-feira, 20 de novembro

Hoje até tivemos reunião para esclarecer o que é que se passa por aí nos noticiários. Ninguém chegou a conclusão nenhuma, pois todos nós já sabemos a diferença entre opinião pública e opinião publicada, sensacionalismo, fazer receita, apresentar resultados e lucros e a verdade. É que nós somos professores. Somos os tais que ensinam jornalismo. O que é verdade é que a pedra depois de atirada, não volta atrás; a oportunidade depois de desperdiçada, também não volta atrás e, a palavra após ter sido dita também não! Essa é que é essa.

Quinta-feira, 12 de Dezembro

Comecei a achar estranho que todos os indicadores do tempo de espera para que chegue o autocarro descessem, menos o meu! Eu estava à espera do elétrico, todos iam baixando uns minutinhos, excepto o que eu queria, que já se mantinha nos 11 minutos pela menos há 10! Resolvi ir por um percurso alternativo. Já sentado quase ao fundo do autocarro, respondo a uma senhor com uma pergunta: “Isso das Janelas Verdes fica ali perto do Museu de Arte Antiga, não é?” é que ele perguntou-me se este deva para apanhar o número não-sei-quantos que passa não sei onde. Eu lembrei-me de ter visto tal número junto ao museu. Falei que apenas conhecia a cidade por pontos de referência e ele foi devolvendo a conversa com as exposições que tinha estado patentes no museu. Conversa puxa conversa e o senhor tinha sido funcionário público e agora, lamentava-se ele, tiraram-lhe tudo, “esses ladrões”! Era assim que se referia aos políticos. Vai almoçar a uma de duas cantinas sociais para funcionários públicos reformados que a autarquia disponibiliza. Primeiro roubam-nos as reformas depois dão-nos esmola – era mais ou menos assim que o senhor apregoava. A viagem corria (corria é um bocado exagerado, continuava…) sobre rodas e solavancos, sinais vermelhos e paragens eis senão quando o senhor começa a culpar os chineses que tinham acabado de entrar no autocarro. Até fiquei parvo! Um grupo de cinco jovens japoneses ficaram junto a nós. Dois dos que conseguiram lugar sentado, não ficaram lá por muito tempo. Foi a primeira vez, a primeira vez que eu vi acontecer, não que tenha acontecido, os turistas cederem o lugar aos seniores. O homem – tenho que o despromover de senhor – insistia que se não fossem estes escravos nós não estávamos assim. Fez-me uma explicação dos tempos áureos de Lisboa consoante íamos passando nos locais onde outrora se fizeram grandes negócios. Eu bem que tentei insinuar que muita gente terá feito fortuna à custa dessas trocas alfandegárias mas ele fez que não percebeu e continuou a enaltecer os grandes. Entretanto, como lhe expliquei o percurso que iria fazer por pontos de referência: em frente à Assembleia da Republica; depois Rato onde apanho o Metro, o homenzinho resolveu acompanhar-me porque por lá também havia uma cantina que não era tão boa como a outra mas ele estava a gostar da companhia. Tem um gostar estranho, este testemunho vivo do passado, pois fartou-se de excomungar os chineses. Quer dizer, ele não parecia que se tinha fartado daquilo, eu é que já estava farto. O homenzinho saiu na mesma paragens que eu, a minha sorte foi que ele se levantou com grande antecedência, o que eu quero registar para a posteridade é a forma abrutalhada como ele pedia licença aos que apelidou de chineses batendo-lhe no ombro vociferando: “Vá, vá! Xó! Deixem passar o rei!”.

