Mais um Verão na vida do Zé Pedro

3_julhoTerça-feira, 30 de Junho

Pensei que já estava vacinado contra isto! Mas não estou. Ao sair ao portão da escola, já completamente fora de horas e fora de contrato, depois de um dia inteiro a fazer matrículas, ou melhor a ajudar a fazer matrículas porque eu não percebo nada daquilo, o que também não é grande problema porque os encarregados de educação que por lá apareceram também não percebem patavina e já andam nestas andanças há tanto tempo quanto eu. 1/3, matricularam os filhos, corrigindo os alunos, apenas 1/3 do total dos estudantes daquela turma. Cada vez percebo menos: as mães e os pais e os outros que por lá apareceram, quase todos chegaram lá a ralhar, com queixas e com pressa mas, depois de dois dedos de conversa já éramos os melhores amigos do mundo. É triste que aquela gente só perceba o quanto gostamos, eu e as minhas colegas, dos filhos deles, é estranho que não se apercebam que nós somos as pessoas que lhes pegamos ao colo quando eles se magoam, que fazemos festinhas na cabeça quando choram, que os aplaudimos, castigamos e ralhamos. É que muito do que eles aprendem hoje ser-lhe-á útil para o resto da vida! Em 2060 alguns destes alunos ainda recorrerão aos ensinamentos de hoje. O facto de já não serem meninos e meninas de colo, não significa que nós os tratemos de forma parecida com aquela que os encarregados de educação dizem pensar que nós fazemos ao vociferar que estamos lá para tramar os filhos deles. Custa. Abandonar isto tudo, sair ao portão sozinho, continuar a caminhar sozinho, olhando para trás vendo a escola cada vez mais pequena, mais distante. Olhar para a frente e ver apenas o caminho para o metropolitano que me leva ao desemprego. A caminho dos quarenta e de mais um verão cheio de incertezas. Peras e vindima, concursos e procura de emprego e sobretudo tempo, muito tempo para pensar que já me dediquei a tantas escolas e ainda não fiquei em nenhuma. Os políticos e a televisão falam, falam, falam, mas quem se f*** sou eu! Olhei para aquela gente toda no metro como se fosse a última vez, despedi-me “Adeus cambada de malucos e gajas boas!”, gostei daqueles às sete da manhã que falam uns com os outros alegre e descontraidamente, poucos, até parece que não são dali; os das oito horas até às nove são mais de plástico, vestidos de fato e gravata, elas com decotes impossíveis de guardar qualquer segredo e todos em silêncio, todos desconhecidos uns dos outros, são efectivamente mais do que as sardinhas; os das dez em diante são os mais fixes, já com uma idade madura, sem pressas, com um à vontade não demonstrado pelos grupos anteriores, até parecem dali, poucos, despedi-me deles todos, até um dia. No Expresso repetiu-se a despedida mas já com alguns apertos de mão e votos de boa sorte e até à próxima. Fui nadar. Tive que ir nadar para esconder as lágrimas. Engraçado, não estava sozinho na piscina! Encontrei um casal de russos com a filha que brincavam na água.

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Quarta-feira, 1 de Julho

E pronto, lá fui eu matar saudades do Centro de Desemprego. Centro de Desemprego é um nome que se lhe adequa melhor do que Centro de Emprego e isto porque ainda não vi ninguém sair dali empregado. Há uns quantos malucos que aproveitam o apoio ao empresário empreendedor, que recebem todo o subsídio a que tem direito durante “x” tempo, todo numa só tranche e para investir em negócio próprio, são esses empreendedores que com o apoio do Centro de Desemprego que eu vou vendo por lá ano após ano, com a agravante de que os do ano anterior espatifaram o dinheiro todo e agora estão a dever ao banco, depois pedem ajuda ao Banco Alimentar Contra a Fome, porque ninguém na rede de acção social foi capaz de dizer ás pessoas para não fazerem asneiras, quiseram apenas nos gráficos e nas estatísticas mostrar que Portugal e lá a instituição onde eles trabalham, existe o apoio ao empreendedorismo, lhes foi capaz de dizer que não. Bom, mas isso não importa, isso são só pessoas que estão à rasca por não terem emprego e tentam criar o próprio, lixam-se. Desta vez fiquei surpreendido não pela quantidade de Doutores e Engenheiros que lá esperavam, mas sim pelo número de homens de cabelo branco. Deveriam estar lá umas cinquenta pessoas, das quais quinze, mais cabeça menos cabeça, seriam homens de cabelo branco que aparentavam mais de cinquenta anos. Achei engraçado a quantidade de gente que procura trabalho nos bares das praias. Eu não sei, será que aquela gente não sabe que trabalhar num bar de praia dá uma trabalheira desgraçada: os horários, de dia e de noite, sempre a andar para cá e para lá, ver aquela gente toda sem fazer nenhum e todos de férias, aturar bebedeiras e gritaria dos cachopos, ganhar uma miséria, e apenas durante o Verão, não é fácil! Mas pude constatar pelo bronzeado de umas quantas mulheres que lá estavam que ainda há quem procure esse tipo de trabalho, assim é que é.

verão ze pedro_3Quinta-feira, 2 de Julho

Afinal quem manda é o relógio biológico e não o despertador. Acordei tão cedo que se tivesse conseguido acordar a Sofia, ela de certeza que começava o dia a ralhar. E isso não é bom, especialmente para mim.

Quando a oficina abriu já eu lá estava para pagar a conta ao mecânico. Já está e já que estou nesta maré de pagar contas, aproveito vou ao banco e pago já a renda. Até parece que hoje é dia de gastar dinheiro, parece mas não é! Obrigações são obrigações, são para cumprir. Estou tão habituado a pagar renda que até acho estranho quando as pessoas comentam comigo que deve “custar muito estar a pagar uma coisa que não é nossa.” Eu, muito sinceramente, acho que  deve custar muito mais estar a pagar uma prestação de casa própria com valores iguais a um dos ordenados de um dos membros do casal, ou com um deles desempregado, ou viver às custas da sogra às escondidas do sogro, ou acabar de pagar a casa dois anos depois de morto, ou cada vez que se verifica um aumento das taxas de juro é directamente proporcional o aumento na compra de latas de salsichas, mas é só o que eu acho aqui no meu diário, evidentemente que posso estar errado! Burro é aquele que não aprende com os erros e inteligente é aquele que aprende com os erros dos outros e a verdade é que as minha colegas já me ensinaram, por onde fui passado ao longo dos anos, que eu não quero viver uma situação na qual num ano se paga quinhentos e tal euros de prestação ao banco e no seguinte, pela mesma prestação, mais de setecentos; ou então quando finalmente começam a pagar a casa não vivem lá, essa é que eu não percebo! Ela ficou colocada a duas centenas de quilómetros de casa, ele, que não é professor, arranjou trabalho a duas centenas e meia de distância da casa nova, quantas “elas e eles” não vivem situações destas? Passa-se aqui qualquer coisa que eu não percebo muito bem.

Passei pelo local da trabalho da minha quase-esposa, ainda fui beber café com o colega dela e tal, dois dedos de conversa, agradável. Já que estava por ali fui até à UNIVA, como estou desempregado, convém estar atento a estas coisas, mas singrou-se por um bom momento de conversa. Aliás acho que até dava um bom blogue: “Conversas no Centro de (Des)Emprego!” ena pá! Feito apenas com intervenções de quem lá está e por quem lá passa! Imaginemos os posts de quem espera a contrastar com os de quem lá trabalha e, vários tradutores para traduzirem os posts para português. Havia de ser bonito! Dava de cá um programa de televisão. Continuando, não saí de lá empregado, valeu pela conversa.

Fiz peixe para o almoço. Ando a namorar a ideia, não de fazer dieta, mas a de perder alguns quilos. Já arranjei culpado, foi a falta de tempo durante o ano lectivo para comer regradamente, agora estou a ficar sem desculpas.

Ao final do dia fui nadar. Não fiquei mais magro, muito pelo contrário, um gajo ali com aquela carapuça apertadinha na cabeça, em frente aos vidros que fazem de espelhos, fica mais barrigudo, portanto, conclusão a tirar: a carapuça faz um gajo mais gordo!

A Sofia foi ao shopping com a Albertina ou seja; não sei se mais logo quando ela chegar, a noite será de sexo ou de conversa sobre calmantes!

