Tenho um piolho na cabeça

Antes da PARTE IMaternidades nas escolas

As maternidades deveriam ser construídas em edifícios contíguos às escolas. Assim como assim, nós já lhe tiramos a chucha ou o dedo da boca, mudamos as fraldas e, há uns quantos que deitamos para dormir a sesta, isto no infantário, e outros que acordamos para não dormirem a sesta, os restantes. Portanto constata-se que existe alguém que ensina alguma das regras de bom e saudável descanso. Afinal as normas para dormir, devem ser ministradas por alguém que não seja a televisão. Os elementos da geração do futuro, quando acordam já estão na escola, onde almoçam, crescem e se fazem gente (com todas as limitações que isso implica). Chegam à residência “paternal” ou ao que houver mais parecido com isso, junto com o noticiário das oito e cinco minutos depois de um dos progenitores chegar estão a dormir. Pelo menos deveriam. Tendo em conta as horas e o estado em que alguns deles chegam.

Na eventualidade de não estudarem absolutamente nada, a escola (a tal ao lado da maternidade), depois das aulas de apoio e de mais uma catrefada de coisas providencia RVCCs, EFAs, PDAs que ninguém sabe o que é, nem tão pouco interessa e também não serve absolutamente para coisa nenhuma. Ao serem empurrados para fora da escola, estagiam nos subsídios e para evitar essa situação, agindo em conformidade com os princípios estabelecidos em livros poeirentos, o edifício escola deveria ser albergado pelas indústrias fabris. Ou pelo menos nos centros comerciais deveria de haver uma extensão. Voltaremos ao centro comercial mais tarde visto que num futuro próximo desempenhará um papel fundamental e central na vida não só dos elementos da geração do futuro, como também nos actuais.

Se os donos das fábricas exigissem aos empresários das mesmas mão-de-obra que saiba fazer algo mais do que faltar à segunda-feira, então o oportuno seria as fábricas definirem os currículos escolares de acordo com as suas necessidades. O Estado deixaria de ter uma despesa inútil: pagar para ensinar a quem não quer aprender. Vejamos o caso das escolas privadas. Os pais alegam que os professores são mais exigentes. Quando na realidade quem exige mais são os pais aos próprios filhos. “Como eu ando a pagar, tens de estudar!”. Logo, se as fábricas formassem os próprios alunos, teriam que ser eles a suportar os próprios custos do ensino. Isso far-se-ia de forma muito fácil. Atribuindo bolsas. Daquelas em que o “aprendendo” pagará quando ingressar no mercado de trabalho, isto é na respectiva fábrica onde irá exercer a sua formação. Quanto mais tempo demorar a ficar apto para trabalhar, como é óbvio, mais juros pagará. Um par de “coisas” a reter muito importante: o Estado deixava de ter despesas com a educação, assunto arrumado. O país passava a produzir qualquer coisa, nem que fosse apenas mão-de-obra. Passaríamos a ter gente apta para trabalhar em vez de receber como actualmente, subsídio para não trabalhar, caso não trabalhasse ficaria a dever facto de ainda não ter formação profissional suficiente. Os professores, os formadores, as auxiliares de acção educativa, as cozinheiras, os porteiros, os seguranças, a polícia segura, o condutor do autocarro e o ajudante seriam renumerados, evidentemente, pela fábrica que albergasse a maternidade da escola. Um cenário destes faria com que a Lua fosse habitada, porque toda a gente trabalharia qualquer coisa, em vez de “fazer qualquer coisa”, e temos gente que chegue para ir viver para a Lua, deixando a Terra, este paraíso, para quem pode. Visto que os socialmente desfavorecidos não tem cá lugar. São apenas parasitas. Por mais que se esforcem nunca passam de piolhos.

Dia não definido – Nº de piolhos: valores não definidos     Nº total de vítimas: valores não definidos

Sapatos caros

Uma salsicha, uma perna de frango, um pedaço de entrecosto, uma fatia de picanha, banana frita, arroz, feijão preto à brasileira, seja lá o que isso for, batatas fritas, salada com couves, pimentos, couve roxa, um ingrediente que não consegui identificar, molho com sabor a vinagre, pimentos, cebola e umas ervas a boiar, mandioca que parece pão ralado, tudo isto no mesmo prato e mais barato doze cêntimos do que no refeitório da empresa. Na fila ainda tive a oportunidade de ajudar, não sei se o estrangeiro que não falava português, se o funcionário que não falava estrangeiro. Depois de dar duas voltas ao bilhar grande, consegui descobrir um lugar sentado acabado de vagar. Comecei a almoçar e fui descoberto por um casal amigo, sendo ele amigo desde infância. Naqueles tempos o que nós mais gostávamos de fazer era de ir rezar o terço. Quando chegava o mês de Maio, lá íamos nós a pé até à igreja, com muita antecedência, assim podíamos subir às amoreiras e enfardar amoras até chegar a hora do terço. No caminho de volta, que para nós era mais um passeio, conseguíamos permissão da avó e da mamã, para ficar para trás, pois tínhamos que colher as folhas que serviam de alimento aos bichos da seda que viviam numa caixa de sapatos lá em casa. Bela desculpa para ser feito um assalto aos morangos das hortas vizinhas. Mas naqueles tempos nem tudo o que reluzia era ouro. O reflexo do Sol nas águas do Tejo que tinham inundado toda a aldeia, permitiam-nos assistir a um espectáculo dantesco. Acho que se pode chamar “locus horrendus”, ou belo horrível que o Dante não teve culpa nenhuma, pois era digno de se ver a água cheia de telhados, os patos a nadarem livremente, e quando a rádio a pilhas finalmente anunciava a baixa da água, lá se ia o brilho do Sol. Ainda tive a sorte de sair de casa várias vezes de barco. Uma coisa única! Não é qualquer um que pode se gabar de ter saído do telhado da sua casa de barco! A seguir vinham as lavagens possíveis. Ficava tudo cheio de lodo, a cheirar muito mal. Móveis, os poucos que haviam sobrevivido ao ano passado, estragados. Da criação apenas sobreviviam os patos. Aqueles que tivessem fugido durante a cheia e sobrevivido, provavelmente teriam outro dono. Depois veio a televisão e o meu almoço a arrefecer. Íamos todos para a casa do “Zé Azeite”. Ele teve a primeira televisão a preto e branco, claro está, lá da rua. Optamos por nos sentar, graças a Deus o almoço ainda estava quente e, depois das perguntas de circunstância, começou o inquérito. Até foi agradável, porque aos amigos até contamos a nossa vida com sinceridade e verdade. Não é preciso descrever um castelo de fadas cheio de coisas boas. Agora já não sou obrigado a ir à missa. Ao Domingo, que agora já nem se é obrigado a escrever com letra maiúscula, desço pelo elevador até á garagem, entro no carro e saio no parque de estacionamento do centro comercial. O cinema lá, ou melhor cá, não me faz lembrar nem muito nem pouco a televisão do “Zé Azeite”. Se precisar de comprar qualquer coisa, seja lá o que for, um simples par de meias, essas infelizmente continuam a romper-se, tal como em criança, no dedo grande, estão aqui à venda à mão de semear. Às vezes gostava de ter aprendido a coser meias. Se tinha saudades? Saudades da vida difícil, não. Dos amigos desinteressados sim. Foram-se embora. Fiquei novamente como estava. Sozinho e agora a matutar porque que é que será que os sapatos são tão caros? Dantes não faziam falta, agora pouca falta fazem! Mas uma coisa há em comum entre estes dois momentos da vida, acho que são os piolhos. Porque estou com comichão na careca e, sinceramente, essa seria a pior prenda que me podia ser oferecida no dia do meu trigésimo aniversário.

Dia não definido – Nº de piolhos: valores não definidos     Nº total de vítimas: valores não definidos

PARTE I

Guerra no Afeganistão

Dia nº 1

Nº de piolhos: 1

Nº de refeições por dia: 3

Total diário de refeições consumidas: 3

Total acumulado de vítimas parasitadas: 3

Eu não tenho sorte nenhuma. Uns nascem assim, outros nascem assado. E pronto, é a vida. Agora este gajo queixa-se de quê? O pensamento dele recai naquilo que o Presidente do Mundo disse, pensa ele que lá por Barak Obama dizer que quer mais tropas da NATO, na guerra que os americanos inventaram, a malta tem que ir. Olhem que ele há com cada um! Quando quiseram começar a guerra, a ganância era tal, que não pediram licença e agora querem que um gajo vá lá limpar o sangue, está boa esta. Então e este gajo queixa-se? Ele está desertinho para ir! Mas estou a gostar de ouvir, pensa reclamando que se foram eles que começaram a guerra, que treta é essa de agora vir dizer que a opinião pública acha mal que a NATO perca a guerra? E esta heim? Uma destas é que eu nunca tinha ouvido um militar pensar. Este a pensar desta maneira não vai longe. É muito opinioso. Reclama, mas vai lhe saber bem os seiscentos contos por mês que vai ganhar na guerra como um simples praça. Esse é que é essa. Agora sou eu que não percebo esta gente, senão vejamos, permitam-me também pensar um pouquinho, embora eu não seja muito bom nessas coisas, é o dia-a-dia ouvir os outros pensar, o que é que eu hei-de fazer: este homem tem medo que lhe aconteça alguma coisa na guerra mas quer ir para lá; acha que a culpa é dos americanos, mas quer ir para lá, se ele lesse a Fúria Divina como eu já ouvi alguém ler, então pensaria mais uma vez se deveria de ir ou não, mas o dinheiro, essa doce tentação… Correr o risco de morrer também eu corro a qualquer momento posso levar uma unhada, é a vida, mas a mim, depois desta guerra pela sobrevivência que eu travo todos os dias, ninguém me dá mais não-sei-quantos anos de subsídio de desemprego por ter estado na guerra. Aquilo da guerra é uma coisa cara. Se não quer ir, não vá, só pedem voluntários, ora essa. Eu é que tenho de andar aqui, feito barata tonta, de um lado para o outro. Que remédio.

Cimeira Ibéro-Americana vs Ibéro-Árabe

Dia nº 2

Nº de piolhos: 1

Nº de refeições por dia: 3

Total diário de refeições consumidas: 3

Total acumulado de vítimas parasitadas: 6

Olhem-me esta! Vêm para aqui com o cabelo todo cheio de cola, que dificulta a labuta de um desgraçado, toda cheia das ideias luminosas, como se fosse mudar o mundo. Pensa que esta parvoíce da cimeira Ibéro-Americana deveria ser Ibéro-Árabe. Eu percebo-a, a mim ela não me engana que eu já ouvi muita gente pensar. Com esta desculpa que isto de dar graxa aos americanos e pedir cabritos a quem cabras não tem, já não engana ninguém. Ela não é parva de todo quando pensa que a cimeira deveria ser Ibéro-Árabe com sede em Al-Andaluz, até revela ser uma miúda com visão. Eles é que tem o dinheiro, eles é que se reproduzem em maioria e não a gente, se calhar ainda conseguimos pagar mais um bocadito destas jantaradas todas, pensa a miúda e com razão que os portugas pagam os impostos. Ora se pagam é porque podem pagar. Então pimba, vá de jantaradas e foguetes que alguém tem de gastar o dinheiro. Num futuro próximo, viram-se para os Árabes. Ou seja antecedem o futuro. Já que no passado foram especialistas em parasitar o mundo, as coisas que eu ouço! Primeiro parasitaram a Índia, depois a África, seguiu-se o Brasil, continuou-se com os subsídios europeus e quando se acabar, salta-se para outra. Mas eu percebo-a. Muito bem até. O que ela quer é que os humanos passem a andar com a cabeça apertada por um turbante, com as ideias todas lá dentro muito bem apertadinhas, se pensa que isso dificulta a minha tarefa, engana-se. E olha que nem as burcas me impedirão de passar fome. Que isso eu não passo. Chupe onde chupar, mame onde mamar, eu hei-de ferrar o dente e encher a barriga. Doa a quem doer. A mim não me acabam com a raça. Toma lá mais uma ferroada, que é para ver se te passa a tosse. Hum! Tens o sangue doce… Não coçaste a cabeça, terás vergonha? Vou prospectar a ver se tens mais cabelo nalguma outra parte do corpo.