Apanhei o metro e já sentado no expresso de volta para casa quando reparo no passageiro que tentava pagar com desconto de cartão-jovem. O rapaz era bastante alto, mais alto do que eu uma cabeça, com um bigodito e uma barba muito mal semeada, qual D. Juan da Suécia ou lá de outro daqueles países escandinavos, o cabelo não era loiro, era quase transparente, liso e apanhado num longo rabo de cavalo, olhos azuis dizemos nós por cá, eram tão clarinhos que quase pareciam cinzentos. Fiquei surpreendido, confesso que fiquei mesmo surpreendido quando passei a ouvir atentamente a explicação do jovem, perante a insistência do condutor do autocarro em ver o cartão jovem, que aquele que ele tinha era o cartão Erasmus internacional que equivale ao português, então não é que o chavaleco falava brasileiro! Um par de passageiros se seguiu e entrou um jovem turista tão parecido com o grupo de japoneses do episódio anterior que parecia deslocado deles, pediu, num sotaque muito carregado, um bilhete para Óbidos, em português.

Estranho resto de país este onde vivemos…

O velhote insultava os turistas que vieram do outro lado do mundo para gastar cá o dinheiro; o velhote que viva no passado e se glorificava por coisas que não fez, quem vive na miséria é ele e não quem ele pensa que vive; o condutor do autocarro insistia em demonstrar a sua ignorância perante um estudante do outro lado do mundo, que veio cá para a nossa terra estudar, formar-se e eu, bem eu acho, não acho nada! Tenho a certeza que ainda somos demasiado conservadores para percebermos que somos europeus.

hotel-atalntis-dubai-5Terça-feira, 17 de dezembro

O tempo passa. E passa rápido. Lembro-me de aqui há uma meia dúzia de anos atrás, e meia dúzia são seis, não uma década, quando eu ia desta vila para a outra, para apanhar o expresso que me leva a Lisboa, ver passar o peixeiro e o padeiro. Infelizmente o peixeiro partiu cedo, prematuramente, já não está entre nós. O padeiro para enfrentar a crise teve de se adaptar às circunstâncias de mercado – e assim é que é – agora acorda ainda mais cedo, porque os clientes estão mais longe, via as luzes dos carros deles em sentido oposto e as luzes de duas terrinhas. Era só. Uma que atravessava, e ainda atravesso e outra ao lado. Hoje não, às seis e cinco da manhã, mais coisa menos coisa, quando começo a descer, até parece natal, está tudo iluminado! Dois, três quilómetros depois de ir sozinho, há uma descida, onde normalmente me cruzava com o peixeiro e o padeiro, onde a paisagem que se avista está toda iluminada. Dei por mim a pensar “que prósperos que estão os habitantes das outras terrinhas. Ainda ontem estavam às escuras, hoje está tudo iluminado! Em apenas meia dúzia de anos é extraordinário que isto evoluiu!” Não se vê viv’alma, só mesmo eu, mas está tudo iluminado. Ora isso só quer dizer que a sociedade é próspera! Certo? Eu conheço os pomares, as vinhas, os eucaliptais e os romenos ilegais que trabalham nesta paisagem durante o dia e, o negócio só pode ser muito próspero para toda a gente se dar a este luxo. Até parece aqueles prédios em Lisboa com luzes a “alumiar” as paredes exteriores dos edifícios. Não é preciso fazer nenhum estudo ilumino técnico para perceber que essa iluminação para a parede serve para evitar os assaltos! Não vá lá alguém vestir-se de Pai Natal e subir ali pelas paredes, não é?! Mas eu nem queria escrever nada disto! Até muito pelo contrário, tenho pensado bastante no sábado passado e é um momento que eu não quereria registar para a posteridade como algo raro! Muito pelo contrário: deve ser espetacular um quotidiano assim! Acordei sem despertador… maravilha, sete e quatro da manhã; saí da cama sem acordar a minha quase-esposa, liguei o computador para começar a trabalhar ainda de pijama vestido – é que ‘tá frio! – e quando dei por ela, eram oito da manhã, tinha passado quase uma hora no facebook. Pus o café a fazer, daquele de saco, com filtro… tomei um duche; fui à praça ao pão caseiro, quentinho, acabado de cozer pela D.Antónia; passei pelo peixeiro que trás peixe fresco de Peniche – alguém substitui o outro, é sempre assim, rei morto, rei posto – ainda com as guelras bem vermelhinhas e, cheguei a casa tinha percorrido p’rá aí… uns… cinquenta metros para cada lado, a pé. Pãozinho caseiro quentinho com manteiga derretida, café acabado de fazer, quase-esposa com carinha de sono… hummm. E ainda não eram nove da manhã. Que luxo. É melhor pensar assim e ficar-me por aqui. Porque se volto ao assunto anterior… entramos no mundo da ficção! Os produtores de pêra, que têm o mundo como cliente, todos os anos se queixam e pedem subsídio; as mulheres que trabalham na fruteira, trabalham durante meia dúzia de meses, estão a outra meia à espera que o ano passe; a malta do vinho diz que não ganham para a despesa, diz que aumentaram o preço do vinho por causa dos impostos; os produtores de eucalipto deveriam ser acusados de crime ecológico, ou algo parecido; aquela gente que escraviza os romenos – cinco euros por dia é trabalho de escravo – deviam trocar de lugar com eles; o peixeiro e a senhora do pão deviam declarar os lucros às finanças e… e ainda bem que estamos no mundo da ficção e da utopia. Se não ainda poderíamos ficar a pensar erroneamente, diga-se de passagem, que estamos numa sociedade próspera. Aliás, basta perguntar a qualquer turista que por aqui passe.