30_junhoSexta-feira, 3 de Julho

Isto não está fácil! Acordar já preocupado com o facto de não haver nada para fazer é mau. Fazer o quê? Ir à procura de um emprego que não gosto? Não sei se sou capaz de fazer e que me faz abandonar o ensino? Vontade nenhuma. Agora que um gajo está na idade de produzir é que não tenho nada para fazer. Vou fazer o quê? Procurar formação profissional para mim? Para aprender seria muito bom, mas é muito caro e estou desempregado, para dar tenho que passar recibos verdes ou seja teria que me colectar e assumir um contrato profissional que irá acabar depois de iniciar o próximo ano lectivo. Bom, posso sempre arrumar a casa, é uma hipótese, remota mas é uma hipótese. Limpar o pó aos livros… limpar o pó à sala… isto de morar num meio rural tem as suas desvantagens. Passar a ferro está fora de questão! Não estou preparado psicologicamente para tamanha demanda. Ler? Não me consigo concentrar e ficar calmo. Navegar nos sites do Ministério da Educação, dos Sindicatos, sei lá mais onde… não estou para aí virado. Ver mails? Pior. Agora está na moda de novo aqueles powerpoints que dizem que a vida vai correr muito bem, que temos de sorrir muito, e flores, e tal… coisas lamechas. Escrever um artigo no blogue? Não estou inspirado… Escrever o meu diário? Pior a emenda que o soneto. Então se eu não me sinto muito bem, estou para aqui ansioso e stressado com os problemas que ainda não existem, escrever sobre isso seria tortura! Masoquismo é coisa de gente doente da cabeça.

padaria_42Sábado, 4 de Julho

O Zé faz anos! Já o ano passado fazia, este ano faz outra vez. Um grande amigo dos tempos de universidade em Viseu faz hoje anos. É fácil de decorar, é feriado na América e o Zé faz anos. Até aqui tudo igual como no ano passado, a diferença surge agora: já têm duas meninas que eu ainda não conheço!

Lá no voluntariado que eu faço, ainda não o registei aqui porque também considero que se deva dar com a direita sem que a esquerda veja, além de considerar que essa coisa de Banco de Voluntariado, sirva para encher jornais e egos, não consigo permanecer indiferente ao facto de me ter apercebido que se vive uma situação de emergência social que eu não entendo! Sinceramente por mais voltas que dê não consigo perceber. Não compreendo como é que as pessoas se endividam em créditos a 2/3 do ordenado, quando deveria ser apenas 1/3. Nem consigo escrever a esse respeito sem que me repita. Se alguns pobres já sentem as prateleiras vazias na dispensa, continuando a encher a carteira dos ricos de dinheiro, se um deles já está desempregado, então como é que vai ser quando o subsídio de desemprego chegar ao fim? Então e aqueles “jovens” de vinte anos que nunca fizeram uma ponta de um corno, que recebem subsídios e gansas dos outros, quando a fonte desses secar, os seja os pais deixarem de abrir os cordões à bolsa, onde é que eles o vão buscar? Admitindo a hipótese de até procurarem emprego, então se não há para os pais, vai haver para eles? Sinceramente por mais que pense, chego sempre à brilhante conclusão que sou um parvo em estar aqui a preocupar-me mais com os problemas dos outros do que eles próprios. Porque é que as pessoas hão-de fazer alguma coisa, se tudo lhes vem ter à mão? Ora bem se calhar eu já deveria estar a pagar uma casa! Mas com o fantasma do desemprego e da colocação longínqua, não sou capaz de meter a cabeça no cepo, quando vejo que o machado já se encontra em rota descendente. Deus até existe! Mas é preciso cuidado com os milagres que se pedem.

Image013 - CópiaDomingo, 5 de Julho

Hoje fui sozinho tratar dos cães do hotel. A minha quase-esposa está a trabalhar e eu, para descomprimir e não ter que aguardar pelo fim do dia fui lá sozinho. Vou fazendo as coisas… com calma… algo bom que aprendi no Alentejo. Verdade seja dita que aquilo não é bem tratar dos animais, eu não entendo como uma obrigação. Para mim é relaxante, faço-o por prazer. Solto os bichos todos, brincam, brincam, brincam! Saltam, correm, arranham-me as pernas, abanam o rabo e dão-se todos bem. Claro que solto cães com cães e gatos com gatos, estes combinam melhor o boicote à entrada de volta às boxes. No meio daquela bicharada vê-se de tudo: uma cadelita de porte pequeno encontrada abandonada na estrada com as patas partidas, é uma vivaça! Vizinha de um minúsculo que nasceu com um defeito nas articulações, era para ser abatido, ainda por lá anda, ou melhor luta por conseguir andar; depois outro muito velho, que mal consegue andar, pouco vê e quase nada ouve, faz um esforço do outro mundo para conseguir tentar chegar à relva, não consegue, tem que ser carregado ao colo; mais uns quantos grandes e pequenos cada um com a sua história, uns recolhidos por particulares que não tendo condições para os terem em casa, pagam para que os bichos possam ter condições dignas; outros turistas estrangeiros, embora os donos sejam ingleses, os cães ladram todos a mesma língua. Uns altos e pretos, outros baixos e castanhos; mais aqueles que tentam marcar território; mas todos obedientes e brincalhões, entre eles não se nota as diferenças que nós lhe apontamos. É um momento bem passado. Exceptuando claro, o momento no qual uma inglesa telefonou dizendo que queria “book in”. Valha-me Deus, as coisas que os professores não ensinam na escola! Primeiro que esta minha cabecinha percebesse o que é que a senhora queria dizer com “book in” passou uma carrada de segundos…

cadaval_003Segunda-feira, 6 de Julho

Fui às compras. Coitados dos empregados daquele Intermarchê, despedem-se todos. É uma situação perfeitamente normal, senão vejamos: os empresários que temos, pelo menos alguns, não tem se quer a quarta classe, também não é preciso, e muito menos se deve fazer como o primeiro-ministro que falsifica habilitações literárias, convenhamos que ele já era Primeiro antes do respectivo certificado, podem ser bons sem a quarta classe. Mas esse “ser bom” que nós vemos apenas se reflecte nos seus sinais exteriores de riqueza. Muitos deles não evoluíram, não se adaptaram ao mercado e continuam a teimar operar sem nicho; poucos são os que tentam manter formação no ramo empresarial, convencidos que se participarem numa formação profissional será para ensinar e não para aprender mas a verdade é que muito deles já estão a ficar sem familiares nos quais possam repetidamente ir depositando os lucros das novas empresas. Existem empresários muito bons evidentemente. Não conheço nenhum. É giro, quando os vejo parece que têm o rei na barriga, é efectivamente é uma boa comparação, quem quer que a tenha inventado soube bem o que fez, porque apresentam barriga cheia e devem ordenados aos empregados, esperam deles um pouco mais do que escravatura, horas extras de dia e de noite, receber por fora, fugir aos impostos (o que infelizmente ainda continua a ser considerado uma proeza) devem aos bancos, fazem negociatas ilegais e mais um número de malabarismo financeiros que escapam sempre à lenta, falível e vergonhosa inspecção que nós fingimos ter. Bom chega de falar da vida dos outros. É o que faz sair à rua. Na minha vida a coisa está preta, saíram as listas e eu não fui colocado. Daa-ssse.

santarem_2009_4 - CópiaTerça-feira, 7 de Julho

Ah! Um dia aparentemente normal, até que enfim. De manhã passei pela Cruz Vermelha para dar uma ajudinha no Banco Alimentar Contra a Fome. Acabei por ficar o dia todo. A falta de voluntários ou de quem queria realmente e esteja disposto a fazer força, porque ter força de vontade é uma coisa, e vontade de fazer é outra, seja como for a falta de gente é de tal ordem que quando por lá passo há sempre muito que fazer, de maneira que levei o dia todo. Só faz bem e recomendo. Vi a casa fazer o almoço, também era só o que faltava, a Sofia a trabalhar e eu nem sequer faria o almoço. Quando ela chegou, chegaram também os telemóveis. Um dos primeiros telefonemas era um convite para irmos beber café. De maneira que tivemos a irmã da Sofia e o cunhado como convidados para o almoço. Até foi fixe!

Hoje é a vez da minha quase-esposa ir tratar dos cães do canil, e foi. Para não a sobrecarregar fui eu tratar dos do hotel, aquilo até é muito divertido, faz-se bem e faz-me bem.

No final do dia passei por casa, carreguei o equipamento de natação e, é um bocado evidente se carreguei o equipamento de natação, fui nadar.

Saladinha para o jantar, não é muito bem jogado alimentos crus à noite mas pronto e pronto é conclusivo. Sofá e relaxante muscular nas pernas.

A noite foi passada sem sobressaltos, nenhuma agitação (e quero dizer mesmo que não houve agitação! Um gajo gasta as energias a nadar de um lado para o outro é normal que adormeça quando se deita, não é?).