Tenho um piolho na cabeça… e incomoda!

Dia nº 3

Nº de piolhos: 1

Nº de refeições por dia: 3

Total diário de refeições consumidas: 3

Total acumulado de vítimas parasitadas: 9

Uma vez ouvi alguém que me compreenderia. Um gajo careca lia um livro de Saramago (que nome estranho para um humano, saramagos são plantas herbáceas tipo couves e nabos, com raízes muito fortes, estranho chamar-se assim. Pode ser que passe por aí alguém a ler a esse respeito, tenho que investigar), isto sou eu a pensar, que de tanto ouvir pensar, acho que já penso pela minha própria cabeça, e quem me iria entender seria essa tal de Blimunda, não fosse ela personagem de ficção. Essa sim saberia compreender a minha situação. Enquanto ela ouvia as vontades, bastando-lhe olhar para o interior das pessoas, se não comesse, era esse o seu triste destino, ver o que mais ninguém vê. Ver o que ninguém quer que se veja, a falta de vontade. Eu, por minha sina sou um desgraçado, e para quem não sabe informa-se que desgraçado é aquele que anda fora da graça de Deus. Para comer, ao contrário da minha idolatrada Blimunda, pago um preço muito elevado, ouço o que a minha fonte de alimento diz. É incontornável. Pico-lhes a cabeça, chupo-lhes o sangue e ouço. Ouço o que eles e elas que por ai andam pensam. Muito pensa esta gente. O outro comprido que passou por aqui da outra vez, esse coçava-se, não tinha vergonha nenhuma e as pessoas pareciam achar-lhe piada, é que tinha razão, ou quase, ele dizia “Eles falam, falam, falam mas eu não vejo ninguém a fazer nada!”. Pois eu penso “eles pensam, pensam, pensam e pensam, mas fazer alguma coisa que é bom?…” São piores do que eu. Eu não escolhi a minha triste sina. Foi a vida, o que é que eu hei-de fazer.

Promoção especial

Dia nº 4

Nº de piolhos: 1

Nº de refeições por dia: 3

Total diário de refeições consumidas: 3

Total acumulado de vítimas parasitadas: 12

Bom, como já não há por aqui mais nenhum passageiro, e eu até nem tenho pressa, já me está a chegar o sonito, é melhor jantar qualquer coisita. Só há um, tenho que o estimar, antes de me servir vou-lhe dar a anestesia local, só para que ele não tenha dores, ele ou ela, depois logo saberei o género que me ofereceu o jantar, de tão contra-vontade quase de certeza, porque ninguém dá nada a ninguém sem receber nada em troca, e estes lixam-se, ou melhor coçam-se, quase que me acertam com as unhas, mas voltando à minha triste sina: ficarei a saber o género depois da descarga de anticoagulante, não digam que eu sou mauzinho porque até lhes facilito a vida impedindo-lhes a coagulação do sangue, mas também é verdade será para meu belo prazer, facilita-me a tarefa de me alimentar, só depois pagarei o preço de ficar a ouvir o que eles pensam. Cá vai disto. E foi. Venham de lá as ideias. Este, afinal é um este, acho que não consegue ficar mais urbano do que isto: (e esclarece) ainda ontem, parece que foi ontem e já é Natal, andava eu árvore acima, árvore abaixo, com as peras e o balde na mão, hoje já estou debaixo do chão, a não-sei-quantos metros de profundidade, com a rotunda do Marquês de Pombal por cima da cabeça, a mudar de linha de metro, numa espécie de cidade debaixo da cidade e, sucumbi à mais recente, pelo menos para mim é, técnica que considero eficaz de publicidade, pois cativou-me como cliente: um cartãozinho de desconto. Mais ou menos. Aqui, quais minhocas entre o corrupio, avista-se um bar! É um simples balcão corrido, mas a verdade é que as duas correntes de gente, ali naquele espaço não tocam, não estorvam. Estou a gostar deste gajo, pode-me trazer algumas vantagens. Como a viagem me tinha feito sono, tenho mesmo que me deitar mais cedo, resolvi beber um cafezito para espevitar. Espero que o gajo não tenha bebido demasiado café, se não quem não dorme sou eu! “Já tem cartão?” foi a pergunta. Carimbar-me-ão cada compra e a décima bica será oferta. Gostei. Gostei da calma no meio daqueles rios de água glaciar em pleno verão. Em relação à oferta, continua a não me convencer, porque se eu pagar nove cafés e consumir dez, então o total da soma paga por nove unidades ao ser dividido por dez, obterei o preço de cada um, não me estão a dar nada! O café até é bom. Gosto deste gajo. A sério. Se ele andou por lá a apanhar as peras, como pensa, isso quer dizer que tem acesso ao meio rural, o que é muito bom. Tenho por lá alguns primos que haveriam de gostar aqui desta vidinha na cidade. Pode ser que um dia deste volte a jantar numa cabeça destas.

Sistema nacional de saúde

Dia nº 5

Nº de piolhos: 1

Nº de refeições por dia: 3

Total diário de refeições consumidas: 3

Total acumulado de vítimas parasitadas: 15

Come-se bem. Barriguinha cheia. Aqui até nem está frio, nem nada. Parece que estou a ver o piolho a coçar a barriga de satisfação. A noite é tranquilinha, fico por aqui nestes sofás. Optei assim. Aquilo lá fora é uma selva, o melhor é ficar por aqui e de manhã escolho uma cabeça qualquer, ou nem isso; aquela que por aqui se sentar lá me servirá de pequeno-almoço. Ora aqui está uma que se veio encostar a mim. Mesmo a calhar! Nem preciso saltar nem nada. Ora com licença, deixe-me esticar a patinha e entremos no café. Anestesiante, que eu não quero cá sangue coagulado, picadinha, nem sei porque é que as pessoas se queixam, chega muito bem para nós dois. E agora o jornal da manhã: F*!#-&*! Um gajo quando não tem sorte até os pombos lhe cagam em cima. Eia! Este tem problemas com os pombos, mas eu não vejo aqui porcaria nenhuma?! Quer dizer, agora que eu já tenho os exames todos prontos, depois de três semanas a andar de roda de clínicas, tirar exames, ir buscar exames, só se pode marcar consulta a partir do fim do mês. F*!#-&*! Não tenho sorte nenhuma. Agora como se não bastasse, finalmente a ‘nha velha foi operada. Não sei lá porque é que fez exames, o sangue dele para pequeno-almoço não está nada mau. A velha também se devia era desviar dos pombos ou o caraças; primeiro telefonaram-lhe a dizer que tinha operação p’ra semana, a coitada parou de trabalhar, perdeu o emprego, porque isto neste país é uma tristeza, as mulheres quando são novas se resolvem ter filhos, perdem o emprego e quando são velhos, se os médicos as operam, perdem o emprego outra vez. Graças a Deus que sou homem F*!#-&*. Essas também deixaram de ser calcadas pela família, para passarem a ser calcadas pela sociedade, chiça, p”#* de sorte! Este gajo ferve tanto que acho que a refeição está mais quente que o habitual. Depois no dia da operação, adiaram-na para a semana seguinte. Dessa vez nem chegou a lá ir, adiaram-na outra vez. Há terceira é que foi. Devia de lá ir visitar a velha, coitadita… Este gajo está me a dar uma boa ideia. O médico que me fez lá aqueles exames de não-sei-quê chegou duas horas atrasado porque estava de serviço ao hospital de Santa Maria e aquilo é uma clínica privada. Filhos da p”#*! Então estes gajos mandam-nos fazer exames por tudo e por nada nas clínicas privadas e o Estado é que paga? Um gajo dói-lhe uma unha, vá de fazer cinco exames! Mais uma pazada de dinheiro que o Estado paga à clínica privada, aquilo está cheio de velhos reformados. Porque é que o Estado não tem as suas próprias clínicas p’ra fazer exames? Escusava de andar a engordas os outros com o nosso dinheiro? Filhos da… eu nem digo nada que é p’ra não ofender ninguém. Pois é, este gajo e aquele que pensou nos pomares deram-me uma grande ideia: eu podia aproveitar e ir até á aldeia buscar companhia. Há por aqui sangue que chegue para todos.

Ameaças aos professores

Dia nº 6

Nº de piolhos: 1

Nº de refeições por dia: 3

Total diário de refeições consumidas: 3

Total acumulado de vítimas parasitadas: 16

Ufa! Estou cansada. Pode ser que ninguém se sente aqui ao lado, assim escuso de carregar a mochila. Cansada e esganada de fome. Se não demorar muito tempo a mudar de linha, se chegar uns dez minutos antes do das nove, ainda vou ao café comprar um iogurte. Mesmo apanhando o das nove, também era só o que me faltava não conseguir, já vou chegar depois das dez e isso já não é hora de jantar. Não gasto as energias durante a noite. É que nem vou pensar duas vezes. É mesmo esta! Além de ter o cabelo muito comprido e encaracolado, ou seja não vai dar comigo por mais que coce a cabeça, ainda por cima vai para a província! Ou não. Mas seja como for vai sair daqui. Estou mesmo satisfeito, já posso ir buscar companhia. Estou mesmo a precisar de descansar. Estou psicologicamente cansada. Este final de primeiro período, como se não bastasse as reuniões até de noite, como se não fosse suficiente duas ameaças de processos pelos encarregados de educação porque as filhas não estudam nada, como se a culpa fosse minha e como se uma denúncia à DREL fosse resolver a falta de estudo, mais adaptar isto e aquilo, ainda por cima estou com fome. É obra, estou de pé desde as seis da manhã, afinal quem é que é o sexo forte? Ainda por cima volta, ou seja posso voltar também. Aqui o jantar foi bom, o que quer dizer que me posso aguentar, mesmo não tendo opção, penso que conseguirei resistir a comer do mesmo durante esta minha e-po-pei-a. Sei umas palavras caras! Esta gente para parecer importante, lê uns livros com palavras destas. Não me faltava mesmo mais nada! Agora estou com comichão na cabeça. Querem ver que os miúdos me pegaram piolhos? Yes! Lá vamos nós! Ena tantos! Acho que há mais gente aqui, do que lá dentro no metro.

