Professor Precário

Ao fazer uma exame de consciência realista, constato que a minha vida tem melhorado um pouquinho a cada ano que passa. Eu não acredito em bruxas nem em nada dessas tretas, mas que é muito estranho a minha vida estar a regredir a toda a velocidade, lá isso é. Tão pouco tempo que passou desde que escrevi as minhas memórias para a posteridade, reli-as e passado um par de natais, já não estou tão contente quanto isso, as circunstâncias mudaram tanto que mal tenho dinheiro para ir trabalhar, e a culpa não é das bruxas, nem minha! Esta é a breve história que fui arquivando, daquilo que eu pensava que seria o testemunho do meu sucesso: Zé Pedro Professor Precário.

Dez de Setembro! Até parece mentira, já hoje é Quinta-feira, 10 de Setembro. É muito tempo à espera. Será hoje? Ir ver na aplicação. Não. Voltar a ver ao início da tarde, não. Ao fim da tarde, não. De noite, também não. A meio da noite, nada. De manhã, o telefone vai tocar, não. Isto é desesperante. Toca o telefone uma vez, será desta, não será, enervante. Não era. Era a minha quase-esposa. Volta a tocar o telefone e, ao quarto telefonema que a minha mãe me fez esta manhã para eu ver uma coisa qualquer na TVI, passei-me! “Agradeço que não me telefones mais para ir ver televisão!” – Jesus! Ainda por cima caí na asneira de ligar a porra da televisão, na TVI, para ver afinal quem é que era o catedrático que estaria para lá a falar sobre “coisas muitos importantes”. Então não é que era um fulano qualquer a pedir encarecidamente a quem quer que vá governar o país, para manter a avaliação dos professores! E afirmava que os professores devem ser avaliados. Que ignorante! Como se não fossem. Qualquer mer** vai para a televisão, dar sentenças daquilo que não sabe, como se fosse a coisa mais correcta do mundo, como se pela boca dele passasse uma verdade inquestionável, como se qualquer um pudesse ou soubesse de que é que fala quando fala de educação. Deixem a educação para os profissionais, pá! Será que aquele cromo também andou durante oito anos na universidade e tirou dois cursos superiores e tem um mínimo de uma dezena de anos de experiência no terreno, no terreno que é como quem diz na escola a ensinar efectivamente? Como é que será que ele reagiria quando um aluno lhe dissesse “Opá, não me chateies, vai p’ró ca*****!” e ao tentar abordar o aluno a conversa continue por “Então eu não te disse para não me chateares? Não percebes?”? Não, eu não vou explicar, nem tão pouco ensinar aqui como é que se reage a estas situações e se ganha a confiança do aluno. Não o vou fazer porque não tenho nada que ensinar a opinião pública acerca daquilo que ela não quer ouvir. Todos os professores sabem como devem reagir, sabem o que fazer. Não se preocupem com os professores, que eles e elas desenrascam-se. São profissionais que sabem o que estão a fazer, ao contrário dos políticos e daqueles que vão para a televisão desresponsabilizar os encarregados de educação pela educação que não dão aos filhos.

No meu entender não faz sentido nenhum vir a público culpar alguém pela falha de toda uma conjectura de acção educativa. A única parte que não falha são os professores, e são eles que estão a levar com as culpas. Encarregados de educação, pais, (ser pai e/ ou ser encarregado de educação são duas atitudes diferentes – lá estou eu a ensinar gratuitamente) políticos, psicólogos, sociólogos, presidentes da junta, avós, todos falham. Todos. Crianças que vão para a escola com fome. Crianças que viram o programa que acabou às duas da manhã na televisão. Crianças com armas. Adolescentes que vão para a escola com a moca. Já percebi porque é que os meus colegas mais velhos diziam que ser professor é um sacerdócio.

Finalmente a vida começa a entrar nos eixos. Tal como dois carris que finalmente estão alinhados paralelamente para os próximos quilómetros. O pequeno comboio lá inicia a sua marcha: segunda-feira, depois terça, a seguir quarta e assim sucessivamente até ao fim-de-semana. Tudo ordenado. O trabalho, até o relógio biológico já consegui acertar! Estou contente comigo mesmo. Acordo às cinco e um quarto da manhã, duche barba e pequeno-almoço tudo feito com calma; a viagem de carro até ao Expresso é sempre feita atempadamente; o tempo que dura a viagem até Lisboa, uma hora, é dedicado à leitura; o percurso de metro, embora também possa ser dedicado à leitura, serve também para ir despertando para o mundo, especialmente quando não há lugares sentados; chego à escola meia hora, vinte minutos antes do toque de entrada e faço uma pausa pare que me possa relaxar e concentrar para dar o meu melhor a quem merece: os meus alunos. Tenho ordenado garantido e certo durante um ano lectivo, gosto muito do que faço, sou um dos poucos privilegiados que pode afirmar que trabalha com prazer. Para mim é novidade estar a repetir o grupo disciplinar, ou seja estou a leccionar a mesma disciplina que no ano passado e ainda por cima na mesma escola, situação melhor do que esta não sei se existe. Pratico natação três vezes por semana, tenho em atenção o meu lado espiritual todos os dias, dedico-me à religião quanto baste. O carro continua velho a cair e ainda não arranjei a fechadura. Em relação à quase-esposa, a situação, do meu ponto de vista é clara: estão reunidas as condições para procedermos à eliminação do “quase”. A grande novidade é o fim-de-semana. Tenho, nesta viagem de comboio, uma estação nova, o tal do fim-de-semana, e ainda por cima a coisa repete-se. Nem sei bem o que lhe fazer. Este fica na história. Sexta-feira ao final da tarde, encontramo-nos em casa, conversa puxa conversa, jantar feito a dois sem discussão e desabafei. Fez-me mesmo bem o desabafo. A minha quase-esposa diz que só quem está ao lado dos professores é que sabe pelo que eles passam. Todas as aulas surgem situações de mau comportamento. Os alunos são muito mal-educados, violentos uns para com os outros e uns grandes baldas em relação à escola. Vivem situações familiares com todo o género de carências. Eu bem que vejo, não só nas aulas como também no Banco Alimentar contra a fome, na catequese, nas cadeias, nos centros de recuperação de tudo e mais alguma coisa, na fila para receber do desemprego, sobretudo na desresponsabilização na educação dos filhos e com um vergonhoso primeiro-ministro que convenceu os pais que os culpados e responsáveis por tudo isto são os incompetentes dos professores, isso reflete-se no comportamento dos catraios. Alguns não são assim tão inocentes quanto se possa pensar, outros são. É o desafio da profissão! Conseguir ensinar nas condições mais adversas. Fomos conversando, acalmando, beijando, sorrindo e a coisa aqueceu. Não sei descrever situações de fazer amor mas que o Sábado começou às oito e meia da manhã, lá isso é verdade. O que quer dizer que foi uma noite bem dormida. A Sofia continua a dormir que nem um anjinho. Fiz café, um par de festas ao Banzé, liguei o computador, vi o e-mail, actualizei o blogue, não é preciso procurar emprego, ah! Isto de ter fim-de-semana é mesmo bom, eu nem sei o que é que hei-de fazer. Fui nadar. Já consigo atingir os mil e quinhentos metros, divertir-me com o exercício físico e sobretudo, relaxar. Tive o prazer da companhia do tri-atleta e professor de natação que me ajuda voluntariamente a tirar o máximo proveito do momento. Chegado a casa o almoço estava quase pronto. Lulas. Óptimo! Realmente fazer amor sexta-feira à noite tem as suas vantagens. Fomos beber um cafezinho, abatanado, que eu não bebo café, à praia. O campeonato mundial de surf começa já segunda-feira e fomos até lá ver aquilo. Um excelente dia de praia. Três gatos pingados na praia, nenhum surfista no lago Atlântico, cadeirinha, chapéu e óculos de sol, depois de, e note-se bem, um mergulho no mar em pleno Outono a dezassete de Outubro, até parece mentira. Fim do dia passeiozinho por Peniche e eis senão quando toca o telefone da Sofia. Um convite para uma festa de aniversário amanhã à tarde. “Porreiro. Já que estamos aqui, damos um salto ao centro comercial, compramos lá qualquer coisinha para o aniversariante, antes de ir para casa damos outro salto à festa das Adiafas onde decorre o concurso da carne, a eleição da Miss Vindímas com apresentação de uma modela da Playboy, compramos umas garrafinhas de vinho para o sogro que amanhã também fez anos e pronto. Isto é um sábado de luxo. E este comboio vai dar a volta. Já no centro comercial, enquanto a Sofia conversava com uma colega de curso, até aí correu bem, apenas tinham falado uma com a outra on-line, eu fiquei de olho nos estudantes finalistas de medicina que tinham uma banca com rastreio grátis. Nunca fiz tal coisa. Medir a tensão, a glicemia e o IMC. Fui. O IMC é a sigla que designa o índice de massa corporal, ou seja estou gordo. Boas notícias, a menina fez as contas e tenho uns dois míseros quilitos a mais. Glicemia, açúcar no sangue, está tudo bem não há problema nenhum e até tínhamos comido um gelado de limão durante a tarde, sentadinhos na areia. Em relação à tensão arterial, fiquei mesmo muito curioso, tenho estado a ter um valente dia de férias, calminho à brava, desfrutado como nunca, sinceramente não me lembro de quando foi o último dia, se é que alguma vez tive, como este, vamos ao que interessa: a tensão arterial ideal verifica-se quando a máxima atinge valores até 120 e a mínima até 80; a tensão está alta quando os valores da máxima são iguais ou superiores que 140 e os mínimos iguais ou inferiores a 90, pois os meus valores são superiores aos valores definidos como máximos.