Image012Quarta-feira, 8 de Julho

A Sofia tirou o dia de folga, tinha direito a ele, então vá de dia de folga. Quero dizer: tirou parte do dia de folga! A parte da tarde visto que a manhã foi dedicada exclusivamente ao sono sob o efeito da medicação para combater a alergia aos pelos dos gatos. A melhor forma que eu encontrei de a acordar foi com o almoço na caminha. “Bem bom” pensei eu, porque ela acordou resmungona na mesma. De tarde, a ver se a coisa equilibrava, fomos até à praia… Na praia, imagine-se, correu pior ainda, depois de sentadinhos, (nós dizemos abancados mas não montamos nenhuma banca?) levantou-se um vendaval tipo aqueles emails das tempestades no deserto no Iraque, digo tipo e-mails porque eu nunca vi uma tempestades dessas de areia ao vivo, ou seja está-se mesmo a ver que um dia destes consigo sair do país em férias, laurear a pevide e hei-de vir relatar ao vivo como é que é a sensação de comer areia por todos os orifícios do corpo! Bom, não piorando a coisa, se houvesse gente de saia teria sido engraçado de ver, mas não, só havia mesmo areia por todo o lado, corrigindo: por todos os lados, inclusive por cima. O que salvou o dia foi a policia. Um casalinho deles, de calçãozinho e de bicicleta. Nunca tinha visto. Não fui capaz de tirar uma fotografia, não queria que o casal de polícias me chamasse a atenção por andar ali atrás deles de telemóvel na mão. Polícia é polícia e não são palhaços de circo. Mas que foi divertido, lá isso foi! Ainda por cima ela demonstrava que precisa bem daquele tipo de exercício físico.

fatima_maio_09_7Quinta-feira, 9 de Julho

Hoje, ao fim de um dia perfeitamente normal, dividido entre e-mails, umas idas ao blogue, café (abatanado, eu sou o tal!) e consulta dos classificados no jornal, tantas putas estrangeiras, já não bastavam as portuguesas! Chiça haja tesão para tanto sexo! Vamos lá voltar ao essencial: sexo pago? Com gente desconhecida? Usar o outro apenas para excitação, excluir o amor disto tudo? O ovo e a galinha. Se ainda resiste a profissão mais velha do mundo é porque é um bom nicho de mercado, ou seja ainda há clientes. É verdade que há por aí muito filho e eu já tive a oportunidade de dar aulas a alguns e são efectivamente de “trato” difícil mas resolve-se, também é verdade (não gosto nada disto: vírgulas e elementos de ligação frásica juntos, mas (cá está) agora é moda, que fazer?) que à por aí muita filha, pois não nascem apenas do sexo masculino, que se porta melhor que muita gente. É como o termo ordinário, as pessoas tentam ofender outrem quando na realidade apenas se ofendem a si próprias demonstrando que fazem um mau uso da língua portuguesa. Ser ignorante não tem nada de errado, não é crime, eu ignoro determinadas matérias, e? Deixando estas reflexões psico-filosóficas que se aprendem no jornal vamos ao que decidi afincadamente fazer de bom: decidi ir nadar. A minha quase-esposa chegou do trabalho pouco depois das seis, a partir dessa hora começa a hora livre na piscina municipal e eu disse-lhe que ia nadar. Precisamente no dia em que ela, que nunca quer, queria ir dar uma voltinha, só para desanuviar, diz que está sempre “aqui enfiada”. Por acaso, mas só mesmo por acaso, não levei telemóvel. E fui a pé. Avisaram-me no guichet que por problemas técnicos a água estava fria. Ainda tentei argumentar qualquer coisita mas o funcionário lá me explicou que aquilo queria dizer que a piscina estava encerrada. Voltei para casa a correr mas só voltei a por a vista em cima da Sofia às dez da noite. Ainda lhe tentei telefonar o que serviu apenas para ela gozar comigo quando chegou a casa.

hi5Sexta-feira, 10 de Julho

O ano passado, a convite dos meus alunos, também eu criei um “Hi5”. Visto ser eu o professor de TIC era o mais solicitado. Choviam pedidos de amizade. Foi uma forma milagrosa de entrar na vida privada de alguns alunos. Foi também uma excelente oportunidade de lhes provar que as nossas imagens, disponibilizadas por nós, postas a circular na internet, deixam de ter esse cunho privado. Uma comunidade virtual põe em comum o que cada um entende partilhar, e aqui está o segredo “pôr em comum”, não é pôr em privado. Tentei ensinar, durante a noite em minha casa, que se podia efectivamente manipular a informação das páginas pessoais alheias, fazendo-o. Tentei manter sempre a minha página o mais actualizada possível, com temas interessantes e diversificados de forma a conseguir muitos convites e visitas, para que eu, ao entrar no “Hi5” deles tivesse legitimidade para lhes pedir o mesmo. Foi giro, tinha um certo secretismo à mistura. Nunca revelei informação nenhuma que por lá li, nota-se perfeitamente que determinadas “coisas” ainda acontecem às escondidas dos pais, e eu não sou pai deles, fui apenas professor. Durante este ano lectivo abandonei, um pouco o meu “Hi5”. Feito o balanço do ano lectivo passei por três escolas, leccionei duas disciplinas diferentes a três níveis, nenhuma delas relacionadas (directamente) com as Tecnologias de Comunicação, por conseguinte não tive tempo como gostaria para o meu “Hi5”. Fui recebendo e enviando e-mails e mensagens aos meus alunos do ano passado, cada vez em número mais reduzido e acabei mesmo por não actualizar o “hi5”. Agora como tenho tempo voltei. Não sei o que fazer. O “Hi5” agora disponibiliza pedidos de namoro on-line. Os meus únicos contactos eram os meus alunos e alguns amigos deles, agora aparecem miúdas, que eu não conheço de lado nenhum a fazerem-me pedidos de amizade, nunca aceitei ninguém que eu não conhecesse pessoalmente, aliás eu tentei-lhes ensinar a não aceitar estranhos, agora pedidos de namoro de miúdas com 13 ou 14 anitos? Eu nem sequer sou professor delas. Ainda se fosse poderia dar umas aulas alertando para os riscos do que estão fazendo. Não. Não quero aparecer em confusão nenhuma que não tenha a ver com as minhas aulas. Se as comunidades virtuais permitem, se os crimes de natureza sexual existem, então a quem de direito que exerça as suas funções, as suas responsabilidades, não sabem? Aprendam, que a gente ensina! Tenho pena de eliminar o meu “Hi5”, pois convivia com malta impecável, mas é algo de que eu não preciso é de mais confusão.

11_julhoSábado, 11 de Julho

Acção foi coisa que não me faltou. Comecei o ano lectivo na vindima, fui parar a uma escola ao litoral do país. Em seguida fui passar o Natal a uma escola no interior alentejano, fiz o Carnaval já de volta a uma das zonas com maior densidade populacional da Europa e já se passou. Agora que chegou o fim, pelo menos o meu porque há colegas que ainda estão a trabalhar, quem me dera mas não depende de mim, estive aqui a fazer uma retrospectiva recente, é melhor deixar-me de tretas, estive a matar saudades mentalmente ali sentado no sofá e lembrei-me que tinha seis turmas, seis! De três níveis diferentes, mais um corpo docente decente, mais as auxiliares de acção educativas impecáveis, não sei quantos milhões de passageiros no metro um bocadinho para o silencioso, o expresso cheio e agora tenho o Banzé. A minha quase-esposa está a trabalhar e como se pode ir lendo ainda não a pedi em casamento. Mas o engraçado é que eu gostava disso. É verdade que dar aulas a três níveis diferentes dá pica e dá muito que fazer. A minha chefe bem que me avisou que eu não era feito de ferro, e tanto é verdade que no final do ano lectivo eu já sentia o efeito do cansaço psicológico. Não começou assim, tinha um normal horário completo, finalmente um horário completo, é tão bom, quero mais! O que aconteceu foi que como consequência desta parvoíce que faz o primeiro-ministro em conluio com a ministra da educação fazem, os professores debandaram e não havia que os substituísse por mais concursos que se fizessem. Perguntaram-me se queria fazer horas extras, porque não havia ninguém para as vagas que tinham ido a concurso, e eu todo contente aceitei, espectáculo! Fazer horas extras na própria escola! Agora no rescaldo de tanta acção resta-me o Banzé…

padaria_36Domingo, 12 de Julho

As mães ensinam-nos mesmo tudo. Tudo e durante toda a vida! “Então filhinho, foste à missa?” foi logo a primeira pergunta antes de responder ao meu “Olá mamã.” Achou estranho o facto de eu estar a atender o telefone à hora da missa. É claro que tive que mentir, e assim por estas e por outras que não vou contar, lá vai aumentando o meu rol de lamúrias a apresentar ao padre um dia destes quando me for confessar. Felizmente está aí uma grande crise, o que quer dizer que toda a gente foi para a praia. Esta tarde foi um sossego, eu na cadeira de baloiço, o Banzé já deixou de montar guarda no vidro da porta da varanda, e o passarinho lá vem trazer comida que dá no bico da passarinha que espera pacientemente no ninho. Consegui ler dois capítulos seguidos e beber chá. Estava tudo a correr muito bem, muito calmo, até que chegou a Sofia vinda do trabalho a espalhar brasas por tudo o quanto é canto. Passei o resto do meu Domingo a “dar” gatos… Lá pelas dez da noite, quando chegamos a casa, depois do banho ainda pensei que a coisa se proporcionasse, pensar, pensei mas o cansaço foi mais forte do que a vontade. Amanhã ela está de folga, mas com estas nuvens todas no céu, uma ida à praia está fora de questão portanto?

obidos_maio_09_8Segunda-feira, 13 de Julho

A sogra veio à Vila! Coisa rara! Mais raro ainda: fomos ao café. Deve estar algum burro para morrer. Aliás até estranhava se não estivesse. Embora contente por finalmente a sogra sair de casa, mesmo que tenha sido para ir ao médico, a conversa é a do costume. Coitadinha da ‘nha filha, da minha neta, do meu homem e coitados de todos e de toda a gente e isto está tão mau. Até aqui tudo normal. Mas uma novidade assombra o discurso da sogra… a morte. Morreu não-sei-quem, fulano está quase a morrer, já faz não-sei-quanto-tempo que morreu sicrano, o outro matou-se, enfim novidades.

