Uma noite de primavera – Julia Glass

Primeiro livro que li de Julia Glass. Acho que vou ler os outros. É um romance muito bem escrito, cheio de detalhes e pormenores que facilitam a construção da imagem do que estou a ler. Facilitam? Não. Torna-se intrínseco. Parece que o cérebro involuntariamente vai construindo as situações narradas (que é o que se pretende na leitura). Só que, os personagens são tão ricos que cada capítulo descreve um, e são precisas 200 páginas para “aquilo” começar a ter interação e relacionamento uns com os outros. Três gerações, a mais velha, mas pacata, já reformada, calminha, espelhada num bibliotecário viúvo e reformado que vê o seu mundo calminho invadido pela geração do meio, a da filha. Uma com uma vida assim, a outra com uma vida assado. Uma, divórcio e regulação do poder paternal, crianças e creches, infantários privados que vão parar ao celeiro do avó. E é ai que ele começa a ver as diferenças nas gerações e no que a sociedade valoriza. A outra médica daquelas de aparecer na televisão. Vai fazer falta mais à frente para ajudar a ligar este imbróglio todo (é que o avô vai ter uma namorada que irá precisar dos cuidados médicos da filha). A terceira geração, dos netos (filhos das filhas) que, embora tenham chegado à universidade, só fazem merda.

Uns gays lá pelo meio, gente que não se mistura, emigração ilegal, estudantes universitários a querer mudar o mundo… um romance muito rico, que toca ali nas relações familiares e nos valores educativos.

Só um bocadinho: “- Não quero menosprezar a tua consciência, meu, mas sobrevoar milhões de hectares de floresta reduzida a terra vermelha não é o mesmo que ver um grupo de casas feias a serem construídas em Newton ou Matlock. Ouvi o teu avô queixar-se das pessoas que estão a “destruir a história”, percebo o que ele quer dizer, mas isso não é nada comparado com o que está a acontecer em lugares como o Brasil e a Argentina. A natureza é a história elevada ao quadrado, a natureza é muito mais importante do que a história. Comparando, a história é insignificante.” – in página 433/4

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A arte subtil de saber dizer que se f*da – Mark Manson

Nunca li título tão desadequado. Que se lixe. Verdade é que também não vem mal nenhum ao mundo por eu não ter lido um título tão desadequado como este. Como já por aqui coxeio à uns anitos, eu traduziria mais de acordo com aquilo que «eu acho» ser o nosso contexto cultural: A arte de saber dizer: que se lixe, é p’ra fazer é p’ra fazer! ‘Tá bem que o «F*da» chama ali um bocado à atenção ( e não «a atenção») mas, no contexto americano (talvez), não no meu. O que me apercebi, no decorrer da leitura, é que Mark Manson diz que o caminho para o sucesso é f*odido, eu diria é lixado, mas tem que ser feito. É isto que retive desta extraordinária leitura. E extra ordinária é o termo. Tanto faz assim, como assado, é para fazer, é para fazer, quer eu goste das dores de crescimento, das dificuldades, das lágrimas pelo caminho, quer não, não há Bela sem… se não. E tanto faz como fez, tentar disfarçar o sofrimento. Ele está lá. Temos que passar por ele.

Na página 70 diz (eu sei que se diz «tem escrito» mas, que se lixe! Não vem mal ao mundo por causa disso): “Se o sofrimento é inevitável, se os nossos problemas na vida são inevitáveis, a questão que devemos colocar não é «como é que eu paro de sofrer», mas «Por que razão sofro? – com que propósito?». Interessante, não é? E o que é que tem a ver com o título?

Ainda em busca de partidários da minha causa que tem lá a ver com o título, na página 88 podemos ler: “O primeiro, que analisaremos no próximo capítulo, é uma forma radical de responsabilidade: assumir a responsabilidade por tudo o que acontece na nossa vida, independentemente de quem tem a culpa. O segundo é a incerteza: o reconhecimento da nossa própria ignorância e o cultivo da dúvida constante nas nossas próprias crenças. O seguinte é o fracasso: o desejo de descobrir as nossas próprias falhas e erros, para que possam ser melhorados. O quarto é a rejeição: a capacidade de dizer e ouvir «não», definindo assim claramente o que aceitará ou não na sua vida. O valor final é a contemplação da nossa própria mortalidade; este é crucial, porque prestar atenção vigilante à nossa própria morte é, talvez, a única coisa capaz de nos ajudar a manter todos os nossos outros valores na perspetiva adequada.” – ‘tão a ver, ‘tão a ver? O que é que isto tem a ver com o título?