Hoje de manhã, resolvi registar este novo capítulo na minha vida, mas antes de começar escrever passei pelo portal da GIAE, só por curiosidade, para ver se o meu ordenado já lá estava. E está. O de Outubro. O de Setembro ainda não. Por acaso até gostava de receber o mês de Setembro.

Diário e pronto. Quarta-feira, 21 de Outubro de ‘09

Continua a ser difícil acordar às cinco e um quarto, mas faz-se. Na fila para o Expresso, em conversa com o colega da frente, conversa puxa conversa, situação que se vai tornando normal, pois dia após dia até os faróis dos carros vamos conhecendo uns dos outros, lá fiquei a saber que não sou só eu a fazer sacrifícios. Existem pessoas com vidas bem mais difíceis do que a minha. Muita gente que hoje aparenta alguns sinais exteriores de estar bem com a vida, também já teve os seus momentos de muito esforço, estudo e dedicação. Cheguei cedo à escola, como não entrava logo ao primeiro tempo, fui beber café à vila. É giro: “Hello teacher!” dizem aquelas gentes mais miúdas daquela terra, dirigindo-se aqui ao “je”! Aulas e conversa de intervalo, uma das auxiliares quase teve um AVC ou algo parecido, está encostada à box, nem sei se será mais velha do que eu; mais conversa, agora uma professora diz que sabe bem o que isso é porque quando lhe aconteceu a ela… Mau! Pensei de mim para comigo, esta é da minha idade. O Director da Escola lá me mandou ir à secretaria e, com boa vontade, tudo se resolve (aquilo do ordenado). Ainda bem que para meu bem, eu tento ser uma pessoa de boa vontade. Só tenho a ganhar com isso. Almoço rápido no MacDonalds, hamburger coca-cola e batatas fritas, num rápido porque tenho que apanhar o Expresso. De tarde não tenho aulas. Aproveitei para passar pelo banco e actualizei a caderneta. A Segurança Social ainda me continua a pagar. E os professores é que são avaliados. Passei pelo trabalho da minha quase-esposa só para dar beijinho, contou-me que a mãe de um colega meu, deu-lhe não sei quê no coração e foi-se. Parei para pensar. Pensei e fui até Peniche ver o mundial de surf. Bebi um abatanado e achei muito engraçado, mesmo divertido. Os Prós estão lá todos e estavam na água. De vez em quando saia um daqueles vestidos de preto, todo molhado com a prancha debaixo do braço e não se passava nada. Quando aquelas câmaras todas, com objectivas de um metro, com tripés com um gajo vestido para ir à pesca num dia de temporal e, até aquela gente toda de chinelos, calções, casaco e carapuço enfiado na cabeça tiravam do bolso o telemóvel e começavam a fotografar um que saia da água, daqueles vestidos de preto, todo molhado com a prancha debaixo do braço, percebia logo: deve ser um dos tais Prós. Arrependi-me de não ter levado o telemóvel que tira fotografias quando cheguei ao parque automóvel: tantas matrículas, de diversos países, que duas delas, e eu sou meio fanático por carros, não consegui identificar a procedência. Ao chegar a casa ia tendo um acidente. Circulava devagarinho em segunda velocidade, a trezentos metros de casa aproximadamente, está parada a carrinha dos calceteiros com o pisca da direita ligado. Na faixa contrária ao fundo, bem lá ao fundo, vi aproximar-se uma viatura ligeira. Dá tempo, pensei. Abri o pisca da esquerda e quando vou quase a meio da carrinha o gajo arranca! Pura e simplesmente aquele bardamerda arrancou. Travei para me reposicionar atrás da carrinha e o gajo travou. Parou. Travei a fundo… o carro a arrojar com as rodas bloqueadas e… passado um tempo que me pareceu uma eternidade, o gajo da carrinha lá arrancou. Fiquei no meio da estrada. Ele, nem um aceno a pedir desculpa ou a mandar-me àquela parte, nada. Meti a primeira e arranquei, só então passou por mim a viatura que vinha lá ao fundo. Cheguei a casa a plantinha que está ali ao pé da varanda têm cochonilha. Quando a Sofia sair, ou melhor antes de ela sair, vou lá ter, e vamos até à festa das Adiafas comer uma coisa qualquer para relaxar. Depois são horas de ir dormir.

Tive que voltar a escrever. Um certame daquela envergadura, anunciado nos programas da RTP, com tascas e restaurantes, barraquinhas de artesanato, um palco com espectáculos diários anunciados e muito vinho, está… fechado. Só abre às oito.

Lembrar-me que tenho um diário para escrever, até me lembrei. Tempo para o fazer, é que já não tenho. Felizmente. Há sempre a hipótese de escrever um semanário, na quarta-feira passada ainda tentei, mas fiquei-me pela tentativa. O engraçado no meu diário é que vou comparando com as coisas que fiz no passado. Ao reler o que escrevi, permite-me fazer um exame de consciência e ficar contente e triste comigo mesmo. Penso que um semanário não é a mesma coisa, pode deixar um registo da sociedade que me circunda, mas os pormenores começam a falhar e não se torna o espelho de uma vida, mas sim, um comum mortal igual aos outros. “A oeste nada de novo”, gostava de registar episódio vividos, mas é uma novela que já passou… Uma noite destas, corria eu para apanhar o Expresso das vinte e uma que me traria a casa, quando sou interpelado por uma mão que tinha como voz um pedido de desculpas: “desculpe lá…” um homem da minha idade, a chegar aos quarenta, casaco de ganga lavado, muitas vezes, camisa branca com umas risquinhas, calças de ganga lavadas, muitas vezes, cabelo curto e barba bem aparada, olhar triste e os olhos muito vermelhos. Pedia oitenta e cinco cêntimos para o bilhete do autocarro. Até lhe dei mais. Afinal o gajo estava mesmo enrascado, e eu, ou desenrasco, ou não desenrasco. Ele não me pediu para ser juiz. Já vi este episódio à mais de dez anos em Viseu, quando um desgraçado todo maltrapilho, confessou que tinha estrafonado o dinheiro todo na pinga e que não tinha como voltar para casa. Paguei-lhe o bilhete. Também já tinha visto episódio parecido, mas agora já lá vai mais tempo, quando a Tina Turner veio actuar ao Estádio de Alvalade. Estávamos nós a beber uns copos na Baixa Lisboeta, quando somos abordados por uma desgraçada que, pasmem-se os céus, contou que gastou o dinheiro todo “nas ganzas” e que agora não tinha para ir ver o concerto. Andava a pedir para ir ver um concerto. A história é cíclica. O que é que me aconteceu mais digno de registo? O meu trabalho aumentou. Já agradeci a Deus por isso. Já deixei de jogar no totoloto. Já me apercebi que mais dinheiro, só mesmo com mais trabalho. O que é que eu posso querer melhor? Faço aquilo que sei, dar aulas, neste caso extracurriculares em mais duas escolas, continuo a poder ir para o trabalho de transportes públicos. Mais? Esta semana foi preenchida com reuniões ao final do dia de aulas, em três escolas, corridinha na “desatenção civil” para tentar chegar a casa antes das dez da noite, e isto é escrito sem vírgulas, porque às cinco e um quarto da manhã toca o despertador! Como é de esperar a minha tensão arterial continua a bater recordes. Na quarta-feira de tarde consegui dar uma voltinha ao festival de Banda Desenhada da Amadora. Não podia faltar a homenagem ao Vasco Granja, lá estava; ao Manuel não sei das quantas, autor da Mônica, também lá estava e, sobretudo um reflexo do século passado. Guerras sempre ouve, bacanais e orgias também se podem contar em tempos idos. Hoje sabemos mais e melhor acerca dessas andanças de sangue, suor e orgasmos. A internet deixa ver algumas coisitas que, pensava eu, que só se passariam no lado mais escuro da pornografia, mas afinal banalizaram-se e pelos vistos (e visionada) no sexo, hoje em dia é obrigatório ser-se depravado e depressa, se não perde-se a oportunidade ou não se fica na moda, ou então não se entra no grupo. Quero ver o que é que vai acontecer quando esta gente toda for velha. Vou economizar para comprar acções de fraldas para adultos. Cá está: a história repete-se. Fui encontrado por antigas alunas, estão umas mulherezinhas e, como a história se repete, lá fiquei eu todo contente e motivado. É engraçado, os antigos alunos chamam por mim mas depois não sabem o que hão de dizer. Antes da ida ao festival de BD, dei outra voltita pelo Centro Comercial Colombo. Passei pelo banco, gostei do saldo bancário. Passei pela Bertrand, gostei do que vi, embora carote; passei pela FNAC, gostei ainda mais. Um livrito, mais barato três euros e com desconto de dez porcento, não resisti. Ainda tentei cirandar mais por lá, vi umas calças castanhas para mim. Andar às compras sozinho, sem ter a quem pedir opinião, não é a mesma coisa. Faltou a sentença, o “fica-te bem” ou “fica-te mal”. Eu sei que andar às compras com as mulheres é de loucos, mas sem elas, tem uma vantagem: economiza-se dinheiro. Agora não é só a história que se repete, são também os paradoxos. Siga a marinha! Tenho que aproveitar para passear e relaxar um pouco, afinal não são todas as quartas de tarde que as tenho livres. Na quinta-feira consegui passar pela farmácia, continuo a bater recordes de tensão alta. Quando dei por ela era Sábado. As dores de garganta pioraram. E de tarde parei um pouco com a preparação das aulas. Como estava a sangrar da garganta fui às urgências, onde me informaram que o médico só estaria disponível depois das dezoito. A história a repetir-se. Tristeza de país. Não tenho motivação para escrever e muito menos gosto da realidade que me rodeia. Os pais esquecem-se de educar os filhos, um bocadito que seja, deixam para os professores; os médicos ganham dinheiro à pazada explorando o desgraçado; as pessoas parecem que vivem só do aspecto; os altruístas são enganados pelos egoístas e assim por diante até me questionar porque é que os padres usam barba? Porque é que as pessoas vão à missa de 7º dia e depois não metem lá mais os pés? Ficam com o luto feito? Ou então, e tenho que me ir deitar, em jeito de, de… de não-sei-quê, porque que é que as pessoas querem que os filhos sejam baptizados numa religião que não professam?