Quinta, 21 de novembro

O meu carro não pega. Isso é facto assumido, tenho que fazer conta com isso, sei que durante a noite não irá haver milagre nenhum a nível mecânico portanto o melhor que tenho a fazer é acordar cinco minutinhos mais cedo para poder lidar com os imprevistos, em vez de acordar às cinco e um quarto, acordo mais cedo. Esta preocupação fez com que ficasse… como hei de dizer… meio apressado: só quando estava a atacar as botas é que vi que tinha as cuecas em cima do teclado! Realmente, quanto mais depressa mais devagar.

Hoje é dia de greve, imagine-se? Quem diria? Há males que vêm por bem, nos percursos alternativos – ao metro – acabei por matar saudades, eu diria primeiramente que encontrei, mas com tantos sorrisos no rostos, meus e deles, ousaria mesmo dizer que acabei por matar saudades dos antigos alunos que fui encontrando nos vários autocarros que apanhei.

Isto custa mais do que o que parece, eu sei que o meu diário às vezes tem com cada episódio que até dá vontade de rir. Agora ao final do dia que estou a escrever isto ainda não sei como é que foi possível eu fechar o fecho das calças sem me ter apercebido que não tinha cuecas?! Valha-me Deus! E refletindo, o que me vem à cabeça, agora de noite, é que no momento não são as saudades dos alunos, é tudo o que fica para trás, formam muitos anos a vê-los crescer. Lembro-me quando dei aulas aos mais novos, trocava-lhes, de início, o nome com o das irmãs. É que eu cheguei ali, elas, estou-me a lembrar particularmente de duas irmãs – e agora mais duas – tinham dez anitos, agora (agora? Agora não Zé Pedro, no ano passado!) que estão no nono ano, são minhas alunas, chegam as irmãs, também minhas alunas, isto é… ver crescer os filhos dos outros, os nossos alunos. Depois ao vê-los por ali nos autocarros… é uma felicidade muito grande. Os boxers estavam em cima do teclado porque, como é óbvio, eu não me visto no quarto, a minha quase-esposa não me fez assim nada de grave que mereça que eu a acorde àquelas horas, então visto-me na sala e, em cima do teclado é um sítio onde os gatos não vão, tradução: não deixam lá pêlos. Não quero imaginar a comichão que seria durante o dia uma eventual comichão nos… na, na… pronto, provocada pelos pêlos dos gatos.

Na viagem de volta, um dos passageiros do expresso, um amigo que trabalha nas finanças, lá me explicou muito bem explicadinho, e convenceu-me que afinal a malta do metro e da carris ainda são o último reduto da luta contra a tirania do governo. Só não percebo porque é que sendo eles também um serviço público, não fazem greve? Não se juntam à luta dos gajos do metro?