A Sofia ainda sugeriu que convidássemos a Albertina a vir connosco à praia. Com certeza, nem sempre, nem nunca, como ela diz. Convidámo-la, não quis vir, fica para a próxima. Fomos nós. Impecável. A meio da tarde o vento estava calmo, a temperatura não muito quente, até eu estava calmo, calmo não, mole será mais adequado, consegui ler um capítulo seguido, o que é bem bom até que começa a sinfonia telefónica. Boas notícias, deram mais um cão. Fui ajudar a entregar o bicho.

cafeTerça-feira, 14 de Julho

“Isto” do associativismo e do voluntariado tem que se lhe diga, ah país do caraças! Até com estas merdinhas implica. Ele é o Banco de Voluntariado que só serve para inglês ver (e duvido muito que eles vejam), a doutorice toda aparece sempre nos eventos sociais e formações específicas para voluntários no terreno e não no escritório. A meia dúzia de boas almas que efectivamente faz alguma coisa no terreno, não tem direito a formação nenhuma. Por conseguinte é perfeitamente normal que tendam a “encontrar” soluções para a vida alheia, não se limitando apenas a ajudar, como deveria ser: ajudar e não criticar. A malta que voluntariamente se associa em prol de uma causa comum, acaba por deixar a causa para segundo plano e dar prioridade ao protagonismo. Outros só metem coração na causa esquecendo-se por completo da razão. Ainda os há que se juntam por prazer; quem tiver dinheiro para estragar em carros ou jipes funda uma associação e depois quando começarem os desaguisados por mariquices, fundam logo outra associação vizinha que diverge da primeira apenas em duas curvas e três sardinhas. Mas ainda há mais… as associações secretas… que vai tudo dar no mesmo… bons princípios, boas causas, boas intenções, mas… (cá está o tal do mas) as pessoas estão lá para servir a causa comum, ou para se servir a si próprias?

Se calhar não é o país que é do caraças, são as gentes, é a cultura. “Isto” tudo que acabei de escrever é prova concreta de que não tenho mais nada para fazer a não ser preocupar-me com uma evolução, uma mudança cultural que apenas existe em conversas de café.

mouriscas_abril_2009_2Quarta-feira, 15 de Julho

Um telefonema. Dantes era um postalzinho, agora fingimos que basta um simples telefonema. Quando as coisas estão mal, podem sempre piorar, as novas tecnologias agora até nos permitem enviar um e-mail, as gerações mais novas até enviam não-sei-quê via “Hi5” que até é automático, basta calendarizar que aqueles votos de parabéns hão-de ser entregues ao destinatário. Quando eu era pequenino escrevíamos um postalzinho lá em casa para o papá. Depois cresci um pouquinho e já enviava a minha carta de parabéns. Quando a mana mais velha emigrou penso, já não me recordo bem, que ainda lhe cheguei a escrever, quando foi a vez da mais nova, já o telefonema bastava; quando foi a minha vez, então telefonei à mamã e ao papá no dia de aniversário deles. Era mais fixe quando era de viva-voz. O sorriso, o abraço, o beijinho especial, o toque… qual prenda, qual quê! Estar presente era efectivamente o mais importante. Hoje já ninguém liga nenhuma a essas coisas. Mas quando mais penso no assunto vejo que o meu senhorio, que quando vem a Portugal, lá vai falhando o aniversário dos que mais ama; a minha vizinha da frente, nem sei como é que faz no aniversário dos que estão longe; os meus vizinhos ucranianos do andar de cima, lá vão contando quando nos cruzamos nas escadas “hoje faz anos minha mãe!”; em frente os chineses, em relação a esse assunto apenas riem; lá em cima com os russos é sempre sinal de pouca mas alguma festa dos que cá estão, quando falamos dos que lá ficaram é sempre motivo de tristeza; dos brasileiros, que parecem sempre alegres, comentam com tristeza ao referirem-se aos filhos que deixaram no Brasil, fica lá do outro lado do oceano! Pensei que as histórias de comemoração dos aniversários daqueles que mais amamos que estão longe se ficasse por aqui, é o que faz estar em casa, lembrei-me dos meus alunos que deixaram pais e mães por terras de África, ou foram eles mesmos deixados na casa de “uma” tia. Afinal, se me lembrar de mais alguns alunos, terei de me lembrar daqueles que não passam o aniversário com o pai ou com a mãe porque estão presos, ou caídos nalguma valeta, ou não sabem quem são. Aquelas cartas do banco a dizer que nos “dão dinheiro por ser o nosso aniversário” espelham bem a realidade que nós queremos, não aquela que nós temos. E isto tudo porque a minha mãe hoje faz anos. Parabéns mamã, pode ser que algum dia leias este meu pequeno diário.

tourada_1Quinta-feira, 16 de Julho

Estava eu sentadinho no meu sofá, tranquilinho, eis senão quando uma notícia assombra o meu descanso: manifestação de professores! Porra, e eu não fui! Tempo tenho de sobra, dinheiro para me deslocar a Lisboa e manifestar-me a favor do meu emprego e das minhas condições de trabalho, também tenho, informação acerca desta manifestação, não tive nenhuma. Não fui. Com muita pena minha e então que era ali ao pé da casa do Sr. Presidente disto a que chamam República, é que tem lá uns pasteis de nata… caros é um facto, mas só de pensar neles lembro-me de Pavlov. Bom, não sabia, não sabia, paciência. Ainda circulam alguns e-mails sobre a avaliação de desempenho, o que me interessa sobejamente embora não tenha nenhuma relação contratual com qualquer escola. Então fui à manifestação das touradas. Em vez de ficar aqui a ver televisão, a dizer ao Banzé que sou contra as touradas, resolvi assumir uma posição activa: “Eu sou contra as touradas!” Não sou contra as pessoas, porque estas, desde que educadas até usam burka. Eu sou Ribatejano e gosto muito. Não tenho nada contra ninguém e até tenho gosto em ensinar os filhos deles todos no que respeita à matéria que me seja atribuída como disciplina de estudo. Daí a concordar que se espete vários ferros no lombo, nas costas de um touro vivo para gáudio da populaça… vai um espaço muito pequeno, não concordo. Pago impostos, a manifestação foi autorizada pelo governo civil de Lisboa e consistia numa simples vigília, estar ali sentadinho sem fazer mal a ninguém, guardadinhos pela bófia, não vá alguém fazer-nos mal (e tentaram), mais nada. É tão simples como: eu estive lá, eu sou contra as touradas. É claro que contei à minha quase-esposa “Ah e tal, esta noite vou a Lisboa manifestar-me contra as touradas, queres vir?” a expressão “ se um diz mata, o outro diz esfola” é capaz de não se adequar muito bem nesta situação, o que não deixou de ser mais ou menos o que se passou. Ainda convidamos uns quantos amigos, apareceu uma, não está mau. Ela vinha era muito danada. Estou-me cá a lembrar… sinceramente… aquele tempo em que se dava “pão e circo” às pessoas, já passou. Vá de espetar um ferro num touro vivo! Vá de bater palmas! E depois estão à espera de quê? Que as pessoas não sejam sensacionalistas, hum? Pagam uma pipa de massa para estar ali a ver alguém a espetar ferros num touro que a única coisa que gosta de fazer é pastar e mandar umas quecas. Realmente a inveja é uma coisa lixada.

santarem_2009_1Sexta-feira, 17 de Julho

Cinquenta e seis, nada mais, nada menos do que cinquenta e seis e-mails na caixa de correio. Não sei bem se a malta está à espera que eu veja aquilo tudo? Por um lado, fico todo contente, é sinal de que a malta se lembrou de mim, posso sempre filtrar todo aquele junk-mail. Agora o grande problema que se impõe é que, assim sendo, vai ser difícil emagrecer. Como é evidente, óbvio e claro, a culpa é da Sofia, eu bem que lhe digo para não comprar bolachas, se ela não as comprar eu não as como. Também salta à vista de qualquer um, salta não só à vista mas também ao teclado, que para ver, ler e seleccionar tanto e-mail será perfeitamente normal que uma pessoa se faça acompanhar por um pacotinho de bolachas, e daí as migalhitas que o teclado lá vai comendo. Uma chávena de chá também é bem-vinda não sendo sugerido que siga os mesmos passos que as migalhitas. Ora, “a vida está difícil”, com tanto e-mail e pacotes de bolachas, quem é pode fazer dieta, hum?

santarem_001Sábado, 18 de Julho

A minha quase-esposa está de férias! Está de férias e está sob o feito da medicação anti-alergia lá por causa do pêlo dos animais. Está de férias, eu estou em casa, e ela também, só que ela está a dormir por causa daquela paixão assolapada por cães e gatos abandonados e vadios e estropiados e coiso…

De tarde fomos tratar dos animais no hotel, é tão fixe, e ainda há quem chame a ir tratar dos animais de trabalho.