Estas paragens modernas dos autocarros não prestam para nada. São todas em vidro, o que não dá privacidade nenhuma. Dá para ver as pernas às gajas! Mas isso, a maneira que elas fingem que se vestem, deixa muito pouco espaço à imaginação e também não é culpa dos vidros das paragens do autocarro.

Estas modernices têm um grande inconveniente, não tocam no chão. A parede que me deveria proteger as costas, começa dois palmos acima do chão. O vento que se faz sentir gela-me os pés todos. Embora tenha estado um dia de sol bonito, a verdade é que a noite já se pôs e como esta porcaria que finge ser uma parede acaba antes do tecto, o vento completa o trabalho gelando-me as orelhas. Portanto este vidro atrás de mim deve ser mesmo só para proteger as costas. Não estou a jantar sozinho. Tenho aqui quatro gajas de soutien na mão a fazerem-me companhia. Sinceramente não percebo. Como é que um reclame a roupa interior, estimula, exemplifica, que ela não se deve usar? Ora se é um reclame de cuecas e soutiens, as gajas estão de calções e com o soutien na mão, para que é que o querem? Para que é que ele serve? Para tirar fora? Assim sendo faziam publicidade a preservativos e não a roupa interior: “A marca de roupa interior tal, comercializa também, ou em anexo à compra de, vende ou dá, ou apresenta a sua nova colecção de preservativos tal, devido ao facto, que é uma coisa comprovada, da sua roupa interior ser de tal ordem atraente, que quem a usa, despe-se logo!” Ou se calhar não! Porque quatro gajas… a despirem-se todas juntas… no meio da rua… não precisam de preservativos… digo eu, não sei. O que eu sei é que estou a jantar na paragem do autocarro. São coisas que acontecem quando a vida de um homem começa a estabilizar. Isto está mau, não dá para ir comer fora, portanto janto aqui qualquer coisinha na paragem do autocarro. E não é qualquer um! Lembro-me de há uns anos atrás, que saudade, almoçava num espaço que chamava “O meu restaurante”. Adorava almoçar ali. No Inverno tinha as gaivotas como companhia, o silêncio, a calma e a paz transmitidas pelo mar. Depois da Ericeira, em direcção a sul, imediatamente antes da Foz do Lizandro, do lado direito está um parque de estacionamento que é um planalto lindo. Em frente uma ravina lá para baixo para a praia, à esquerda, lá em baixo a foz do rio Lizandro, e não anda por lá ninguém a fazer filmagens com o José Castelo Branco. Tirar o farnel e a refeição é um sossego. Um dia levei lá a minha namorada, pedi-lhe para escolher “a mesa da esplanada”. Aquilo tem ou tinha, já não sei, os anos passaram, três espaços mais avançados que ficavam ladeados pela vegetação e assim não era corrido o risco de alguém ficar ali ao lado. Como na paragem do autocarro. Ela adorou. Outros tempos outras fidalguias. Casou comigo e agora janta sozinha. As voltas que a vida dá.

Só me lembrei de escrever isto hoje, porque ontem também jantei aqui. Está-se a tornar repetitivo. Jantar fora de vez em quando, ainda vá que não vá, agora muitas vezes, não pode ser. E sozinho não tem graça nenhuma. Corria o risco de parecer um gajo igual aos outros todos que andam por aí de fato preto, ou para mudar de cor: cinzento. Alguns deles abusam e chegam mesmo a vestir fato azul. Sempre com camisa branca, é fácil, fica bem com tudo. Com tudo, qual tudo? O fato ou é preto, cinzento ou azul. Se se andar sempre de camisa branca, fica bem e basta ter duas. Porque a imagem conta, isto está mau para andar a comprar camisas. Basta comprar gravatas de cores diferentes e pronto, fica logo o boneco enfeitado. O chinês vende!

São quase nove da noite quando chegou mais alguém. Uma mulher mais nova do que eu. Vestida. Está vento e frio. Também está a jantar. É mais esperta do que eu, trouxe o jantar de casa, todo embrulhadinho em guardanapos. Não resisto a fazer comparações, ela também bate com os pés no chão, encolhe os ombros e encosta os braços ao tronco, segurando a sandes com as duas mãos. Será que também tem um par de cursos superiores e é professora, como eu?