Sábado, 7 de Dezembro

Hoje, como é sábado, vou por a conversa em dia com as minhas amigas. Já são alguns anos nestas andanças das escolas e as amizades vão sempre ficando. É bom mantê-las. Para isso nada melhor do que café, uma esplanada e, já agora, uns bolhinhos caseiros vêm a calhar. Se bem o pensei, melhor o fiz: liguei a máquina do café e pus o computador na varanda. Em relação aos bolinhos caseiros… a Sofia fez um tabuleiro deles ontem à noite.

image038Sexta-feira, 22 de Novembro

Bom, finalmente o carro avariou. Finalmente o carro avariou, não! Finalmente assumi que o carro avariou, o que é um bocado diferente. Pronto, tem que ser, se o carro avariou é preciso arranjá-lo. Afinal trata-se de uma ferramenta de trabalho. Sem carro, sem disponibilidade para mobilidade, não é possível ser-se professor. Que venha o mais pintado dizer o contrário, apenas demonstra que não sabe do que fala. ¼ do ordenado mínimo para a despesa. Se não tinha dinheiro para ir à manif, como é que vou ter para pagar ao mecânico? Até aqui nada de novo, nada significativo o suficiente para ser digno de registo para a posteridade. Até que… fui buscar o carro à oficina. Três gajos esperavam-me. Estavam curiosos em saber como é que eu fiz aquilo. Mais curioso fiquei eu, pois eles tiveram de me explicar o que é que eu andava a fazer de tão especial, que fosse assim digno de tal receção. Afinal não era eu, não fui o “especial”. Eu bem me queria parecer que “eu” não tinha feito, porque sei que não sei o suficiente para fazer seja lá o que for de “especial” com um carro, nada de… como é que hei de dizer? de extraordinário! Mas o carro fez. O meu carro andava a funcionar só com uma vela. O que é que isso quer dizer? Perguntei eu. É que os carros precisam de quatro velas para funcionar. O meu funcionava só com uma.

Sexta-feira, 6 de Dezembro

Finalmente cheguei a casa. Fim de semana. Não é preciso despertador. Sofá. Comando da televisão entre outras coisas boas. Entro, fecho a porta, sei lá, dois ou três passos, foi depois de pendurar o casaco, sinto o chão a colar. O chão a colar? O que é isto? Liguei a luz do corredor, não fica junto ao hall de entrada, e apercebi-me de conjuntos de pegadas pequeninas pelo corredor a fora. Estranho! Está tudo tão limpo, até parece que a Sofia esteve de folga, como que raio é que estão aqui tão marcadas pegadas de gato de forma tão incolor? Não percebi. Segui o rasto, estendiam-se pela casa toda. No quarto dos desarrumos, na cozinha, na sala… fiquei sem saber. Resolvi voltar à origem. Parei de costas para a porta da rua e inspecionei, qual série de AXN, as pegadas começavam na porta da despensa. Esta nem lembra ao diabo. A embalagem com os pacotes de leite tombada no chão, peguei-lhe e estava estranhamente leve. Os gatinhos bebés furaram os pacotes de leite. Lá estava a embalagem com seis pacotes, forrada com o plástico mas deitada de lado e quase todo o chão da despensa ligeiramente húmido, brilhava, só debaixo das prateleiras é que ainda sobrava um pouquinho de leite. Os quatro pacotes das pontas tinham muitos buraquinhos, com o diâmetro idêntico ao que eles fazem nas minhas calças. Quatro litros de leite divididos por dois gatos bebés e talvez meio ainda espalhado pelo chão…