Seguros mais caros

Dia nº 7

Nº de piolhos: 2

Nº de refeições diárias por piolho: 3

Total diário de refeições consumidas: 6

Total acumulado de vítimas parasitadas: 16

Dia nº 7

Nº de piolhos: 2

Nº de refeições diárias por piolho: 3

Total diário de refeições consumidas: 6

Total acumulado de vítimas parasitadas: 16

Já comia qualquer coisita. Isto de viajar deixou-me com fome. Ah! Finalmente em casa. Tirando o facto de a mamã me estar a chatear para comer, comer, diz que estou magrinha, até se está aqui bem. Sempre gostei muito deste sofá. Finalmente na aldeia, tenho que sondar por aí à procura de um ou outro primo que queira ir para a cidade grande, para a vida boa e farta. Chegou correio para mim. Este vem de Lisboa e o remetente é um apartado, não deve ser coisa boa. Mais uma conta para pagar, de certeza. Pois é e diz “Caro(a) Cliente”, não percebo porque é que Cliente vem com letra maiúscula, é a tal coisa, não nos deixam chumbar os alunos e depois é isto, “Dando cumprimento ao estabelecido no Decreto” tal e coiso, “no que respeita ao reforço da protecção das vítimas de acidentes de viação, a partir de 01 de Dezembro de 2009 verifica-se um novo aumento do valor dos capitais mínimos do seguro obrigatório de responsabilidade civil automóvel” e tal, tal… Grande surpresa de fim-de-semana, eu a pensar que os aumentos seriam só depois da passagem de ano, quando o Presidente da República viesse anunciar o aumento do gás e a libertação de meia dúzia de presos podres de ricos não, este ano começou mais cedo. Já encontrei um primo disposto a ir para a vida boa! Já tenho companhia. Assim também eu era primeira-ministra, esbanjar o dinheiro dos impostos, se não chegar, aumentam-se os impostos, fazer negócios da treta e se correm mal, aumentam-se os juros, se os bancos ficarem à rasca, recorre-se à seguradora que a jogar pelo seguro, vai antecipando a coisa e arranjando maneira de a gente pagar mais. Já estou mais descansada, afinal sempre houve bons alunos. Já me podia ir embora, já tenho companhia e aqui na terriola as pessoas não tem vergonha de se coçar, até usam uns pentes fininhos que são um perigo. E champôs cheios de veneno, aquilo até lhes faz mal à pele, a mim dá-me cá uma moca… e depois ficam com a toalha à enrolada na cabeça… quero-me me ir embora. Correcção: queremos! Já somos dois!

EDP – q.b.

Dia nº 8

Nº de piolhos: 2

Nº de refeições diárias por piolho: 3

Total diário de refeições consumidas: 6

Total acumulado de vítimas parasitadas: 16

– Então? Estás preparado? – P’ra quê? – Para viajar? – Porquê? – Então não ouviste? – Não ouvi o quê? – Agora! Enquanto estávamos a almoçar! – Eu não ouvi nada. – Então ela estava a dizer à mãe que tinha de apanhar o das duas e meia. – E o que é que isso quer dizer? – Então quer dizer que vamos de autocarro até à cidade. – Ah… já percebi. E depois? – Bom… depois quando estivermos no autocarro petiscamos mais uma “buchazinha” e logo se vê, ou melhor ouvirá, como é que vai ser o resto da viagem.

O tempo passa rápido, aquilo são uns segundos atrás dos outros, sucedem-se os minutos e quando se dá por ela… passaram horas.

– Estou com um ratito. Vai uma bucha? – Dito e feito. Que raio de comichão esta agora na cabeça, não me faltava mais nada, querem lá ver que apanhei piolhos este fim-de-semana? Isto de vir cá à terra só me traz é chatices. Cheguei na sexta-feira à noite, cansada e com fome; no sábado quando vi o correio, fiquei a saber do aumento do seguro, a mamã passou o dia a azucrinar-me a cabeça, quer que eu coma porque acha que estou muito magrinha, sabe Deus às vezes o que me custa manter uma elegância destas; hoje, com este mau tempo faltou a luz, é normal e sempre a mesma tristeza, cai uma chuvinha, vai-se logo a luz, se calhar quando vier a conta para pagar descontam este dia que não houve fornecimento, e então em vez de me levantar amanhã às quatro e meia da manhã, como pode estar mau tempo e voltar a não haver luz, o melhor é ir já hoje. Ainda me estou a lembrar dos gajos da luz, eles deviam indemnizar as pessoas que estão a fazer conta com o serviço que eles não prestam. O problema não são os ricos, são os pobres que o que tem congelado comprado a baixo preço, descongela e depois como é que é? Mas não, as atenções do grande público estão todas viradas para a avaliação de desempenho das professoras. Não me faltava mais nada. Ora nesta tristeza de terra o único autocarro ao domingo para a cidade é o das duas e meia. Consigo apanhar o expresso das quatro, cinco e meia seis horas estou em casa. – Tu não ouves o que ela diz? – Eu? – Sim! – Que disparate, eu lá sou de calhandrar! – Nós não vamos para a casa dela. – Ah não? – Não. – Mas ficamos na cabeça? – Por agora sim mas depois saímos. – Então e depois, passamos fome? Não quero! Já não saio da cabeça dela! – Não teimes, vai por mim. – Espero que não me tenhas convidado para vir para a cidade passar fome. – Não. Eu explico-te. – Então explica lá. – Nós apenas apanhamos boleia dela até ao metro. – Ah… – Estás a perceber? – Continua… – Depois no metro saímos da cabeça dela ficamos no banco – Não! Isso não! – Espera, nós ficamos no banco à espera… – Não! Então a comidinha aqui é tão boa, abundante, a cabeleira é farta, quem é que nos vai descobrir aqui? Diz-me lá? – Ela já se anda a queixar há três dias por causa da comichão, já pensou em ir à cabeleireira antes das reuniões, achas que vai para lá com piolhos? – Não. – Então se ainda não te sentes preparado para ser exterminado, podes-me ouvir? – Sim, diz lá. – Dormimos descansadinhos no banco do metro e logo pela manhã aparece quem se ofereça para pequeno-almoço. – É assim, tão simples? – Sim, não precisas de fazer nada. Basta esticar a pata e a comidinha aparece. Serves-te, deixas de usar essa cabeça, descansas um bocadinho no banquito, quando tiveres fome logo há-de aparecer outro para parasitar. – Quando a esmola é muita o santo desconfia. Quais é que são os riscos de uma vida farta dessas? – Nenhum! Podes viver às custas desta gente que ninguém dá por ela. Comes um bocadinho de cada um, não incomodas muito, fazes um “low profile”, há aqui tantos que ninguém se apercebe se roubares um pouco a cada um. Bem não se trata de roubar, é uma questão de sobrevivência, e só vamos picar quem tem muito para dar e não lhe faz diferença mais pinguinha, menos pinguinha. – Ninguém se apercebe que a gente os anda aqui a mamar? – Acredita que é do melhor, esta gente nunca, mas nunca iria admitir que alguém os comeu.

Prendas natalícias

Dia nº 9

Nº de piolhos: 2

Nº de refeições diárias por piolho: 3

Total diário de refeições consumidas: 6

Total acumulado de vítimas parasitadas: 22

– Acorda! – Hum… – Acorda, o metro já está a andar. – Bom dia! – Vêm aí o pequeno-almoço. – Já? – Agora tu vais para um que eu vou para outro, é para não abusar. – Vamos lá então. – Não vamos nada! Eles vêm ter com a gente. Olha-os ai! – E vêm sentar-se aqui?! Mesmo à minha frente! – É só esticar a pata. Até já, bom apetite. Não te esqueças de sair antes do pequeno-almoço se levantar.

E dá-se início à sina do nosso piolho, a de ouvir os pensamentos de quem parasita: Ora bem, vamos lá a organizar isto: quando for a pausa para o café às dez horas, venho cá a baixo e passo pela ourivesaria do prédio da esquina, a Paula adora brincos e fios e essas coisas, compro-lhe qualquer coisa desde que seja de ouro; vou almoçar ao shopping e a seguir passo pela Bertrand, para a mulher compro um livro de culinária, ela cozinha que é uma espectáculo!, e ainda acumulo os pontos; para o puto… bem a esse dou-lhe cinquenta paus, quinze anos é idade mais do que suficiente para aprender a gerir o seu próprio dinheiro. Se calhar dou-lhe uma notita de cem, cinquenta é pouco. Logo se vê.

– Então e que tal? – Hum… – Conta lá! – Epá… – O que foi? – Acho que tenho… sede… – Sede?! – tenho a boca… assim um bocado… – Mas não comeste? – Sim… mas tenho assim… a cabeça a andar à roda… – Então e o que é que ele disse? – Epá… eu acho… que era pessoa de poucas falas… – Disse alguma coisa? – Não coçou a cabeça… nem nada… – Mas ouviste o que ele pensou? – Olha que eu acho, eu acho… hum… que ele não pensou nada. Olha lá… não há nada aqui que se beba? Hum…

Crédito mal parado vs gastar mais

Dia nº 10

Nº de piolhos: 2

Nº de refeições diárias por piolho: 3

Total diário de refeições consumidas: 6

Total acumulado de vítimas parasitadas: 28

– Acorda! – Hum… – Acorda, o metro já está a andar. Bom dia! Vêm aí o pequeno-almoço. – Epá… estou com uma dor de cabeça… que não aguento. – Um bom pequeno-almoço vai-te fazer bem.

Ainda bem que este está a ler o jornal, deixa-me cá ouvir as novidades: “O malparado entre as famílias, no passado mês de Outubro, atingiu os 3,7 mil milhões de euros, o valor mais elevado dos últimos 11 anos. Este valor traduz um aumento de 131 milhões de euros face a Setembro e de 840 milhões face a Outubro do ano passado. Ou seja, em apenas um ano, o malparado cresceu 28,9%. Tendo em conta que o valor emprestado pelos bancos totalizou os 136 mil milhões de euros, o malparado representa já 2,77% do total. Coitados! Estes dão uns passos maiores que as patas. Depois… queixam-se. Entre os vários factores que explicam essa quebra estão as dificuldades que as empresas têm em cumprir com os pagamentos. Estes humanos são uns mentirosos! Até parece mentira, então eu já estou farto de ouvir os empresários a gabarem-se, em pensamento claro está, do dinheiro que encaixam por fora, esses são piores do que eu! Já os maiores incumpridores continuam a ser os sectores da construção e do imobiliário. Outra cambada de malandros. Têm dinheiro para construir, eu bem que vi as obras no caminho para cá, e depois não têm dinheiro para pagar a quem devem? Ganância, ou melhor concorrência. Vou-me mas é embora desta cabeça. Este jornalista está feito com eles, de certeza.

– Então o pequeno-almoço, como é que foi? – Pum pum! – Ãh?! – Pum tchi pum pum! – Estás-te a sentir bem? – Pum tchi pum pum, pum pum! – Tu tens cada manhã… – Pum tchi pum pum, pum pum!

Ao almoço vou ser mais selectivo. Um que cheirinho… vai uma picadinhazinha… é mulher. O que é que ela está a ler? O jornal. Boa. Nos últimos meses deste ano, as famílias portuguesas atiraram a crise e o desemprego para trás das costas e voltaram a consumir. Siga, haja festa! Estão a cortar nas poupanças e a regressar lentamente aos bancos para pedir mais crédito. Isso não vai correr bem… “Não senti nada, não estou a pagar empréstimos”, constata Paulo Louro, economista nos CTT. Carlos Baptista, militar, atira: “Agora pago menos 100 euros por mês. Mas também senti nas prestações do automóvel que também indexei à Euribor. Por isso, sem dúvida que, por haver a crise, tenho mais dinheiro para gastar. Aliás, até costumo dizer que devia haver uma crise destas todos os anos.” Ah valentes! Qual crise, qual carapuça! Siga o metro! E há sinais concretos de que, mesmo com grande incerteza pela frente, não pretendem recuar no consumo, pelo menos na época do Natal: por exemplo, estão a comprar mais carros novos depois de vários meses de contenção neste tipo de gastos. O volume de negócios do comércio a retalho também dá sinais de alguma recuperação na parte final do ano, mostra o INE. Quais prendas no chinês, qual quê? De que se queixa esta gente, se tivessem uma vida como a minha, é que sentiam o que é difícil, sempre a fugir das unhas. Vou-me calar e ouvir para ver se aprendo alguma coisa:  Portugal será o segundo mais pobre da zona euro, depois da Eslováquia. Por estas e por outras é que eu tenho de trazer mais primos para cá, eu não percebo os humanos.