A escola começa na escola primária. O infantário não conta porque ainda não sabem se aquilo se chama pré, ou lá que nome é que tem e só serve para que os meninos e as meninas possam dormir a sesta. Toda e qualquer mudança no comportamento das meninas e dos meninos deve-se exclusivamente ao crescimento da criança e não àquelas pessoas que lá trabalham. O facto de aprenderem a respeitar os outros, a comer com bons modos entre outras minudências básicas que não são ensinadas em casa, parece apenas ser notado por quem lá trabalha. A lição seguinte, já na primária, é tida para com aqueles que por lá aparecem ao fim do dia e que ficam a tomar conta das meninas e dos meninos; é gente que não interessa muito respeitar. Vai-se lá buscar as crianças quando calha, tenham eles material didáctico ou não, não importa, porque aquele gente nem contrato como deve ser têm, portanto não são para ter em conta na educação dos filhos quem dá Actividades ou AEC’s ou Extra Curriculares ou lá como é que isso se chama! Então aquelas gajas do ATL pior ainda. Isso deve ser tudo gente ilegal. Lição a tirar daqui: meninos e meninas aprendam: essa gente não é para levar a sério, muito menos para respeitar. A seguir, numa segunda fase, surge o segundo ciclo. Aqui fica-se a saber que as aulas de substituição não servem absolutamente para nada e que os professores não prestam porque não conseguem dar aulas de substituição, aliás pode ser comprovado quando uma professora de português do 5ºano, vai substituir o professor de educação física de 9º. O que para os professores já é um progresso, já são tidos em conta e agora já adoptam o nome de professores. Nada mau comparado com os ciclos anteriores. A seguir as meninas e os meninos já têm mais que fazer. É a terceira fase, o terceiro ciclo no qual se aprende que a escola até não atrapalha assim muito. Não se chumba de ano se não se for às aulas, não se chumba de ano se não se estudar. As únicas positivas realmente importantes são as opiniões dos amigos. Realmente é verdade. Se as meninas e os meninos que agora já são mulheres e homens grandes, independentemente de serem dependentes decidirem que não podem desperdiçar o seu tempo a estudar, a escola faculta os cursos de formação profissional cujos frutos não são absorvidos pelo mercado de trabalho. Ainda bem, porque se fossem, os patrões ficariam a saber que à segunda-feira de manhã não tinham empregados. Lição aprendida, ou seja pode-se faltar à vontade ao trabalho, que a escola desenrasca. Como? Com um RVCC. Nos RVCCs ganha-se mais dinheiro do que aquele que recebe o funcionário para o qual o formando está a ser treinado. Isto está a ficar um bocadito complicado, é melhor explicar: quem estagia naqueles cursos modernos de equivalência àqueles para os quais é preciso estudar, ganha ao fim do mês cerca de mais um terço do que a pessoa que já trabalha no posto para o qual eles estão a estagiar, ora assim sendo porque carga de água é que haveriam de ir trabalhar para ali? Compreendem? É difícil andar na escola, as lições a tirar de lá são muito complicadas. O que eu acho extraordinário e mesmo digno de registo, é o facto de os patrões actualmente estarem a preferir empregar quem fingiu que estudou em detrimento de quem estou a sério (talvez seja mais fácil de encapotar falcatruas). Se calhar até percebo. Quem aproveitou a escola para se munir da (in)formação que ela dá, não se deixará fazer passar por desentendido. As moedas têm sempre duas faces. Quando caí para o outro lado também há quem as apanhe e veja no ensino o único trunfo, senão a maior arma ou a oportunidade para sair da pobreza. É claro, evidente e felizmente que nem todos são assim. Mas que o sistema permite que isto aconteça, lá isso permite.

7:53 da manhã. Segunda-feira. A1. A auto-estrada com mais volume de tráfego no país. Portagem final da auto-estrada e acesso ao maior engarrafamento da Europa, 2ª circular, que por sua vez “escorre” o trânsito para o maior “parque de estacionamento” (também) da Europa: o IC19. Faixa da esquerda em 5ª velocidade a 90k/h, pé no travão já a reduzir para 4ª eis senão quando… o gajo da frente está a fazer marcha atrás! Pé no travão, embraiagem, 3ª, carregar no botão dos quatro piscas, olhei para o retrovisor e não consegui ver a marca da carrinha que me enchia o espelho, nem mudar de faixa, a da direita estava cheia, do lado esquerdo o muro de betão chega-me quase ao espelho do carro! Em fracções de segundo esgotei o meu reportório de palavrões. Desviou-se para a faixa do lado direito. Quando passei a portagem, respirei fundo, rezei um”Pai-nosso”, desejei um bom-dia ao Zé Pedro em voz alta e segui viagem.

Segunda-feira de manhã. É hoje é que é! A minha quase-esposa ainda dorme, é o primeiro dia de férias, deixa-a estar, vou até ao sindicato concorrer. Chegou finalmente o grande dia: hoje vou manifestar as minhas preferências! Elas lá no sindicato ajudam-me sempre. Não é preciso ser-se grande expert, mas mais um par de olhos extras experientes, são sempre bem-vindos. Eu cumpri os requisitos para poder ser reconduzido na mesma escola, tive horário completo, o ano todo, o gabinete do director e eu estamos de acordo e fica toda a gente feliz e prontinha a trabalhar já em Setembro. Siga que é sempre a direito!

O sindicato está fechado, foram de férias.

Viagem de volta para casa, ela nem ralhou comigo porque não a acordei e eu pelo caminho rezei o suficiente até que a voz da minha consciência se fez ouvir e me explicou que não deveria descarregar as minhas frustrações nela. Foi tratar dos animais abandonados, fui concorrer tranquilinho, tranquilinho? O mais possível, escapei a fazer o almoço, porque ela me disse para concorrer descansadinho, que ela cozinhava. Dois ou três telefonemas para enervar mais uns colegas e lá estava eu de roda da net. Teoricamente funciona da seguinte maneira: podemos manifestar 100 preferências; primeiro as escolas onde gostaríamos de ser colocados; seguidamente os concelhos e por último os QZPs, o país está dividido em 18 distritos e um par de regiões autónomas, os QZPs são uma divisão parecida, só que 23. Foram extintos há dois anos, mas afinal existem, não percebo nada disto, não digam nada aos meus alunos… Depois os vários tipos de horário, sendo o número 1 completo até ao 4 que deve dar p’rá aí o ordenado mínimo ou então um gajo tem de ficar a dever dinheiro a alguém para poder ir trabalhar. A seguir se aceitamos substituições ou queremos ordenado o ano inteiro. Eu pessoalmente considero que quem não esteja disposto a fazer uma substituição por tempo indefinido, mesmo que seja apenas um mês, não deve receber subsídio de desemprego. Tudo isto na primeira opção, ou seja um grupo disciplinar. Depois repete-se tudo para o segundo grupo disciplinar. Eu ainda posso dar aulas a um terceiro grupo disciplinar mas a nível de concurso… a lei não deixa. Não se pode. Sou professor de três grupos disciplinares, já os leccionei todos, mas, só posso concorrer a dois.

Continuando… após ter preenchido as minhas escolhas para o primeiro grupo disciplinar, a aplicação não me deixou passar à página seguinte pois continha um erro logo na primeira opção. …resumindo!… é melhor do que escrever aqui asneiras… o sistema, a aplicação, o programa ou lá o que é, que eu sei o que é, são as pessoas, não são os programas, não aceita os códigos das escolas. Ou seja vamos manifestar as nossas preferências por escolas, mas não pode ser. O programa só aceita códigos de concelhos ou de QZPs.

Que pilha de nervos. Mas já está feito, seja o que Deus quiser, aliás é sempre, eu gostava era que a vontade de Deus fosse mais à minha maneira.

Conversa da hora de almoço: a avaliação do apartamento não foi suficiente para permitir o negócio. Até fiquei doente! Mas não fiquei sem fome. É a terceira casa que pagamos para ser avaliada e nada! Só gastar dinheiro. Neste caso trata-se de um T3 novinho à estreia, com garagem fechada, sótão, gás canalizado… eu sei lá mais o quê! Foi avaliado em 618€ o metro quadrado e o sanguessuga do vendedor de casas, teve o descaramento de me dizer que o prédio da frente, com 12 anos, apartamentos T2, sem sótão e sem garagem, foi um, que ele vendeu, avaliado em 720€m2. Não estou em condições de ir ao banco e ter uma conversa que não me prejudique. Fica para amanhã.

Posto isto: uma fortuna gasta em avaliações de casas, incerteza no resultado do concurso, o melhor que tenho a fazer agora nas férias é ir apanhar peras! Como a colheita ainda não começa hoje, o melhor é ir para a praia. E fomos…

