Animal Vadio

Formação em Socorrismo, é isso que eu acho que ainda falta dar nas escolas, para que possa ser acolhido na cultura. O primeiro socorro a uma criança é diferente daquele que é feito a um adolescente e eu perguntei, numa ação de formação, mediante o cenário teórico que nos estava a ser retratado: um acidente de rodoviário com duas vítimas, um casal, condutor e passageiro poli traumatizados; o que fazer caso na viatura fosse transportado um cão? O presidente da instituição, que por acaso estava presente, disse-me “Ó Zé Pedro, lá ‘tás tu com as tuas coisas”; o único além de mim que pareceu ter algum tipo de resposta, foi o formador, que explicou que não existe unidade de socorro a animais de estimação. Fiquei ali um bocado naquilo, pois estava-me a fazer “espécie” como que raio é que se deixa um animal traumatizado no local de um acidente? Abatê-lo é uma hipótese que não faz sentido nenhum, pois a lei não permite sepultar os animais por aí ao Deus dará, o único que o pode fazer é o veterinário municipal em crematório próprio para o efeito, transportá-lo na ambulância também não é permitido, pois não existe destino. Apanhar um cão traumatizado não é fácil, há os que tentam morder porque estão feridos, eu que o diga; há os que até deixam, os que lambem, rosnam, já vi e já fiz um pouco de tudo, um pouco por culpa da minha quase-esposa que me puxa para estas andanças mas, tal como nos humanos, a prestação do primeiro socorro não é teórica. A maneira de cada um conduzir pode ser o espelho de como o indivíduo se comporta na sociedade, eu acrescentaria que a forma como trata os seus animais também. Primeiro estimam-nos, não! Primeiro domestica-os, depois estima-os, pagam-nos a prestações, para os abandonarem três anos depois, que raio de “estimação” essa. As despesas com os bicho não são faturadas! Nem sei o que diga. Sei, não são é dedutíveis nos impostos, era isso que eu queria dizer. Já está mas é na altura de ir fazer uma atualização da formação em socorrismo. Ah! Ainda perguntei “Então e se o cão estiver saudável?”

Reli as minhas desventuras relacionadas com a irresponsabilidade dos outros e vou arquiva-las como: Animal Vadio.

Hoje já é Segunda-feira, dia 28 de Setembro, creio que já me consciencializei de que “isto” é um diário, ou mais ou menos um diário, se calhar o termo diário implica que se escreva todos os dias e eu apenas pretendo deixar registado para a posteridade algumas das minhas desventuras, aliás se escrevesse todos os dias até poderia parecer que não tenho mais nada para fazer do que andar de roda destas coisas, mas deixemo-nos de “encher chouriços”, embora a expressão seja interessante, e vamos ao que interessa: Sábado à noite, de regresso a casa. “Ó Zé pára! Pára! Pára o carro!” – grita a minha quase-esposa com as mãos no tablier – “Porquê? O que é que foi?” – foi assim a minha resposta enquanto começava a travar o carro e a encostar à beirinha, logo agora que é de noite, dá bem para circular a 110, embora a lei só permita 90, como não se vêm luzes absolutamente nenhumas, ninguém pode ser o carro da bófia! “Viste?” – perguntou-me com os olhos muito abertos – “Ali atrás?” – “O quê?” – grito enquanto paro o carro – “Ó Zé… é um cãozinho morto…” – ainda bem que sou um homem de fé e que leio, esta parte infelizmente é sinal que me enviam muito dessa porcaria, daqueles emails que dizem que temos que ter paciência uns para os outros e tal e coiso e, a verdade é que eu gosto mesmo dela, já que tinha parado o carro… olhei para ela e fiz uma expressão de interrogação o melhor que consegui só com o olhar. Estava escuro mas ela percebeu à mesma. “Estava morto, não estava?” – “Não sei nem se quer vi!” – “Se calhar não estava… “ – agora olhou ela para mim com um ar de cachorro abandonado e eu, esta é a parte da fé, consegui pensar muito rapidamente que também não haveria de vir mal ao mundo se eu voltasse para trás, escusaria de estar a ouvir a mesma pergunta todo o caminho de regresso. E provavelmente no outro dia também. À saída de Cheganças, no lado direito está uma bomba de gasolina onde invertemos a marcha, é assim que se diz não é? Vestimos os coletes, é um carro de gente pobre mas temos dois, circulamos em segunda velocidade e com os quatro piscas ligados, lá paramos ao pé do bicho. Era recente. O pêlo ainda brilhava, não tinha moscas, não estava inchado e deu para perceber que se tinha arrastado até à valeta onde jazia morto provavelmente por lesões internas. Se de um lado há uma bomba de gasolina, do outro está um parque de um restaurante com alguns carros para vender. Invertemos a marcha novamente, quer dizer, não é invertermos, voltamos a circular no sentido sul-norte, que era essa a nossa rota. A quinta acabadinha de meter, o ponteirito a chegar aos cento e dez e eis que se ouve uma voz: “Ai… eu não acredito…” – olho para ela e tinha a mão na testa – “O que foi?!” – e fiquei surpreso, pensei e tive o bom senso de não dizer nada, mas pensar pensei: o que é que terá sido desta vez? E fui levantando o pé. “ Ó Zé Pedro… eu não acredito nisto…” – “Diz lá amorzinho, o que é que foi?” – senti-me mais calmo porque o meu cérebro continuou a pensar e, seria óbvio que ela estivesse triste com o espectáculo que tínhamos acabado de presenciar. Enganei-me. “Outro!”- foi a resposta – “Hã?” – e fiquei sem palavras. “Ó Zé e era tão pequenino…” – “Não estás a pensar que eu…” – nem me deixou acabar de falar – “Estava sentado à beirinha da estrada.” – “ Ó Sofia não estás a pensar que eu vou voltar para trás outra vez, pois não?” – “Ó Zé! Eu nunca te peço nada! E ele está ali sentado à espera que o venham buscar!” – Travei. Parei. Fiz lá não-sei-o-quê à marcha, ou lá como é que se diz e de volta para Cheganças começa-se ela a lamentar: “Já viste a minha sina? Porque é que eu tenho que ver sempre estas coisas? Parece que me saltam à frente dos olhos!”.

