Governante de casa alheia

“Candidato-me a governar a vossa casa” 1º Episódio

A vossa família já atingiu um patamar que vos permite terem alguém a governar a casa por vocês.

Candidato-me, em nome da causa familiar, a governar a vossa casa.

Tenho a minha própria equipa, não precisam de se preocupar com nada. Doravante a vossa casa terá a melhor equipa de cozinheiros que um bom gourmet poderá almejar; o melhor room service que as Mil e Uma Noites poderão segredar aos ouvidos dos mais românticos; a equipa de jardinagem terá como arquitecto paisagista em chefe, o próprio Eduardo Mãos de Tesoura; os arrumadores de carros dos convidados serão directamente importados, não da equipa da Ferrari, por excesso de rapidez num serviço que se quer com requinte, mas sim da equipa da Rolls Royce, ou não tenha sido a camisa do pistão do motor inventada por um português, portanto é a prova concreta do nosso patriotismo, o facto de a porta passar a ser aberta pelo lado errado do carro, é uma consequência dos tempos à qual teremos que se adaptar.

A vossa casa ficará em boas mãos.

Na eventualidade de vocês não terem convidados suficientes para ocupar todos os lugares que passarão a ser disponibilizados à mesa da casa, eu próprio me ocuparei de convidar todos aqueles que ousem fazer concorrência.

No melhor interesse desta família, ao jardim será acoplado um magnífico campo de golfe com 19 buracos, sendo o 19º suplementar, fruto dos tempos e das modernices. Passando assim a vossa casa a dispor de condições aceitáveis para receber quaisquer convidados.

Não será por deixar de falar nas coisas que elas não acontecem, na eventualidade da minha singela proposta encarecer o vosso orçamento, não vos preocupeis, pois trata-se de um caso muito simples de resolver. De acordo com as minhas directrizes o que têm a fazer é muito simples: aumentem o vosso rendimento. Esta é uma lei matemática das mais básicas. Não é preciso ir para a universidade para aprender senso comum.

Os meus honorários não são o mais importante considerando que me candidato, embora eu não me sinta um candidato mas sim um voluntário, como que um missionário a defender a causa da vossa família, recorro à voz popular quando diz que “à meia dúzia sai mais barato.” Pois seja feita a vontade do povo, qualquer meia dúzia de ordenados mínimos por mês, será suficiente para remunerar os meus préstimos. Vou usar a viatura que a família ponha à minha disposição, que deverá estar sempre à altura dos nossos convidados, de forma a ser sempre um apelo, um estímulo à presença alheia, para que desta forma o exemplo da vossa casa seja seguido, quiçá, por essa Europa fora! The world is not enough! Às minhas equipas também deverá ser facultado todo o material que lhes permite fazer do vosso lar, o lar que qualquer um gostaria de ter, em vez de se governarem com o que a casa possui, pois se assim fosse, a vossa casa continuaria a ter o que tem tido até agora. E, a partir de agora a vossa casa não será mais a mesma, pois passará a ter os meus préstimos.

Não será por falta de recursos que vossas excelências se privarão da minha gerência dos vossos bens, sei que farão tudo o que esteja ao vosso alcance para que eu vos possa servir, certo da vossa confiança,

o vosso primeiro,

o vosso imediato,

Ao vosso serviço, para governar a vossa casa

Zé Pedro

“Candidato-me a governar a vossa casa e a do vizinho” 2º Episódio

A vossa família já tem uma empregada de limpeza em part-time, embora não fale português, não deixa de ser uma despesa a acrescentar ao orçamento familiar. A solução para poupar dinheiro está em mim. A vossa empregada, digamos antes colaboradora porque para ser empregada vossa, teria que ser constituída uma empresa, contratos de trabalho, descontos e toda uma chatice burocrática e dispendiosa alimentar-se-ia da vossa boa intenção desnecessariamente, portanto chamemos-lhe colaboradora visto que também colabora na ida às compras ao Modelo, embora sejam vocês a pagar, bem entendido. Reparem na família do vizinho. A família do vizinho é do mais normal que estatisticamente pode existir: um casal com dois filhos. Ora vocês, mais sogra menos sogra, mais colaboradora menos colaboradora, encaixam nas estatísticas, assim sendo candidato-me a governar a vossa casa em nome da poupança. Se não, vejamos: já tenho a melhor equipa de cozinheiros aos quais não fará diferença nenhuma cozinharem para mais meia dúzia de bocas; o melhor room service também ao vosso dispor; uma equipa de jardineiros digna de um filme e até o vosso carro fica bem entregue nas nossas mãos, já existe ao vosso dispor um serviço de transportes públicos, embora privados, sempre existem. Além de não ser necessário contratar mais ninguém, podem dispensar quem já tem ao vosso serviço e usufruir do melhor que o vizinho pode ter.

No melhor interesse destas famílias, a vossa e a do vizinho, tendo em conta que o do vizinho já disponibiliza todos estes serviços que acabámos de enumerar e mais um campo de golfe, o vosso terreno será alvo de uma remodelação com vista a rentabilizar todo o vosso investimento a curto prazo. Iremos construir uma piscina de água salgada. Permitir-vos-á a prática de desporto náutico de lazer e os meus convidados dos vossos vizinhos poderão aproveitar o pacote de ofertas que disponibilizaremos a quem nos visita. A empresa que a construirá será a de um conhecido construtor da nossa praça, e, não vos precisareis de preocupar com a manutenção da mesma pois já entramos em negociações, casos sejamos aceites por vocês na governação, não vejo porque não, com uma empresa de manutenção de piscinas de água salgada espanhola que apresenta uns preços muito competitivos em relação aos franceses que actualmente dominam o mercado. Assim sendo, é dinheiro que fica em caixa.

