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RASCUNHOS

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O Périplo de Baldassare – Amin Maalouf

Excelente. ’tá cá tudo. Romance; viagens; marinheiros; mercadores; aqui pelas nossas terras em volta do mediterrâneo; judeus; cristãos; islamitas; ateus; livros e mais livros; o fim do mundo, sim como nós o testemunhamos em 2000, ou teria sido 2012, já não me lembro muito bem; século XVII; diários de viagem; jovens e menos jovens; encontros e desencontros; ricos e pobres; vontade humana e vontade divina, tudo no mesmo livro ainda mais um bocadinho. Com “O Périplo – e o título faz-lhe justiça – de Baldassare” volto ao prazer de uma boa leitura.

Janízaros. Janízaros?! Desconheço mas são um par de personagens que aparece muitas vezes e toda a gente tem um medo deles que se pelam! Fiz uma pesquisa pela net, fui parar à wikipédia: “Os janízaros (do turco Yeniçeri, ou “Nova Força”) constituíram a elite do exército dos sultões otomano. A força, criada pelo sultão Murad I, era constituída de crianças cristãs capturadas em batalha, levadas como escravas e convertidas ao Islão. Seu código de conduta era rigoroso (…) Pena capital como instrumento de misericórdia (…) Os jovens cresciam tendo o próprio sultão como uma figura paterna, por quem estariam dispostos a defender até a morte mesmo contra seu próprio povo de origem. A justificativa para a adoção de um corpo de soldados convertidos em vez de turcos nativos era que os turcos deviam lealdade ao seu povo e às suas famílias, e poderiam tornar-se rebeldes em caso de uma ação do sultão contra outros turcos. Já os jovens cristãos só deviam lealdade ao sultão, e lutariam contra qualquer inimigo por ele. (…) Assim, tornou-se uma prática comum (…) capturar meninos nas cidades conquistadas e levá-los para os centros de treinamento turcos. (…) Eram inimigos temíveis, e isso, provavelmente, se devia ao fato de terem sido os primeiros a adotar as armas de fogo, antes mesmo da difusão destas.” – as coisas que se podem aprender lendo livros.

Mais uma engraçada, tirada do contexto: “(…) E quero acreditar que o Criador prefere, de todas as suas criaturas, justamente aquelas que souberam tornar-se livres. Um pai não fica satisfeito por ver os seus filhos saírem da infância para se tornarem homens, mesmo que as garras nascentes destes o arranhem um pouco? Porque é que Deus havia de ser um para menos benevolente?” – página 146

Esbarrei num parágrafo “zinho” que me desconcentrou da leitura e me fez enveredar por caminhos de reflexão: «Simplesmente, quando eu disse, durante a troca de impressões, que em minha opinião um dos mais belos preceitos do cristianismo era “Ama o teu próximo como a ti mesmo”, notei em Maimoun um ricto de hesitação. Como eu o encorajasse, em nome da nossa amizade, e também em nome das dúvidas comuns, a dizer-me o fundo do seu pensamento, ele confessou: – Essa recomendação parece, à primeira vista, irrepreensível, e de resto, ainda antes de ter sido tomada por Jesus, encontrava-se já, em termos semelhantes, no capítulo dezanove de Levítico, versículo dezoito. Contudo, ela suscita em mim certas reticências… – Que lhe censuras tu? – Ao ver aquilo que a maioria das pessoas fazem das suas vidas, ao ver o que elas fazem da sua inteligência não quero que me amem como a si mesmas. Eu queria responder-lhe, mas ele levantou a mão. – Espera, há outra coisa mais inquietante, em meu entender. Nunca se poderá impedir certas pessoas de interpretaram esse preceito com mais arrogância do que generosidade: o que é bom para ti é bom para os outros; se tu deténs a verdade, deves reconduzir as ovelhas tresmalhadas ao justo caminho, e por todos os meios… De onde os batismos forçados que os meus antepassados tiveram que sofrer em Toledo, outrora. Essa frase, tu vês, eu ouvi-a mais vezes na boca dos lobos do que nas das ovelhas, por isso desconfio dela, perdoa-me… – As tuas palavras surpreendem-me… Ainda não sei se diga que estás certo ou errado, preciso de reflectir… Sempre pensei que essa frase era a mais bela… – Se procuras a mais bela frase de todas as religiões, a mais bela que alguma vez saiu da boca de um homem, não é essa. É outra, mas foi igualmente Jesus que a pronunciou. Ele não foi buscá-la às escrituras, apenas escutou o seu coração. Qual? Eu estava à espera. Maimoun parou por momentos a sua montada para dar solenidade à citação: – Que aquele que nunca pecou atire a primeira pedra!” – páginas 75 e 76

A opinião do blogue “Rascunhos“.