-Então e tu, o que é que me dizes a isto tudo? – Pum tchi pum pum, pum pum! Pum tchi pum pum, pum pum!

“update” Nº de refeições diárias por indivíduo: 3

Dia nº 11

Nº de piolhos: 2

Nº de refeições diárias por piolho: 3

Total diário de refeições consumidas: 6

Total acumulado de vítimas parasitadas: 34

A vida de pobre é sempre a mesma coisa, não se passa nada. Um piolho está aqui, e aqui fica. Calma sossego. Os riscos não são muitos, basta mudar de cabeça antes que o humano se resolva a fazer uma mudança, coisa que para eles parece ser algo difícil, o que é óptimo para mim. Este maluco que veio comigo, não sei, não consigo perceber de que raio de sangue é que ele gosta, parece que lhe corre pândega nas veias todos os dias a toda a hora, não se consegue conversar com ele. Talvez deva ir à terra convidar mais um ou outro primo para ter com quem comentar o que por aqui se vai passando. Por aqui há alimento que chegue para todos. Terá que ser maior de idade para que possa viver uma vida cheia de perigos como esta. Embora os riscos possam ser calculados. Ficar a viver assim, não será grande problema, os humanos não coçam a cabeça e pelos motivos mais estranhos: para não estragar o penteado, foi o mais cómico que já ouvi; para que ninguém veja é o mais comum; ainda os há que não acreditam ou culpam a “caspa”; assim, se for uma refeição a cada um, passo despercebido. Basta cumprir as regras e a vidinha corre… O difícil será convencer o piolho, ou piolhos convidados, a largarem o hábito genético de ficarem agarrados à mesma cabeça até ao fim da vida. Com um pouco de método, ordem e disciplina talvez consigamos ter aqui uma boa vida. Tenho que pensar melhor sobre o assunto, até teve piada, eu, que não pedi a ninguém para ouvir o que os humanos pensam, a pensar.

Farmácias são o verdadeiro retalho moderno

Dia nº 12

Nº de piolhos: 2

Nº de refeições diárias por piolho: 3

Total diário de refeições consumidas: 6

Total acumulado de vítimas parasitadas: 40

Eu sou uma parva. É próquinácia, ou nácia não-sei-das-quantas, é vitaminas por causa disto e mais daquilo, ou porque é muito bom como prevenção das constipações ou bom para as articulações e até por causa da poluição. Ah, então é por isso que o jantar é tão bom! Como é que elas me convenceram a tomar isto tudo é que eu não sei. O cato não-sei-quê faz bem à pele, ufa… ainda bem que fui ao médico. Venho descansada. E de doente não tens nada. Pelo menos no sangue. Sinto-me na obrigação de lhes explicar a elas que isto tudo é propaganda .Como é que eu hei-de fazer uma coisa dessas? Digo-lhes o que o médico me disse: que a uma boa alimentação, que o facto de os alimentos serem frescos, já não é nada como antigamente, é suficiente para nos dar vitaminas e proteínas e essas coisas assim. O melhor ou o pior disto tudo, isso agora é que eu não sei, é que o nosso organismo deita fora o excesso de vitaminas. Eu até agradeço. Não se preocupe com o excesso, os piolhos também podem vir a ter família. Quer dizer, uma gaja farta-se de gastar dinheiro nestas coisas todas para ter uma melhor qualidade de vida, e afinal é tudo truque, barrete, técnica de markting para as farmácias venderem mais. E aqui a pateta cai na esparrela apenas porque quer ser saudável. Pois é minha senhora, a senhora queixa-se porque pode escolher o que comer, ou lá esses medicamentos todos da moda, se fosse como eu; teria que comer o que lhe aparece à frente e dar-se por satisfeita. É o que faz a abundância. Ao que isto chegou, valha-me Deus. Pois é minha senhora, a senhora queixa-se de barriga cheia, tome lá mais uma picadinha visto a senhora ter que chegue para uma boa sobremesa. Se chego lá e lhes digo que tenho comichão na cabeça, ainda dizem que tenho piolhos.

Meios & Publicidade

Temperatura da água: 29ºC

Dia nº 13

Nº de piolhos: 2

Nº de refeições diárias por piolho: 3

Total diário de refeições consumidas: 6

Total acumulado de vítimas parasitadas: 46

Finalmente atingi aquele ponto na vida em que me posso sentir satisfeita. Eu ainda não, mas quase… Já gosto do meu corpo como ele está, também eu gosto, todo nutrido, é pouco bom é! tenho horário e dinheiro que me permite praticar natação. No próximo Verão já posso comprar um biquíni bem atrevido. Antes de chegar do trabalho, passo pelas piscinas municipais, Eh lá! Isso cheira-me a água! onde tranquilinha e calminha da vida, trato de mim. Agora aquela porra fechou. Ufa! Graças a Deus… Tenho que me sujeitar e fazer mais dez quilómetros para lá e outros dez para cá, para poder praticar natação, só que na autarquia vizinha. Tal não é o meu espanto quando vejo, no primeiro dia que lá vou, malta daqui. Na segunda vez, ainda mais gente, à terceira comecei a perceber porque é que era só eu e mais uns gatos-pingados que frequentávamos aqui a piscina: éramos poucos porque os nossos vizinhos estão na da autarquia ao lado. Estás-me a dar ideias, muita gente é coisa boa, sinal de abundância de alimento, mas essa da água deixa-me um pouquinho renitente. Depois queixam-se que não há nada cá na terra. Ainda por cima aquilo não é um tanque de água, é uma panela de água a ferver! É impossível fazer desporto com a água quase a trinta graus. Logo sou levada a concluir que aquela gente não quer fazer desporto. Podem estar preocupados com tudo, menos com a saúde, porque ao fazerem exercício físico o corpo tende a transpirar, ora se a água da piscina está a ferver, como é que sai o suor? Obviamente que quem paga é o coração.”Logo” tudo o que ouço quer dizer que esta “boazona” sai daqui. Ainda bem que me lembra, porque quero ver se vou até à aldeia buscar mais companhia. Aquele ali nem para conversar presta. Logo concluo que aquela gente vai para lá apenas para se mostrar, logo só pode ser para os outros os verem e não por razões de saúde ou mero exercício físico. Havia de lhes dar um ataque de piolhos, Não!? Muita água, piscina e chuveiros, esses humanos lavam a cabeça muitas vezes! mas a mim é que me está morder a cabeça. Essa é que é essa.

Festa de passagem de ano

Dia nº 14

Nº de piolhos: 2

Nº de refeições diárias por piolho: 3

Total diário de refeições consumidas: 6

Total acumulado de vítimas parasitadas: ora bem, são 2 piolhos, a 3 refeições cada um, a dividir por pai, mãe, filha e filho, o que faz com que o número de vítimas, hoje, não seja superior a 4 embora as refeições continuem a atingir o valor de 6, certo? Então 46 vítimas de ontem mais quatro de hoje = 50

Festa de passagem de ano? Qual festa de passagem de ano qual carapuça. Quer festa? Então vamos para a mãe dela, que aquilo lá é sempre uma festa. Gente da aldeia é assim, tudo boa gente! Vou chamar o outro piolho! Há comer e beber que chegue para toda a gente, e fazem sempre uma festa quando “a gente” lá vai. Vou chamar o outro desgraçado porque é mesmo neste que nós vamos até à aldeia! Festa? Para começar o Janeiro são precisas duas botijas de gás, uma para o aquecedor e outra para o fogão e esquentador; o mês começa com a renda a ser paga; mais internet e Cabovisão e o raio-que-parta; cinquenta euros para a luz; o crédito do computador do cachopo; a fortuna que a cachopa gasta em telemóvel; o seguro do carro é para ser pago agora; os passes, quatro! Fixe! São quatro! Escusamos de fazer a viagem toda na mesma cabeça. Ainda bem que o do cachopo e o da cachopa têm desconto por serem estudantes, mas o meu e o da mulher não; eles na escola não comem ar e vento, a gente também não e à noite, pelo menos podemos jantar em família. Assim sendo está decidido: o pequeno-almoço fica por conta aqui do chefe. No decorrer da viagem logo se vê em quem será o petisco. Eu nem quero pensar mais no início do mês de Janeiro, quanto mais no início do ano. Ah! E ainda sobre o cartão do Jumbo para o final do mês. Agora cá festas de passagem de ano. O dinheiro não cresce nas árvores. Vou lá beber uns tintos valentes… que o sogro tem lá… boa pinga! É nesta estação que eu saio. Eu dou-lhe a festa. Vamos embora. Vamos sim senhor! E ainda faltam as portagens e o gasóleo! Este gajo bebe umas pingas valentes, é bom para ti ó desgraçado.

Ano novo, vida nova

Dia nº 15

Nº de piolhos: 6

Nº de refeições diárias por piolho: 3

Total diário de refeições consumidas: 18

Total acumulado de vítimas parasitadas: 50

A vida na aldeia não é fácil. Cada vez que um humano sente algo novo a fazer-lhe comichão na cabeça, rapidamente outro vem em seu auxilio disposto a averiguar o que se passa. É esta a maior dificuldade na vida de um piolho da aldeia: os humanos estão sempre atentos ao que se passa na cabeça dos outros. Um piolho, mesmo com esta dificuldade tem de se alimentar, aqui os humanos não sentem vergonha e em vez de disfarçar a comichão, chegam mesmo a pedir ajuda ao próximo para que ele possa ajuizar o que se passa. Guerras intensivas chegam a ser travadas pela sobrevivência: lutas com pentes fininhos e insecticidas disfarçados de champô, são uma constante. Na cidade não. Sendo mais especifico para não criar falsas expectativas: no metropolitano isso não acontece. Os humanos da cidade tem muita vergonha de coçar a cabeça! Custa-lhes a admitir a hipótese que possam ser parasitados, acham que isso só acontece aos outros. O piolho continuava a sua explicação para a vida na cidade tendo agora que salientar as regras básicas de uma longa, calma e tranquila sobrevivência. Basta sair da cabeça depois de se ter alimentado. Tal facto para os piolhos que o ouviam era assustador, de tão acomodados que estavam à vida que levavam, a ideia de uma mudança tão radical era apavorante. O piolho continuava dizendo que bastaria aguardar sentado no sofá, que muito rapidamente viria outro humano sentar-se no lugar daquele que tinha servido de refeição. Aos mais gulosos que além do sangue ainda gostam de um bocadinho de pele depois da refeição, ou àqueles que bebem uma pinguinha de gordura, chamava-lhes a atenção para o facto de correrem o risco de saírem do metro, indo assim, provavelmente parar à casa dos humanos, onde correm risco de extermínio, tal como na aldeia, embora muitos humanos não tenham com quem partilhar a comichão, mas isso, ele já não tinha a certeza, tinha apenas ouvido dizer. O que lhes propunha era muito simples, o metro circula entre Amadora Este e Santa Apolónia, uma voz anuncia “estação terminal” o que significa paz a sossego, óptimos para dormir uma sesta, de manhã o pequeno-almoço é servido por milhares de cabeças que virão ao encontro do sofá onde estão sentados, deve-se de seguida sair do hospedeiro e descansar, conversar com os amigos, enfim, viver a vida boa até que seja chegada a hora do almoço. A história repete-se, tal como quando chegar a hora do jantar. É essa uma das novidades, as refeições chegam até nós. Sem esforço.