A nível orçamental, é uma questão de fazer as contas: serão mais famílias a pagar por um serviço que até agora lhes estava vedado, ficando mais barato o usufruto do mesmo; verificar-se-á um aumento de oferta de serviços, diminuindo custos; as festas serão alternadas ora na casa de uma família, ora na casa de outra, o número de convivas irá aumentar impreterivelmente!

Os meus honorários não sofrerão qualquer aumento, pois candidato-me em nome da poupança. Tanto eu como as minhas equipas já somos renumerados pelo nosso trabalho e empenho, como está em causa o bem-estar familiar, nós aceitamos de bom grado que vocês participem em igualdade com a outra família nas despesas, colaborando assim na receita da causa comum.

Certo de que farão tudo o que esteja ao vosso alcance para que nós possamos poupar por vocês, em tão conturbados tempos.

Ao vosso serviço, para governar a vossa casa e a do vizinho

Zé Pedro

E vocês podem continuar a fazer a vossa vidinha normalmente.

“Futebol vs Religião” 3º Episódio

Isto de andar a governar a casa dos outros, tem que se lhe diga. E como não podemos agir como se não fosse acontecer, lembro-me do meu instrutor de condução que dizia: “Agora naquela curva vai aparecer um carro de frente!” e aparecia mesmo, é preciso antever o futuro, prestidigitar, não ousaria dizer jogo de cintura porque além de ser efeminado, as cinturas femininas hoje em dia já não deixam espaço à imaginação e a minha já conta com uma reserva prudente de nutrientes, aliás um homem na minha posição não pode descurar o aspecto físico e ninguém quererá a governar a sua casa alguém que aparente passar fome, portanto e sem mais delongas proponho que se institua um feriado para os adeptos do Benfica. Não para todos, apenas para os que tenham as quotas em dia. Senão vejamos: é malta que faz investimento naquilo; assistem aos jogos religiosamente todos os Domingos; quando podem (e às vezes quando não podem – ah malta valente!) pagam os bilhetes do jogo, o aluguer do autocarro, fazem investimento em bifanas, couratos, grades de minis, bandeiras, bonés e cachecóis, não descurando a preparação no dia e na noite anterior. Como se não bastasse andam um ano inteiro naquilo o quando chega o dia “D” ou “V” de vitória, tem que ir para a cama cedinho porque no outro dia, é dia de trabalho. Ora almejemos uma sociedade mais justa, mais equilibrada, falemos de férias pois nem só de trabalho vive o homem. No Natal é feriado, está errada a denominação pois o que é efectivamente é dia santo, com direito a férias, subsídio e tudo. Para usufruir de tal privilégio não é necessário pagar quuotas; não é necessário ir à missa todos os domingos, muito menos religiosamente, o sofrimento e a tortura são opcionais, pois se não se cumprir as regras de confissão e trabalho comunitário, a coisa até vai na mesma. A nível de investimento resolve-se o assunto com uma ida ao Santuário de Fátima. Parte dos lucros dos dinheiros gastos nessas andanças reverte a favor de outro país: o Vaticano, mas nada podemos fazer para o evitar. Embora devêssemos pois não contribui com a sua quota parte de dinheiro para subsidiar os países mais pobres. Os adeptos, ou melhor os sócios do Benfica tem a vida mais complicada, pelo menos financeiramente porque para acompanhar a procissão é precioso pagar o canal de televisão privado que transmite os jogos. Deslocar-se lá, é um verdadeiro combate hercúleo! É o verdadeiro combate à crise!

Para os mais fervorosos há sempre uma ida a Jerusalém. Coisa que se resolve de uma assentada e com direito a diploma. Mais lucros fora do país. Para os mais religiosos que queiram assistir a um campeonato fora de portas, terão que se deslocar pela Europa adentro e mesmo com empresas “low cost” a operar no mercado, não se avizinha tarefa fácil. Os riscos de atentados, roubos, doenças com, com… mijadelas fora do penico e outras parvoíces que tais são inerentes em ambas as demandas.

Quem não se contentar com uma missa ao Domingo, pode sempre assistir de semana e não paga mais por isso. O futebol também apresenta umas opções secundárias com outras formas de organizar a competição e até divisões em categorias menores.

Se os adeptos da religião não ficarem satisfeitos com a ida a Fátima ou a Jerusalém, podem sempre dar mais um saltinho a Lourdes ou a Santiago de Compostela. Os fanáticos do Benfica terão que se contentar com um estádio ou então mudar de credo e assim peregrinar noutro clube rumo a outro estádio. Duvido muito que exista alguém vivo que tenha ousado tal coisa. Os fans amigos do passeio, de laurear a pevide, podem sempre mudar de doutrina e dar uma saltada até Meca.

Na busca dos seus intentos, a coisa é mais rígida no futebol. Quando não alcançados os objectivos, crucifica-se um profissional e campeonato perdido é o mesmo que treinador substituído. Em casos mais extremos até mesmo o plantel se pode substituir. Na equipa da religião, os prevaricadores passam a jogar na sombra. Querendo podem sempre espreitar o sol jogando a carta do arrependimento. Estes não se substituem, não havendo assim perda de riqueza. No futebol é um esbanjar de dinheiro que é uma coisa parva! Cada um que entra na hierarquia custa uma fortuna. Quanto mais alto se sobe, menos se ganha. No clube católico verifica-se o contrário. Claro que uma desventura financeira destas tem os seus custos. Os do Benfica estrafonam em jogadores, putas e aviões, que não sobra nada para pagar impostos. Os da religião católica não pagam impostos. Os das religiões menores, tal como os clubes pequenos, pagam.