Isto custa sempre. Por mais que pense que estou preparado, a verdade é que ano após ano, nunca estou preparado para um coisa destas: o dia 1 de Setembro. A expectativa é sempre grande, a ansiedade intervém sempre na contagem dos últimos dias de Agosto e é assim, enquanto os colegas fazem uma festa ao ver-me na secretaria, perguntam então e as férias, consoante se vão apresentando ao trabalho, eu, lá estou no meio deles mas não fico para almoçar… porque afinal apenas fui pedir o papel para o desemprego. Sair de lá o mais rápido possível é o objectivo,  antes que as lágrimas cheguem aos olhos. Na auto-estrada convém desanuviar o mais que conseguir. Acelerar também é imperativo para que chegue a tempo de tirar uma senha no centro de emprego que me permita ser atendido, se não hoje, isso seria bom, pelo menos amanhã. E preparar-me para o embate. Aquilo lá está cheio de malta conhecida, todos a sofrerem da mesma maleita. O que custa mais a passar é o ratito. Eu já estou batido nestas andanças e sei que mais hora, menos hora o tema de conversa esgota-se; a malta inquieta não aguenta estar ali e saem; o sistema informático vai abaixo; o desespero apodera-se de toda a gente; o segurança já arregaçou as mangas e pelas mãos na cintura parece que vai dançar o fandango, finalmente as vozes começam a ficar caladas. O que é muito bom para começar a leitura. O segurança, novamente o coitado do segurança, lá vai tomando nota dos nomes que ficam para amanhã, porque o sistema foi abaixo; os que não aguentam o ratito, vão almoçar; mais umas vozes que refilam por terem esgotado as senhas, por isso é que é preciso acelerar na auto-estrada e não ficar na conversa na escola; depois das três da tarde, quando os recém-desempregados começam a ser mandados embora vejo uma luz ao fundo do túnel: vou ser atendido hoje. Conversa puxa conversa porque o sistema não funciona e, embora não saiba quanto, a técnica de desemprego sabe que, se eu tiver direito a subsídio, será menos do que no ano passado. Mas isso foi ontem. Hoje resolvi passar pela segurança social para que me possam esclarecer que raio de carta é esta por causa do abono dos filhos. É que eu não tenho. Mas tenho que fazer prova de condição de recursos e, pasme-se: prova de situação escolar. Quer as senhoras do Centro de Emprego, quer as da Segurança Social, já me conhecem pelo nome, o que ajuda muito a manter o bom ambiente e a boa disposição que nestas situações são sempre difíceis. A senhora da Segurança Social perguntou-me se eu já tinha alguma vez recebido aquele subsídio de valor abaixo do salário mínimo, aquele que se dá “depois de acabar o fundo de desemprego”, o rendimento social, ela lá estava a explicar quando eu a interrompi, tratando-a pelo nome: “Eu já ando nisto há tanto tempo, que já recebi os subsídios todos e mais alguns!”. Recordei-a que ainda o ano passado, já estava eu a trabalhar há mais de três meses, ainda eles faziam aparecer na minha conta bancária dois, nada mais, nada menos do que dois, dois pagamentos mensais indevidos. E depois os professores é que são avaliados. Bom, eu tenho que preencher lá o raio do inquérito mas, cá está o mas, tem que ser feito via internet. “Eles lá dão” uma senha e depois “a gente” em casa preenche “o que for preciso”. Fiquei esclarecido. A segurança social obriga-nos responder lá à cena dos filhos por internet, para que me possa candidatar a subsídio de desemprego, mas não nos paga a mensalidade da internet! É obrigatório pagar um serviço a um particular para que se possa ter fundo de desemprego. E depois os professores é que são avaliados. Durante a tarde andei a ver as ofertas de escola. É desesperante. Querem ter um professor disponível para ensinar a alunos que não querem aprender, disposto a ir trabalhar seja para onde e a que nível for e não lhe querem pagar. Não percebo, sinceramente não percebo como é que ainda há professores…

As modernices são, sem margem para dúvida, importantes. Aliás já ganhei a vida a ensinar como é que isso funciona. São inevitáveis e incontornáveis, desde a operadora de caixa na grande superfície, quando passa a etiqueta dos artigos naquela luzinha vermelha, até à via verde instalada nas auto-estradas e nos pára-brisas dos carros, esse sistema um pouquinho mais moderno porque desconta imediatamente na conta do cliente a despesa, sendo este mais facilmente iludido com a conta a pagar, visto que o total a facturar não é visível no acto, sucedendo o oposto na caixa do supermercado, tendo esta a atenuante, imediatamente a seguir ao susto dado pela leitura do total da factura, do descontozinho. Ou dos pontozinhos ou outra treta qualquer como o desconto que pode vir a ter na gasolina se abastecer mais de vinte euros até à data “x”, e assim toda a gente fica feliz porque pensa que está a poupar algum dinheiro. E isso, aparentemente, embora há muito tempo que não diga nada disso nas notícias, é uma coisa importante. Apesar das modernices, ou do progresso deixar tudo à distância de um clique e de uma factura do serviço de internet, eu gosto de aparecer pessoalmente. De dar a cara. Sabendo que não é necessário, não é preciso, não é obrigatório, eu gosto de aparecer. Não sou apenas mais um número, sou o Zé Pedro. Um gajo sozinho em frente ao computador pode deixar passar um pormenor ou outra insignificância qualquer que por vezes o contacto com os outros humanos pode esclarecer. Lá estava eu pronto para fazer uma triangulação: saída do ponto A com destino ao B, passando pelo C antes de retornar ao A. Ora o tempo para fazer isto tudo conta, quando se procura trabalho, há que contar com os horários de quem nos recebe. Além da distância, o tempo para a percorrer também deve ser tido em linha de conta. Fui pela auto-estrada. Não sei porque é que aquela m#%&* se chama auto-estrada. A um palmo de distância do meu retrovisor esquerdo está um muro de betão que assusta; pela janela do lugar do morto (já sei porque se chama assim) vejo rodas de camiões; 80k/h é a velocidade máxima permitida, até aqui tudo bem, o facto de o meu ponteiro marcar 110k/h deve ser devido a uma avaria qualquer, mas eu agora já gastei dinheiro que chegue com arranjos no carro para me estar a preocupar com erros de leitura do velocímetro, adiante! Não muito adiante porque apesar do traço contínuo, eis que surge um carro vindo da faixa da direita, apareceu do nada, de repente da frente do camião surge um carro preto! De onde eu estava sentado, para que fique registada a ideia da coisa, eu não via os pneus do carro que se materializou à minha frente. Via sim, a mão junto ao rabo-de-cavalo que segurava o telemóvel, era a direita e não sei como é que ela fez aquilo mas quando se desviou para a faixa da direita novamente, tinha o telemóvel na mão esquerda! Era um nokia.

Entrei na A8 no Bombarral e saí no alto de Odivelas, acho que aquilo ali se chama Alto da Ramada, nem sei muito bem, só sei que fiz aproximadamente 50km, e paguei, … 4,75€. Quatro euros e setenta e cinco cêntimos. É uma centésima parte do ordenado mínimo nacional.

Continuando cá com as minhas desculpas para gastar dinheiro à parva, no dia seguinte fui a Leiria. A8. Das Caldas da Rainha até Leiria Sul são aproximadamente 50 km. Já não me lembro, sinceramente já não me lembro se foram 4,20€ ou 4,35€. Não me lembro muito bem da quantia porque ia a pensar na quantidade de mata nacional protegida que foi preciso abater para que eu pudesse dispor de três faixas de rodagem em cada sentido, para circular absolutamente sozinho, contrastando com o outro trajecto da auto-estrada que tinha percorrido ontem. Não terá sido bem sozinho… eu tenho a impressão que passaram dois carros por mim. Mas não tenho a certeza… como aquilo é uma auto-estrada e as manchas pretas fizeram algum barulho… eu penso que tenham sido dois carros. Não tenho a certeza.

“Deixa lá, quando chegarmos ao Natal, isso já terá passado.”  – costuma dizer a minha quase-esposa quando eu me queixo de situações problemáticas para as quais a solução não depende de nós. “Não te preocupes, quando chegar ao Natal esses já passaram e teremos outros novos.” – diz ela. Não falha mesmo nada! Fui colocado! Problema resolvido, este já não chega até ao Natal. É-me difícil de escrever as sensações que passam a dominar o meu dia de imediato. Chegam como uma avalanche, ou uma tormenta: um impacto forte e ensurdecedor que embate de forma seca, sem som e muda tudo. Como se a velocidade do impacto retirasse todo o oxigénio e repente fica o silêncio, pausa, e tudo está calmo, tudo está bem. Começou um novo episódio de segurança, calma e tranquilidade… que contrasta em tudo com a situação anterior de ansiedade e incerteza.

Depois de ter ido à escola, há que resolver as situações pendentes. A primeira coisa a fazer é apresentar-me na Segurança Social e declarar que já não estou desempregado, portanto fazer o pedido de cessação do subsídio de desemprego. É um movimento cíclico: inicio o mês de Setembro desempregado, a meio do mês dou baixa do subsídio e como a caixa da Segurança Social já lançou os pagamentos, recebo no final do mês, o que é muito bom para que me possa governar até receber o ordenado da escola, que por sua vez, quando fui colocado, tendo também já lançado os pagamentos, eu, logicamente, só irei receber no final do mês seguinte. Lá pelo Natal, antes do final do ano, a Segurança Social pede para que devolva o dinheiro que me pagou em excesso, (mas diz que eu o recebi inadvertidamente) pois felizmente não fiquei o mês todo desempregado, já recebo regularmente da escola e está tudo certinho. Muito bem. Eu faço os meus descontos, não como toda a gente, que servem para que eu, no meio de tanta precariedade, tenha alguma segurança social.