Quando a esmola é muita até os parasitas desconfiam. Sentindo que poucos estavam dispostos arriscar, resolveu nem contar que ouvia as ideias de quem lhe servia as refeições. Apenas um casal de irmãos, órfãos de pai e mãe, a viverem na miséria sem terem a caridade de um humano que os alimente, optaram por acompanhá-lo à nova vida. Ao outro maluco, bastou-lhe contar a história das “pastilhas” e do “álcool” que corre no sangue dos humanos logo pela manhã, que dois como ele se prontificaram a acompanhá-lo nessa aventura.

O pai a conduzir com uma ressaca monstruosa, a mão chorosa com a figura que o marido fez e os filhos no banco de trás, são os hospedeiros anfitriões destes seis novos passageiros rumo à linha Azul do metropolitano de Lisboa. Ano novo, vida nova.

O segredo dos descontos de Natal

Dia nº 16

Nº de piolhos: 6

Nº de refeições diárias por piolho: 3

Total diário de refeições consumidas: 18

Total acumulado de vítimas parasitadas: 68

Se bem que chegaram juntos, visto o interesse ser o mesmo e a entreajuda fundamental para assim permitir a sobrevivência da espécie, rapidamente se separam. Dois grupos. De um lado do metropolitano o piolho que ouve os pensamentos dos humanos e o casal humilde de irmãos, do outro, os três da farra. Tinham acabado de chegar na cabeça do pai de ontem, já sem ressaca para gáudio dos três da vida airada. O piolho deu o exemplo saltando para o sofá. Seguiram-no. Dali a cada um ir à sua refeição foi, literalmente um pulo. Enquanto comia o piolho não podia deixar de ouvir os pensamentos dos humanos. “Chegaram os descontos!” foi o pensamento dominante neste dia. “50%, 60& e até mesmo 70%, eu não consigo perceber!” nem eu – pensava o piolho – se vocês que são humanos não percebem, como é que eu hei-de perceber? Lá foi ouvindo que “Se as lojas conseguem ter lucros com descontos, é uma questão de fazer as contas para que nos possamos aperceber de quanto lucravam antes dos descontos.” e aguardou com alguma expectativa o fim do dia para por a conversa em dia com o seu novo grupo de amigos. Havia até quem defendesse os lojistas “A coisa está tão má, que eles vendem ao desbarato para poder ter dinheiro que permita comprar a próxima colecção.” Mas o pensamento que o deixou mais a matutar foi o do jantar: “O truque destas grandes superfícies não consiste em ganhar dinheiro ao fim do dia, no imediato. O que importa é o depósito feito no banco. Os fornecedores são pagos a três ou quatro meses, o que lhes permite fazer render o dinheiro. Enquanto o “Zé Povinho” pensa que vai aproveitando a oportunidade comprando o que não precisa, apenas porque está muito barato.” Os humanos são… estranhos. “A publicidade? é paga por quem queira ter os produtos à venda nas grandes superfícies. Gajos espertos, é o que eles são.” E eu uma vez ouvi um pensar que o mundo é dos espertos, já não me lembro muito bem como é que ele pensou mas acho que era mais ou menos assim: saber viver não custa, o que custa é saber viver às custas de quem não sabe viver. Os irmãos ficaram mudos, com um ar admirado, como se fossem uma imagem de si próprios, fixa, sem dizer palavra de tão estranha que era aquela conversa de ouvir os pensamentos dos humanos. Os outros três pareciam acabados de chegar de uma rave.

Uma sociedade reflecte-se no que lê

Dia nº 17

Nº de piolhos: 6

Nº de refeições diárias por piolho: para efeitos estatísticos salienta-se que a partir de hoje o número de refeições diárias sobe para 5 em detrimento das anteriores 3 por indivíduo.

Total diário de refeições consumidas: o que por sua vez eleva o total diário refeições consumidas de 18 para 30.

Total acumulado de vítimas parasitadas: tendo em conta que cada refeição é consumida numa vítima diferente, o valor Total acumulado de vítimas parasitadas sobe para 98.

A meio da manhã, o piolho foi ter com a única fêmea presente até à data nesta saga de luta pela sobrevivência à conta dos outros, ou parasitismo como é mais comummente denominado, convenhamos que é assim o fado de um piolho, o que é que se há-de fazer? O irmão pulava de roda das cabeças tentando sugar do melhor sangue. A irmã ficou sozinha mesmo à pata de semear e o piolho lembrou-se de uma revista que ouviu ler logo pela manhã. Pensou que poderia impressionar a fêmea e vá de lhe contar que uma passageira lia a revista “Happy”, que em americano quer dizer contente. A piolha olhou para ele e nada disse. Ele desfez-se em explicações, que alguns humanos não aprofundam muito as suas leituras, afinal aquilo é apenas um metropolitano, um local de passagem, basta só ler as gordas. «Hm, hum» foi a resposta e lá continuou ele a dizer que a passageira leu um título muito sugestivo: “Luxúria – Fomos experimentar um jantar erótico”; e outro “Mudanças – Como aprendi a meditar”; a piolha continuava com os hm, hms, e mais ainda: “Deep dating – A nova tendência dos encontros com desconhecidos” insisita o piolho em contar; “O look – Os tratamentos mais eficazes para todos os tipos de cabelo”; e a piolha continuava sem se mostrar impressionada. Ele achou que poderia estar a ser ousado demais mas teria sempre como desculpa, caso necessitasse, que era apenas o que a humana estava a ler, e continuou: “Casamento relâmpago – O pesadelo 15 dias depois”; “Tendências – As tabernas mais cool” «Esta é boa para aqueles três!» disse e riu-se mas não obteve resposta. Vai mais um chorrilho de títulos que a revista é grande: “Corpo – Como perdi 17 quilos em 3 meses”; «Hm, hm» “Experiência – Uma noite erótica no cenário de um filme” calou-se o olhou para ela. Parecia que nada a impressionava, não vislumbrava qualquer alteração na expressão da piolha. Restavam-lhe ainda dois títulos: “Os meus lábios – Os melhores produtos eleitos por especialistas” e finalmente o ás de trunfo: “Escolas de sexo – Filosofia oriental permite intensificar o orgasmo. Os testemunhos”. Tendo dito, calou-se definitivamente. Depois de tudo seria a vez dela. Após o ter ouvido com muita atenção, acanhadamente perguntou-lhe: «O meu irmão anda a ver se petisca alguma coisa fora de horas. Achas que podemos aumentar o número de refeições?» O piolho ficou meio atrapalhado com a pergunta e sem saber o que responder, pois não era absolutamente nada daquilo que ele estava à espera de ouvir. Abanou a cabeça com ar de espanto e sem lhe surgir qualquer palavra. Vendo-o naquele impasse, a piolha continuou: «Se garantisses que nos poderíamos alimentar mais e melhor, talvez pudéssemos constituir família.»

Nesse dia o número de refeições aumentou para cinco. E foi essa a atitude que impressionou a piolha, a capacidade de liderança, de tomada de decisão, o ter sido capaz de convocar os outros para os informar, pensava o piolho que seria apenas uma informação, mas que todos entenderam como uma autorização, que a partir de hoje já poderiam comer cinco vezes ao dia. Se bem que aos três da vida airada o que mais interessava não seria bem a comida, mas sim a bebida, ou outra treta qualquer no sangue dos humanos que desse uma grande moca. O inocente piolho viu-se de um momento para o outro aclamado como chefe. Ele que apenas queria companhia, alguém com quem conversar e desabafar as suas mágoas e esta sina de ouvir o que os humanos pensam, ficou-se, depois do amor – que isto nos piolhos é atar e por ao fumeiro – por uma boa noite de sono.

De Zé-Ninguém a Grande Líder

Dia nº 18

Nº de piolhos: 8

Nº de refeições diárias por piolho: 5

Total diário de refeições consumidas: 40

Total acumulado de vítimas parasitadas: 138

Hoje após o pequeno-almoço, a surpresa dos nossos venturosos e destemidos piolhos foi imensa: chegaram mais dois aventureiros! Que surpresa. Tinham percorrido autocarros e cabeças, montes e vales, IP’s, IC’s e auto-estradas. Dizem que até chegaram a andar de táxi, imagine-se. Quem procura sempre alcança, dizem os humanos e é bem verdade, embora estes dois já estivessem perto do desespero, conseguiram chegar ao mundo que na aldeia de onde todos estes piolhos partiram, já vai sendo apelidado de paraíso. Quem chega da terra trás sempre as novas e estas contam que consta que na cidade a vida é farta, pelo menos é o que reza a história do diz-que-disse: «A modos que um piolho recolheu da miséria um casal de irmãos órfãos de pai e mãe, coitados que se não fosse ele a deitar-lhes a pata, nem se saberia o que poderia ser feito de tais criaturas!» E as bem-aventuranças do piolho continuaram quando «Salvou da miséria três desgraçados que não tinham cabeça onde cair mortos.» relatavam «Deus guarde e proteja o piolho salvador dos pobres! Aclamavam lá na terra!», diziam os piolhos acabados de chegar, desejosos de conhecer tão ilustre figura. Os três do pandam olhavam para o piolho sem nada dizer, o casal de irmãos também, sem que o irmão se apercebesse que para a semana iria ser tio, o piolho sentindo o olhar de todos cravado em si, lembrando-se do dia de ontem quando foi promovido a chefe, temendo que dele se esperasse liderança disse: «Bem-vindos sejam. Aqui estais entre irmãos. Tudo o que temos é para partilhar. Antes de tomardes esta cabeça para vosso regalo, – e dito isto apontou para uma cabeça que estava à sua esquerda – onde podeis comer à vontade, lembro-vos que existe uma regra de sobrevivência fundamental: se se querem manter vivos devem saltar da cabeça antes do humano sair do metropolitano!” Este é o momento em o dedo indicador direito é erguido no ar em jeito de sentença e ameaça, mas à falta do mesmo a pata teve que fazer o jeito. Consciente do grande choque que é para um piolho saber que deverá abandonar a cabeça que o sustenta, mas confiando na esperança que nele depositavam os recém-chegados depois de que ouviu a seu respeito, resolveu não ir ele próprio ensinar-lhes como proceder, coisa que faria de bom grado, mas sim enviar alguém por ele, alguém de sua confiança. A opção de escolha não era muita. Havia um piolho que já estava com ele há mais tempo do que os outros, mas esse por certo que os levaria por más cabeças; lembrou-se do irmão da piolha com quem tinha passado a noite e viu nesta ocasião uma boa oportunidade de lhe agradar: «Envio-vos um dos nossos melhores piolhos para que não vos tenhais de preocupar com a técnica de saída, nem com mais problema nenhum.» Fazia falta o dedo direito outra vez! E com a para esticada apontando para o piolho da sua escolha, fez um ligeiro silêncio, e perguntou-lhe: “Aceitas tal tarefa?” “Com certeza, com orgulho e com grande honra, meu grande líder!” e dito isto firme e hirto como uma barra de ferro, só lhe faltou bater a pala de tão em sentido que estava, não foi possível, como já é sabido os piolhos não usam qualquer adorno com pala. Nem com pala, nem sem pala, aquilo apresentam-se de qualquer maneira e pronto. “Grande Líder. Olha que porra hãm!” ficou o piolho a pensar virando as costas e preparando-se para saltar dali para fora. Precisava de reflectir sobre tudo o que se estava a passar. “Eu que não era ninguém, agora chamam-me de Grande Líder. A única coisa de jeito que sei fazer é ouvir o que os outros dizem e depois… depois logo vejo como é que essa informação me há-de ser útil.”