“Não há Bela sem senão, diz o povo e com razão.” Os do Benfica combatem a crise, fazem investimento mesmo que seja apenas em grades de minis (agora a Sagres poderia subsidiar qualquer coisita para a minha campanha em vosso favor) e o que é que ganham com isso? Nada. Os da outra equipa são treinados para fazer contenção e o que é que ganham com isso? Férias e subsídio. “Não há duas sem três” e pela Páscoa, na segunda volta, vai mais um feriadinho e umas feriazinhas de Páscoa. Os gajos da bola, quando girar o carrossel, habilitam-se a esperar, aplaudir e desesperar por uma nova e almejada vitória, que apenas Deus sabe quando poderá chegar. Portanto eu, que não pratico o referido desporto, não porque não goste mas sim porque estou ocupado a governar a vossa casa, que mantenho o meu lugar cativo na capela da aldeia, reivindico aqui um dia de folga para os adeptos sócios pagantes de um clube, por cada vez que a sua equipa ganhe um campeonato. Meus caros concidadãos, em nome da justiça social, que isso da Justiça Divina já são contas de outro rosário, explano as minhas ideias para que todos possamos usufruir de uma cidadania em plenitude.

e gozar a vida!

do vosso p’ra sempre,

Zé Pedro “Primeiro”

“Candidato-me a governar o vosso prédio” 4º Episódio

Sábado de manhã! Ah! Sabe bem um gajo ter trabalho… Sábado de manhã, sábado de manhã não será bem assim… é o mais sábado de madrugada. Começar a desligar os despertadores todos os dias às cinco da matina cria hábitos biológicos que não se desligam pura e simplesmente nos dias em que teoricamente se poderá dormir um pouquinho até mais tarde. O fim-de-semana é uma das vantagens para quem trabalha, como sei que daqui a duas luas tenho trabalho, aproveito os dias mais descansado. Não obstante, o sábado de manhã deve começar-se pela educação física. Ora bem ginásio: mensalidade; jóia; equipamento e disponibilidade durante a semana que justifique tamanho investimento, não tenho. Poder-se-á concluir que as idas ao ginásio não são para quem quer, são apenas para quem pode. Uma corridinha pelo meio dos pomares, está à disposição como alternativa. Se calhar vou assinalar aqui um parágrafo, aproveitar para me deixar de tretas e passar pela costureira para que ela me faça os arranjos nas calças, aproveito e passo pela carpintaria, avizinha-se o subsídio de férias e o armário da cozinha, especialmente as dobradiças que já não funcionam como deviam, precisam de intervenção técnica. Se bem o pensei, melhor o fiz. Passar pela costureira passei, ela estar aberta, apesar do horário assim o dizer, é que não estava. Idem idem, aspas aspas na carpintaria; passar passei, mas parei e porque em vez do horário, pude ler um número de telefone para o qual telefonar, telefonei, mas o que eu queria mesmo era falar com alguém e não ouvir a voz da gaja do atendedor de chamadas. Ao fim da rua, fica situado um prédio grande. É lá no rés-do-chão que é o ginásio. São quase dez da manhã e a porta de entrada do mesmo parece uma passerelle para aspirantes a gajas boas. Além do ginásio, está aberto ao público uma papelaria daquelas que vende um monte de jornais, muitas revistas de gajas desnudadas e de sonhos e a sorte grande. Para a qual está uma fila enorme! Também já não se pode dizer bicha. Finalmente um estabelecimento aberto que me atende, estava quase lotado, entrei e pedi um café. Encontrei a costureira que estava lá a tomar o pequeno-almoço e não perdi a oportunidade de a questionar sobre o facto do horário afixado dizer que a loja está aberta, inclusive ao sábado de manhã. Respondeu-me que sempre assim foi, o patrão sabe que ao sábado de manhã é quando ela faz a limpeza de casa e não abre da parte da tarde, e que se ele, o patrão nunca mudou aquilo, foi porque não quis. Sugeriu-me que passasse lá durante a semana. A resposta que dei foi simples: “De semana não tenho tempo.” Dito isto, eis que entra o funcionário da carpintaria. Não perdi a oportunidade, blá, blá, blá, copy past do que está escrito acima sobre questionar porque carga-de-água é que estão fechados, ao que ele me respondeu que de semana dão uma hora ao patrão, saindo às seis da tarde em vez de saírem às cinco, para que possam ficar livres ao sábado de manhã que ele aproveita para ir dar uma voltinha de bicicleta. De tarde não trabalham. Disse-me para passar lá de semana, respondi-lhe que “De semana não tenho tempo.” É mais rápido escrever isto do que estar com aquelas tretas do blá, blá e copy past. Bebi um abatanado e não um café, como já vem sendo meu apanágio. Tentei conversar com o gajo do café mas ele ainda se queixou mais do que eu, diz que o negócio está mau. Incrível! Aquela m*#&* estava cheia! “Ó homem mas com isto cheio, como é que você se consegue queixar?” – tive que lhe perguntar.

Ele explicou-me, bem explicadinho, e se me estava ali a explicar era porque as mesas estavam cheias, os clientes atendidos e não arredavam pé para que dessem lugar a mais quem queira gastar dinheiro, que aquele prédio tem dezoito andares e dois anexos.

Depois da explicação do homem do café, fui para casa reflectir. Se a Associação dos Amigos do Anexo tem lá um emigrante ilegal, porque não o contratou, ele está lá a desenrascar, pagam-lhe mal e, tendo eu preconizado que se for contratado para governar as casas dos vizinhos, passarei a dispor de uma equipa especializada para fazer esse serviço de restauração. Ora os sócios da A.A.A. continuam a pagar as suas quotasinhas, fica tudo dentro da lei e até o desgraçado poderá almejar alguma estabilidade.