Já era de noite quando senti comichão na palma da mão. Ora toda a gente sabe que se deve fechar imediatamente a mão, porque é sinal de dinheiro, e com a mão fechada ele não foge. Achei muito estranho e fiquei sinceramente arrependido por não ter jogado no totoloto. Como é que tal comichão pode ser sinal de dinheiro? Um gajo aqui à espera do que há-de vir e até o destino goza com comichões destas.

ericeira_maio_09_1Domingo, 19 de Julho

Deve ser um vírus. Só pode. Agora foi o carro do sogro que pifou. Ainda mal começou o dia a complicar. A minha quase-esposa acordou e vá de limpezas; não tenho por onde fugir, tentei dar apoio psicológico, mas o que ela queria mesmo era físico. Teve que ser. No arranque das tarefas eis, que novidade, toca o telefone: era o sogro, no carro dele avariou lá não-sei-o-quê e hoje é dia de funeral de uma senhora velhota amiga e estimada pela família. Tudo muito bem. A Sofia emprestou o carro dela, isto de manhã, de tarde aguardou pela hora do funeral e foi prestar a última homenagem à senhora. Pois, o pior é o resto. As tarefas domésticas, como já estavam começadas, tiveram que ser acabadas. Por mim, pois então! O Banzé ainda não faz dessas coisas. Apenas um detalhe: eu detesto tarefas domésticas ao Domingo. Aliás detesto nos dias todos, mas aos Domingos deveria ser proibido por lei. E logo hoje que a vila está deserta e se está (estava) aqui tão bem sossegadinho para ler um bocadito. Bom… paciência. Siga, próxima cena: (esta já de noite) (ah! e não tem a ver com sexo) (dois pontos outra vez): Amanhã é o dia de manifestar as preferências para colocação em necessidades transitórias. Acho que me vou já começar a enervar já hoje!

Image009Segunda-feira, 20 de Julho

Onze e meia da manhã e ainda não está nada na página da DGRHE para concorrer. É sempre a mesma merda. “Eles lá” estão bem, ganham o deles ao fim do mês, e um gajo se quiser é que tem de estar aqui a desesperar por umas migalhas. Estou aqui à espera… Eu bem que tinha razão em ir-me enervando já ontem! Antes que os nervos me toldassem por completo as ideias, resolvi que de tarde iria até ao sindicato para lhes pedir ajuda no concurso. Fui. Ajudaram-me. É efectivamente preciso ajuda para perceber aquela vergonha que é o concurso. Eu leccionei Base de Dados e, muito sinceramente qualquer um dos meus alunos de 10º ano faria melhor do que aquela anedota. Então é assim: eu quero ir para um escola qualquer, p’ra mim está tudo bem, seja lá para onde for, eu quero é ir, gostaria, se me fosse dada a oportunidade de trabalhar numa escola TEIP, mas para essas não posso concorrer; então ordenei os QZPs, eu até pensei que agora só existissem QA, afinal ainda há QZPs, muito bem, seguidamente seleccionei para qual dos QZPs queria concorrer quantas horas, aqueles que são aqui ao pé de casa, até nem me importo de concorrer para ordenado incompleto, sendo 4 as hipóteses, então reformulei aquilo tudo, por exemplo: para o QZP tal concorro ao horário 1, novamente para o mesmo QZP concorro ao horário 2, ora e aqui é óbvio que se concorro a um ordenado / horário incompleto também estaria disposto a concorrer a um completo, piada das piadas é que só se pode concorrer ao 2 se se tiver concorrido ao 1, parece-me evidente mas pronto siga o concurso, para um outro QZP selecciono novamente o nº do mesmo, o tipo de horário 1, repito a operação, outra vez o nº do QZP e tipo de horário 2, e aqui mesmo pertinho de casa até se pode sobreviver com o tipo 3, depois logo arranjo uns extras. Após ter 23 QZPs seleccionados alguns deles com mais do que um tipo de horário, a aplicação não deixa concorrer, não se pode assinalar mais de 23 QZPs. Não faz sentido. A opção é seleccionar o QZP para o qual me vou sujeitar / concorrer a horários incompletos (sim porque eles vão a concurso) e dentro desse QZP seleccionar quais os tipos de horário a que concorro por cada escola, QZP a QZP. Não 23 porque não quero concorrer a horário incompletos a todo o país mas, mas apenas a um total “máximo” de 50 opções. Trapalhada tão grande. Isto ainda vai só em um grupo disciplinar! Eu concorro a dois. Que é o máximo permitido embora possa dar aulas a três grupos disciplinares pois estou habilitado para tal. E então como é que isso se faz? Primeiro opto por dar preferência a um dos dois grupos de acordo com a minha formação académica base, qualquer um serve, eu quero é trabalhar, e só quando no terceiro grupo disciplinar não houver professores e a vaga for a concurso por oferta de escola, ou seja a escola publica a abertura de um concurso para aquela vaga, é que eu poderei concorrer. Não percebo para que é que existe então um concurso nacional. Pelo que eu não fui percebendo ao longo do reinado desta ministra e do Sr. Abílio é, se eu terei ou não acesso à lista de candidatos à vaga nos concursos por oferta de escola. As listas de TEIPs estão-me vedadas. Isto até parece mentira. Tamanha incompetência.

IMG_5354Terça-feira, 21 de Julho

Fomos a Óbidos. Consta que há para aí uma crise. Consta, como quem diz “a modos que” porque pagar seis euros por um bilhete, não é para qualquer um! Quem diz um, diz quatro: pai, mãe, filho e filhota. Nada de sogras, tios e avós, quando muito vizinhos endinheirados ainda vá que não vá mas não muito que é p’ra gente poder também competir com eles a pagar qualquer coisita que seja. Não há outra hipótese lá dentro que não seja a de gastar dinheiro. Aquilo é como pagar bilhete para entrar, entrar não, para se sentar num restaurante gigantone. Pois não há outra opção que não seja sentar para comer numa das tascas das associações. E pagar. Bem pago e depois de ter pago bilhete ou bilhetes. Haver alternativa a gastar dinheiro em comida, muito dinheiro, haver até há, é comprar das outras cangalhadas que por lá se encontram à venda. Queria eu ter na cabeça tantos cabelos como gente se encontrava lá naquele minúsculo espaço. Valeu-me o hábito de monge do ano passado. E à minha quase-esposa, o traje do ano passado também. Sempre ficámos com doze euros disponíveis para gastar em comida. Uma dose de enguias custava… sete torrões e meio.

padaria_35Quarta, 22 de Julho

Finalmente tiramos um dia para ir até à praia. Afinal sempre são as nossas férias. Ontem à noite, após a chegada do Mercado Medieval, combinamos que o dia de hoje seria na sua totalidade dedicado à areia e ao mar salgado. Embora eu considere assim um bocadito inútil, arriscado por causa do sol e uma perda de tempo estar ali feito lagarto a apanhar sol, quando devíamos era fugir dele, concordei. Carregaríamos a marmita e todas aquelas bugigangas que se revelam de muita utilidade, por mais estranho que possa parecer, parte daquela tralha é indispensável para que possamos ter uns momentos calmos e confortáveis para, finalmente, ter, ou melhor: usufruir de um dia dedicado à leitura. Até gostei da ideia. Quando a minha namorada começar com aquelas conversas de “Ah, vamos dar um passeio e tal” até é capaz de ser bom, sempre tiro os olhos do livro. Passear de mão dada pela praia e molhar os pezinhos no mar, é digno de um romântico romance que pode muito bem ser vivido por mim e pela minha quase-esposa. Nadar no mar é sempre agradável. Pois muito bem, acordei, está a chover. Vinte e dois de Julho, pico do Verão, dia tirado para ir à praia, está a chover! Só a mim.

obidos_maio_09_5Quinta-feira, 23 de Julho

Tenho direito a subsídio de desemprego. Não é possível descrever o alívio que é uma sensação destas. Afinal o dinheiro é suficiente para sobreviver, menos uma preocupação. Confesso que tinha receio acerca da quantia, é sempre assim porque o governo vai mudando as regras do jogo. Sincera e honestamente assusta sempre todos os anos porque desconheço durante quanto tempo me será pago o subsídio e nunca sei quando vou começar a receber ordenado. Não é uma situação nada fácil de… viver.