Precisa-se de empregado para panificadora

Dia nº 19

Nº de piolhos: 8

Nº de refeições diárias por piolho: 5

Total diário de refeições consumidas: 40

Total acumulado de vítimas parasitadas: 178

Os dois aventureiros consideraram a esmola muita. Pediram autorização para falar com o Grande Líder, o que não seria preciso, visto ele ser muito acessível, mas mesmo assim fizeram-no, ao que ele respondeu prontamente que sim, e a mensagem de que o Grande Líder os iria receber no seu banco, foi prontamente transmitida por aquele quer orgulhosamente se prestava ao seu serviço. A honra que recebeu ontem motivou-o a prestar vassalagem ao Grande Líder. Este por sua vez deixou-se estar. Considerava que a culpa de ter sido colocado lá nos píncaros, não era dele, mas de quem o bajula. A questão que levantaram, tinha a ver com a concorrência. «Concorrentes não há?» O Grande Líder explicou que aquele local fora por popularmente denominado de Paraíso, aliás tinham sido eles os portadores dessa mensagem, e que a vida era efectivamente tão boa como parecia. Não era preciso fazer grande esforço para viver às custas dos outros. Escusado seria lembrá-los que são parasitas. Obedecendo às regras tudo funcionaria bem. Basta não cair na tentação de parasitar sempre o mesmo. Os humanos nunca iriam admitir que estão a ser parasitados. – e agora aqui vinha a calhar aquela cena de levantar o dedo, mas a limitação biológica assim o impede – Mas, não são tão estúpidos como parecem e na privacidade do lar, alguns poderão mesmo lavar a cabeça e combater a novidade que por lá se passa. Pondo assim em risco a existência do coitado do parasita. Dito isto ficou em silêncio. «Ó Grande Líder» disse um dos aventureiros « nós acreditamos que tudo o que dizes é a mais pura das verdades. E isto aqui é tão bom! Queremos pedir-te autorização para nos deslocarmos à aldeia e convidar mais alguns amigos que passam muita privacidade.» O Grande Líder lembrou-se do que ouviu um humano pensar sobre o sector da panificação: ele criticava que precisa de gente na panificadora e não ninguém aparecia para trabalhar. Pensava ainda que os humanos preferiam ficar à mama em vez de labutar, mas isso não constituía um perigo, os humanos que o façam são parasitas de outra espécie, não há problema! Lembrou-se de quão duro é viver na aldeia e ter que se sujeitar sempre à mesma cabeça. Muitas das vezes os piolhos chegam a ponderar sair em busca de melhores condições de parasitismo não tendo que ficar sempre na miséria e a correr riscos, sem saber para onde e respondeu-lhes: «Se vocês sabem indicar o caminho a quem dele precisava, pois ide e levai a mensagem de boa vida aos piolhos que ainda não tiveram oportunidade de vencer na vida. Enquanto houver humanos envergonhados em assumir que são parasitados, aqui há alimento que chegue para todos! Ide mas não sem primeiro descansarem um par de dias, pois ainda deveis estar cansados da fatigante demanda a que vos dispusestes.» Os aventureiros retiraram-se e o vassalo voluntário que tinha ouvido aquela conversa toda, sentiu-se motivado em fazer o mesmo que os outros dois se propunham. Se seria ele o tio dos filhos do Grande Líder, achava que deveria dar o seu contributo para com a comunidade e para com os que sofrem na miséria. Dirigindo-se ao Grande Líder pediu-lhe, que lhe recomendasse uma cabeça que lhe permitisse fazer a viagem. Ele não saberia distinguir qual o humano que poderia ir passar uns dias à aldeia. Orgulhoso e contente por poder ouvir os pensamentos dos humanos, algo que o deixava triste anteriormente porque não sabia o que fazer e ninguém parecia acreditar nele, agora surgiu a oportunidade de fazer uso das suas capacidades de dar utilidade ao que ouve. Sugeriu que o vassalo ficasse o resto do dia a seu lado, o que para ele foi uma honra, visto a busca de refeição ser feita sempre sozinho para evitar o aumento do número de piolhos por cabeça, e eis que depois de jantar, tinha chegado a sua cabeça para a viagem. – teve que ser depois de jantar por causa das contas. Já amanhã vai ser uma chatice porque as refeições do piolho vassalo vão ser todas fornecidas pelo mesmo doador. Amanhã faço essas contas! Vou deixar os parasitas dormir.

A propagação da espécie

Dia nº 20

Nº de piolhos: 8

Nº de refeições diárias por piolho: 5

Total diário de refeições consumidas: 38

Total acumulado de vítimas parasitadas: 214

«Os meus filhos vão nascer!» pensava o piolho orgulhosamente. «Estes piolhos querem trazer mais da nossa gente para cá.» continuava « Como isto tudo é importante “A sobrevivência da espécie e a continuidade da prole!”» e agora de pata na boca ficou com um olhar pensativo «E eles querem que eu seja o chefe. Eu querer, não queria, mas já que eles insistem… se calhar até vou aceitar.» pensava renitente «A verdade é que eles precisam efectivamente de mim. Eu sou o único capaz de ouvir os pensamentos dos humanos, portanto sou o único que poderá dizer-lhes qual o caminho a seguir para sair daqui fidedignamente, sem fazer perigar a sua existência, ou seja: eu sou mesmo o Grande Líder!»

Agora tenho que fazer contas, portanto: o piolho vassalo come as cinco refeições todas na mesma cabeça. Cinco vezes é muito perigoso.

Na sua viagem até à aldeia, o piolho vassalo não se esqueceu da recomendação do Grande Líder: “Não caias na tentação de comer cinco vezes por dia. O humano pode acreditar na tua presença. Deves fazer sacrífico para que melhor possas ajudar os necessitados. Lembra-te que os humanos da cidade não admitem a hipótese de serem parasitados, mas os da aldeia sim.” Como estava habituado à vida de miséria, para ele não foi grande sacrifício obedecer às sugestões do Grande Líder que para ele eram ordens.

Voltando às contas: 8 piolhos a 5 refeições por dia, dá 40, mas este piolho só comeu 3, portanto Total diário de refeições consumidas: 38 isto significa que o total de refeições consumidas atinge o valor de 216, mas 3 deles são consumidas na mesma pessoa, ou seja -2, Total acumulado de vítimas parasitadas: 214.

O discurso do Grande Líder

Dia nº 21

Nº de piolhos recém-chegados: 2

Nº de piolhos residentes: 10

Nº de refeições diárias por piolho: 5

Total diário de refeições consumidas: 50

Total acumulado de vítimas parasitadas: 264

Ao chegar da demanda à aldeia, o piolho vassalo trazia em busca de melhor sorte um casalinho de piolhos disposto a arriscar tudo por tudo por melhores condições de parasitismo. Após ter apresentado o casalinho ao Grande Líder, comunicou com grande agrado a esperança que deixou nas vozes do povo de um futuro melhor. Disse que a fama do Grande Líder já se espalhou às aldeias vizinhas e existem rumores de muitos piolhos que querem este novo estilo de vida, como já vai sendo chamado.

O Grande Líder discursou pela primeira vez. Após o jantar, dirigindo-se à comunidade de piolhos permanentes, lembrou-os das regras que devem seguir para ter uma vida boa: nunca parasitar mais do que uma refeição ao mesmo humano; aprender a estar atento à voz que anuncia quando os humanos estão prestes a sair do Paraíso; saltarem atempadamente e saber aguardar sentadinhos no sofá pela próxima refeição; não devem ser gulosos e abusar no número de refeições, mantenham um máximo de cinco por dia, assim sendo chegará para todos! Convidou-os a receberem todos os recém-chegados de patas abertas e incentivou quem queira ir convidar família e amigos para se juntarem a eles. Sabendo de antemão que seria questionado sobre qual a cabeça onde viajar. Esse acto faria com que os piolhos necessitassem dele para não correr riscos.

Aumento da prestação da casa

Dia nº 22

Nº de piolhos recém-chegados: 0

Nº de piolhos residentes: 10

Nº de refeições diárias por piolho: 5

Total diário de refeições consumidas: 50

Total acumulado de vítimas parasitadas: 314

Acordaram lembrando as palavras de incentivo do Grande Líder e fazendo justiça ao seu nome, os dois aventureiros resolveram partir em busca de mais parasitas que queiram sair da miséria. Solicitaram ao Grande Líder orientação acerca da melhor cabeça para os transportar até à aldeia. Já se sentindo experiente nestas coisas de ouvir os humanos, o piolho sugeriu que fossem ter com ele pelo fim da tarde, após a quarta refeição, sendo a melhor altura para escolher uma cabeça que os leve ao destino pretendido, à mais escolha. E foi mais um dia normal na vida de um parasita: a piolha prenha aguarda piolhinhos; comer, beber, descansar e apenas um piolho nesta primeira dezena de desgraçados, tem uma capacidade única, ouve os humanos. Quanto mais ouve, menos percebe, diz ele «realmente o humano que me serviu o almoço fazia contas de cabeça, vejamos considerava a hipótese de aceitar a proposta do Santander, uma loja de vender dinheiro espanhola que lhe propunha que ele pagasse cento e noventa e oito euros de prestação durante os cinco primeiro anos por um empréstimo de cento e trinta mil euros. Ora estes humanos não são bons da cabeça! Então o homem vai estar a pagar uma vida inteira à loja do vender dinheiro, e quando o bem estiver adquirido morre? Estranho. Não sabem viver só por hoje, com calma tudo se resolve. É o que faz ser humano. Eu estou aqui descansadinho não tenho metade das preocupações desta gente que quer ter casa própria tem. Mas o que me surpreende mais é o facto do humano saber que passados os tais cinco anos, a prestação sobre para mais de quatrocentos euros, e mesmo assim ele está a considerar aceitar. Malucos. Só podem ser, ou então ganancioso, não sei.» E lá continuou o normal dia dele aprendendo com a experiência dos outros a arte de melhor viver.