Até a mim me comoveu. Lá estava o animalzinho, sentado nas patas traseiras, na beirinha da estrada, escuro como breu, Sábado à noite, no meio de lado nenhum, num ermo onde se passa a mais de cem à hora, à espera dos donos. É assim que os animais reagem! Ficam no local onde são abandonados pelo melhor amigo durante aproximadamente três dias, aguardando que o venham buscar. Ao terceiro ou quarto dia, começa a busca por água e alimento. Finalmente ao quinto dia, embora não seja muito exacto, varia de animal para animal, parte em busca sabe-se lá do quê. Alguns voltam a casa. Outros morrem. Outros servem de alvo. Aquele que ali vem na parte de trás do carro, nem um ano de idade tem. Abana o rabinho todo contente. Esse gesto quer dizer duas coisas: que está habituado a humanos e a andar de carro.

A seguir a Cheganças temos a Ota. Ainda não tínhamos chegado à Ota quando do lado esquerdo da faixa de rodagem, desta vez sou eu que vejo: “Sofia… olha ali! Do lado de lá.” – “Onde?” – e sem dizer nada fui parando o carro, invertendo o raio da marcha, circulei devagarinho junto ao cãozito que farejava e andava em direcção às habitações da Ota. Desde que o vi até que virei para trás, o bicho andou uns bons metros sempre a cheirar. Olhamos um para o outro, eu sem saber o que fazer, e ela sugeriu que, pelo facto do animal se estar a aproximar de uma povoação, provavelmente a seguir um cheiro, deveríamos seguir a nossa demanda em busca de uma FAT.

E foi assim mais um Sábado à noite. Procurando quem acolha um cãozinho abandonado temporariamente até…

Parece mentira. Três animais abandonados num espaço de… nem sei… dois quilómetros?