Por vezes recebo assim umas ajudas divinas como eu gosto de lhes chamar. É mais fácil ver os sinais de Deus quando se quer ver. E eu quero, senão vejamos: encontrei um outro Zé Pedro na missa, é engraçado respondermos pelo mesmo nome com quase trinta anos de diferença, quando lhe fiz as queixinhas e o choradinho do desemprego ele respondeu: “Acho muito bem.” Hum?- fiquei meio aparvalhado, só meio. Ele continuou “ Se querem ter um professor disponível para o próximo ano lectivo, disposto a aceitar o que der e vier, acho muito bem que lhe paguem para que ele, neste caso tu, possas estar à espera do que há-de vir.” O homem nem imagina o bem que me fez ao dizer estas palavras, embora eu lhe tenha tentado explicar que ainda não tinha visto as coisas dessa maneira e que para mim aquele passou a ser um ponto de vista muito mais saudável. Como se não bastasse, Deus também envia as suas mensagens, os seus anjos, que a malta tende sempre a dar aquela forma antropomórfica a tudo o que desconhece, mas isso são outros quinhentos, e desta feita entrou-me pela porta a dentro. Por isso se calhar é que lhe dão forma humana? A Sofia, a minha quase-esposa viu e muito bem visto que, se eu enfrentar a situação de desemprego como um momento no qual eu aguardo colocação, tornar-se-á mais fácil de suportar. E não é que é mesmo verdade! Vistas as coisas assim, facilita-me muito a minha auto-imposta tortura psicológica. Re-coisando: se o governo quer que eu esteja disponível para o próximo ano lectivo, pague-me enquanto eu aguardo colocação, durante esse tempo vou procurando um trabalho que possa ser melhor do que aquele pelo qual corro. Se não fossem aqueles dois, eu provavelmente continuaria a pôr mais palha no fardo.

Image017Sexta-feira, 24 de Julho

Fomos à feira do vinho. O costume: encontrei malta amiga e tal como estava à espera, a conversa não divergiu muito daquela que eu expectava. “Então quando é que voltas p’ra cá?” – respondi qualquer coisa tipo “pois e tal” e o incentivo continuou “Gostamos muito de te ter cá?” – resposta de género “foi tão bom para ti como foi para mim!” mais do bom tempo “Então e qual tudo bem?” – ainda pensei que se rezar baixinho e rapidamente ninguém se aperceberá que estou a pedir paciência a Deus. Valeu a pena arriscar, sempre me permite fazer um compasso de espera, que serve de tábua de salvação, antes de dizer disparates. Então não é que esta malta acha que eu não estou a trabalhar num agrupamento a 10km de casa por livre vontade? E depois ainda tem o desplante perguntar, apenas porque sim, creio que se diz “de circunstância” ou lá o que seja que eu por mais que me esforce não consegui perceber, é porque carga de água se pergunta afirmando a alguém se “está tudo bem?!” quando se estão borrifando para a resposta? A única pergunta que não me fizeram, a qual eu confesso também não estava à espera que me fizessem, era se eu queria ir beber um copo! Aquela feira, até era a feira do vinho. Cá na minha cabecinha pensante, o normal seria, tendo em conta que encontramos amigos, ainda que de profissão, falássemos de vinho, ou sendo mais ousado, até poderíamos beber umas pingas, ou simplesmente provar, que é para não abusar. Mas não, a minha previsão cingiu-se àquelas tretas dos porque é que não estás cá, porque é que não vens p’ra cá e se está tudo bem. Nessas acertei em cheio. Agora isso de andar a provar vinhos e conviver com a malta, já é expectar demasiado (a porra do computador dá erro a “expectar”, burro!). Por aqui faz-se sentir, mais do que o efeito do vinho, o efeito “Sócrates”, novas oportunidades e licenciaturas tiradas à pressa, a importância do grau académico antes do nome do dito cujo e, se calhar até já é o efeito do vinho, que vai hierarquizando a malta, demonstrando que uns estão em cima dos outros, como se por cá não se soubesse já isso, mas, penso eu, que seja só para reiterar, não vá lá a populaça ter-se esquecido, e quando digo populaça refiro-me aos pagantes de impostos, que existe quem esteja a acima de nós e lá está, então não é que mesmo ali na baixa, naquela curva onde toda a gente passa e que todas as terrinhas que tem baixa não dispensam uma curva daquelas, apresenta-se um cartaz publicitário a dizer “alto e bom som”: “Este homem é Engenheiro e vocês não! Cuidado que este homem é um Senhor (Sr. Eng. entenda-se). Porque antes do nome, antes de ser quem é, avisa: Sou Engenheiro! Portanto ficam esclarecidos. Para que não reste dúvidas, eu candidato-me à Presidência da Autarquia e quando ganhar as eleições vou mudar de nome, não de título, que eu não sou ambicioso, para Senhor Engenheiro Presidente da Câmara.” Não percebi de que é que o homem é engenheiro, existe uma pazada de cursos de engenharia, mas eu também não voto lá. Voltando ao que é realmente importante, é que gente, era o que não faltava naquela feira. Quero ir morar para um país assim; festas e gente a curtir bué! Haja alegria! Quero ir para um sítio onde me atirem pão. E chega porque vinho, já sei onde se oferece; circo, também já sei onde é que se espetam ferros em animais vivos para deslumbre das gentes com dinheiro para pagar bilhetes. Avé César! (que se fosse hoje seria Avé Sr. Eng. César).

IMG_5418Sábado, 25 de Julho

Estava aqui entretido nas minhas teorias de conspiração e eis se não quando começo a ouvir a conversa dos passarinhos ali na varanda. Perguntavam os filhotes passarinhos à mãe passarinha: “Que bicho é aquele que está ali do lado de dentro da casa, mãe?” e apontavam com o bico para o Banzé. “Aquele ali em baixo que está a arranhar o vidro é o bicho mau.” Responderia a mãe caso tivesse a infelicidade de falar. “Então e é um bicho mau porquê?” ainda nem saíram do ninho e já estão na idade dos porquês, crescem depressa estes passarinhos novos! Vamos lá à resposta da mãe: “Porque se ele tivesse aprendido a abrir a porta da varanda, já tinha aqui vindo estragar o ninho teria morto os meus filhotes…” mais um porquê “Porquê mãe?” mais uma resposta à mãe “Porque sim, está-lhes no sangue, são assim e pronto.” “Então aquele grande de olhos esbugalhados é um bicho bom?” “Ó filhos vocês ainda nem saíram do ninho e já se deixam enganar pelas aparências…” até notei a mãe a suspirar porque as penas dos passaritos abanaram “Então se ele não deixa o bicho mau fazer mal à gente, é bom?” nova abanadela de penas “Crianças escutai: aquele ainda é um bicho mais mau!” mais um porquê “ “Porquê?” “Porque consegue “ter” o bicho mau em cativeiro.” “?” têm que ser três ??? porque estão lá três passaritos. “Filhos” disse a mãe baixando o bico e as asas “Quando vocês conseguirem voar, levo-os a uma tourada, está bem?” repetição “?”; “?”; “?” isto mais ou menos em simultâneo “ E digo-vos mais, queridos filhos, ainda bem que Deus não nos fez pombos…” “Porquê?” cá está já não faziam um porquê há mais de três segundos. Novo suspiro e desta vez a mãe passarinha não respondeu, ainda pensou em responder mas felizmente já se aproximava o pai. Este também tem um papel importante na educação da passarada. O que lhe ficou naquela cabecinha de pássaro é a tortura a que os bichos mais maus submetem os pombos cortando-lhe as penas do rabo para que assim só possam voar a direito ficando em linha ascendente com a mira da espingarda.