“Não há uma sem duas” e no outro anexo ao prédio de dezoito andares podemos ir beber um copo à Associação dos Amigos do Anexo Maior. Que diverge da anterior pelo facto do emigrante ilegal que lá trabalha, ser do sexo feminino, livre e descomprometida.

Ora 18 andares, mais 2 anexos; 10 apartamentos por piso; a média das famílias que aqui habita é de um casal com dois filhos, mais sogra menos sogra, portanto tenho quem possa sustentar os meus intentos. E até já sei onde posso cortar nas despesas! A equipa privada de limpeza de escadas dos últimos três andares é para acabar; aquelas que se revezam a limpar os restantes e que se fartam de reclamar porque as vizinhas nunca fazem a parte delas, é para acabar com isso também; aqueles malucos das limpezas que só fazem janelas exteriores, para acabar; os turnos para fazer de porteiro, os seguranças privados, os condomínios que só metade desta gente paga e mesmo assim metade das vezes, é para acabar com isso tudo e instalar aqui umas regras como deve ser. Portanto, candidato-me a governar o vosso prédio, para vosso bem, porque vocês são uns esbanjadores e não cumprem com as vossas obrigações para com os vizinhos.

Já estou a ver: lar da terceira idade lá em cima, tem uma vista melhor e não precisam tanto de se deslocar cá a baixo, podem-se sacrificar pelo bem comum. Cá em baixo os putos. Criar-se-ia umas Actividades Extra de Faz-de-Conta para depois da escola.

Já estou a ver o futuro! Candidato-me a governar o vosso prédio e depois poderão usufruir das regalias deste nosso cantinho à beira da estrada criado por mim. Um campo de golf e uma piscina à disposição. O que é que podem querer melhor? Só se for umas raves aí no prédio? Também se arranja.

Pois é, estou seriamente a pensar em deixar de tentar educar os filhos dos outros, e, dedicar-me a uma causa mais nobre: governar a casa dos outros.

Até vou mudar aqui a minha despedida

Ao vosso serviço

Zé Pedro I

(fica bem o “I”, não fica?)

“A desorganização do prédio dos outros” 5ºEpisódio

Fiquei efectivamente preocupado com a situação que se vive naquele prédio de dezoito andares e dois anexos. De manhã a caminho do trabalho dei por mim a pensar como é que seria possível fazer a manutenção de dezoito andares e dois anexos, se nem todos os inquilinos pagam o condomínio, pior ainda, a metade que paga, nem sempre paga todos os meses. Uma viagem de expresso e outra de metro, não me permitiu chegar a conclusão nenhuma, fiquei apenas triste. Pela voz das crianças ausculta-se a verdade da nossa realidade social e durante o dia fui tentando compreender como é que seria a organização das gentes que moram no prédio. É uma desorganização organizada. Por mais amalgamado que esteja aquilo tudo, funciona. Funciona porque é impreterível que assim seja, a vida continua apesar de ser ou não justa. Os dias sucedem-se uns aos outros e “the show must go on” quer se goste ou não. Eu tenho mesmo que me candidatar a governar o prédio daquela gente, é que os que reclamam da situação, os que se queixam a dizer que a coisa está má, fazem-no encostados ao balcão do café, ou na Associação dos Amigos do Anexo, ou ainda na Associação dos Amigos do Anexo Maior. Fazer alguma coisa, não fazem. Até já sei que estátua é que vou mandar por no pátio central: o Zé Povinho! Pensando bem, se calhar é melhor não o fazer. As pessoas gostam mais daquelas coisas que não reconhecem utilidade absolutamente nenhuma e dão despesa. Um fontanário! Fica ali bem, tem água a correr e a fazer barulho, é precisa manutenção, o que gera postos de trabalho e aproveito para renegociar o contrato com os gajos das piscinas, aumentando-lhes a tarefa.

Na viagem de volta, não pude evitar voltar a pensar no assunto. Realmente tudo se passa naquele prédio: os andares mais em baixo estão subarrendados a estrangeiro, uns passam recibos, outros não, há quem pague contribuição, condomínio, outros nem por isso, alguns empregam o próprio senhorio, vive-se uma situação caótica! Nos andares mais acima vive quem não faz nada, queixam-se que é muito difícil viver à custa do subsídio, mas as queixas são feitas ao balcão dos sítios do costume. Subindo por aí acima chegamos a uns andares nos quais os apartamentos virados para o mar estão sobrelotados, gente, gente e mais gente, aquilo é tudo em cima uns dos outros. Situação que não seria problemática se no lado oposto não estivessem os apartamentos às aranhas e ao pó. Continuamos a subir e a situação continua parecida mas agora tudo misturado, toda a gente do lado do mar com malta a queixar-se de que o subsídio não chega, habitantes que não pagam, que não querem fazer nada, mais uns poucos que se escavacam a trabalhar para sustentar luxos dos outros. Acima vivem uns velhotes que conseguiram amealhar ao longo da vida e que vão colaborando financeiramente com todo este circo. Depois há ali uns quantos andares suspeitos, fechados aos vizinhos, com portas blindadas e rebitadas, ninguém sabe o que se passa lá dentro, nem no café se ouve dizer coisa nenhuma. Lá vai escorrendo que os apartamentos são muito luxuosos, uma jovem por outra já por lá passou para fazer limpeza durante a noite e sempre se vai ouvindo um zum-zum. Muito baixinho porque pode não ser verdade. Nem o elevador lá pára.