Mais um Sábado normal. Quase igual a tantos outros. Acordei cedo, situação normal para quem se levanta muito cedo durante toda a semana e aproveitei logo a calmaria para, em vez de perder tempo de roda de e-mails e busca de emprego, é esta uma das vantagens de ter trabalho, pode-se trabalhar, continuando: preparar melhor, digamos, a semana de trabalho que já se avizinha. Aproveito o Sábado porque de semana não tenho muito tempo. A minha quase-esposa acordou, consegui preparar-lhe o pequeno-almoço antes de ela ir trabalhar, a vida tem destas coisas boas e quando os olhos me começaram a arder parei e fui nadar. Consegui chegar a casa depois da Sofia. Não estava nos planos mas aconteceu. Nem se justifica, eu é que estou de folga e ela é que faz o almoço? Ops. Voltei ao trabalho de tarde, ainda pensei em tirar o pó à guitarra, mas faltou-me o tempo. Fui buscá-la à saída do trabalho. Fomos passeando pela estrada que serpenteia pelo meio da vinha, a noite foi descendo e as luzes do parque de estacionamento do centro comercial iluminaram a cave onde estacionamos. Depois do cinema veio a grande novidade, pelo menos para mim, o que fazer Sábado à noite? Um casal de namorados, com maturidade paixão e condições para desfrutar da vida, lá estavam eles, pé ante pé, em pleno parque de estacionamento em busca de um som, um miar baixinho e aflitivo. Na já encerrada lavagem automática, de dentro do motor do carro lá estacionado, um gatito. Alertei os seguranças, pedi ajuda, a Sofia conseguiu comida nos restaurantes, e lá andávamos nós os dois deitados no chão a tentar apanhar o bicho. Em conversa com os seguranças, que entretanto tiveram que se ir embora, por motivos profissionais, ficamos a saber que começa a ser prática normal o abandono de animais nos estacionamentos dos centros comerciais. Desta eu não sabia! Que raio de gente esta que abre a porta do carro e larga o bicho para o chão, de que é que será que os melhores amigos do animal ficam à espera que aconteça? Que o bicho suba as escadas, peça esmola, vá jogar no totoloto e lhe saía a sorte grande? Que raio de gente que mina esta sociedade, a começar pelos políticos e a acabar nos que pagam a prestações um animal de estimação para depois o condenarem à morte por abandono. Aprendem o exemplo com os empresários que chulam os desgraçados a troco de um miserável ordenado mínimo, o qual é suficiente para pagar a renda de casa em alguns locais da cidade de Lisboa, e após meia dúzia de meses de trabalho escravo, quando por lei serão “estimulados” a pagar melhor, despedem os coitados. É uma vergonha. Quando chegar 2012 vai ser de cá uma razia nesta gente que é obra. Só sobrevivem mesmo aqueles que perceberem alguma coisa de agricultura. É triste. Um cão quando abandonado, sendo atirado fora de um carro, fica três dias, três dias repito, ali no local a correr atrás de todos os carros, na esperança vã, que o venham buscar. Depois a fome é mais forte. A esta escumalha recomendo como animais de estimação: moscas. Vivem só três dias e dá muito bem para andarem a correr atrás delas. Achei engraçado, é a palavra que me ocorre, quando os seguranças foram às suas tarefas profissionais e ficaram ali dois parvos a tentar apanhar um gato.

Passar uns dias com a minha quase-esposa, é efectivamente fora do comum. Um dia destes fomos salvar os touros. Não é coisa que se faça logo à primeira, leva duas ou três gerações. Ensinar as crianças a aplaudir quando um touro anda a fugir de um lado para o outro, de um gajo que vem a cavalo espetar-lhe uns ferros no lombo, depois de uma vidinha tranquila no pasto, não tendo agora escapatória possível, não é de gente que bate bem da bola.

No dia seguinte, fomos alimentar patos. No meio da briga entre Junta de Freguesia e Associação de Moradores, quem fica a perder são os coitados dos patos. Ainda trouxemos uns garrafõezitos de água porque lá a que sai da fonte é muito boa e controlada pelos agricultores.

Dia seguinte peixes. Aquilo não são peixes, são monstros. O que outrora foi um lago de jardim, agora consiste num monte de peixes que se aproximam do meio metro de comprimento, mal deixando água para se molharem. A sério! Aquilo é pouca água para tanto peixe.

A seguir: gaivotas! Não se podem salvar. O comandante da capitania voltou a explicar que devido ao facto dos humanos deixarem o lixo a céu aberto, os passarocos têm onde se alimentar e agora Peniche observa um excesso desta população avícola. Existe equipa de salvamento de gaivotas mas… devido ao excesso não se podem salvar.

Isto é muito melhor que um episódio do National Geographic. Gatos para o dia seguinte; duas colónias em duas terras vizinhas. Até parece mentira o relacionamento que a minha quase-esposa consegue ter com gatos vadios, eles aparecem do nada e vêm comer-lhe à mão.

Agora que entrei de férias, começou ela a trabalhar. Hoje que é um dia muito especial para mim, ainda que não fosse bastava ser feriado, a meio do Verão, tive que ir às manifestações sozinho. Vi nascer o Sol a caminho da manifestação em Fátima contra os maus tratos perpetrados no Santuário para com os animais. E só soube dar o valor de sete horas de manifestação silenciosa, quando vi o dia acabar antes de a noite cair, aos berros, numa manifestação não silenciosa, anti-touradas nas Caldas da Rainha. Ficava em caminho… Além de trazer uma abelha dentro de cada ouvido, a minha voz ficou lá.

