José Rodrigues dos Santos – As flores de Lótus

jose-rodrigues-dos-santos-as-flores-de-lotus“(…) No ensino primário e secundário ninguém é chumbado para não pôr em causa o seu giri.”

“E nos exames para entrar na universidade?”

“Quando a competição é inevitável, estamos perante um grande problema. Nunca ouviste dizer que muitos alunos se suicidam no Japão depois dos exames? Isso acontece justamente porque foram preteridos e, como ficaram desonrados, têm de cometer seppuku para mostrar que conhecem giri. Pelo suicídio recuperam a honra perdida.”

Fukui arregalou os olhos, impressionado.

“Quer dizer que terei de cometer seppuku se não conseguir entrar na universidade?” – página 208

José Rodrigues dos Santos – As flores de Lótus

jose-rodrigures-dos-santos-as-flores-de-lotus“(…) Na verdade, o país político andava dividido quanto à monarquia. Todos defendiam que a habitual alternância no poder entre o Partido Regenerador e o Partido Progressista tinha de acabar, mas quando o rei passara da palavra aos atos e escolhera João Franco para presidente do Ministério em vez dos líderes dos dois habituais partidos caíra o carmo e a trindade. Os líderes partidários ficaram furiosos, eles e as suas inúmeras clientelas partidárias habituadas a apropriar-se do poder e que dele se viam apartadas, pelo que se aliaram aos anarquistas e aos republicanos na oposição a sua majestade e ao novo governo.” – página 64

Breve história de quase tudo – Bill Bryson

Bill Bryson - Breve história de quase tudo      “Mas o acontecimento-chave – o nascimento de uma nova era – deu-se me 1905, quando, numa revista alemã de física chamada Annalen der Physik, apareceu uma série de artigos escritos por um jovem burocrata suíço sem afiliações universitárias ou acesso a qualquer laboratório, e que, como fonte regular de consulta, se limitava a usar o registo nacional de patentes de Berna, onde trabalhava como fiscal técnico de 3ª classe. (O seu pedido de promoção a fiscal de 2ª classe fora recentemente indeferido).

Chamava-se Albert Einstein (…)”

“Por norma, os físicos não prestam lá muita atenção a descobertas feitas por empregados suíços de registos de  patentes, pelo que, apesar da abundância de informações úteis, os artigos de Einstein não atraíram grande interesse. Já que se limitara a resolver vários dos mais profundos mistérios do nosso universo, Einstein candidatou-se a um lugar de leitor na universidade mas foi rejeitado; a seguir tentou ser aceite como professor de liceu, no que teve a mesma sorte. Voltou, portanto, ao seu cargo de fiscal de 3º classe, mas é evidente que continuou a pensar. Estava muito longe de dar por encerradas as suas actividades.” – páginas 129 – 132

100 Abrigo – Chico Gouveia

Beber: uma história de amor – Caroline Knapp

beber uma historia de amorRecentemente fui operado a um olho. Ao ler este “Beber – uma história de amor” fiquei com a mesma sensação: um excelente ponto de vista interno, que  poucos tem a oportunidade de assistir do lado de dentro. A forma como Caroline Knapp escreve, permite ao leitor, com grande facilidade, “ver” os episódios da vida de uma alcoólica funcional. Funcional é aquela pessoa que mantem a vida toda em ordem, ninguém desconfia de uma doença tão grave como o alcoolismo. Deixo-vos algumas citações só para aguçar o apetite:

“As seguintes questões, compiladas pelo Conselho Nacional sobre Alcoolismo e Toxicodependência, foram concebidas para ajudar as pessoas a verificarem se têm ou não problemas com a bebida. Foi assim que lhes respondi, algumas semanas antes de ter parado de beber.

Sim Não
x 1. Costuma beber muito depois de uma frustração, uma discussão ou quando o seu chefe lhe dá problemas?
x 2. Bebe mais do que o normal quando tem problemas ou se sente sob pressão?
x 3. É capaz de aguentar uma maior quantidade de álcool do que quando começou a beber?
x 4. Alguma vez se apercebeu de que não conseguia lembrar-se de uma parte da noite anterior, ainda que os amigos lhe digam que não perdeu os sentidos?
x 5. Quando está a beber com outras pessoas, tenta beber mais alguma coisa sem que os outros reparem?
x 6. Há ocasiões em que se sente mal se não tem álcool à sua disposição?
x 7. Tem-se sentido mais impaciente e ávido pelo primeiro copo do que antes?
x 8. Sente-se por vezes culpado pro beber?
x 9. Fica secretamente irritado quando a sua família ou amigos abordam o seu problema com a bebida?
x 10. Reparou recentemente num aumento da frequência de «perdas de memória»?
x 11. Conclui com frequência que deseja continuar a beber depois de os seus amigos terem dito que já beberam o suficiente?
x 12. Nas ocasiões em que bebe muito costuma ter um motivo específico para isso?
x 13. Quando está sóbrio, lamenta com frequência coisas que fez ou disse enquanto estava a beber?
x 14. Já tentou mudar de marcas ou seguir planos diferentes para controlar a bebida?
X 15. Já tentou controlar a sua bebida mudando de emprego ou mudando de casa?
X 16. Tenta evitar a família ou amigos íntimos quando bebe?
X 17. Os seus problemas financeiros e de trabalho não param de aumentar?
X 18. Tem a impressão de que há mais pessoas a tratarem-no injustamente sem uma boa razão?
x 19. Come muito pouco ou irregularmente quando está a beber?
x 20. Tem por vezes tremores de manhã e sente que tomar uma bebida pode ajudar?
x 21. Reparou recentemente que não consegue beber tanto quanto costumava?
X 22. Fica por vezes embriagado durante vários dias?
x 23. Sente-se por vezes muito deprimido e interroga-se sobre o valor da vida?
X 24. Depois de períodos em que bebeu muito, vê ou ouve coisas que não existem?
X 25. Sente-se terrivelmente assustado depois de ter bebido muito?