Fiz o pedido de subsídio de desemprego no dia de 1 Setembro, tenho que fazer uma apresentação quinzenal na Segurança Social até dia 16, como arranjei trabalho a 15, fui lá no dia 15, expliquei tudo muito bem explicadinho à senhora, nisso consiste a minha profissão “explicar tudo muito bem explicadinho”, a senhora percebeu, eu, é que me vi à rasca para a perceber a ela. Explicou-me que eu não poderia dar baixa de subsídio porque ainda não tinha sido aceite o meu pedido, aquele feito no dia um. Aquilo estava a ficar confuso, pelo menos na minha cabeça comecei a misturar o confuso com o inacreditável: a senhora explicou-me que a caixa “deles lá” já tinha fechado, não me foi atribuído qualquer subsídio, poderia vir a ser eventualmente no mês seguinte, este mês, pelo que ela via no computador, de certeza absoluta que eu não iria receber dinheiro nenhum, no mês seguinte logo se veria e que o melhor seria fazer era a prova da apresentação quinzenal e dar baixa do subsídio. O meu pensamento ainda continua rápido para a desgraça: da escola só vou receber no final de Outubro, subsídio de desemprego não há e… a única coisa que me vinha à cabeça era que “Lá pelo Natal já temos outros novos” e ainda falta tanto para o Natal. Para me fazer sair daquele estado de letargia a senhora perguntou-me pelo “papel”, “se tinha trazido o papel da apresentação quinzenal?”. Ainda não tinha acabado de responder que “não”, quando a senhora disse “Eu já sabia!”- passei-me, meti as duas mãos no balcão, controlei-me, respirei fundo e resolvi explicar calmamente à senhora porque é que não tinha o papel comigo: eu fui contactado para ir trabalhar, sai o mais rápido que pude de casa para me apresentar hoje ao trabalho, até fui de calções, vi-me de lá embora o mais rápido que pude para poder chegar aqui antes das 4 da tarde e conduzi 170 quilómetros com problemas na transmissão do carro. Vi pelo caminho literalmente a rezar para que a roda do carro não caísse para chão, vi três acidentes, vou tentar chegar a uma oficina para que me seja feito um arranjo para o qual acabou de me dizer que não vou ter dinheiro para pagar, e estar a afirmar que sabia que eu não traria um papelinho para fazer prova num ou para um subsídio que acha que eu não tenho direito e nem vou receber nada, mas que mesmo assim é melhor dar baixa… a senhora interrompeu-me e disse que o cartão do cidadão era suficiente porque pelo número era possível realizar a operação. Não lhe invejo o emprego! Ter que estar o dia todo ao balcão a fingir que resolve situações problemáticas, a dizer que a culpa da coisa não funcionar é do sistema e deles lá, é obra! Ou melhor: não é nada obra, é inútil.

Dali ao mecânico distam três quilómetros. O carro deixou de fazer barulhos. O mecânico experimentou, experimentou… e nada.

Na noite seguinte, ainda fiz os primeiros 60 quilómetros todo encantado. Após uma travagem brusca porque o gajo de frente se lembrou de capotar o carro, (um Audi A3, liiiindo! Ficou todo partido…) a transmissão do meu… voltou a batucar. Ainda me faltam 25 quilómetros, um dia de trabalho e a viagem de volta.

A minha quase-esposa é que tem razão: “Deixa lá, lá pelo Natal teremos outros novos…” – e ainda só vamos em Setembro.

Hoje almocei com um colega que continua a leccionar AECs, ou seja Actividades de Enriquecimento Curricular. Conversa puxa conversa e ele este ano ganha menos um euro por hora, do que ganhava o ano passado. O preço das coisas vai aumentar 2%. Tudo vai ficar mais caro 2% e ele vai ganhar menos um euro por cada hora de trabalho. Como já excedeu o ano de isenção, por trabalhar a recibos verdes, vai pagar mais impostos.

É fácil de detectar que a foto não é portuguesa: não é visível nenhum acidente. Coisa tão rara, por isso saquei-a da net.

 É o melhor dia da semana! A quinta-feira. Entro mais tarde do que nos outros dias, nos quais acordo, ou melhor começo a acordar às cinco e um quarto da matina. Não tem problema! Quem corre por gosto não cansa e o facto de acordar cedo de semana, permite-me desfrutar de mais umas horitas durante o fim-de-semana, pois acordo sempre cedo. Tal como hoje. Bastar-me-ia apanhar o Expresso das 8:45. Quando chegou a hora do despertador tocar, já eu tinha saído de casa e apanhei o transporte uma hora antes do planeado no dia anterior. As notícias que pude ouvir no rádio, os comentários de alguns passageiros e os telefonemas que o condutor do Expresso recebeu, deram-me a entender que tinha havido um acidente daqueles dignos de noticiário. Afinal tratava-se apenas de um acidente de trânsito. Abençoada a hora em que vi mais cedo, assim sendo por mim, o autocarro pode atrasar q.b. que não me fará diferença. Chegado perto do destino ainda pude ir beber um cafésinho (abatanado!) no estabelecimento junto à Junta de Freguesia, o café lá é Delta, muito bom, e curiosamente, no noticiário televisivo a reportagem dominante era a do tal acidente. Foram vários os pontos de reportagem porque entretanto mais umas quantas ocorrências chegaram ao conhecimento dos jornalistas. Sinceramente não percebo porque é que uma situação destas ainda é notícia?! O que eu acho estranho, pela forma como vejo que se transforma a estrada em pista de corridas e em arena de gladiadores, é, não se verificar um número mais elevado de acidentes. O que me leva a fazer um registo escrito do dia de hoje, não são os acidentes rodoviários, tal facto já não é digno de registo, mas está relacionado com trânsito. A calçada da Carriche tinha um engarrafãomento digno de ser feita uma fotografia para um filme daqueles que anunciarão o próximo tsunami na Baixa lisboeta com debanda da população e tal como se pode ver no cinema, toda a gente está parada a ralhar uns com os outros, ou a ralhar sabe-se lá com quem, sem haver sequer espaço para mais uma mota. A diferença é que o dia estava a começar e não o mundo a acabar. Até aqui também já vem sendo normal, pelo menos nestas lides urbanas vai sendo normal o caos. Eu acho curioso, e este é o único adjectivo que agora me ocorre, quando no metro me sinto sozinho no meio da multidão. Depois olho em volta e, tal como nos anos anteriores, parece que toda a gente está sozinha. Quando algum decote mais ousado, ou mais exposto, ou quase com as mamas de fora, chama a atenção dos olhares para seguidamente ser abafado pelos incontornáveis encontrões, empurrões e outros “ões” que, se não fosse a falta de consideração para com os outros, até caberia mais gente dentro da carruagem, porque aquele corredor entre as portas, além de mim e mais uma ou duas passageiras, mais ninguém vai para ali, ficam todos com pressa de sair, como se fosse possível fazer algum movimento voluntário, além do olhar. Quando tenho lugar sentado, em todos os outros dias da semana porque venho cedo, até sou dos primeiros passageiros a entrar, a situação é outra: concentro-me na leitura e de vez em quando lá deixo passar a estação onde deveria ter saído. Voltemos ao que é importante: o que me leva hoje a deixar um registo escrito é o facto de ter visto nos maquinões que estavam engarrafados, centenas de milhares deles, apenas o condutor.

Eu gasto quatro horas por dia, às vezes até um pouquinho mais para ir e voltar do trabalho. Quando tenho de ir de carro, caso tenha uma acção de formação à noite por exemplo, despendo de um pouco mais de duas horas para as viagens e feitas as contas, financeiramente justifica usar os transportes públicos, gastaria quase o dobro para ir de carro.

Bom, voltemos à crise. Qual crise?

Não há nada como a vidinha entrar nos eixos. As coisas voltam a ser como eram, tal como uma viagem de comboio que não terá grandes desvios, dá a volta e torna ao mesmo, impecável. Já é o segundo ano que repito o mesmo caminho. Até que enfim! Alguma vez teria que ser a primeira. Tudo na mesma: vou almoçar ao mesmo local do ano passado, que continua a ser mais barato do que almoçar na escola, continua a ser mais barato do que um abatanado e um pastel de nata na Brasileira e continuam os dois locais repletos de gente. Os locais dos ricos estão cheios de gente; os locais dos pobres, também. Portanto: tudo na mesma.

Isolado na multidão, descansadinho a almoçar no Centro Comercial Colombo, olho lá para baixo e vejo uma mostra de carros. Uma marca nipónica está a fazer publicidade aos seus produtos. Como está muita gente de roda dos carros, aproveito que tenho tempo e passo lá por baixo, só para ver. O facto de estar lá muita gente não deixa os vendedores livres para me mentirem. Fui. Carros lindos, modernos, com faróis em forma de gota, jantes especiais, vidros fumados, linhas todas modernaças e mais uma quantidade de adereços que tornam o carro muito apelativo. 23 mil euros. É o que me interessa: o preço. Vinte e três mil euros e umas borras por uma merda de um carro com 1100 de cilindrada? Está gente está tudo doido! O carro tem tudo e mais alguma coisa… menos motor. Tem uma imagem linda. Mas não tem motor. É caro como o caraças e não tem motor. Fiquei sem perceber o que é que aquela gente toda estava ali a fazer. Provavelmente teriam ido almoçar e no caminho de volta até pararam por ali. Três cilindros… três cilindros e vinte e três mil euros e tal?! Fui-me embora sem perceber muito bem aquilo tudo.