Uma pedra contra o peito – Isabel Pereira Rosa

Uma pedra contra o peito. Só o título! «Uma pedra contra o peito» deixa antever, indica, sugere um problema no peito, certo? «Peito» como o sacrário da centelha divina, o coração sinónimo e reservatório de todos os sentimentos, e não uma pedrada no tórax! Com um calhau… Pois foi o que desvendou a leitura. Com um enlace atual que toca em várias feridas sociais abertas sem nunca as magoar, sugerindo uma atitude que as permite aceitar, para que evoluam do estatuto de «ferida» para «diferença». Não seria mais fácil se todos soubéssemos viver com a nossa singularidade, respeitando a dos outros?

Poesia q.b. não em «quantidades brutas» mas o suficiente para tornar a leitura mais harmoniosa. Uma leitura leve, que fiz lentamente aproveitando até o grafismo do livro, todos os espaços sem letras, convidaram a um momento de respiração. Não é necessário explicar o comprimento das unhas para descrever um passeio de mãos dadas. A velocidade e a qualidade que a Isabel Pereira Rosa permite na leitura, deu-me tempo para imaginar o prazer, o amor presente num simples passeio de mãos dadas, com quem amo, pela natureza, pela Serra da Neve porque não?

Pois, e calhoadas no peito, será poesia ou andaram mesmo por ai à pedrada uns aos outros? Sugiro a leitura.

Memórias de uma professora – Folhas soltasO tesouro da Serra de Montejunto

O Reino do Meio – José Rodrigues dos Santos

“(…) Que raio de loção contra os insetos seria aquela? Haveria mesmo loções contra insetos tão bem cheirosas? E, pensando bem, porque usaria essa loção apenas às sextas-feiras?

Só havia insetos às sextas?” – página 116. Um bocadinho de humor fica sempre bem. Não precisava era de ser tão poupadinho.

“(…) Como diz o velho ditado, um pouco de fragrância permanece na mão de quem a lança” – página 390. ’tá giro.

Este extraordinário trabalho é notoriamente uma aula de informação politica, tal como se pode ler na Nota final, na página 691 “Fecha-se assim a Trilogia do Lótus, dedicada aos autoritarismos e aos totalitarismos da primeira metade do século xx. Pelas páginas de As Flores de Lótus, O Pavilhão Púrpura e O Reino do Meio desfilaram quatro histórias paralelas inspiradas em experiências verdadeiras que foram vividas por diferentes personagens. Algumas são baseadas em pessoais reais e outras são imaginadas, mas todas representam figuras cujo percurso nos permitiu  mergulhar na ascensão ao longo das décadas de 1920 e 1930 de alguns dos regimes autoritários e totalitários que marcaram o século das guerras mundiais, incluindo as complexas dinâmicas políticas, sociais e económicas que os conduziram ao poder”. Mas, só mesmo as aventuras das personagens, a parte do romance é que vai cativando a atenção. A expetativa é criada com base nos eventos que a mente vai questionando que poderão ser o desfecho das aventuras dos personagens, não a narrativa política, que se torna difícil de perceber quando é exposta numa explicação massiva de um dos personagens históricos, detentor da informação, a outro que por sua vez está ligado às aventuras do romance.

Ainda vou citar aqui mais uma… passagem: “(…) Mas o senhor coronel sabe muito bem que eles não respeitarão nenhum prazo porque não tem para onde ir. Um judeu que entre em Portugal sem visto para um outro destino é um judeu que fica para sempre em Portugal. É por isso que só podemos passar vistos quando temos a certeza de que a seguir eles sairão do país ou quando se trata de pessoas que se vão juntar a familiares já radicados em Portugal e que por eles se responsabilizam. Caso contrário arriscamo-nos a ser submergidos por um mar de gente e a não dispormos de meios para acolher condignamente essas pessoas. Para fazer caridade é preciso recursos, senhor coronel. Se mal temos meios de sustentar a nossa própria gente, onde iremos buscar recursos para prover a todos os desgraçados que nos pedem ajuda? É impossível!” – páginas 622-623.