Sexta-feira, 29 de novembro

Definitivamente mais uma digna de registo: a diferença entre homens e mulheres quando fazem xixi. Desde criança que ouço isso: “Qual é coisa, qual é ela que meia dúzia de homens podem fazer ao mesmo tempo e mulheres não?” e a resposta sempre foi: “Mijar para dentro de um penico”. Pois bem, eis outra, primeiro vou contextualizá-la: data do ano passado quando em conversa com uma colega se escangalhámos a rir ao apercebermo-nos das diferentes figuras que fazem homens e mulheres, é melhor generalizar para não ficarmos com a ideia de que sou só eu e ela que passamos por estas desventuras de… acender ou reacender a luz automática. Já me aconteceu ‘tar a fazer xixi e aquela coisa desligar. Basta abanar a cabeça e aquilo reacende. De acordo com uma – e salvaguardo apenas uma – opinião feminina, basta gesticular com as mãos. E porque é que eu me lembrei disto? Porque voltar a questionar a diferença de sexos quando estava novamente a usar o urinol e tentei tirar os macacos do nariz. É que com, pelo menos uma mão ocupada, é difícil chegar ao bolso de trás das calças, tirar o lenço de papel e… bom, enfim manter o fluxo certinho. As mulheres conseguem fazer isso tudo ao mesmo tempo!

Domingo, 3 novembro

Há sempre uma primeira vez para tudo. Eu já sei que uma coisa é a opinião publicada outra, é quem mora no convento é que sabe o que lá vai dentro. Mesmo assim resolvi ir pesquisar a minha escola na Internet. Ainda não sei se estou arrependido ou não, acho que não. É só violência. Até faz impressão. A verdade verdadinha, independente das sentenças que toda a gente dita, é que sendo magros ou gordos, pobres ou miseráveis, todos, mas mesmo todos tem direito à educação. Embora a sociedade não caminhe nesse sentido, no sentido de a educação, tal como a saúde, deixar de ser acessível a todos, a justiça já não existe há muito tempo, eu – e mais um punhado deles – ainda acho que esta gente só dá o que tem, não se pode exigir aos encarregados de educação que dêem o que não têm, e independentemente disso, os alunos devem ser formados o mais possível, até mesmo para o bem de todos nós! Se são mal educados é fruto, é a consequência de algo que foi semeado anteriormente, nada nasce do nada.

Se o público alvo é este, é com este que tenho de trabalhar e mais nada.

Quinta-feira, 9 de janeiro

Bem!!! Hoje aconteceu uma no elétrico! É daquelas à filme. Mas primeiro, primeiro o início: dia de greve no metro. E o que é que isso quer dizer? Quer dizer que o pessoal do expresso das sete vêm mais cedo, então eu que vou no das seis e vinte cinco, o primeiro do dia, se quero ter lugar, tenho que estar lá cedo, e estava, eram seis e cinco da manhã. E já não fui o primeiro. Nem o segundo. Ficaram três pessoas em terra. Em Lisboa tinha a opção de ir pelo lado norte ou atravessar a cidade no 736. Optei pelo ’36 porque tive boa companhia, somos assim de cor que eu me lembre que apanhamos o ’36 sete pessoas e a senhora com quem estava na conversa é uma excelente companhia porque é muito otimista! Transformamos a viagem num passeio matinal pela capital! Não esperámos nem cinco minutos. Chegados ao Cais do Sodré foi só apanhar o 15, que chegou em simultâneo connosco. Cheguei à escola era um quarto p’rás nove. Normalmente chego às oito, oito e cinco e já com cafezinho bebido no bar da esquina e um iogurte ou uma peça de fruta no bucho. Bem, vamos à viagem de volta. É que deu mesmo para ver quem era português! Ou pelo menos quem percebia português. Consoante a voz do condutor ecoava no altifalante do elétrico, algumas cabeças voltaram-se em sintonia perfeita, quais bonecos de matraquilhos, para a retaguarda do transporte. Talvez metade dos passageiros, digo metade porque eu estava na composição da frente, junto ao condutor. Eis o que ouvimos, convêm salvaguardar que o elétrico parou, nem paragem nem semáforo, o homem parou mesmo e exclamou (mas com uma calma impressionante): “Ao senhor passageiro com o braço de fora na porta da última carruagem, eu não me responsabilizo, se ficar sem ele.”.

Quinta-feira, 19 de Dezembro

Hoje fui à missa de natal no meu local de trabalho, foi a primeira vez, espetacular!