E quando eu já começava a almejar soluções para aquele caos, como por exemplo realojar os velhotes que moram nas águas-furtadas nos anexos, assim se eles precisarem de por algum motivo vir cá abaixo, já cá estão, visto terem mobilidade reduzida e morando no anexo não chateavam ninguém e, lá no primeiro andar a contar vindo do céu, com umas obrazinhas, transformávamos aquelas águas-furtadas em “penthouses” caríssimas que seriam bem vendidas “enquanto o diabo esfrega um olho”… eis que a viagem chega ao fim.

Vou seriamente pensar nisso, magicar um plano e candidatar-me a governar este prédio. E pronto, pensei que o meu dia a pensar neste assunto já tivesse acabado, qual quê? Dei por mim na internet a pesquisar como é que foram arranjadas soluções para prédio onde se viviam situações análogas, e é só copiar.

Zé Pedro

“Fugir aos impostos e reduzir o pessoal” 6º Episódio 

Estive a falar com o Sr. Humberto Gaivota. Deixei-me daquelas coisas de educação física e fui tratar do que é realmente importante. Conversa puxa conversa e o café (abatanado! Essas coisas de um cafezito a troco de uma pequena fortuna, não são para mim…) foi apenas a primeira bebida. O Sr. Humberto já é porteiro daquele prédio vai para trinta e tal anos e faz questão de, perante tão ilustre conviva, eu, imagine-se?!, demonstrar que conhece bem todos os cantitos e sabe onde se escondem as coisas boas da vida que realmente valem a pena, bebemos então um bagacinho servido directamente de um garrafão de palha. Não era um garrafão qualquer! Aquele é de três litros e já está menos de meio! Como era sábado de manhã e eu tenho interesse em servir aquela gente governando-lhes o prédio, resolvi ir até lá, conhece-los melhor. Muito simples, passei pela AAA e resolvi entrar para tomar um cafezito. Queria que assim parece-se porque na verdade a minha ida até ao bar da Associação dos Amigos do Anexo foi propositada e deu os seus frutos. A conversa com o empregado de balcão começou com o mais simples e banal dos quebra-gelos: a crise. Daí a falarmos dos preços dos telefonemas para a Rússia, foi um parágrafo. Quando estava a contar como é que se foge aos impostos involuntariamente, chegou o Sr. Humberto Gaivota, o porteiro. À conversa, continuei explicando o melhor que pude que tenho dois telemóveis acoplados a redes diferentes, para que quem me quiser telefonar não tenha a desculpa de que para uma rede diferente da sua, é mais caro. O empregado do bar é de Leste, o Sr. Humberto Gaivota, o porteiro, não deu parte fraca, portanto aquela do “acoplados” só me ficou a fazer diferença a mim. Todo o restante raciocínio foi muito fácil de explicar, aliás tenho que demonstrar fluência na linguagem, ordenação de ideias e conhecimento de causa. Foi o que fiz relatando que o “91” é de carregamento voluntário e o “96” de facturação. As regras no “91” são simples: carrego quando e quanto quiser; no “96” pago um mínimo de dez euros mensais, aos quais acresce IVA, quer os consuma ou não, caso exceda esses dez euros, não fico impedido de fazer mais telefonemas, posso continuar a telefonar a meu bel-prazer que a empresa do “96” se encarregará de debitar na factura os meus consumos, aos quais acresce IVA. Ora o que acontece na fuga aos impostos, e aqui nem se ouvia uma mosca, é que quando carrego o “91” com dez euros, tenho mesmo 10€ de crédito disponível, carrego 10€ gasto 10€, porque a máquina do multibanco diz-me que para efeitos de factura tenho que saber o número e se eu fizer isso, eles descontam-me; então não faço, prefiro ter 10€ para gastar. Pagar por pagar, já pago no “96”! Aos quais os 10€ de pagamento obrigatório acresce IVA; ou seja: eles dizem que tenho que pagar um mínimo de 10 euros, certo? Mas é mentira, porque pago 10€ mais IVA, o que faz doze e tal. E se fizer mais chamadas, porque faço, então vem especificado na factura quanto pago por cada chamada e é anexa uma parcela com a percentagem de imposto a adicionar ao total do “estrago”. Ora pagar impostos é uma coisa opcional. No caso do “96” dão-me a entender que a eles só pago 10€ (no mínimo) e que o restante que pago, não é a eles; não é ao Estado; não é minha obrigação; não é de lei; não é meu dever; não é culpa minha… é uma coisa que tem como sigla IVA e fazem como o outro de lavar as mãos. No “91” não perguntam descaradamente, são mais subtis: “Se quiser factura…”e pela expressão que se ia desenhando na cara deles, apercebi-me que não estava a ensinar a missa ao padre. A minha intenção era apenas quebrar o gelo. Não preciso de me enganar a mim próprio, aliás como candidato a governar o prédio alheio até devo ser bastante honesto para comigo. Ora, e isto em jeito de hipotético-inferencial, se eu disse coisas que toda a gente já sabe, cá está o hipoptético-inferencial, hipotético de hipótese e inferencial de inferência que significa conclusão, dedução, consequência, tipo: se – então, recebi informação que toda a gente já sabe também. O Sr. Humberto Gaivota, o porteiro, entra às nove e sai às quatro, a longevidade já lhe permite um horário mais reduzido; a confiança com os inquilinos tolera a entrada ao serviço mais ou menos por volta das dez horas, mas como ele próprio afirma, não é preciso abusar da confiança das pessoas, por isso ele faz questão de chegar sempre antes das dez; e o estatuto social já consente que usufrua de hora e meia de almoço ao qual acresce sempre uma meia horazinha para ir beber um cafezinho e assim familiarizar-se com as situações dos inquilinos. O seu serviço de porteiro está assegurado por uma equipa rotativa que permite ter alguém sempre presente na portaria. Lembra os anos em que tinha uma cama articulada no vão da escada, onde quando o cansaço era muito, se permitia um ligeiro descanso. Ao fim-de-semana fazia mesmo horas extras pernoitando ali, para que quando os bon vivants chegassem a casa não se sintam abandonados pelo lar, estaria sempre alguém para os receber e fazer sentir importantes “O que é sempre bom quando se chega a casa.” – remata. “Hoje em dia as coisas são diferentes” – continua – “toda a gente já tem um comando automático da porta, que quando accionado chama automaticamente um dos elevadores para o átrio.” – nem sei descrever a expressão que o homem fez para dizer que “as pessoas hoje já nem dão os bons dias ao porteiro” – foi assim uma coisa de esticar o queixo e o lábio de baixo e as sobrancelhas! Na segunda volta do garrafão já me tinha contado que tem uma excelente equipa a trabalhar com ele. Abandonámos o garrafão e agarramo-nos às minis. O homem tem aquilo mesmo muito bem organizado. Três turnos. Das oito da manhã às quatro da tarde, um; das quatro da tarde à meia-noite, outro e da meia-noite às oito da manhã o último turno. Queixa-se que o facto de ser o chefe lhe causa grandes transtornos. Tem noites em que não consegue dormir. É que para ter um serviço a funcionar com toda esta excelência os seus três funcionários não tem dia de folga. Ora isso não pode ser de maneira nenhuma. As pessoas tem direito a ter dois dias de folga, ainda por cima quem trabalha por turnos, aos fins-de-semana inclusive. Precisava de empregar mais gente, mas a administração do prédio, ou lá os condóminos ou que raio é, não o deixam pôr mais ninguém. Ele agarrado à segunda mini segredou-me que se isto continuar assim, pensou seriamente em ser ele a fazer as folgas dos funcionários. “Aliás temos que ser uns para os outros.” – dizia. Já tem aquele horário das nove às quatro, de segunda a sexta há muitos anos e custar-lhe-ia muito mudar, então isso tem-lhe tirado horas de sono. O filho prefere fazer o turno da noite, ele não se importa nada com isso porque é de maneira a que não fica em casa durante a noite a fazer barulho; o genro queria fazer o da manhã, mas ele não concorda porque se ele fizesse o da manhã, a filha teria que acordar cedo para levar os miúdos à escola, também não pode fazer o da noite porque é um homem casado e alguém tem que dormir com a mulher, assim sendo faz o da tarde que é o melhor para ele; o sobrinho faz o da manhã que é para que possa ajudar o pai no negócio durante a tarde, em vez de dizer que não tem tempo. O que ele não sabe é a minha proposta para alterar tudo isso. Voltei para casa já com a cabeça meio zonza e tentei por as ideias em ordem. Nem é preciso pensar muito. Se despedir um ou dois dos porteiros, o trabalho aumenta para o desgraçado que ficar empregado. Ora bem, requalifico-os a todos para fazerem algo de útil no prédio e o Sr. Humberto Gaivota, o porteiro, vai tirar um formaçãozinha na óptica do utilizador, para lidar com a informação do programa informático que chama automaticamente o elevador quando é accionado o botão do comando da porta de entrada. Assim, caso aquilo dê sinal de que vai avariar, o Sr. Humberto Gaivota, o porteiro, será notificado no telemóvel por uma mensagem, alertando para a avaria e ele deverá chamar os técnicos de manutenção e fazer o trabalho de abrir a porta e chamar o elevador enquanto a avaria não for reparada. Ficará contactável durante todos os dias, vinte e quatro horas por dia, não se podendo ausentar sem me notificar. Os ex-porteiros poderão substitui-lo. Portanto se ele falhar nas funções… há mais gente que queira o trabalho. Por requerer total disponibilidade por parte do porteiro, este será isento de horário, devendo apenas ser visto devidamente fardado um par de vezes por dia junto à porta. Agora vou tomar um banho, beber um café e fazer o almoço antes que a minha quase-esposa chegue e me encontre neste estado meio cheio, meio vazio…