O Pavilhão PúrpuraAs Flores de Lótus

Segui a sugestão de um amigo

Está na hora. É assim a meio da manhã. “É uma hora que ninguém desconfia”, costumava dizer um amigo meu, lá da terra onde desbravamos a juventude, a “terra da passa”. Ena, que bons tempos! Acho que tiramos um curso de antropossociologia noturna. Não obstante, a verdade é que aqui estou eu, sozinho na solidão do meu quarto, os tempos da juventude já lá vão e agora há que ser um homenzinho e enfrentar o touro pelos cornos! É só esticar a mão até à mesinha de cabeceira e agarrar a seringa. Isto custa. Venha lá o mais pintado dizer o contrário, quem mora no convento é que sabe o que vai lá dentro mas, o que tem de ser tem muita força, mai’ nada! isto custa! porra…

O êmbolo da seringa e aquela coisa lá dentro ainda vá que não vá, a bisnaga fica ali presa entre o indicador e o médio direito e o polegar e é só empurrar para dentro, a chatice é a agulha! Finhinha, afiada, fria, metálica, com a gotita na ponta e depois começa ali a querer encostar à pele… arrepia. E é preciso escolher o sitio, questionar qual o melhor “local”? o meu corpo agora até tem “locais”, lembro-me perfeitamente da primeira voz que me disse “aqui é uma zona proibida”, já não sei, já não me importa se é pelo outros verem, se é para não estragar mais “locais” no meu corpo, o que é tenho de fazer, mas tenho mesmo, é imperativo, não pode ser de outra maneira, é não acertar naquela zona roxa, da cor de uma ameixa madura. Da cor daquelas ameixas que, na aldeia onde fui cachopo a gente ia roubar lá ó Ti’Mário e fugir a sete pés. Esta já tem bicho, tem um furinho lá no meio. É melhor pensar assim. Olhar para estas nódoas negras furadas, esburacadas, deixar a imaginação levar-me para outro lado qualquer, para os tempos de vida mais simples.

Eu não complico as coisas, apenas estou a seguir a sugestão de um amigo, dos de agora, dos deste tempo, dos quarentas, já homem maduro, aliás é jornalista, sabe muito bem o que faz, se assim não fosse, não ocuparia o lugar que tem. A minha mente não aceita que lhe pregue partidas, medos. Não fica para aqui a imaginar que atravesso a mata do Fontelo sozinho, de noite escura, nos tempos de estudante universitário, a tresmalhar as folhas de outono, sentido que sou perseguido por um arfar ofegante de um rottweiler e eu fico ali a andar depressa e a transpirar frio, não. Eu não sou assim. Nem fico aqui a pensar “na carga pronta metida nos contentores” dos Xutos e Pontapés, não, nada disso. Eu sou diferente, já aprendi muita coisa na internet, sou mais como aqueles emails dos índios americanos com dois lobos, um do lado do bem, outro do lado do mal, os dois a atazanarem-me a paciência, fingindo que posso adiar a decisão ou a tentar racionalizar sobre uma coisa que não vale a pena, isto custa. Mas tem que ser. São só uns dias, é pouco, depois paro. Custa a primeira picada, nem se dá por ela do líquido a entrar, quer dizer… sendo honesto comigo é claro que sim, nota-se um bocadinho, depois é só esperar e pronto. Isto há de passar.

Então cá estou, quase que a rir, a esgaçar acho que é a expressão mais adequada, sim, a esgaçar um sorriso por ter seguido a sugestão de um amigo. Sugestão simples. Vou descobrir o que é que esta porra tem lá dentro da seringa: solução injetável para administrar nos doze dias subsequentes a uma intervenção cirúrgica. Sugestão tão simples: agora que tens tempo, escreve sobre isso. Bom, e já que não consigo ir roubar ameixas de moletas, nem aprendi a fazer “passas fritas” com a minha mãe… fico aqui sentado a escrever. E a pensar no valente susto que o rottweiler da minha vizinha me pregou, afinal só queria brincadeira.