Está de chuva

Dia nº 23

Nº de piolhos recém-chegados: 3

Nº de piolhos residentes: 13

Nº de refeições diárias por piolho: 5

Total diário de refeições consumidas: 65

Total acumulado de vítimas parasitadas: 379

Dia de chuva. Temporal desgraçado lá fora. É água por todos os lados. Foram estas as informações que os dois aventureiros comunicaram ao Grande Líder. Sem perceber muito bem porque carga de água é que eles lhe estavam a comunicar as condições atmosféricas do exterior, quando a vida deles decorria calmante dentro de um metropolitano chamado paraíso, aproveitou a informação, o que já vai sendo seu hábito, para compreender melhor os humanos. O piolho tem a esperança de que toda a informação que vai ouvindo lhe possa vir a ser útil, como tem vindo a ser. Aliás ele até já sabe tirar proveito disso mesmo. Os piolhos precisam dele para poderem sair dali em segurança, ele por sua vez já se apercebeu que o facto de conseguir ouvir os pensamentos dos humanos deve ser mantido em segredo. Quando tentou confessar sua capacidade, ninguém acreditou, nem o segundo piolho, nem aquela que carrega no ventre os seus filhos, e antes que o considerassem um louco, optou pela benesse de o considerarem um génio. Um líder. Um Grande Líder. A prova, o facto é que esta simples informação fez com que o piolho começasse a fazer a ligação do que tinha ouvido de diferentes humanos: uns queixavam-se de que os putos estavam todos molhadinhos; outros defendiam que se calhar deveriam ir para casa e ao mesmo tempo achavam estranho haver gente em casa, questionando mesmo as condições de habitabilidade da mesma, contrapondo à hipótese a questão se não tem condições para evitar que os putos se molhem, como é que tem mais filhos? Entre estes e outros pensamentos nada abonatórios de e para com os humanos que foi ouvindo, concluiu que afinal eles, os piolhos, na vida que têm vivido de parasitismo, não têm esses problemas. Não precisam de andar à chuva; o sofá onde eles vivem é cómodo o suficiente para dormir umas valentes sestas depois das refeições; a comunidade ainda é pequena, portanto não descortina qualquer entrave ao crescimento da mesma. A boa notícia dos dois aventureiros é que trouxeram mais três vítimas da miséria para a vida do parasitismo urbano. Em relação aos humanos: está a chover? então e depois, o mundo parou? Eles que inventem uma maneira de não se molhar. Não quero que a minha gente ande a parasitar gente constipada!

Dia de aniversário

Dia nº 24

Nº de piolhos recém-chegados: 0

Nº de piolhos recém-nascidos: (mas não tem a ver com o natal, tem a ver com a natalidade!) 7

Nº de piolhos residentes: 20

Nº de refeições diárias por piolho: 5

Total diário de refeições consumidas: 100

Total acumulado de vítimas parasitadas: 479

“Alegrem-se os céus e o mé-étro, cantemos com alegri-ia

Já nasceram os meus meni-inos, filhos da piolha Maria.”

Haja festa! É um grande dia para a nossa pequena comunidade. Se os meus filhos sobreviverem, tal como nós temos feito até aqui, têm condições para uma boa vida de parasitismo. Se os nossos piolhos continuarem a dar o bom exemplo e seguirem sempre as regras propostas, os humanos nem dão pela nossa presença, uma picadinha num, outra picadinha noutro, repartido por todos não custa a ninguém, então teremos uma rica vida! Alegrem-se! Pois há que chegue para todos e muito mais. Crescei e multiplicai-vos, que eu à minha conta, só da primeira fornada são sete, senhora Maria! Ide e levai a boa nova. Esta é um metro de esperança. Este é verdadeiramente O Paraíso!

Verdade e consequência

Dia nº 25

Nº de piolhos recém-chegados: 4

Nº de piolhos recém-nascidos: 0

Nº de piolhos residentes: 24

Nº de refeições diárias por piolho: 5

Total diário de refeições consumidas: 120

Total acumulado de vítimas parasitadas: 599

Se bem o pensou, melhor o fez. Quem semeia ventos colhe tempestades e quem semeia feijão, tem boas hipóteses de colher feijão. Hoje, chegaram à grande família de parasitas mais um casal e dois aventureiros. São as árvores a dar fruto. Os casais em busca de melhores condições de vida começaram a brotar neste Paraíso. Os aventureiros, com tanta linha de metro que existirá por certo, nesse mundo fora, com tanta cidade onde há tanta gente para ser parasitada, vêm para aqui, para onde as coisas já estão feitas. E até os aventureiros preferem alguém que os oriente. Aqueles que são ousados o suficiente para que se pareçam com aventureiros, os até certo ponto independentes casais, onde seria suposto ninguém meter a colher, agradecem uma orientaçãozinha, uma liderança. Assim sendo não tem que fazer nada. Basta seguir o que diz o Grande Líder, basta respeitar as regras que alguém instituiu e funcionam permitindo uma boa vida para que os parasitas vivam em paz. Se os humanos não se queixam de serem parasitados, têm vergonha, aproveitemos, aliás essa nem é nossa preocupação, para tal, para ter preocupações até já temos quem o faça por nós: o Grande Líder, ele que se preocupe. Ele é que é o líder.

Casa de banho no metro

Dia nº 26

Nº de piolhos recém-chegados: 4

Nº de piolhos recém-nascidos: 0

Nº de piolhos residentes: 28

Nº de refeições diárias por piolho: 5

Total diário de refeições consumidas: 140

Total acumulado de vítimas parasitadas: 739

“Estou aflitinho para mijar. Que tristeza, a única casa de banho que há na linha desta infelicidade deste metropolitano é no Campo Grande.” Alguma vantagem os piolhos teriam que ter sobre os humanos, não é? “Aquilo é uma nojice. Dois urinóis entupidos, outro tapado com um saco de plástico, uma divisão ao lado com uma sanita partida, o chão cheio de mijo, um cheiro que dá vómitos, que vergonha não terem uma casa de banho decente.” O que um piolho se sujeita a ouvir, apenas porque carrega esta triste sina de ouvir os humanos. “E depois está tudo entupido, é uma chafurdice, parece uma poça de mijo que se cola aos sapatos. Os homens não carregam no botão do autoclismo para não cair mais daquela mistela para o chão” Por amor da Santa, este humano devia ter respeitinho por quem está a tomar a sua refeição! Podia pensar em algo mais higiénico. “e todos agarram no mesmo puxador da porta com as mãos sujas e eeeh… acho que vou ter que pagar um cafezinho para poder mijar ao café.” Ora ai está algo sensato de se fazer, pode ser que penses em bolos! Vou-me embora desta cabeça, porque a vontade ainda não passou ao homem e ele não pensa noutra coisa.

Momentos após ter saltado para o “sofá”, é abordado pelos mais aventureiros que buscam orientação e liderança na demanda auto-proposta de busca de mais parasitas que vivam na miséria. Pedem ao, por eles elevado a Grande Líder, que lhes indique para qual cabeça devem saltar de modo a resolver os seus intentos. Neste caso será arranjar boleia. Também foi abordado pelos três piolhos do pandam, mas esses não diziam coisa com coisa. Aquelas cabeças são só música às bolinhas.

A galinha do vizinho…

Dia nº 27

Nº de piolhos recém-chegados: 4

Nº de piolhos recém-nascidos: 0

Nº de piolhos residentes: 32

Nº de refeições diárias por piolho: 5

Total diário de refeições consumidas: 160

Total acumulado de vítimas parasitadas: 899

Os humanos são assim uma espécie de comunistas. Ao fim de meia dúzia de anos de trabalho um segurança de centro comercial ganha tanto como um carteiro, que por sua vez ganha tanto como o condutor do Expresso. Os próprios pensam que não ganham bem e acham que os outros não consideram o seu trabalho prestigiante. Num patamar mais inferior a nível financeiro, também ao fim de meia dúzia de anos de serviço, temos os polícias e os professores. Embora socialmente sejam profissões nas quais os outros pensem que eles ganhem mais dinheiro e os próprios pensam que ganham mais prestígio. Acima disto tudo está o pedreiro, que é o que faz as casas para aquela gente toda morar, e que tem fama de ganhar menos do que os outros todos embora seja o que ganha mais. Mesmo que não lhe seja reconhecido prestígio, ele parece não se importar muito com isso dando mais relevância aos euritos a caírem na conta. Portanto, que é assim uma palavrinha em jeito de conclusão, os humanos são assim uma espécie de pessoas que pensam que são muito diferentes mas que são todos a mesma coisa. Pensam uns que são mais que os outros, e são efectivamente, são mais otários porque competem entre eles a pensar mal uns dos outros, se eles ouvissem um terço, e não me refiro àqueles de rezar, um terço quer dizer um bocadinho, daquilo que eu ouço, andavam por aí à chapada que era uma coisa parva! Se ganhasse outra dimensão, eu diria que eram capazes de começar uma guerra só com suposições do que acham que os outros pensam, com a mania de querer ser mais do que os outros, com a ganância de querer ter mais do que aquilo que eles pensam que outros têm e, eu sei lá, acho que estes humanos não deviam pensar. Só pensam é mal uns dos outros! Se eu reflectisse sobre o que os humanos pensam… ficava “stressado!”. Ainda bem que eu não penso nada dessas coisas!

Verdades estatísticas

Dia nº 28

Nº de piolhos recém-chegados: 4

Nº de piolhos recém-nascidos: 6

Nº de piolhos residentes: 42

Nº de refeições diárias por piolho: 5

Total diário de refeições consumidas: 210

Total acumulado de vítimas parasitadas: 1109

Os humanos que pensem lá na deles, que eu penso na minha. A verdade é que está a chegar em média à vida do parasitismo um casal e dois aventureiros por dia. E nem todos cá chegam! Há aqueles que tentam vir para esta vida e não são capazes. Muitos dos humanos, na viagem para cá, quando se apercebem que podem transportar parasitas chegam mesmo a ser capazes de os eliminar, de não deixar que eles bebem o seu sangue, coitadinhos. Mas em chegando cá à cidade… passam a ter vergonha do que se possa passar na própria cabeça, não são capazes de pedir ajuda, não admitem que podem estar a ser parasitados e a vida é um regalo. Aqui a coisa está bem organizada: estes piolhos bajuladores criaram um sistema de estatísticas que lhes permite fazer um controle da quantidade de piolhos que por aqui vivem, dizem que é uma informação preciosa que eu possuo. Ainda não sei muito bem o que é que hei-de fazer com essa tal informação. Se calhar vou fazer o mesmo que faço com o que ouço dos humanos: nada. Se algum dia se proporcionar eu precisar de saber as coisas, então logo vejo o que é que hei-de fazer com as informações que os outros me dão. Isso é bom. Os outros não sabem o que eu sei, mas sabem que eu sei qualquer coisa, sabem que precisam de mim apenas para lhe sugerir o caminho a seguir e julgam-se dependentes. Pelo facto de eu os orientar para um caminho que não leva a lado nenhum, pois a boa vida está aqui, eles fizeram de mim o Grande Líder. Muito obrigado. A malta acredita piamente nas verdades estatísticas, mas a verdade é que, quando às vezes me vão visitar e eu estou a tomar uma refeição, embora eu coma tudo sozinho, estatisticamente estivemos, por exemplo, presentes os dois naquela refeição! E o que é que isto quer dizer? Estatisticamente de uma refeição comemos dois, ou seja do total foi metade para cada um, quando na realidade o outro não comeu nada.