Querem ver porque é que recomendo esta leitura? Ora aqui está mais um parágrafo que li umas poucas de vezes: “O ambiente atual da comunicação social tanto incentiva como perpetua estas reações, porque, afinal, isto é bom para o negócio. O escritor e comentador Ryan Holiday refere-se-lhe como «indignação porn»: mais do que relatar histórias e questões reais, os media descobriram que é muito mais fácil (e mais rentável) arranjar qualquer coisa medianamente ofensiva, transmiti-a a uma vasta audiência, gerar indignação e depois retransmitir essa indignação através da população de uma maneira que indigne outra parte da população. Isto ativa uma espécie de eco de disparates que saltita entre dois lados imaginários, ao mesmo tempo que distrai toda a gente dos verdadeiros problemas sociais. Não admira que estejamos politicamente mais polarizados do que nunca.” – ‘tão a ver? – “O maior problema com a vitimização chique é que esta distrai a atenção das verdadeiras vítimas. (…) – página 107 – É a vantagem da leitura! Eu até já sabia isto mas, lendo e relendo, é diferente, é mais lento, parece que é mais verdade, permite algum tempo de reflexão.

Opá… na página 115 também parei e escrevi o número na agenda do telemóvel, não vou transcrever a página toda, leiam, mas… cá vai um cheirinho: “Tal como vemos com horror a vida das pessoas de há quinhentos anos, imagino as pessoas daqui a quinhentos anos a rirem-se de nós e das certezas que temos hoje em dia. Rir-se-ão por deixarmos que o nosso dinheiro e os nossos empregos definam as nossas vidas. Rir-se-ão do nosso receio de mostrarmos apreço por aqueles que nos importam mais e, no entanto, tecermos elogios a figuras públicas que não merecem nada.(…)” – Ora cá está! Nós até já sabemos isso mas, lê-lo… tem outra intensidade.

Esta então nem digo nada: “Lembro-me de discutir esta dinâmica com o meu professor de Russo, e ele tinha uma teoria interessante. Tendo vivido sob o comunismo durante tantas gerações, com poucas ou nenhumas oportunidades económicas e engaiolada numa cultura de medo, a sociedade russa descobriu que a moeda mais importante era a confiança. E para construir confiança é preciso ser honesto. Isso significa que, quando as coisas são uma porcaria, isto é dito abertamente e sem desculpas. As demonstrações de honestidade desagradável eram compensadas pelo simples facto de serem necessárias para a sobrevivência – as pessoas tinham de saber em quem podiam e não podiam confiar, e tinham de o saber depressa.” – página 159

Já que leste tudo isto até aqui, só mais uma porque é… mais uma vez o óbvio, lido e escrito mas, com necessidade imperativa de ser dito para poder ser repensado, na página 168: “A vítima, se efetivamente amasse o salvador, diria: «Olha, este problema é meu; não tens de o resolver por mim. Só quero que me dês apoio enquanto eu próprio o resolvo.» Isso seria verdadeiramente uma demonstração de amor: assumir a responsabilidade pelos seus próprios problemas e não tornar o seu parceiro responsável por eles.”

Em vez de pensar que posso andar por aqui a tentar pensar que posso ser o melhor do mundo, ou não querendo abusar, é mais proveitoso aproveitar-me como sou: uma pessoa… normal.

Muito fixe, este livro. Recomendo a leitura.

Low budget stuntman

A brincar, a brincar, lá se vai falando de coisas sérias… Tal como num bom livro, quem quiser ler nas entrelinhas, aproveite a oportunidade.

meditação – Sri Chinmoy

Partilho convosco algumas citações que fui tomando nota ao longo desta longa e lenta leitura:

“Durante a meditação tenta somente lançar a tua existência interior e exterior para o Supremo. Não tens de pensar em nada (…). Mas não esperes nenhuma qualidade ou resultado divino em particular (…). Isto porque as expetativas humanas são muito limitadas. (…) – página 52

“É melhor meditar no coração do que na mente. A mente é como Times Square Garden na véspera de Ano Novo em Nova Iorque; o coração é como uma gruta solitária nos Himalaias.” – página 55