Estas mudanças estão para breve. Já vi, em ambas as manifestações, avós e netas juntas.

A minha quase-esposa é conhecida cá na terra pela paixão aos animais abandonados. Não se trata de paixão pela causa, isso pode apenas fazer correr a tinta com a qual se desenha as letras, ou tal como ela diz, não é com conversas que se enche a barrigota aos bichinhos, não é nada disso, é com acção mesmo. O lanche da escola servia para alimentar uns quantos, e mais tarde o dinheiro da senha de almoço, servia para comprar ração para alimentar outros tantos. A paixão dela chegou a esses pontos. As meninas vão crescendo e tornam-se mulherzinhas capazes de fazer mover montanhas e eu sei disso porque o importante numa relação, no meu ponto de ação, não no ponto de vista porque “não é com conversas que se enche a barrigota”, é o que se pode dar, o que se está disposto a contribuir para essa relação todos os dias (e noites) e não o proveito que se tira, assim sendo, ao lado dela, conheci com cada maluco! Deveria dizer maluca mas acho que é um adjectivo que não fica bem no feminino, pode ter uma interpretação dúbia. Existem muitas mulheres por esse país fora que operam verdadeiros milagres, com o seu exemplo vão salvando os animais de uma vida desgraçada, influenciando os vizinhos, vão fundando associações e vão apertando a corda à volta do próprio pescoço. As suas ações ganham admiradores, dois ou três apoiantes e com o passar do tempo, dezenas de animais. Manter um animal, financeiramente, não é comparável à despesa deixada no café durante uma semana, com o que pode custar tratar do bicho durante um mês. Quando o número de animais que estão felizes ao seu lado, e refiro-me a elas todas, de Norte a Sul, de Este a Oeste do país, aumenta, o número de pessoas a ajudar diminui. Toda essa gente que esporadicamente ajudou qualquer coisinha, espalhou o boato, como que uma doença, que fez saber que ali naquele ponto, se recolhe a irresponsabilidade alheia. Quando essa gente irresponsável e sem-vergonha deixa os próprios animais domésticos reproduzirem-se indiscriminadamente, têm como local de escoamento de inúmeras crias, essas mulheres! Que apesar de muitos “nãos” lá vão compactuando com aquele disparate todo. Uma gata que vá à rua, pode ter 30 crias num ano, só para dar um exemplo. Bom, tenho que me concentrar e não escrever a minha revolta. Vá lá Zé Pedro, explica lá o que queres dizer, então vá, é assim: as crias bebés são muito fáceis de dar, hoje vou entregar dois cães. Não concordo com nada disso! As pessoas viram a fotografia do bichinho; ficam com um e iludem toda a gente com essa treta do “gesto tão lindo”, porque no caso de um cão, não é em seis meses que se ensina um humano a levar o cão à rua duas vezes por dia! Um anito pode ser suficiente para ensinar o bicho que quando se vai à rua deve aproveitar para fazer xixi e cocó. Ainda faltam os estragos dentro da casa. Os gatos afiam as unhas em tudo o quanto é sítio, pernas dos humanos incluídas. Cortinados. Sofás. Pêlo, muito pêlo pela casa toda todos os dias. E a crise que foi com os dentes do menino? Então lembrem-se que os dentes dos cães também crescem. E a força, a juventude? Dois ou três anos que o cão que foram salvar em bebé, é o período durante o qual ele parece uma força da natureza! E quando as cadelas andam com o cio? São quase como os humanos. Passado esses dois ou três anitos, vai chegando a altura de abandonar os animais. A paciência dos humanos esgotou. Ora aqui está o que é que eu não entendo! Porque é que adoptam animais bebés? Deve ser como os jornais do metro, ainda que mal comparado, é por serem de graça, só pode! Um cão adulto depois de retirado da rua, quando levado para casa, não faz as suas necessidades no espaço onde habita; é obediente; calmo; meigo e de preferência esterilizado! E quantos mais bebés foram dados, mais animais adultos ficam por dar.