“Segurança Faz de Conta” 7º Episódio

Fiquei a cismar no que deveria fazer aos três desgraçados que teriam que ser requalificados. Bom, o melhor é aumentar-lhes o número e dar-lhes dois dias de folga por semana. É uma maneira de agradar a toda a gente: segurança privada! Passam a envergar uniforme, sem ter de se preocupar com o que vestir e sem ter de se preocupar com o que fazer, basta andar de um lado para o outro e toda a gente gosta de ver um homem fardado com um pouco de atitude, e, se passar pelo ginásio pode ganhar algum… aspecto físico. Todos ficam contentes. Um estágio de três dias com formação intensiva a ler manuais, fazem-nos passar um primeiro teste: saber ler. Autoridade real e concreta, não têm mas as pessoas gostam de os ver a cirandar por ali, sentem-se mais seguras, então são eficazes. Os resultados das estatísticas apresentam valores mais baixos no índice de furtos quando os seguranças estão presentes, conclui-se que são efectivamente uma fonte de rendimento. Aparentemente não servem para nada, mas é só aparência, pois se as estatísticas indicam que resulta, é porque resulta! Então aumentemos-lhe o número. Os lojistas depois logo pagam o que for necessário. As mulheres andam mais felizes e não fica instalada a política do medo. Isso apenas se faz sentir no sector privado. Aqui com o aumento de postos de trabalho, toda a gente fica mais feliz, é uma forma de combater a tal da crise. Vou fazer as contas para ficar a saber quantos é que o prédio tem de empregar para que se possa verificar uma salutar rotatividade nos turnos e todos gozem das respectivas folgas previstas na lei. (muito importante: depois de feitas as contas, tenho que subtrair um elemento, que é para… não ficar tudo perfeitinho. Afinal estamos em crise e as pessoas podem reparar.) Regra número dois: os candidatos não podem ser familiares do Sr. Humberto Gaivota, o porteiro, que para não se sentir mal, não quero cá ninguém maldisposto, nem com receio que o seu posto de trabalho seja extinto, poder-me-á servir de relações públicas pessoal. O relações públicas pessoal terá como função conversar comigo sobre se está tudo bem e tal, não sendo necessário apresentar um relatório formal, nem sequer escrito, basta uma simples conversa para me manter actualizado da situação, não quero que o homem se sinta intimidado e pense que vai ter de aprender a usar um computador para fazer relatórios, nada disso! Um bom sítio para tal acção seria à mesa. Já sei! Convido-o a ir almoçar comigo junto à piscina ou ao campo de golfe! E ainda ponho lá mais um par de seguranças. Como são assim casas de gente fina com convidados muito elitistas, será melhor que as seguranças sejam do sexo feminino, dá outra imagem.