Dito de outra maneira: eu sou daqueles que gosta disto do diálogo ecuménico. Para mim é divertido e até mesmo enriquecedor, explicar e aprender detalhes de diferentes religiões: hindus; muçulmanos; ortodoxos; evangélicos; siikistas (que não sei como é que se escreve!); católicos e ainda é capaz de haver mais uma ou duas religiões que eu agora não me lembro. Já lá vão uns bons anos a dar aulas nesta mistura religiosa, explicando sempre o que é isso do Estado ser laico, tolerar e aceitar, impedir conflitos entre os alunos porque – eu não percebo! – do pouco que sei sobre as religiões dos meus alunos, exceptuando os indianos – e mesmo assim não todos – andam todos, se não a dizer mal uns dos outros, pelos menos andam sempre a implicar. Vejam lá que eu até tive uma colega de ciências, que dava ciências, é evangélica, discorda dos católicos, entra em conflito e não acredita naquilo que lecciona! Quanto mais os alunos…

Pois eu já estava quase a esquecer-me de por Deus em primeiro lugar… Achei a missa de Natal na minha escola uma lufada de ar fresco, ou melhor uma lufada de Fé fresca. Gostei muito do que ouvi, pedimos a Deus pelos colegas de trabalho, pelos alunos, pelos que não têm sucesso… fez-me muito bem.

Tinha uma reunião marcada para meia hora depois do início da missa. Pensei que desse tempo para assistir à um bocadinho e chegar ligeiramente atrasado, eu tinha uma esperança que os outros chegassem atrasados para me desculpar. A missa não havia maneira de começar, começou atrasada – missa numa escola a começar atrasada! – fiquei, fui ficando e decidi que iria assistir à cerimónia até ao fim. Quando cheguei à reunião estavam a começar a falar de mim, foi mesmo na mosca! Não pedi desculpa por chegar atrasado, pois fi-lo voluntariamente. Durante a missa resolvi reordenar prioridades e por as coisas de Deus à frente das coisas dos homens portanto pedir desculpas era estar a mentir, eu não estava arrependido, seria estar a ser falso com os meus colegas, comigo e com Deus e, um gesto desses iria contra o que tinha estado a acabar de fazer.

A cereja em cima do bolo são duas alunas minhas, é sempre assim os melhores exemplos vêm da juventude, uma é muçulmana outra católica, são as melhores amigas – e já passaram a casa dos vinte!

Ora aqui está um dia digno de registo para a posteridade.

oasis-of-the-seas-1Segunda-feira, 6 janeiro

Início do segundo período. Ano novo, vida nova. Fiquei a saber, por canais não oficiais, foi um dos colegas de trabalho que é amigo da colega que estou a substituir, que me informou quando chega a titular do lugar, quando se apresenta ao serviço. Tradução: fiquei a saber quando acaba o meu. Já nem me lembro que de quando é que foi a última vez que isto me aconteceu. Tenho tido o privilégio de ficar colocado até ao final no ano letivo. Verdade seja dita que não tenho saudades nenhumas dos tempos em que cheguei a ter três colocações num só ano. Bom… posto isto: tenho que começar a concorrer.

Sexta-feira, 17 de Janeiro

Bom, ano novo, vida nova e tal. Votos de ano novo, esperança e força que o futuro vai ser melhor. Eu já aprendi que não há nada mais definitivo do que as coisas provisórias e que, cá por terras de Portugal, quando se começa a falar de uma coisa, de uma simples hipótese académica pronto, já aconteceu. Por exemplo, quando vi na televisão os políticos a alvitrarem a hipótese de privatizar a água, considerem-na privatizada. Pode demorar. Pode. Mas já vai.