Com os veterinários também aprendi umas coisas engraçadas, sobretudo a causa das coisas. Ao alimentarem os animais abandonados, os humanos contribuem para que estes continuem a ter condições de sobrevivência, podendo assim ter algum sucesso na sobrevivência das crias e por conseguinte da espécie. O curioso, este adjectivo é mesmo o melhorzinho que se pode arranjar, é que são os humanos que os abandonam. Não consigo perceber. E os canis de abate? Outra que não percebo. Então os donos deixam os animais reproduzirem-se à força toda e depois vão entregar as consequências da sua irresponsabilidade para abate, e porque é que tenho de ser eu, um dos poucos que paga impostos, a suportar isto?

Nos países por onde fui passando, tive a oportunidade de relatar parte da violenta situação que se vive em Portugal em relação aos abandonos de animais domésticos. Muita incredulidade foi o que encontrei nos estrangeiros depois de superada a barreira da comunicação. Recordo a namorada do meu pai, que embora eu lhe pedisse para traduzir em alemão correcto e limpinho, ela continuava a não perceber. Curioso, é que não se tratava de acreditar ou não, mas sim de perceber.

Nova triangulação. Senhora A, senhora B e senhora C têm um ponto central comum. Encontram-se à mesma distancia umas das outras e do ponto central, ao qual nenhuma consegue chegar. No meio do triângulo está um gato, recolhido pela senhora “A” que serve de Família de Acolhimento Temporário (vulgo FAT); a senhora “B” faz a divulgação para adopção do respectivo animal; a senhora “C” está interessada em ser amiga do bicho para o resto da vida, da longa vida dele. Em comum? Tem o facto de nenhuma possuir viatura própria. A senhora “C” dispõe-se a deslocar-se de comboio até aqui ao enclave de Montejunto, ora aqui não passa o comboio e no meio de tanta boa vontade não custa nada ser útil: disponibilizei-me para levar o gato a um bom lar. É claro que fazer uma boa acção e divulgá-la não conta. Anula-a. Mas os acontecimentos desse dia são dignos de registo. Descobri que não há nicho de mercado para quem queira arranjar os velocímetros automóveis. A minha viatura marca sempre 110k/h, deve estar avariada! Na A1 até os autocarros expressos me ultrapassam, portanto devo estar a circular a uma velocidade mais lenta do que aquela que me é indicada. O que não faz mal nenhum, que é para ver se o bicho não vomita no carro. Na viagem de volta, o mesmo problema, a mesma avaria, o ponteiro marca 110k/h, o sinal proíbe a circulação acima dos 90, visto circularmos na estrada nacional 2, no Itinerário Complementar 2, é assim que se chama, e deve ser complementar porque complementa a viagem com… com… putas. Não sei porque é que hei-de escrever meretrizes ou prostitutas se nós todos na conversa, o que lhes chamamos mesmo são “putas”. Curioso, tem uma carga pejorativa tão intensa que deixa para segundo plano aqueles que recorrem aos serviços sexuais ali no meio do eucaliptal, na borda da estrada. Seja lá como for aqui os camiões só me ultrapassam nas localidades, onde deixo o meu ponteiro marcar quase 60, que é para que eu sinta que não estou a infringir a lei. Mentira. Escuso de estar aqui com aldrabices porque a verdade é que eu sei onde costumam estar os radares de controlo de velocidade. E não se trata de controlo coisa nenhuma, aquilo é mesmo para multar e pronto! Não sou o único, é normal ver-se um ou outro maquinão a circular dentro dos limites previstos na lei. Até porque convém transitar mesmo é devagarinho porque a qualquer momento os condutores param por causa das putas. Não é por causa das putas, é por causa deles. A vontade deles é que é a causa da paragem. Deveria ser, o facto de se circular devagar, por causa dos animais que por ali se abandonam. Já escrevi aqui tanta vez que vi e auxiliei animais que os humanos rejeitaram nesta estranha lixeira que é o IC2, que até parece mentira. Na valeta em frente a um dos spots de uma puta, estava um cachorro que não terá dois meses. Apenas se via a cabecita a olhar para as rodas dos carros e ouvia-se ganir muito. A mãe, aflita, corria de um lado para o outro. Depois de vestirmos os coletes ainda a tentámos apanhar também a ela mas será que tem mais bocas para alimentar ali no meio do mato? Quando nos fomos embora, a cadela mãe, ficou a uns escassos dez metros do carro a abanar o rabito. Incrível.

O engraçado neste post, é que não será assinado pelo Zé Pedro, como sendo mais uma das suas desventuras mas por mim próprio, visto os acontecimentos aqui descritos terem sido rigorosamente verdade. Verdade científica: as pulgas preferem os cães ao meu carro, por conseguinte uma simples lavagem foi suficiente. Já eu… por outro lado… estou com comichão aqui numa perna, num braço, na nuca… isto deve ser psicológico.