Na semana seguinte, mais do mesmo, tudo nos eixos. Desta vez a exposição de carros é de uma marca espanhola, só isso captou logo a minha atenção. Não foram as gajas pouco vestidas, temos que compreender que isto está mau, há que poupar na roupa das fardas das “piquenas”, que me cativaram a curiosidade, mas sim o facto de esta marca ser conhecida pelos motores potentes e resistentes que por aí têm circulado nos últimos anos a baixo preço. Estas viaturas até dispõem de “bluetooth” além de estofos em pele. Têm tanta coisa que já começo a duvidar que aquilo seja um carro. Os preços, andam ela por ela com marca da semana passada, de motor… nem sei o que diga… este modelo apresenta uma versão com mais 1000 de cilindrada que o da semana passada. Ah! E a opção de se poder pagar a prestações durante… mais reticências… dez anos. Mas tanto o da semana passada como este, tem uma imagem linda. São carros modernos, da moda.

É verdade! Outra vez quinta-feira. Mais um ciclo que se fecha, mais um ciclo que se abre, mais do mesmo. Felizmente já vem sendo normal acordar antes dos despertadores, pelo menos à quinta-feira. Como fiquei prontinho a sair antes de o nascer do sol, quase duas horas antes do necessário, resolvi ir tocar um bocadinho. Nada melhor para começar o dia, do que uma oração cantada. Mas Deus trocou-me as voltas. Pelos vistos estava a velar pelo ainda soninho descansado da minha quase-esposa. Ao baixar-me para tirar a guitarra da caixa, eis senão quando, a esquina da estante dos livros embate violentamente na minha testa! Não, não foi ao centro, foi mais para o lado esquerdo. Galo com sangue pisado e tudo! Nada de brincadeiras. Foi uma cabeçada a sério.

O dia, apesar de ter começado de forma anormal, correu normalmente. Pelo menos até ser invadido pelo pânico. Derradeira aula do dia. Apoios voluntários. Estavam presentes um par de alunos. Claro, nestas coisas de aparecer voluntariamente para estudar, o número é sempre diminuto. Por estas e por outras é que eu acho que o ensino deveria ser grátis e voluntário. Tinha escrito um par de palavras no quadro e dirigia-me aos alunos pelo meio das cadeiras, quando o meu pé direito ficou preso na perna de uma cadeira. Breves momentos. Escassos segundos. Não ficou bem preso, ficou um pouco para trás enquanto arrastava ligeiramente a cadeira, ficou um pouco para trás em relação ao joelho. Agora que escrevo penso que não deve ter chegado aos dois segundos. Foi o pânico. Senti um rubor na face quando voltei à realidade, apoiei-me com uma mão em cada mesa e ergui o olhar à vozita da menina que me interpelava: “O que é que foi, professor?”. Ao responder é que me apercebi que ainda tinha perna – “Foi o meu joelho que deu um estalito, isto já passa…” – e então fui ganhando consciência das dores que pensava sentir, pois já tinham passado, apenas ficou aquele medo psicológico. A sensação que tive foi como aquele efeito que se sente quando voluntariamente se estalam os dedos das mãos, parece que os ossos vão desencaixar mas temos a certeza de que isso não acontece. Pois eu, momentaneamente senti que os meus ossos se tinham desencaixado e que a parte de baixo da minha perna não estava lá, qual peça de Lego a desmontar-se. A sensação de choque eléctrico ficou a assombrar o meu cérebro até que eu conseguisse visualizar que a perna estava no sítio e que eu estava a andar em direcção aos alunos. Assustado, muito assustado.

Realmente, como tudo é secundário. Todos os problemas que penso ter na vida, e tenho, nem num plano secundário ficaram, pura e simplesmente desapareceram de minha mente. O percurso até ao metro foi feito com medo de dar cada um dos passos da inevitável caminhada. Já no metro, nem a leitura me aliviou do susto que tinha apanhado. Curioso como eu ali sozinho no meio da multidão, nem os vi, de tão concentrado que estava em dar cada passo com cuidado ao mudar da linha azul para a amarela. No Expresso valeu-me a conversa com o passageiro do lado. Colega de profissão que eu ainda não tinha visto este ano lectivo. Chorrilho de queixas e lamentos em relação à comédia que é o nosso sistema de ensino. Quando chegar a casa não faço mais nada, que é para mais nada me correr mal. A minha quase-esposa ainda não tinha chegado (e ainda não chegou) e como gosto de esperar por ela para jantar, resolvi apenas espreitar para dentro do frigorífico. Estava lá um resto de umas moelas que só faltava ter o meu nome escrito, não resisti, aqueci-as no microondas. Se calhar deveria ter tirado a tampa do tupperware, porque aquela coisa fez uns sons parecidos com estouros, saltou e pintou todo o interior do microondas de molho de tomate.

Todos os anos é sempre a mesma coisa. Aliás eu nem lhe chamo crise, acho isso uma ofensa para quem vive em crise, como já tenho vindo a escrever, o que nós vivemos é uma assimetria social, crise? Só se for de valores. Já sei que o ano escolar, para mim, começa quando começar. Caso tenha subsídio de férias, que tenho tido, guardo-o na gaveta das meias para quando obtiver colocação possa sobreviver. Quando sou colocado numa escola, por norma, nem sei se é regra mas que todas as vezes que fui colocado a secretaria já tinha lançado os ordenados para esse mês, é uma verdade, tem sido sempre assim, eles lá sabem como é que organizam a coisa. O que quer dizer que só recebo ordenado no final do segundo mês de trabalho. Como tenho começado o Setembro desempregado peço sempre o respectivo subsídio, por isso é que desconto para uma coisa chamada segurança social, para que eu possa ficar assegurado caso necessite, também é verdade que caso queiram um professor disponível a qualquer altura para qualquer lado, lhe paguem para que possa aguardar, o dinheiro do subsídio até costuma chegar lá pelo final de Setembro. Entretanto faço a campanha da fruta, seguem-se as vindimas e a coisa até dá uns trocos para desenrascar. Para que me possa deslocar para o novo local de trabalho utilizo o dinheiro da gaveta das meias. Ao ser colocado dou baixa do subsídio, entretanto tal como nas secretarias da escolas, também a caixa da segurança social já está fechada, tendo pago o que tinham a pagar, no final do ano, lá para Dezembro, pedem-me para devolver o que recebi indevidamente. A verdade é que não pedem, ameaçam. Entretanto está tudo controlado porque recebi dois ordenados, um deles vai directamente para a gaveta das meias, passando a ficar disponível verba suficiente para a devolução à segurança social. A coisa tem funcionado, até agora…

Tal como previsto, Setembro começou comigo desempregado e sem subsídio de desemprego (embora tenha feito descontos todo o ano) e acabou comigo empregado. Outubro começou e continuou sem dinheiro. Na gaveta das meias estão os papéis do Santander, em vez de mil e quinhentos euros. “Isto é que está uma crise!” – dizem os portugueses e com razão. Mas afinal é uma crise ou má gestão?

Hoje foi sexta-feira, o director da escola apanhou um a enrolar uma ganza. Incríveis, mesmo com vários seguranças na escola, os alunos atrevem-se (sim é verdade, a nossa escola têm seguranças! Plural e é com cada um…). Os meus alunos chegaram provando que alguém se esqueceu de lembrar a esta gente que chove em determinada altura do ano e que o problema não está na chuva. Nós, é que nos temos de proteger contra a chuva e não o contrário. Dar aulas aos PCA (Projecto Curricular Alternativo) à hora de almoço é complicado, a preocupação das crianças, além da roupa ainda não ter enxugado, é com o almoço e não com a aula. Eu também sou assim, quando estou com fome não me entra nada na cabeça. Depois de almoço fui-me um bocado abaixo, sentei-me no carro a fingir que estava a ler e deixei os olhos simularem dez minutinhos de sono. Antes do final da tarde, depois das últimas aulas, ainda tive tempo para mais um chá das cinco. O primeiro foi ao quarto para as seis da manhã em casa, depois do banho, um chá de tília e uma fatia de bolo de cenoura que a minha quase-esposa fez ontem, estava uma delícia! Este da tarde foi no café, uma tosta com… o nome de tosta, caríssima e um chá. Dez quilómetros a conduzir atrás da minha colega, para não me perder entre a escola, Venda Nova, Buraca e Damaia, ou Damaia e Buraca eram o que as placas diziam, mas ali nem dá para ver quando acaba uma terra e começa a outra. Chegados a Alfragide ainda não tinha passado da terceira velocidade e fui quase sempre a fundo. Aquilo não é conduzir, aquela gente não é doida, é irresponsável, lá calha sobreviverem. Bom, às dez da noite, hora quando acabou a terceira noite de formação desta semana, rumei a casa, já nem vinha a pensar em jantar mas sim no bolo de cenoura. Acho que todos os que são agentes de autoridade deviam estar de serviço. Esta gente é doida, vinte e quatro horas de serviço durante três dias, só pode ser, não de doidos mas de burros, para a próxima vão querer que eles estejam de serviço vinte e cinco horas por dia. Era luzes azuis por tudo o quanto é canto. Carros para um lado e para o outro, para cima e para baixo, tudo e todos a assinalarem marcha de urgência, só se viam eram luzes azuis, parecia um filme numa noite de invasão extra-terrestre. Cento e setenta e seis quilómetros percorridos entre ida e vinda e vinte e três minutos para o final do dia, cheguei finalmente a casa, graças a Deus que amanhã o chá das cinco é só à tarde. Abençoados os dias em que vou de transporte público.

Valha-me… valha-me Deus? Também não é preciso tanto, vou guardar esse pedido para uma situação pior, por agora acho que basta um santo qualquer, são os saldos. Se já foi difícil a travessia do período do Natal, que para as mulheres tem início em Novembro, então a dos saldos em Janeiro é um suplício. Convenhamos que o importante, efectivamente importante, não é o que eu tiro de uma relação mas sim o que nela ponho, assim sendo, para que os saldos de Fevereiro não se tornem numa tortura, à que aligeirar a coisa e colaborar, afinal um gajo até gosta dela e é verdade que, se gosto de ver as outras bem vestidas, e aprendi “isto” com a minha quase-esposa, mais gosto de ver a minha. Pois assim sendo há que pagar o preço: saldos de Fevereiro, fazer companhia. Esta situação é transversal a todas as gerações, lá estava eu numa loja gigante quando o (felizmente) habitual “stôr” se fez ouvir. É curioso o que os meus antigos alunos têm em comum comigo, não se lembram do nome. Deste ainda não me esqueci, nem me vou esquecer tão depressa! O meu primeiro ano a dar aulas ao secundário… foi este o primeiro e até agora único aluno (o futuro a Deus pertence) que eu abracei pela cintura e coloquei ao meu ombro para o por fora da sala de aula. Foi um episódio memorável, ele mais alto do que eu um palmo e todos se escangalhámos a rir, uma agradável e divertida surpresa para mim esta técnica especial de ensino. Hoje, já estudante universitário, caminha pelos passos de um homem adulto aguardando pacientemente enquanto a namorada veste e experimenta e escolhe e rejeita e finge perguntar e aceitar a opinião, quando na realidade o que querem é que nós estejamos de acordo com o que elas acham. Saídos do shopping, já fora da cidade grande, chegados ao meio rural, pertinho de casa, ouço novamente o “éh stôr!”. Paro o carro, abro a janela e cumprimento estes dois que ainda há bem pouco tempo, parece que foi ontem, formam meus alunos na escola primária. Ali estavam, ainda dentro da escolaridade obrigatória porque ainda são uns cachopos, a calcetar o passeio. Curioso, a GNR passou e não pareceu reparar no trabalho infantil. A quem que caberá essa responsabilidade? É que o passeio é adjacente à autarquia.

Nem tudo foi espinhos. As minhas aulas correram bem e os alunos também se portaram como deve ser, se calhar foi por terem sido feitas as revisões que antecedem o teste. A pétala foi colocada docemente no final do dia na sala dos professores. Uns colegas que falavam, contavam e mentiam acerca das corridas de touros, deram-me uma grande alegria: “E aqueles parvalhões que andam p’ra lá aos gritos contra as touradas, não se atrevem a ir lá à nossa terra, eles que se atrevam, que vão ver!”. Fiquei mesmo contente. É a recompensa de muito esforço, muitos quilómetros percorridos, noites ao frio para cá e para lá, voz rouca… finalmente as pessoas estão a começar a ouvir-nos. Uma conversa acerca das touradas, que acaba a falar sobre nós, os manifestantes anti-touradas, é fantástico. Confesso e registo que ainda pensei em explicar porque é que ainda não fizemos manifestações em todo o lado e mais algum, mas como é senso comum e aquele momento naquele local não era propício a mais aulas, optei por me calar e continuar a fazer o que estava a fazer. A seu tempo informarei que para fazer uma manifestação é necessária autorização do governo civil local e essa só pode ser pedida pelos habitantes residentes na mesma. E é muito bom que seja tudo legal porque só assim a polícia aparece para nos proteger da violência que tentam exercer sobre nós, manifestantes.

Mais um dia que começou normal. O mais normal e rotineiro possível mas com uma ligeira diferença: “O fim está próximo!”. Isto de gerir o calendário por períodos e férias escolares acho que faz um gajo mais velho, ou pelo menos parecem ser sinais da velocidade do tempo porque, ainda o período anterior mal acabou, já este tem o final marcado. É um instante. Hoje, que finalmente consegui vir mais cedo para casa, um gajo matou-se no metro. Vá lá menos mal, consegui dar a volta por outra linha mas a vantagem que trazia, rapidamente se diluiu. Já não bastava as quatro, nada mais, nada menos do que quatro avarias no expresso este mês, se bem que uma delas foi o condutor que adormeceu, logo não será justo imputar a falha ao veículo mas optei por acrescentar o número à quantidade de vezes que sai prejudicado este mês. Não pensei referi-las, porque presenciei as avarias mecânicas e essas coisas acontecem a quem anda na estrada. O suicídio ou “incidente” como foi designado pelo Metro, esse sim, é que é mais chato pois não é possível ralhar com o culpado e ainda bem que não presenciei tal atrocidade. Coitado do maquinista. Se o dia tinha começado normal, normal continuou, pois tudo me acontece, eu é que não quero acreditar que “isto” seja normal. Vinha eu a pensar que tenho colegas de profissão que se recusam a votar por questões de princípios, valha-me Deus!, como é que é possível que funcionários públicos, ainda por cima professores, além de pensarem e agirem desta forma, ainda o apregoam, quando surge esta do atraso do metro. Mas a confusão na minha cabeça continuou, agora com o final do ano lectivo dizia de mim para comigo como é que é possível que se façam PCAs (Projectos Curriculares Adaptados ou Alternativos) à vontade do freguês? Acho que lá vou percebendo, a escola serve para preparar o indivíduo para interagir com a sociedade, mas como se adapta tudo à vontade do freguês, não o preparamos para a sociedade que foi criada para que possamos viver em conjunto uns com os outros mas sim para outra qualquer, isto porque logo de pequeno se é ensinado de forma diferente. Se calhar deveríamos perguntar aos contribuintes o que é que acham de tudo isto? Uma escola de níveis o projectos curriculares diferentes. A verdade é que seja lá como for, é a forma que foi encontrada para ensinar alguma coisa, não o que seria desejável mas alguma coisa. É normal que as pessoas não se tornem profissionais competentes visto que a educação base não é exigente. Afinal nós não fazemos as coisas de forma muito diferente daquela que censuramos e acusamos aos outros. Quando apontamos os dedos aos pobres por estarem a comer bolos no café no inicio do mês, por exemplo, que digam os restantes que não fazem o mesmo! Tenho mesmo que deixar de pensar tanto em tantas tretas e aproveitar o fim-de-semana. A verdade é que para aproxima segunda, terça e quarta-feira tenho reuniões até de noite, o que quer dizer que tenho de ir para a escola de carro. O expresso passou pela minha paragem e começaram os meus últimos dez quilómetros até casa. Até casa, não. Fui ter com a minha quase-esposa, convida-la para beber um cafezito, aceitou. Sentamo-nos no carro, dei à chave, as luzitas acenderam-se todas e, acho que aquilo parecia uma árvore de natal comprada no chinês, pois piscaram uma vez e depois fundiu-se tudo. Sexta-feira ao fim do dia. Pr’a semana preciso do carro! Já no mecânico, ao testarmos o carro deparamo-nos com uma surpresa inacreditável, até parece mentira, é que tudo mas mesmo tudo me acontece, o gajo do reboque levou a chave do carro com ele.

Estive a ler isto tudo e é engraçado porque hoje tenho trabalho, mas não tenho subsídio de Natal para pagar o seguro do carro, não tenho subsídio de férias para me aguentar até ser colocado novamente e o meu ordenado acaba três ou quatro dias antes do fim do mês. À marmita que vai na mochila acrescentei o termo do café.

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