– página 115/116

“Quando fiz 29 anos, Wicky morreu de repente, de um ataque muito violento. Tinha 42 anos. Alguns meses depois do funeral, a minha meia-irmã, Penny, irmã mais velha de Wicky, mandou-me uma carta contando como tinha sido crescer com ele e quebrando o silêncio a propósito do papel do álcool em tudo aquilo. «Nunca ninguém falou disso», escreveu ela, «mas é absolutamente óbvio para mim agora que ele sofria de síndrome alcoólico-fetal.» – página 57

“(…) No fundo, o alcoolismo é como uma acumulação de dezenas de ligações como essa, inúmeros pequenos medos, fomes e raivas, diversas experiências e memórias que se acumulam no fundo da nossa alma, coalescendo, depois de muitas e muitas bebidas, numa única solução líquida.

Claro que o problema da autotransformação é que, ao fim de pouco tempo, já não sabemos em que versão de nós acreditar, qual é a verdadeira. (…)

(…) Ao fim de pouco tempo, já não sabemos sequer as coisas mais básicas sobre nós próprios – de que temos medo, o que nos desagrada, de que precisamos para nos sentirmos confortáveis e calmos – porque nunca demos a nós próprios a oportunidade, clara e sóbria, de o descobrir.

O álcool oferece protecção contra tudo isso, defende-nos da dor da autodescoberta, um protecção maravilhosa e reconfortante que é altamente insidiosa porque, sendo absolutamente falsa, nos parece tão real e necessária.” – páginas 75/6

“Lembro-me de escutar os argumentos e contra-argumentos, e de pensar: Não estou a perceber nada. Ninguém fala do álcool. O álcool surgia de quando em vez, apresentado como factor que piorava as situações – a própria Roiphe escreve acerca de «recordar noites complicadas, com muitos copos de vinho, em camas conhecidas e desconhecidas.» Mas, no geral, o excesso de álcool era discutido como um elemento acessório, algo com consequências palpáveis: beber tolda o raciocínio, enfraquece a capacidade de comunicação. As ligações mais profundas entre o álcool, a auto-estima e a sexualidade, a forma como as mulheres (pelo menos as mulheres como eu) se servem do álcool para abafar uma vasta gama de sentimentos conflituosos – desejar e temer a intimidade; desejar a união com os outros e recear perder-se nela; grande incerteza acerca de como e quando estabelecer barreiras, como e quando abrir mão delas – eram assuntos abordados de modo ligeiro, sem detalhe nem profundidade.” – página 80

“Doloroso e extraordinariamente comum. As coisas que nos levam a beber, podem levar-nos com a mesma facilidade a qualquer uma das outras coisas terríveis. Para Janet, a autodestruição surgiu na forma de bulimia (…).” – página 128

É esta uma das (possíveis) diferenças entre ver televisão e ler um livro: podemos voltar para trás, refletir, ler sem limite de tempo e formar uma opinião mais fundamentada. Em vez de nos limitarmos a acreditar em tudo o que se pode ver na TV.

Breve história de quase tudo – Bill Bryson

Bill Bryson - Breve história de quase tudo“Quando os céus estão limpos e a Lua não brilha muito, o reverendo Robert Evans, um homem sossegado e bem disposto, coloca um velho telescópio no terraço traseiro da sua casa nas Blue Mountains, na Austrália, e põe-se a fazer uma coisa extraordinária. Põe-se a perscrutar o passado, e encontra estrelas mortas.” – página 43

Robert Evans astronomer

 

Breve história de quase tudo – Bill Bryson

Bill Bryson - Breve história de quase tudo“Tão grandes são as distâncias que, na prática, se torna impossível representar o sistema solar à escala real. Mesmo que juntássemos muitas páginas desdobráveis aos livros escolares, ou usássemos uma longuíssima folha de papel para fazer os mapas, nunca chegaríamos nem perto. Num diagrama do sistema solar à escala, com a Terra reduzida ao tamanho de uma ervilha, Júpiter estaria a mias de 300 metros de distância, e Plutão estaria a 2,5 quilómetros (e teria o tamanho de uma bactéria, de forma que não o conseguíssemos ver). Na mesma escala, a Próxima de Centauro, a estrela mais próxima de nós, estaria a 16 mil quilómetros de distância. Mesmo que encolhêssemos tudo de forma a Júpiter ficar tão pequeno como o ponto final no fim desta frase, e Plutão não fosse maior do que uma molécula, Plutão estaria ainda a mais dez metros de distância.” – página 39