Não tenho sorte nenhuma. Nada, nada, nada… nadinha, até parece mentira. Isto só pode ser uma maldição qualquer, cada vez que penso nesta espécie de diário, é porque me aconteceu mais alguma daquelas aventuras a que eu resolvi apelidar de “é mesmo à Zé Pedro”. Deixei de escrever as minhas desventuras para ver se elas não aconteciam. Não resultou. Sexta-feira dia de provas de aferição de língua portuguesa, como sou de letras vou ser vigilante das provas de matemática na próxima quarta. A escola recomeça o seu funcionamento ordinário às 12:45. À sexta-feira as minhas aulas terminam às 12:35… fantástico… é melhor sussurrar não vá o diabo tecê-las. Aproveito o dia e vou à inspecção com o carro. Chegou a sexta-feira dia de provas de aferição, dia 6, bate certo com um dia de greve na função pública, ó mãe santa! Já sei porque é que estou careca, é de tanto bater com as mãos na cabeça, então esta gente da função pública vai fazer greve com um governo demissionário? Pensei que essa atitude fosse apenas restringida aos funcionários do metropolitano, agora também a função pública faz greve durante um período de gestão governamental? Com o FMI cá a tentar governar a casa? Isto não é para levar a sério. Não pode ser! Isto está um caos. Consequência: tenho que ir ao local de trabalho provar que não estou a fazer greve. E fui, o que implica chegar a casa o mais cedo possível, a hora de almoço. Fixe, pensei, é melhor dar a volta por cima, já que não fico com o dia livre, pelo menos ainda consigo almoçar com a minha quase-esposa. Ele esteve numa reunião para calendarizar uma actividade e chegou por volta das duas da tarde, já estava eu a ficar atrasado para ir à inspecção com o carro. Eu sabia que não tinha luz de matrícula e passei pelo electricista antes da inspecção. O problema não está na lâmpada, está no farol, só para a semana é que virá um novo. Como não é defeito grave fui à inspecção na mesma. Pifou uma luz de stop, só poder ter sido pelo caminho, no electricista estava tudo funcional! Mas há mais: um fole da direcção do lado direito está roto e por conseguinte a perder massa. Isto ainda não fica por aqui, para eu escrever mesmo, é porque tive efectivamente um dia digno de registo. Ora bem, ainda não me apercebi muito bem mas acho que o meu diário tem como personagem principal a minha quase-esposa. Chego mesmo a pensar se escrevo o meu diário ou o dela. Há cinco anos a esta parte que a Sofia vem alimentando uma gata abandonada muito especial, é a princesa. A gata dá-lhe mão, ronrona e segue-a pela rua, desaparecendo da vista de tudo e de todos quando a Sofia se recolhe, foge dos humanos, é sinal de inteligência. A Sofia foi dar com ela debaixo de um contentor do lixo, junto à berma da estrada com uma perna sem pele, partida e completamente imóvel. O local mais seguro e mais barato para a gatinha recuperar é cá em casa. Tratando-se deste animal em particular, nem me atrevi a ser contra, claro que ficou a residir na nossa espécie de marquise. Com o inverno que passou, visto que a gatita tem asma além de sida dos gatos, não teria sobrevivido se tivesse continuado na rua, onde alguém a deixou há uns anos. Até aqui tudo muito bonito. “Parece uma gata com o cio” é expressão que as pessoas que não sabem o que dizem, recorrem quando se referem a uma gaja com vontade de coiso, a dar em cima dos gajos. Ignorantes. Quem pensa que “parecer uma gata com cio” tem a ver com sexo, desengane-se, tem a ver com loucura. Aquilo que a gata fez para chamar a atenção dos gatos, não tem a ver com instinto, não tem a ver com cio, nem com uivos ou urros, guinchos e vampiros a saírem lá da cova, muito aflitivos se o Michael Jackson tivesse sabido disto, hoje o vídeo do “Thriller” seria com gatas em vez de humanos, ou os “Iron Maiden” com “Can I play with madness”, a tortura que por aqui reina em casa esta noite, não tem a ver com sexo, tem a ver com loucura. Isto está um caos. O que vale é que a Sofia é mulher com “eles no sítio” e hoje de manhã foi bater à porta dos vizinhos cá do prédio pedindo desculpas pelo… incidente.

À  noite fui até uma manifestação anti-touradas. Sempre serve para desanuviar um bocadinho e um gajo pode gritar à vontade.

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