Uma Estranheza em Mim – Orhan Pamuk

«Uma estranheza em mim» eleva o padrão de Nobel da Literatura para outro nível. Atualiza-o. Lembrei-me da resiliência do amor em “O amor nos tempos da cólera”; recordei a família dos “Cem anos de solidão”; da minha prima Sara que casou com um turco; da minha terra e de como as gentes portugueses do antes (e do após) do vinte e cinco de abril rumaram à cidade grande para a ver e fazer crescer a urbanidade que, por mais que se tente disfarçar, por muito moderno que aquela treta esteja toda, está sempre lá o cunho das gentes «lá da terra», há sempre uma rua que é dos alentejanos, o homem do talho trás uns queijinhos lá do norte que são uma maravilha!

Mevlut é um daqueles gajos que dá vontade de cumprimentar, de ir beber um café, de o avisar das tramas à sua volta, de lhe dizer que… bom afinal trata-se apenas de um personagem de ficção. Trata-se apenas do fruto do gigantesco trabalho literário de Orhan Pamuk, não é preciso tentar contatar o personagem, basta ler o livro (dah)!

Korkut. Não gostei da maneira como o tio Mustafa disse «o Mevlut não vai meter-se em lutas»; percebia-se que estava a tratar-me com condescendência. Eu deixei de ir à escola há três anos, numa altura em que o tio Mustafa e o meu pai ainda estavam a viver na casa que construíram juntos em Kültepe. Num dos meus últimos dias de escola, para garantir que não iria nunca deixar-me tentar a regressar, dei àquele jerico pretensioso do professor de química Fevzi a lição que ele merecia: duas bofetadas e três socos em frente. Ele estava a pedi-las desde o ano anterior em que me tinha perguntado o que era Pb2(SO4) e eu disse «calhaus», e ele começou a fazer troça de mim como se tivesse direito a humilhar-me diante de toda a gente; ele também me tinha feito reprovar o ano sem motivo nenhum. Tenha ou não «Atatürk» no nome, eu não tenho respeito por uma escola onde se pode ir às aulas e espancar o professor à vontade» – página 73. Era para fazer aqui um comentário mas não vale a pena. Se eu dissesse que muitos diretores de escolas deviam decorar esta última frase, poderia estar a ofender alguém, assim é melhor não dizer nada.

“(…) Mevlut não tinha bem a certeza se o reitor Fazil queria dizer aos seus alunos mais pobres, «Se estudardes a valer e terminardes a escola, também vós ides ser ricos» ou se o que ele queria dizer era, «se estudardes a valer e terminardes a escola, ninguém se vai dar conta de como sois pobres». – algures na página 92. Como eu compreendo estas palavrinhas…

“«O homem é o fruto mais precioso da árvore da vida», disse o velho de cabelo prateado a um Mevlut extasiado. – página 376. Uma verdade tão simples… tão simples como dar valor ao que tenho em vez de valor ao que gostaria de ter.

“Eis o que esta aventura me ensinou: é verdade que o mundo inteiro está contra os trucos, mas os piores inimigos dos turcos são os próprios turcos.» – página 432. Não vou citar mais nada. São 635 páginas de letras muito pequenininhas.

Votos de boa leitura.

A casa do silêncioNeve “O meu nome é vermelho” li-o antes de escrever o blogue!

O Labirinto dos Espíritos – Carlos Ruiz Záfon

“Nada como a química  para dominar a lírica. Mas não se habitue, porque a bebida é como o mata-ratos ou a generosidade: quanto mais se usa menos efeito faz.” – página 18

Após ter lido esta passagem parei logo! Tinha que tomar nota, uma coisa assim tem que ser partilhada. Pensei de mim para comigo. A intensidade de tamanha simplicidade é maior do que o espaço que ocupa no livro.

Outra! ” – Um roteiro é o que as pessoas inventam quando não sabem muito bem para onde vão e desse modo se convencem e a alguns outros patetas que se dirigem para um sítio qualquer.” – página 25

E pronto. Tenho que parar de fazer transcrições senão faço isso mesmo: transcrevo o livro.