 “Centro Comercial Vital” 8ºEpisódio

Uma bela manhã resolvi ir ler para o Centro Comercial Colombo. O livro era “A caverna” de José Saramago. Foi giro, ainda não eram dez da manhã quando cheguei, e tal como a passagem que lia, o dia começava no centro comercial: as vozes que se faziam ouvir pelo altifalante, desejavam os bons dias a quem por lá estivesse, era só eu e alguns funcionários. As montras estavam escondidas atrás de portões metálicos. Eram reveladas enquanto estes subiam ao som de um mecanismo que poupa o esforço humano e eu pensei: ora aqui está uma coisa fundamental, vital, essencial diria mesmo, para o prédio dos outros, aquele dos dezoito andares e dois anexos, o qual eu me proponho governar; um centro comercial!

Situado nos andares intermédios, mais ou menos a meio, um piso completo com tudo o que é essencial. Todos passariam a ter à disposição tudo o que precisam e a baixo preço: refeições económicas e estrangeiras, o pessoal gosta de pratos com nomes ingleses, em vez de carne picada e triturada com osso, nervos, tripas e um pouquinho de pimenta para dar sabor, poder-se-á chamar de hamburger gourmet; ou pão com queijo e chouriço à italiana, tudo muito bem esbolachado e pizzado; muitas bebidas com gás, para que todos tenham a sensação de satisfação, de barriga cheia e os possamos ouvir arrotar disfarçadamente para seu próprio gáudio e alívio, e copos grandes cheios de gelo. Gelados para os cachopos mas com promoções irresistíveis que servem de desculpa para que toda a gente coma um. Sei lá, trivial, simples, o que toda a gente gosta! Uns poucos de cinemas caríssimos, quando já se tem a TV Cabo em casa, mas aos quais toda a gente vai com a roupa do domingo que é para parecerem mais finos, esse género de coisas assim. Um centro comercial muito colorido, com muitas janelas para que as pessoas possam ver o que já viam antes, onde se sintam bem, onde se sintam gente. Isso é bom para o ânimo. Se for preciso até fazemos lá uma tourada “in door” para ficar na história. É claro que o meu interesse é fazer sair as pessoas do prédio, da crise. Sempre foi esse o meu propósito. E será. O interesse público. Estou disposto a comprar todos os apartamentos desse piso, evidentemente que como qualquer bom estratega irei ser coadjuvado por capital estrangeiro, devemos atrair divisas externas para fomentar a nossa economia, as hipóteses de saírem da crise, serão estendidas primeiramente aos inquilinos do piso imediatamente abaixo do centro comercial, para que este possa ser utilizado como armazém e, o piso imediatamente acima do centro comercial, será adquirido por nós, para que, num futuro próximo, na eventualidade de uma possível expansão do mesmo, quem detenha a posse do piso, não inviabilize o progresso. Combateremos também o desemprego, fazendo tudo o que esteja ao nosso alcance para que, todas as lojas, tenham ao seu serviço, pelo menos um colaborador que resida no prédio, ou nos anexos. Poderemos também aceitar, se o CV for bom, caso o patrão tenha passado uma boa carta de recomendação e se tiverem menos de vinte e cinco anos de idade, bom aspecto e o umbigo de fora, alguns dos antigos empregados das lojas do rés-do-chão. Eventualmente. Se calhar é melhor começar já a explorar o andar de cima… Um elevador privado, com segurança disfarçado de porteiro, com acesso restringido a uma ou duas pessoas de cada vez, para que num escritório decorado de forma a apelar ao sigilo, se possam beneficiar os clientes com cartões de crédito azuis, verdes, às bolinhas… de todas as formas e feitios, para que não falte nada a ninguém.

Na eventualidade de ter pouco sucesso, resolvemos o problema muito facilmente: cobramos entrada. Caso tenha demasiada gente, cobramos o dobro do que já cobrávamos. Assim garantimos o retorno das divisas estrangeiras que nos auxiliaram a sair da crise.

É por estas e outras que eu sou uma mais-valia para governar o vosso prédio.