Image011 - Cópia (2)Domingo, 26 de Julho

Fomos à Nazaré. Já que a Nazaré não vem até nós, vamos nós à Nazaré. Verdade seja dita que é a única praia aqui nas redondezas que só o passeio pela marginal vale a pena. Desde o porto de abrigo até à baixa, entre francês, inglês, alemão, muito espanhol e algum português à mistura encontra-se sempre alguém conhecido, o que é sempre agradável. Bandeira verde é coisa rara e como estava mau tempo, resolvemos apenas passear. Fomos de funicular até ao Sítio. Demos por lá umas voltitas e aproveitamos para visitar o museu. Pago, como é evidente e de recomendar, sendo o bilhete uma das pertinentes fontes de receita do mesmo. Entre outras coisas por lá expostas, pode ver-se uma espécie de “regador” de alumínio com dois bicos. O tradicional regador de flores em armação metálica mas com duas saídas de água. Que de regador apenas é parecido pois aquela coisa servia como dupla candeia para “alumiar” na pesca do candil. A pesca do candil ou do “candeio” é uma pesca feita “ao engodo ou ao candeio”. A luz atrai o peixe à superfície da água e lançando a rede em circulo e puxando um cabo, fecha-se a rede, ficando lá preso o cardume atraído à superfície pela luz. Além de pescar também é preciso remar o barco. O facto de se ver umas luzitas lá no mar à noite, prende a atenção quer dos turistas, quer dos fiscais que lá vão tentando explicar como podem que, quem é reformado por determinada actividade, não pode exercê-la. Eu penso que esta situação é muito complicada de explicar, se não mesmo impossível de perceber, vou tentar: o pescador é reformado por ter sido pescador a vida toda, recebe reforma, mas continua a exercer a sua profissão de pescador; ora aqui está algo que não bate certo, o que se vai vendo na televisão são os pescadores a pedirem subsídio, tal como os agricultores; tentando ainda entre mostrar a coisa: o meu caso por exemplo, eu sou professor, consegui sobreviver, e isto é apenas uma hipótese, e cheguei à aposentação (que sonhador que eu sou!); recebo por direito a minha reforma, seguidamente vou dar aulas, digamos de actividades extra curriculares, a escola pagar-me-á; depois como ainda tenho tempo, dou mais umas explicaçõezitas de não-sei-quê que recebo sem declarar; e, porque estou a ficar com fome vamos à cereja em cima do bolo, vou para a televisão reclamar que ganho pouco. Pode-se aprender muita coisa nos museus!

26_julhoSegunda-feira, 27 de Julho

Fomos à costa da Caparica. Quis ir matar saudades dos tempos quando por lá dei aulas. E assim, pouquinho a pouquinho, lá vou gozando umas férias, muito disfarçado e tal mas a verdade é que lendo o diário me apercebo que até me divirto umas coisas, fixe!

Por mais que passeios que dê no paredão da Praia da Costa da Caparica, não entendo aquele investimento todo. Quando dei aulas lá, foi uma das coisas em que reparei, a propósito de dar aulas na Costa, eu dei na Trafaria, era experiência que repetia! Voltemos à má-língua: as casas ficam abaixo do nível do mar! “Estranho”, pensei de mim para comigo, “esta gente não está boa da caixa dos pirolitos!” para mim, que fui vítima das cheias no vale do Tejo na década de 70 a ainda umas borras da de 80, aquela situação de água a entrar para dentro das casas, foi algo que eu sempre vi fazer fugir as pessoas. Todas aquelas que podiam, a seguir às cheias mudar de casa para terras mais altas, faziam-no. Agora, de pé em cima do paredão vejo o mar à minha frente, depois de dois palmos de areia e, atrás de mim, mais baixo que o nível do mar, estão as casas, ou melhor os prédios com uns poucos de andares. Até um parque de campismo. Pela minha lógica, os campistas não deveriam espetar estacas no chão para segurar as tendas mas sim, aplicar-lhe umas bóias na eventualidade de aquilo começar a meter água. Situação previsível, pois é o que é noticiado lá pelo Natal. Realmente é uma situação digna de ser vista: as praias vão sendo interditadas uma-a-uma para que sejam cheias de areia; o paredão é renovado ano após ano e consecutiva e teimosamente estragado pelo mar, e as casas, continuam a irromper por ali cada vez mais, quais cogumelos que brotam selvaticamente, embora estes nascimentos sejam voluntários. E pronto, toda esta brincadeira custa uma pipa de massa. “Pipa de massa”, neste contexto faz-me saltar à memória piratas e tesouros; fortunas roubadas e enterradas na areia por gente sem escrúpulos mas elevados à categoria de “estrelas”. Claro que tive que extravasar estes pensamentos com a minha quase-esposa-que-tudo-atura com o intuito de buscar aceitação, neste contexto seria mais “brasa à minha sardinha” em busca de audiência para a maledicência e… eis senão quando a minha suposta defensora verbaliza em sentido contrário, qual papagaio dizendo que “achava muito bem que se gastasse ali o dinheiro dos nossos impostos”. Posto isto fiquei caladinho e com cara de parvo, os olhos muito abertos, que é como quem diz muito arremelgados, no caso da pirataria seria só um, mas à escuta do palavreado que por aí viria, com certeza que seria só conversa da treta. Não, enganei-me, diz que “pelo menos é dinheiro dos nossos impostos que nós usufruímos, não é como os dos bancos em que só alguns é que se gozam!” – Boa!

Image008Terça-feira, 28 de Julho

Fomos às compras ao Modelo, até chateia, chateia e enerva, obras, obras e mais obras. Não há maneira de chegar o dia das eleições para ver se estas obras todas param! Incomoda. Parece que os defensores da causa pública combinaram todos que a melhor maneira de dar nas vistas seria a de fazer obras nas estradas: ele é rotundas; passeios; semáforos e a pior situação delas todas verifica-se quando se junta isto tudo: quando a rotunda está quase pronta e os passeios alinhavados, vá de esburacar para colocar os semáforos! Porque é que não fazem como antigamente em que as obras de última hora era feitas à socapa no terreno dos amigos, alcatroando estradas que apenas serviam para dois ou três jipes? Se calhar, digo eu, dantes tinham medo de perder o tacho, eram mais cães ao mesmo osso, como diz o povo e lá terá as suas razões, agora, das trezentas e oito autarquias que vão a votos, apenas vinte e nove dos empoleirados não se recandidatam. Sinceramente não percebo, se “isto está mau”; se vêm aí uma crise que não se pode; se as autarquias estão sobre endividadas, se as há que já não podem pedir mais crédito, melhor dizendo nem os bancos estão dispostos a vender dinheiro ao bolso dos pobres, então porque carga de água é que os mesmos se candidatam a ser comidos pelo lobo? As coisas esquisitas não se ficam por aqui. No meio deste pó todo apenas vejo “as obras”, não vislumbro qualquer trabalhador. Quando, assim de vez em quando, se vê por lá alguém a fingir que trabalha, apercebo-me de que não é “colaborador” da autarquia, e quando se deixa ver por lá alguma maquinaria, podemo-nos aperceber que não são pertença da câmara, assim sendo poder-se-á conjecturar que a obra terá sido adjudicada a terceiros. É difícil tentar perceber porque é que tendo a edilidade funcionários e maquinaria, contrata empresas exteriores para realizarem as obras? Ter-se-á esquecido de orçamentar a rotunda? Se a obra for paga a trinta, sessenta, cento e vinte dias ou um ano destes, quem será que paga? Quem fechar a porta? Ainda faz menos sentido, porque se são os mesmos a recandidatar-se, se calhar ponderam mesmo pagar a obra. Dei voltas e voltas ao cérebro, ao teclado e aos arquivos bolorentos da minha memória e só me ocorre uma coisa: a bófia já assinalou tantas vezes as ilegalidades cometidas pelos funcionários e veículos da autarquia, que não lhes resta outra alternativa que não seja a de recorrer a veículos por multar, “colaboradores” de empresas privadas que se coíbam de ser multados por precisarem da carta para comprar as sardinhas, só pode! Tendo em conta que o primeiro-ministro orçamentou as multas de trânsito em noventa e tal milhões de euros, é esta a única “fuga” possível para tamanho espectáculo de pó, passeios e alcatrão fora do lugar. Enfim… é mais um dia na minha vida. Agora vou à procura de trabalho, internet, jornais e essas coisas assim.