Aguentei estoicamente até à página 178, esta sim, já é um vislumbre do que podemos por aqui encontrar: “Em fins do século XIX, uma ilha com a forma de café literário e salão de fantasmas desprendeu-se do mundo. Desde então vagueia congelada no tempo à mercê das correntes da história pelas avenidas de Madrid imaginária, onde se pode encontrá-la encalhada e a ostentar a bandeira do Café Gijón, a poucos passos da Biblioteca Nacional. Ali espera, disposta a salvar do naufrágio quem chega sedento de espírito ou de paladar, como se fosse uma grande ampulheta à deriva onde, pelo preço de um café, o mais incauto pode olhar-se no espelho da memória e acreditar, por um instante, que viverá para sempre.” – página 178

Página 190 mais uma paragem zinha… “Leandro passava os olhos pelas páginas do livro, detendo-se aqui e ali com uma expressão céptica. No fim, devolveu-lho e observou-a. Tinha um olhar jesuítico, daqueles que farejam os pecado antes que se formem no pensamento e administram penitência com um simples pestanejar.” de primeiríssima água.

“Fernandito deixou pender a cabeça, abatido. Enquanto o rapaz combatia as investidas do fatalismo, Fermín sondou o horizonte e avistou um par de enfermeiras de uniforme justo e constituição saudável que se aproximavam pelo corredor. A feliz arquitectura das duas e o menear das ancas ao caminhar despertaram-lhe um comichar na parte baixa da alma. À falta de outro empreendimento de maior envergadura com que ocupar a espera, fez-lhes uma radiografia de perito. Uma delas, com ares de noviça e não mais de dezanove anos no conta-quilómetros, lançou-lhe de passagem um olhar que dizia que semelhante manjar nem em mil anos seria para o dente de um pobretanas como ele e riu. A outra, que parecia mais experiente no trato com o pessoal ocioso que lhe prestava honras, lançou-lhe um olhar reprovador.” – in página 574

“- Não se envergonhe, que a vida é assim mesmo. Aprender a diferençar entre a razão por que fazemos as coisas e a razão por que dizemos fazê-lo é o primeiro passo para nos conhecermos a nós mesmos. E daí a deixar de ser um cretino é um pulo.

– Fala com um livro, Fermín.

– Se os livros falassem não haveria tanto surdo por aí. O que tem de começar a fazer, Fernandito, é evitar que sejam os outros a escrever-lhe o diálogo. Use a cabeça que Deus lhe plantou sobre as cervicais e faça você mesmo o libreto, que a vida está cheia de malandros ávidos de encher a cabeça do respeitável com as parvoíces que lhes convêm para continuarem montados no burro e de cenoura em riste. Compreende o que digo?

– Receio bem que não.” – in página 575

Estou quase a acabar! Só já faltam umas cinquenta páginas! É para saborear devagarinho. Página 797: “Naquele amanhecer o meu pai levou-me pela primeira vez a visitar o Cemitério dos Livros Esquecidos. Corria o Outono de 1966 e uma chuvinha pintara as Ramblas de pequenos charcos que brilhavam à nossa passagem como lágrimas de cobre. A neblina com que tantas vezes havia sonhado acompanhou-nos, mas levantou voo quando metemos pela Calle Arco del Teatro. Abriu-se à nossa frente uma brecha de sombras do meio das quais emergiu, pouco depois, um grande palácio de pedra enegrecida. O meu pai bateu ao portão com uma aldraba em forma de diabrete. Para minha surpresa, quem acudiu a receber-nos não foi outro senão Fermín Romero de Torres, que ao ver-me sorriu com malícia.”

Mas nada vos conto acerca de Alicia Gris. A personagem principal. Até parece que a conheço. Ou melhor, gostava de a conhecer, mas depois lembro-me de que se trata de ficção.

Com um pezinho antes da guerra, para por lá dar uns passitos e os restantes, a caminhada até à contemporaneidade, no pós-guerra em pleno período de ditadura, com polícias politicas, altas individualidades enterradas em… névoa. Um crime, um mistério a resolver, com livros muitos livros à mistura e uma excelente homenagem aos mesmos, que está tão bem elaborada, tão magistralmente concebida que acho que devo ficar preocupado com Carlos Ruiz Zafon.

O jogo do AnjoA sombra do ventoPríncipe de neblinaMarina