“Vai-se andando… obrigadinha!” 9ºEpisódio

Fui visitar a minha mãe e caí na asneira de perguntar a uma senhora, então e tal como é que têm passado? De volta a casa perguntei a outra, então e que tal como é que correu? Não ficando satisfeito, perguntei a outra, então como é que foi? O cavalheirismo não morreu! Ainda perguntei a outra, então o que é que é feito de ti? Tenho mais amigas, felizmente, mas só estas quatro, já me dão água pela barba. A primeira senhora já passou, por um par de anos, a barreira dos 60; a segunda, a dos 40 e pouco; a terceira, a dos 40 também mas em muito; a quarta, é a mais novita, a dos trinta. A primeira senhora, já reformada, mora sozinha numa aldeia na zona centro do país, já a atirar para o interior. De manhã caiu na banheira e presume que deve ter ficado desmaiada durante muito tempo, pois quando “deu conta de si”, para usar uma expressão dela, estava tudo molhado, a água a correr e o sangue já tinha estancado. Quando foi atendida no posto médico da aldeia, para o qual se dirigiu a pé, por volta das 10 da manhã, o médico mandou-a ir ao consultório dele, particular, da parte da tarde, para que ele a possa ver “como deve ser”. Escusado será dizer que o consultório particular é pago. Fiquei arrependido de lhe ter perguntado como é que estava, por um lado, por outro, a senhora até desabafou. A segunda diz que ia morrendo com dores, até se despediu e rezou pela saúde dos filhos durante a viagem de ambulância entre o hospital onde foi operada e o hospital onde “lhe deram” uma cama. A enfermeira destacada para a acompanhar, viajou sentadinha ao lado do condutor, acompanhando-o a ele. Sempre se aproveita o passeio. Diz que a janela de comunicação do habitáculo de condução para o espaço de trás nunca foi aberta. Caso fosse necessário passar pela porta, tal só é possível de ambulância parada. Fizeram bem, assim não lhe incomodaram as orações. A segunda operação ao mesmo problema, extracção da vesícula, não lhe foi feita pela mesma equipe. (uma extracção de vesícula!!!). Agora só já falta retirar a prótese. A terceira diz que ia morrendo ao chegar a casa. Operada de urgência segunda vez, para reparação dos estragos consequentes da incompetência médica durante a primeira operação. Talvez por ser autarca já foi operada num hospital particular. Mesmo assim não os processa, apenas se recusa a pagar as despesas da segunda operação. O erro não foi dela, foi deles, é o argumento que emprega. Respirar fundo… a sério: respirem fundo! Já ´tá? A quarta, ao fim de nove dias, NOVE DIAS!, esta não só lhe perguntei “o que é que é feito de ti?” como, tenho que confessar, acompanhei o caso pessoalmente: 1º dia; entrada de urgência no Hospital A no distrito X, um dia e uma noite; casa após alta hospitalar, um dia; entrada de urgência no Centro de Saúde local, uma noite e um dia, casa após alta hospitalar; dia seguinte, entrada de urgência no Hospital particular B no distrito Y; problema não resolvido; entra de urgência no Hospital C do distrito Y, o resto do dia, a noite e o dia seguinte; entrada de ambulância (vá lá, eu já estava a ficar farto de conduzir de um lado para o outro com pressa) de volta ao Hospital A do distrito X, depois exames no Hospital D distrito X, de volta ao A e ao nono dia, finalmente, é operada de urgência. “O Sr. Doutor que trata disso não está.”; “Tínhamos máquina mas avariou.”; “Isso não se trata neste hospital.” Esta para mim, foi a melhor delas todas. Consegui achar piada, sinceramente que consegui: operada de urgência ao fim de nove dias. Passadas três semanas chega a casa. O melhor sítio para se estar nos hospitais, é nas urgências pediátricas, os cachopos quando estão à rasca, calam-se. As mães têm aquelas caras de quem não dormiu, com umas olheiras monstruosas e os pais não põem lá os pés. Meus amigos, cuidado quando perguntarem a uma mulher: “Como tens passado?” – Ela pode responder!

Ora perante tudo isto, e são apenas quatro exemplos, só me resta construir um hospital, junto ao prédio de dezoito andares e dois anexos. No próprio prédio fica mal, gente a queixar-se com dores não faz grande ambiente. Ao pé dos anexos também não, não é prático. Junto das casas que pretendo governar, com piscina, campo de golfe, festanças e outros luxos, também dá mau ambiente e isso não pode ser. Resta-me, ou melhor resta-nos o lado de lá. Um velho solar que vou mandar adaptar com capital estrangeiro, evidentemente, depois devolve-se tudo angariando portagens ou taxas moderadoras ou outra merda qualquer para que possa haver lucro, ou por outras palavras que melhor encapotam a situação, e mais agradem à populaça: para que possamos sair da crise. Mas tem que ser radical, inovador! Médicos todos a trabalhar pro bono (expressão que significa “para o bem do povo”): não atende ninguém, não ganha. Consulta dez, ganha dez, consulta sete, ganha por sete consultas. Duas ou três reclamações, despede-se o médico. Enfermeiros estão lá é para ajudar o doente. Conheço pessoalmente uns muito bons, esses contratava-os, os outros poder-se-iam juntar ao rol de professores e de polícias que servem como alvo para todas as acusações. Pessoal auxiliar, auxilia, não foge com medo. Se não… Os administradores do hospital terão que se contentar em fazer como o comum dos mortais: se quiserem ir para o trabalho de carro, comprem um; se quiserem ter um telemóvel, metam gasolina, que eles lá na bomba, ao fim de não-sei-quantos pontos oferecem um; cartão de crédito? Para trabalhar? Era só o que faltava! Fato e gravata? Comprem com o dinheiro do ordenado, não há cá subsídio para ninguém, o ordenado é suficiente. Acções de formação para apresentação do medicamento tal, no outro lado do mundo durante dez dias? Nunca. O pessoal foi contratado para estar a trabalhar no local de trabalho, óbvio. As acções de formação decorrerão num espaço próprio criado no hospital. Pode ser um anfiteatro com as modernices todas. Esse espaço sim, é que poderá ser patrocinado por quem… ah… colaborar… ou possa ir de encontro aos interesses da saúde pública.

Estão a ver porque é que eu sou uma mais-valia para governar o vosso prédio?

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