“(…) Alguém pode parecer espiritual, mas se a sua música trouxer a tua consciência para baixo, então ele não está a tocar música com alma. Quando tu ouves música, se esta elevar a tua consciência, então saberás que é música espiritual.” – página 104

“(…) É como se tivesses perdido a chave da tua própria casa e não sabes como abrir a porta. Mas um amigo teu vem com uma lanterna e ajuda-te a procurar a chave. Depois de a descobrires com a sua ajuda, tu abres a porta e ele volta para casa.” – página 181

“(…) Se levares dentro de ti os elementos não divinos como o medo, dúvida, ansiedade, insegurança e outros mais, isso significa que estás a carregar um peso extra e a diminuir a tua capacidade.” – página 182

Até lá abaixo – Tiago Carrasco

Assim dá gosto ler. Assim o prazer da leitura volta a ter lugar de destaque. Assim vale a pena ter um sofá confortável. No ano letivo passado, 2017-2018, dei aulas de Português Língua Não Materna no Agrupamento do Alto do Lumiar, mais especificamente na Musgueira e nas Galinheiras. Para perceber melhor e poder explicar aos alunos o contexto cultural de onde os colegar eram oriundos, fiz algumas apresentações sobre a Costa do Marfim; Guiné; Angola; Moçambique; as plantas que crescem no deserto africano, entre outras e… tinha um aluno de Bafatá, que contou como é que eram lá as coisas na terra dele. Então não que na aventura “Até lá abaixo” os personagens passam por lá! Até falam nos Bijagós! Curioso, coincidente, eu sei lá, foi muito fixe estar a ler o que os meus alunos disseram na primeira pessoa. Alunos e amigos! O professor Rúben de matemática vem do Lubango, partilhei com ele que descrevi a Fenda de Tundavala aos miúdos, ´tá lá no livro; recordo as fotografias das curvas da Serra da Leba, ’tá lá no livro, das mulheres das tribos… ’tá lá no livro. A coisa é mais abrangente, o Marcelo Saraiva, que não o vejo há mais de vinte anos, trabalhou numa ONG lá pelas terras do Senegal; a minha amiga Catarina que fundou a Associação Simba Children’s Rights; do grande Jorge Tempera que queria ir para Marrocos andar de bicicleta (já foste?)… Além de uma grande aventura que parece ficção e de um excelente, limpo, nítido, real espelho da realidade africana, é permanente “a boca” à precariedade laboral em Portugal, mesmo naquele patamar que o senso comum possa considerar (erradamente) confortável.

A geração que me precede deixou muito a marca da guerra do ultramar. Lembro que Portugal não é só Lisboa. Por falar nisso, ali na Amadora, onde o flagelo do desemprego é gritante, mistura-se um bocado as coisas entre marginalidade, pobreza e gente que se farta de trabalhar, ficando diluídos, aqueles que se fartam de trabalhar, na sombra da realidade com mais impacto, tal como quem ia ajudando estes três viajantes “Até lá abaixo”. Ou seja, para mim foi uma leitura que extravasou em muito, as páginas do livro. Considero que a minha informação acerca das terras africanas ficou atualizada. A minha amiga Patsy, que é nascida e criada na África do Sul, agora minha vizinha, pergunta-me se não há a versão em inglês.

O rinoceronte negro está oficialmente extinto, é a grande diferença de 2010 até hoje.

Fiquei a pensar qual será a desculpa, que o Tiago Carrasco irá arranjar, para ligar Açores, Madeira, Cabo Verde e S.Tomé e Príncipe? Os meus alunos São Tomenses contaram coisas fantásticas! E já agora, faz lá uma viagem, ou o rali Trans-Siberiano, é que também tive alunos que vieram lá dessas bandas.

Obrigado Eudora por me teres emprestado o livro. Acho que o vou comprar.

Gory Vaz! Votos de boa leitura. (este ano a Gory dá PLNM)

Horizonte Profundo – Desastre no Golfo

87 dias! A erupção durou oitenta e sete dias! O pior desastre petrolífero na história do Estado Unidos.

Trump plans to relax Obama rules for oil companies put in place after BP disaster

Deepwater Horizon

Hereafter – Outra vida

Uma excelente abordagem cinematográfica a um assunto… delicado: