O caos – by Zé Pedro

Meu querido diário – que lamechice! – vou começar de outra maneira: Meu querido blogue – pior ainda… bem seja como for hoje é Sábado, já vamos a cinco de Setembro do ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ontem foi sexta-feira, anteontem foi quinta e o meu ritual foi mais ou menos o mesmo. Deve ser por isso que se chama rotina. Acordei, fui à casa de banho, expeli o meu PIB, café e internet, como vocês já sabem, cuscar emails e outras porcarias que tais – que agora se chama junkmail – também descobri outra palavra muito gira que é Sexting, mas isso é outra conversa – entre refeições e calmaria reparei que o mundo não parou. Não aconteceu assim nada de especial. Eu já sei em quem vou votar, aliás já sabia – um pouco devido àquele email que diz que o governo tem sexo comigo a torto e a direito – é evidente que não me mantenho alheio à política durante todo o ano, sendo que deva cumprir com as minhas obrigações de pagador de impostos. Vamos ao que importa: O mundo não parou! Não sei quantas empresas fecharam; não sei quantos desempregados e mais uns tantos casos de gripe e agora parece que está na moda, aqui del-rei, que a apresentadora da televisão está desempregada. Pois, coitada, se se despediu não tem direito a subsídio. Eu vi o Jornal da TV, que me lembre, três vezes: a primeira quando ela fez a operação plástica, era uma mulher bonita, ficou como se pode ver; a segunda foi quando tentou entrevistar o Major Valentão e a terceira foi via internet a tal discussão com o gajo da ordem dos advogados. Eu não percebo porquê tanta preocupação e tanto alarido com uma coisa sem jeito nenhum! Era só o que faltava, algo importante estar depende de um canal privado de televisão de uma empresa, eu já nem digo espanhola mas sim europeia, possa ou não fazer. Por este andar só falta virem pedir subsídio ao Estado, que a gente paga!

Isto de enfiar a carapuça tem o que se lhe diga! Estava eu a ler aqui no diário e reparei que “diário” significa que a “coisa” deve ser diária, bom, mais ou menos. Salvaguardar o facto de ser de autor, o que quer dizer que me posso dar a esses luxos de não escrever todos os dias, embora seja do meu interesse deixar um registo para a posteridade do que é que se vai passando no mundo, sobretudo no meu. É um bom exercício para no futuro comparar como as coisas tem andado, enfim como as coisas se tem passado (e vê-se com cada uma!). Hoje, Sábado 19 de Setembro, enquanto folheava os meus escritos deparei-me com algo que copiei da internet, já nem sei de onde. Ao questionar-me sobre porque carga de água é que tinha guardado tal texto, tentei, e agora uma expressão muito nossa: “enfiar a carapuça”, cá vai: “O que significa “sustentável”? – Em termos simples, pesca sustentável é aquela cujas práticas podem ser mantidas indefinidamente sem com isso reduzir a capacidade das espécies alvo de manter níveis de população saudáveis e sem ter impactos negativos noutras espécies do ecossistema, ao remover as suas fontes de alimentação, prejudicar o seu ambiente físico ou capturá-las acidentalmente.” e pronto. O divertido foi encaixar a carapuça noutros contextos, ou devo dizer encaixar o preservativo? vejamos:  “O que significa “sustentável”? – Em termos simples, queca sustentável é aquela cujas práticas podem ser mantidas indefinidamente sem com isso reduzir a capacidade das espécies alvo de manter níveis de população saudáveis e sem ter impactos negativos noutras espécies do ecossistema, ao remover as suas fontes de alimentação, prejudicar o seu ambiente físico ou capturá-las acidentalmente.” pois… e a coisa continua. Se eu enfiar a carapuça na carteira: “O que significa “sustentável”? – Em termos simples, carteira sustentável é aquela cujas práticas podem ser mantidas indefinidamente sem com isso reduzir a capacidade das espécies alvo de manter níveis de população saudáveis e sem ter impactos negativos noutras espécies do ecossistema, ao remover as suas fontes de alimentação, prejudicar o seu ambiente físico ou capturá-las acidentalmente.”, já começa a perder a piada, ainda mais porque estamos em Portugal onde o índice de endividamento da população é digno de ser travado com um preservativo. A saga da carapuça continua, vamos enfiá-la no carro, na espiritualidade, no trabalho, na família, eu sei lá onde! Já sei! Lembrei-me! Foi por causa da pesca ao espadarte!

Ficar sentado no sofá a beber chazinho tem as suas vantagens, dá para a gente por a conversa em dia. A minha quase esposa elucidou-me sobre a minha última grande dúvida: teria eu sonhado com a sirene dos bombeiros a noite passada, duas vezes, ou teria sido realidade. Preferia que tivesse sido um sonho. Após terem apagado o incêndio no sopé da paisagem protegida da Serra de Montejunto, facto em si estranho porque a Lua não pega fogo à mata, e o segundo toque foi devido a um reacendimento. Só me apetece fazer uma piada com o episódio de a Lua pegar fogo à mata, mas não consigo. Especialmente porque hoje é quinta-feira, dia de caça, e os animais que habitam na área protegida são forçados a sair de lá. Digno de qualquer programa americano de teorias de conspiração mas, desta feita, os acontecimentos são à minha porta. Incrédulo com tal situação e como o tempo passa, resolvemos ir para a caminha, ver um bocadinho de televisão. A meio do zapping uma reportagem despertou-me a atenção: navios de carga. Os daquele mundo que eu não conheço, os daquela vida que se passa toda ali ao lado em cima da água, o comércio e transição de bens e valores, o escoar dos produtos de todas as fábricas de todo o mundo, enfim o movimento, o que faz o mundo andar, crescer, sim esse mundo que me passa ao lado tem uma frota que está parada. Pelo menos 12% dessa frota está parada com direito a programa na televisão e tudo. No National Geographic vi e achei digno de registo para a posteridade que 12% daqueles cargueiros gigantescos, que movem fortunas em mercadoria, estão parados. Alguns nem tripulação têm. Estão ali parados e pronto. Lembrei-me de ter visto também na caixinha que mudou o mundo, que o porto de Portimão terá que ser mais fundo, para os dez metros porque os actuais oito já não dão vazame aos navios que por ali querem atracar. Comunicação Social também engloba os jornais nos quais pedem cada vez mais e com maior frequência, tripulação. Por email chegam fotografias dos cada vez maiores cruzeiros do mundo. Agora já são autênticas cidades flutuantes. Basta ter dinheiro e está disponível sítio para o gastar. Nos blogues e nas conversas, até nas agências de viagens, constatamos o número crescente destes navios de luxo, cada vez com mais clientes. Cada vez há mais gente com dinheiro para passear, para passar férias de luxo numa coisa destas. Como são as memórias! Voltei à aldeia onde nasci e passei pelo super mercado onde costumava olhar para os rebuçados. A família que explora aquela espécie de super-mercado, onde se podia ficar a dever, sendo os preços inflacionados posteriormente na hora do pagamento, foi, com o passar do tempo, e hoje é bem visível, apresentando sinais exteriores de riqueza. A casa velha onde sita o respectivo é agora germinada com uma vivenda daquelas que dá para filmar novelas argentinas. O Mercedes no jardim faz-me tirar a ideia da novela e pensar num filme pornográfico. A pick-up que lá está estacionada, daquelas novas de três mil de cilindrada, podia levar as gajas para a quinta que eles não tinham quando eu era criança, e aí continuar o farrobodó. Ou então quem sabe para o apartamento que compraram na praia. A verdade é que a empregada que lá está a desenrascar, ganha trezentos euros por mês, pagos por baixo da mesa e de onde são subtraídos os valores das compras efectuadas. Disse-me que agora fica lá com a velha porque eles foram fazer um cruzeiro, porque… a dona estava com um princípio de depressão nervosa por causa da crise! E o médico mandou-a descansar. Na altura das vacas gordas, engorda-se o porco. Na altura das vacas magras, mata-se o porco, compram-se uns chouriços aos espanhóis e vendem-se a prestações aos pobres para alimentar as vacas e comprar um leitão. E depois um gajo não dorme!

Dantes era mais fácil ir despejar o lixo. Era só um saco. Bastava deixá-lo ao pé da porta para quando saísse, não usar a desculpa de me ter esquecido de levar o lixo. Vinte metros à esquerda da porta do meu prédio está um caixote do lixo, o da direita dista quase trinta metros. Agora com estas modernices todas, o meu espaço para depositar o lixo em casa multiplicou-se. Quero dizer: o espaço não aumentou, é o mesmo, o espaço ocupado pelo lixo é que triplicou. É uma situação normal, um gajo não pode ser professor, dizer aos alunos para separarem o lixo, explicar a reciclagem e depois não fazer o que se ensina, não pode ser. “Faz como eu digo, não faças como eu faço” é um provérbio que não fica bem, não é? Mas o problema não se cinge à minha casa, na rua passa-se o mesmo. Junto ao contentor do lixo do lado direito cresceram três ecopontos, lá se foi um lugar de estacionamento. A diferença é que o caixote do lixo continua cheio e os ecopontos vazios.

Em casa, olhei para o saco do lixo e tive a intenção de que ele se fosse despejar, não resultou. A minha quase-esposa já tinha saído para trabalhar e, quem pôs ali o saco fui eu, portanto achei legítimo ir despejar o lixo, já não tinha mais desculpas. Chegado à rua e tentei, eu bem que tentei despejar o lixo mas não foi possível, o contentor já extravasava. Não fui capaz de o deixar ali ao pé daquele monte de lixo, os funcionários não são meus criados para terem que andar a apanhar os sacos que eu deixo no chão, não é essa a função deles. A função deles consiste em despejar o contentor e merecem respeito como qualquer trabalhador honrado portanto optei por andar mais uns sessenta metros até ao contentor seguinte para deixar lá o saco do lixo. O que eu não consigo perceber é porque é que o contentor está cheio com o lixo que deveria estar nos ecopontos? Não entendo, os ecopontos vazios e… ainda estava eu a resmungar quando cheguei ao outro contentor e, não fiquei surpreso de o ver quase cheio com, imagine-se… caixas de cartão e garrafas de vidro. Lembrei-me de mais um provérbio que não vou respeitar: “Terra onde fores ter, faz como vês fazer”.

Aqui há uns dias atrás, em conversa com o meu melhor amigo, o taberneiro, cheguei à brilhante conclusão, como se tivesse descoberto a pólvora, que afinal para o ano que vêm, ele lamentou-se com o Correio da Manhã na mão, dizendo que “Epá, ó Zé, isto está tão mau que eu p’ró ano não sei como é que vai ser…” – Sei eu! – respondi-lhe de imediato – para o ano que vêm, vamos ter mais do mesmo. Muito simples: depois da passagem de ano aumentam os impostos e depois vamos todos a continuar a ser pior do que os ciganos. Pelos menos os ciganos, todos sabemos que são ciganos. Desde que me lembro de ser gente que tem sido sempre assim. Os comerciantes da zona onde moro, seja ela qual tenha sido, todos enriquecem à custa de muito trabalho, de dia e de noite, isso é verdade, mas pagar impostos, não pagam! A cabeleireira; o sapateiro; o da restauração; o do mini-mercado que hoje reclama por causa das grandes superfícies; o dos pneus; a florista; podemos subir de patamar; a advogada; o médico, e mais uns quantos, prestam um serviço pelo qual recebem “por fora” – até temos a expressão receber por fora. Na internet continua a circular que a culpa da crise é dos desgraçados que nada têm, porque não querem trabalhar, desafio qualquer um dos senhores que vai à televisão falar sobre a crise, a dizer quanto custa a roupa que tem vestida. Anos e anos com rendimentos não declarados, sejam eles pescadores, agricultores e agora estes novos comerciantes com o nome pomposo de PME (embora digamos P.M.ÉS), têm o descaramento de pedir subsídios ao Estado, e o governo dá, têm o atrevimento de pedir trabalhadores subsidiados, como se eles não ganhassem o suficiente pare lhes pagar, então porquê contratá-los? e o governo dá, enquanto continuar a ser assim, a brincar aos governos, a situação vai sendo sempre igual, com a agravante de que vai piorando um bocadinho ano após ano. Eu, como sou professor, quando recebo o vencimento, já vêm subtraídos os impostos. Dei aulas extra curriculares e passei o respectivo recibo à empresa que foi contratada pela autarquia para contratar professores para trabalhar na escola onde já trabalham. P’ra quê? Pergunto eu! Ora só pode ser para enriquecer a tal empresa com o dinheiro dos impostos. A autarquia recebe uma verba do governo para que os alunos (que não querem!) tenham aulas de enriquecimento curricular (deviam de aproveitar), retêm essa verba, contrata uma empresa que não vai dar as aulas e essa empresa, por sua vez, contrata-me a mim, pagando-me menos de 1/3 do que recebeu por cada hora que eu trabalhar, para que eu faça o serviço numa escola onde já trabalho e já recebo ordenado! Ora… então o que é isto? Isto é brincar à governação. Até os alunos, por mais que chumbem a matemática, se apercebem que não vale a pena meter dinheiro num saco com buracos. Agora o governo decidiu subsidiar mais um investimento de 33 milhões de euros em hotéis privados, na Serra da Estrela. Fiquei curioso, será que os hotéis irão partilhar os lucros com os contribuintes? Ora toda a gente sabe que não. A empresa visa o lucro, não o desperdício nem a causa pública. Dantes ainda se dizia “Queres dinheiro? Vai ao Totta.” ou então “Pensas que isto aqui é a Santa Casa?” hoje todos sabemos que é um está extinto e a outra é das empresas mais ricas dos pais. Portanto, ninguém dá nada a ninguém. Nos países onde passei, todos os hotéis de montanha foram pagos e são explorados pelos particulares. Se a empresa que vai abrir um negócio, faz um estudo de mercado e conclui que opta por investir, tendo em vista o lucro, então… desenrasque-se! Depois ainda vai pedir subsídio, ao Estado, para pagar aos funcionários quando os clientes da neve estiverem na praia. A malta não vota. Se votássemos todos… talvez houvesse mais disputa pelo cargo de Primeiro-Ministro. Como os portugueses já mostraram o seu interesse, isto para o ano, vai ser mais do mesmo. Os pobres é que terão a culpa e os ricos vão continuar a ser subsidiados.

As coisas que se podem aprender numa taberna!

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