Image005Quarta-feira, 29 de Julho

Chega uma altura na vida das pessoas em que se vê os passarinhos a saírem do ninho. Os pais ausentam-se por este ou aquele motivo, foram trabalhar ou foram só até ali e os passarecos lá tentam voar à maneira deles. O problema reside nos gatos, e então por cada vez que voam ninho fora lá vão os avós buscá-los. Se não bastasse os gatos, desta vez são os carros, novamente lá vão os avós apanhá-los para os devolver ao ninho. Mas eles insistem em sair. O meu dia? O meu dia começou quando a minha quase-esposa me acordou, logo hoje que eu não sei por alma de quem é que felizmente estava a conseguir dormir até mais tarde, em pezinhos de lã, por acidente, pelo barulho normal de quem sai da cama seria desculpável, sejamos humanos, as mulheres tem esse defeito e paciência. Não foi o caso. Entrou esbaforida pelo quarto a dentro, agitando os braços no ar ao mesmo tempo que abria a porta, acendia a luz, chamava por mim, eu não sei como é que as mulheres conseguem fazer aquilo tudo ao mesmo tempo, embora não pareça ela tem apenas dois braços. “Um passarinho caiu lá em baixo! Ajuda-me, ajuda-me!” – pronto, lá fui eu. Conforme pude inteirei-me da situação enquanto descia dois andares depois de ter vestido uma t-shirt pendurada no fundo da cama, em tempo oportuno diga-se de passagem lá ficou junto com uns calções. O passarinho estava na estrada. Despi a t-shirt, atirei-lha para cima e agarrei o passarinho com muito jeitinho. Subimos as escadas, voltamos à varanda, larguei o passarinho e… fugiu outro! Valha-me Deus. Escada a baixo e nada de passarinho. Procuramos, escutamos e lá do jardim em frente ouvia-se um piar de passarinho pequenito. Ao chegar novamente à varanda, num segundo andar, deixei o passarinho num vaso e despedi-me da Sofia que foi tratar dos cães. Pausa. O outro passarinho voou. Pus a máquina a fazer café, desci a escada e com a senhora da lavandaria lá tentamos, em vão, ouvir o passarinho. De novo de volta a casa, de café na mão, ouço um piar baixinho. Depois de com todas as cautelas me assomar à varanda, escuto novamente um piar no jardim da casa abandonada da velha da frente. Escada a baixo. Escada a cima, café e internet ligada, hoje a busca de trabalho começa mais cedo. A primeira vista de olhos é pela informação que recebo diariamente no correio electrónico da “infoemprego”. É sempre uma, não sei se hei-de dizer tentação ou tortura porque não me consigo decidir se as ofertas que surgem pedindo formadores, caso aceite teria que me colectar, lá vem de novo os recibos verdes, mais instabilidade, mais a duração do contrato, perca de subsídio de desemprego e novamente instabilidade ou se deixo de me iludir e me convenço de que de instabilidade estou eu farto e estará na altura de criar a minha própria empresa: eu. Para aclamar os ânimos, findo a busca com nova vista de olhos pelos jornais: Diário de Notícias; Correio da Manhã; Público e Jornal de Notícias.

ipl_leiriaQuinta-feira, 30 de Julho

Hoje? O mesmo de ontem. Para não variar acordei cedo. Muito cedo para quem não precisa de acordar cedo. Para não acordar a minha quase-esposa sai da cama. Fiz café e liguei a internet. Ainda tentei ficar sentado no sofá e ler tranquilo, em oposição à navegação pela net em busca do que há-de vir, mas (cá está o raio do mas) não consegui completar a tarefa, faltou-me o “tranquilo”. Visto não me conseguir concentrar, desisti da tentativa de ler, passei os olhos pelo correio electrónico, nada de gajas nuas, e, aí demorei-me mais um bocadinho de roda do blogue até me dedicar à minha demanda: “A busca de emprego começa de manhã!”. Segue-se a consulta aos respectivos sites do costume: infoemprego, netemprego e tal e sucede-se a tortura de não me conseguir decidir acerca das ofertas para formadores… Para relaxar dei uma vista de olhos pelas notícias. O “Diário de Notícias” chama a atenção para os “Professores participam na campanha contra o PS”, o que não é novidade mas poder-se-ia intitular “Professores lutam a favor do posto de trabalho”; fala ainda de “Regiões, casamento gay e olhos postos na classe média”, vá-se lá saber porquê? Anuncia “Lucros da banca empolados por ganhos extraordinários” e em contraste diz que “Fugiu da prisão e viveu 16 anos escondido nos montes”. Agora corre o risco de ir preso por estar 16 anos sem pagar impostos. Se não usufruiu dos serviços públicos, foi porque quis visto eles estarem à disposição, digo eu. Por sua vez o “Correio da Manhã” trata a Sra. Procuradora por tu e diz que (a malandreca) “Morgado investiga contas na Suíça”; faz também referência à proeza do outro: “Homicida viveu 16 anos em cavernas” com a diferença no trato, apelida-o de homicida. Em contraste com os lucros da banca “Amorim e Belmiro perdem milhões”, coitadinhos e finda “Deixe o rico ir comprar o iate”. No “Público” gasta-se o nosso dinheiro “PS reitera continuidade das grandes obras públicas”, disfarça com “Paulo Campos desmente convite a Joana Amaral Dias para listas do PS”, grande chalaça diz – farsa, desvia o assunto para apenas “Três dos seis doentes do Hospital de Santa Maria continuam sem ver” quando há por aí tanto cego e também mete a colher no saco azul  “PCP desafia PS e PSD a esclarecer se defendem penalização fiscal para a banca”. Este pódio de quatro lugares premeia o “Jornal de Notícias” com trocos: “Quatro bancos nacionais lucraram 760,7 milhões de euros este semestre” e remata com “Queremos um Estado presente”. Relembro que o Estado somos nós e o governo é outra chusma. Ora perante estes lucros todos de meia dúzia de ricos, haja um jornal que chame a atenção ao Estado para a situação que se está a passar. O muito enriquecimento muito rápido. Depois não venham falar de crise. Já se avizinha que a oposição concorda “Manuela Ferreira Leite em defesa dos ricos” e quando alguém da velha escola defende o que é seu “Idosa agredida por reagir a burla dos “euros novos”. É assim esta triste novela do dia-a-dia. Na da tarde-a-tarde: o vento estava calmo, a temperatura muito quente, até eu estava calmo, calmo não, mole será mais adequado, consegui ler um capítulo seguido. Nada mau.

cadaval_004Sexta-feira, 31 de Julho

Copy past do dia de ontem, ou quase. O final é diferente, embora nada surpreendente na minha vida. Acordar cedo. Tão cedo até para um desempregado. Não acordar a Sofia. Fazer café. Ligar a internet. Correio electrónico. Blogue. De novo aos sites do costume, já memorizei as passwords todas. Continuação da novela de ontem: o “Diário de Notícias” escreve que até a “PSP quer pagamento adiantado para policiar futebol”; denuncia que “Fátima anuncia candidatura após ter “acabado o pesadelo”! Denuncia “Desemprego: Bloco Central quer subsidiados mais activos”, onde é que já se viu exigir esforço a quem não faz nada? Toda a gente sabe que se se quer pedir a alguém para fazer alguma coisa terá que ser aos que já estão a fazer porque, quem não faz nada, não tem tempo. Apregoa mais festa “Uma Expo em ponto grande projectada para a Margem Sul”. Através do “Correio da Manhã” fiquei a saber que estivemos em guerra “Presidente ganha guerra dos Açores”; denuncia que o “Ministério Público investiga legalização de jogadores do FC Porto” e continua “Pagamentos a Frank Gehry sob investigação”; vai alertando “Assalta carrinha e leva dez minutos a escapar”. No “Público” faz-se jus aos ditos populares que “de Espanha nem bom vento, nem bom casamento”, o povo lá saberá: “Um terço dos infectados com gripe A vem de Espanha”; acautela “Novo estatuto da carreira docente pode ser inconstitucional”, fixe! Continua a espalhar estatutos “Estatuto dos Açores: Tribunal Constitucional dá razão a Cavaco Silva” e volta a bater nos espanhóis “Repsol, Cepsa e BP multadas em Espanha por fixação indirecta de preços”. Qualquer dia os espanhóis vingam-se. Para findar a ronda o “Jornal de Notícias” acautela, ou melhor revela ao mundo um novo sinónimo de crise, chama-lhe doenças “Doenças impedem 120 mil portugueses de ir à praia”; proclama a grande novidade, e estou a ser sarcástico, “Juízes não encontram rasto de dinheiro no futebol” mas vai acautelando que a malta das investigações até pratica desporto, especificamente tiro ao alvo: “Santa Maria é alvo de duas investigações e um inquérito-crime” e finalizando apelando à fé portuguesa, lembrando-nos do S.Sebastião, da Nossa Senhora e do Totoloto “Professores e estudantes esperam veto de Cavaco” sentai-vos. A meio da tarde o vento não soprava. Estava um calor insuportável. Consegui ler mais um capítulo. Sai e pensei em ir ter com a minha-quase esposa depois do trabalho. Uma surpresa é sempre bem-vinda. “Vamos dar uma voltinha!” pensei. Meti a chave na porta do carro, o comando electrónico já não funciona aos anos, rodei a chave para a direita, o trinco não abriu; rodei a chave para a esquerda, o trinco não abriu. Tornei a rodar a chave para o lado direito e o trinco tornou a não levantar, insisti e rodei a chave para o lado esquerdo e o trinco não abriu, ou não levantou ou lá o raio que parta aquela merda!

2 responses to “Mais um Verão na vida do Zé Pedro

  1. Hello Nuno, how are you? Zita showed me this side. Only I do not know yet, how that functions everything. My children became to 4.11 three and it go now already to us well. I would hear to be pleased from you to. Love of greetings Nadine

  2. nunoanjospereira

    Hi!!!
    What big surprise!
    I was not waiting to ear from you in a Portuguese blog, uau!
    My life it’s starting to run very well, thank you
    sincerely I wish that you, and especially Finn and Felix, have also a great life!
    I already miss them.
    kisses to you all!!!

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