Eu, que até já estive envolvido num processo contra o ministério de educação (eu sei que não está em maiúsculas, fui eu que escrevi! Eles não merecem), nunca ousaria deixar um registo de tal aventura escrito seja lá onde for, muito menos na Internet, é que para quem ainda duvida, pois que continue na dúvida, é melhor assim, é mais fácil de ser feliz porque, quem acreditar na verdade não terá esse privilégio, é que a história da liberdade, não passa disso, algo que se diz que aconteceu na história. Os únicos que podem tentar ter opinião pessoal, parcial e subjectiva, são aqueles cujas finanças não dependem de Portugal, todos os outros estão limitados, por isso é que nunca escrevi nada disto mas, é o tal saber de experiência feito, quando o gajo que faz ministro vêm a público anunciar que quem tem cinco anos de serviço consecutivo, como professor contratado, na mesma escola, irá passar ao quadro, ou ter alguma espécie de vinculo com o Estado, que era o que eu almejava, todos os esforços que fiz, acordar todos os dias às cinco da manhã durante sete ou oito anos, não me lembro de cor, quando atingi a fasquia que me permitia entrar para o QZP, aguardei quatro anos pelo concurso, dos 47 mil entraram três e agora, justamente agora, vem aquele carapau de corrida anunciar que vai vincular professores contratados… é que dantes este concurso era anual! Vem este caramelo… eu já sei que quando “eles lá” começam a falar na coisa, mais negociação, menos negociação, mais cedo ou mais tarde a coisa acontece e, justamente depois de eu ter feito seis anos, anda mais nada menos do que seis anos consecutivos, seguidinhos na mesma escola, começam com esta conversa, agora, no ano em fui colocado noutra escola, por um período de… uma licença de maternidade. O desemprego bater-me-á à porta para a semana, justamente quando uma vinculação obrigatória pela Europa, que é para mostrar que quem manda é quem tem dinheiro, e não quem foi eleito, é que eu… ‘tou fora de jogo. Pffffu… bom ano novo Zé Pedro, bom ano novo.

Sexta-feira, 23 de Janeiro

Já recebemos menos. Nunca na minha vida de professor contratado tive um aumento. Os professores de carreira – era para escrever colegas, mas “dividir para conquistar” já vem lá do tempo do circo dos romanos – com o meu tempo de serviço, já tiveram um par deles. Sempre fui perdendo poder de compra. Formam feitos alguns cortes, aumentaram e bastante os descontos que agora já não sei como é que vai ser se for colocado muito longe de casa, acho que o dinheiro não chega.

E aqui ando, a perguntar ao Diretor como é que é a minha vida para a semana e ele a mandar-me para a secretaria, da secretaria para o diretor, do diretor para a secretaria, e aqui ando de um lado para o outro.

Foi bem escolhido o título, “Diário de um professor desempregado”.

Domingo, 26 de Janeiro

Já concorri a umas quantas vagas. Há um horário completo, para dar o que estou a dar, as mesmas disciplinas, os mesmos anos letivos, impecável.

Caso seja selecionado para ir à entrevista, tenho que fazer uma viagem ao Algarve. Ir e vir e andar lá de um lado para o outro a descobrir onde é que é Loulé. Ir de comboio? Então e depois lá, como é que dou com a escola? Ir de carro? E o carro aguentará a viagem?

Pois é, caso seja escolhido, onde é que vou alugar um quarto em tempo record? OK. Pagar dois meses de adianto, com os preços que se praticam no Algarve… Mais as viagens… é que com o último corte, já ganhamos menos de mil euros. E a vaga, a que está concurso, é só para trabalhar durante um mês.

Concorro, não concorro? Não concorrer não é questão. Um gajo que está à espera do desemprego não pode desperdiçar oportunidade de concorrer a um trabalho! O problema é que não tenho dinheiro para isso. Tão simples. O que é que eu faço?

image0661Segunda, 27 de Janeiro

Última da hora. Ainda não sei nada! Amanhã a minha colega apresenta-se ao serviço. E eu? Como é que é? Quanto tempo ainda fico? Um dia, dois? Os três que estão previstos na lei? Trabalho amanhã ou estou apenas presente? Como é que se faz a transição de uma direção de turma complicadíssima como a minha em tempo record? Quanto é que é o tempo record? Hoje tive sete tempos seguidos de aula, amanhã outros tantos, como é que é? Porque é que ninguém me diz nada?

Quarta, 28 de Janeiro

E assim como fui, vi: sozinho, de transportes públicos e sem nada.

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