Verdades de “la Palice”

Dia nº 29

Nº de piolhos recém-chegados: 4

Nº de piolhos recém-nascidos: 6

Nº de piolhos residentes: 52

Nº de refeições diárias por piolho: 5

Total diário de refeições consumidas: 260

Total acumulado de vítimas parasitadas: 1369

Já são tantos a comer especial por conta, que nem damos por ela! Constou-me, é uma maneira de dizer que me fizeram chegar a informação de que já nascem seis parasitas por dia aqui na comunidade Paraíso. Como eu já tenho em minha posse a informação estatística daqueles que chegam a esta vida de parasitismo na nossa comunidade, passo a dizer que também pedi a contagem média do número de recém-nascidos, isto é que é saber mandar! As coisas estão-se a compor. Enquanto que os humanos não f**** nada porque são cheios de esquisitices, ele é o trabalho que dá muito trabalho, ele é a roupa que é preciso escolher, ele é a masturbação à conta da internet, ou o sexo virtual, ele é as idas aos serviços sexuais durante cinco mil euros, o que quer dizer um fim de semana no Algarve acompanhado (elas levam mais caro), traição, confiança, não há dinheiro que chegue, etc. Tudo desculpas para impedir a reprodução da espécie, ainda por cima é uma espécie que me faz falta porque sustenta a minha gente toda, a gente aqui não, arrefifem-lhe ! Que é o que se leva desta vida. Os humanos levam um par de preocupações, eles que se ralem com a vida que a gente é que curte. Acordar no sofá, parasitar os humanos, mandar uma quecas, comer e dormir, tanto assim é verdade que também já existe contagem média para os piolhos que nascem por dia( a tal sobre a qual fica bem estar informado), isto é que é progresso: são seis. Os meus filhos já podem escolher companhia. Isto é uma daquelas verdades de um tal francês que eu ouvi ler, um tal de Palice, Palicada ou Jacques de la Palice: são em média seis porque é feita uma contagem estatística; é feita a contagem porque eles já nasceram e nós estamos a fingir que demos por ela. Ou seja as estatísticas demonstram que nós (digo nós mas quero dizer “eu”!) temos a situação sob controle, quando na verdade o que estamos a fazer é a informar das consequências da situação que ficou fora de controle, pois expande-se de uma maneira qualquer, mas não parece porque recorremos (quero dizer recorro) aos dados estatísticos como forma de demonstrar conhecimento, vontade e orientação. É que la Palice era militar, chefiava gente! (o facto de gozarem com ele não é para aqui chamado porque estamos a falar de piolhos) ponto.

Policias e professoras

Dia nº 30

Nº de piolhos recém-chegados: 5

Nº de piolhos recém-nascidos: 7

Nº de piolhos residentes: 64

Nº de refeições diárias por piolho: 5

Total diário de refeições consumidas: 320

Total acumulado de vítimas parasitadas: 1689

Hoje almocei com uma professora. Trabalha a toque de chamadas de campainhas, ninguém a respeita, não lhe dão crédito nem autoridade. Toda a gente finge que se esqueceu que é um trabalho altamente qualificado e louvável. Trabalha na função pública, o que é o seu mal: trabalha. Já me apercebi que nessa tal de função pública quem trabalha está metido em apuros. Quando os outros todos falham, a culpada é ela. Parece um bode expiatório, um bode? Não! Uma ovelha, leva com a culpa de tudo. O engraçado é que jantei com um polícia. Não pude deixar de reparar nas semelhanças: tem uma vida que é um perigo, sofre ameaças de armas e ninguém acha esse facto excepcional, muito pelo contrário, pelo que eu tenho ouvido dizem que vem com a profissão e em relação às ameaças sofridas pelas professoras, dizem que é fruto do tempo ou que as mesmas ameaças são a brincar. Também trabalha quando toca o alarme. Ninguém o respeita nem lhe reconhece autoridade. Não lhe credibilizam o trabalho e tal como às professoras, são alvo de escárnio e mal-dizer. Ambos têm um sindicato que anda sempre a reivindicar um qualquer direito, trabalham com grandes grupos de gente que lhes fazem a vida negra, eu sei lá! Sinceramente, pelo que ouvi, sobretudo pelas preocupações que estes dois pensaram hoje, acho que o policia leva vantagem: ele sabe sempre que roupa vai vestir no dia a seguir.

Semana de trabalho

Dia nº 31

Olhemos aos números de parasitas. Só para fazer um ponto da situação.”Um briefing” como dizem os que andam pela cidade há mais tempo. Isto de ser o Grande Líder tem as suas responsabilidades e pelo menos uma vez por semana, convém falar um bocado das coisas, assim parece que toda a gente colabora e tal. Pois que seja feita uma reflexão sobre a nossa (minha!) comunidade. Hoje é quinta-feira, parece-me um dia tão bom como outro qualquer mas não é! É que amanhã é véspera de fim-de-semana e os humanos já se estão a preparar para “arrancar” de fim-de-semana de trabalho, sempre podem dar uma boleia aos meus piolhos. Segunda-feira é mau dia porque é o dia a seguir ao fim-de-semana. Terça-feira é mau dia porque é preciso agendar as coisas e interpretar as estatísticas. A quarta-feira é a meio da semana e já lá dizem os humanos que “és como a quarta-feira, estás sempre ao meio” referindo-se às putas, portanto, também é mau dia. Aliás quinta-feira é noite académica, o que quer dizer que depois de trabalhar arduamente, sempre se pode apanhar uma cabeça e beber uns copos. Vamos lá então olhar aos números acerca do meu poder. Que eu não pedi esse poder, eles é que quiseram. A verdade é que a nossa comunidade de parasitas já conta com um número médio de piolhos recém-chegados diariamente de cinco; actualmente nascem entre nós sete novas criaturas por dia!, o que muito nos honra como prova de virilidade; a nossa comunidade residente no Paraíso já conta com setenta e seis habitantes que respeitam as regras de sobrevivência; como não somos gananciosos e não queremos mais do que a nossa quota-parte por dia, limitamo-nos a ingerir um número simbólico de cinco refeições diárias cada um, cumprindo assim as regras que nos permitem esta vida, deixando qualquer serviço de restauração com inveja do total de refeições servidas num só dia numa carruagem de metropolitano: trezentas e oitenta! Estamos de parabéns. De acordo com os entendidos na matéria, que eu tenho aqui um piolho especialista em fazer estas contas, desde que aqui cheguei eu, já foram parasitados dois mil e sessenta e nove humanos sem qualquer reclamação, sem qualquer baixa na nossa parte. Estamos a fazer um trabalho bem feito. E tudo graças a mim. Paraíso é uma comunidade em crescimento graças às minhas capacidades. Feita a análise, concluísse a reunião e vamos lá para a noite académica.

A 23

Dia nº 32

Nº de piolhos recém-chegados: 5

Nº de piolhos recém-nascidos: 7

Nº de piolhos residentes: 88

Nº de refeições diárias por piolho: 5

Total diário de refeições consumidas: 440

Total acumulado de vítimas parasitadas: 2509

“Atravessei o país de um lado ao outro. Pode dizer-se assim. De Castelo Branco a Lisboa é atravessar Portugal de um lado ao outro. 16 milhões de euros custa cada quilómetro de auto-estrada. Achei curioso no outro dia o ministro das finanças vir dizer a público que este ano não construiriam mais auto-estradas. Acho bem, se já as temos sem trânsito. Eu viajei quase sozinho. Vinha ali tranquilo no meu comercial com dez anitos, a cento e dez, dentro dos limites de velocidade permitidos por lei. Ultrapassei um par de camiões, mas em compensação fui ultrapassado pelo Expresso. BMWs, especialmente os série 5, pareciam ser os dominantes naquela pista. O curioso comum a todos os carros dos concorrentes eram as cores: pretos ou cinzentos. E a velocidade. O único que destoou no meio daquelas viaturas todas foi o passat da bófia, também acelerem que se fartam. Muita coisa curiosa vi na auto-estrada. O mais espectacular foi, sem margem para dúvida os enormes placards informativos dos preços cobrados nas bombas de combustível. Eu duvido que algum daqueles que me ultrapassou tenha conseguido ler aquela informação toda. E deve ser perigoso ler quando se circula a duzentos à hora. Apercebi-me que o gasóleo na auto-estrada é mais caro três ou quatro cêntimos. As lamúrias também se fazem ouvir acerca dos preços das portagens, mas não percebo porque é que as pessoas se queixam e pagam à mesma. Depois a crise, mas qual crise? O meu carro era o mais velho deles todos. Que se lixe. O que me deixou mais estupefacto foi a comichão que tive na cabeça durante toda a viagem, passou-me assim que me sentei no metro, fixe!”

Falam, falam, falam…

Dia nº 33

Nº de piolhos recém-chegados: 5

Nº de piolhos recém-nascidos: 7

Nº de piolhos residentes: 100

Nº de refeições diárias por piolho: 5

Total diário de refeições consumidas: 500

Total acumulado de vítimas parasitadas: 3009

“Vêm para aqui, pensam que mandam, mas não mandam nada! Escusam de estar cá com tretas porque nem sequer mandam na educação dos próprios filhos. Quem manda é o sistema e mais nada. Eles fazem como o sistema quer que eles façam e acabou. E nem se apercebem disso. São simples marionetes… ou melhor são uns meros bonecos de matraquilhos, de ferro “firmes e hirtos” como dizia o outro, sempre agarrados à mesma barra, sempre violentos sem saírem do sítio, sempre a jogar na mesma equipa, sempre a tentar ganhar e de cada vez que a bolita entra na baliza, volta a sair pelo buraco e a ser posta em jogo para se repetir tudo de novo. E os manipuladores dos matraquilhos mais uma vez gritam, batem palmas e bebem cerveja com se tivessem feito algo de extraordinário além de meter uma moedinha e manipular os bonequitos.” Essa gente toda é aqui muito bem-vinda para servir umas refeições à gente! “A força que poderiam ter é o voto. Desperdiçam-no e votam de forma ignorante. E então, para demonstrar a sua supremacia vêm ralhar com os professores em vez de colaborar, isso já o sabem fazer. Mania mais parva de descarregar as frustrações nos outros. Acha que me pegaram piolhos. Tenho uma comichão na cabeça que é uma coisa parva!” Este gajo chamou-me coisa parva! Ou terá sido impressão minha? Nós, os parasitas não temos cá desses problemas, tudo se há-de resolver como Deus quiser, portanto não sei que é que será mais parvo!

… e não vejo ninguém a fazer nada.

Dia nº 34

Nº de piolhos recém-chegados: 5

Nº de piolhos recém-nascidos: 7

Nº de piolhos residentes: 112

Nº de refeições diárias por piolho: 5

Total diário de refeições consumidas: 560

Total acumulado de vítimas parasitadas: 3569

“Agora aquela faz-me lá ir à escola. Pensa que eu não tenho mais nada para fazer do que aturá-la! Se ela não sabe fazer o trabalho dela, saia de lá e vá para lá quem saiba. Cambada de preguiçosas, o primeiro-ministro é que tem razão, deviam correr com elas todas.” Aproveitem e passem por aqui que a gente conta-lhes uma história! “Pensam lá porque são ricas que já mandam nos filhos das outras. Era só o que me faltava, na educação da minha filha quem manda sou eu. Nem que ela tenha que ir para o ATL, ao menos lá tratam-na bem.” Uma picadinha a cada um, não custa nada. “Também era só o que faltava, eu pago é para ser servida. Eu quero o melhor para as minhas filhas, nem admito a ninguém que me diga o contrário!” É mais custoso ir à senhora enfermeira. “Farto-me de trabalhar para que elas tenham o que eu não tive.” Olhe que eu não. Se é coisa que eu tenho é tempo para os meus filhos e a nossa comunidade. É importante que alguém lhes ensine a arte da sobrevivência,as coisas simples, passar algum tempo com eles, sabe? “E acho que ainda por cima a cachopa apanhou piolhos lá na escola e apegou-me.” Não, não foi na escola, nem foi a cachopa. A senhora engana-se. A senhora é que escolheu este caminho, voluntariamente.”

Novo estilo de parasitismo

Dia nº 35

Nº de piolhos recém-chegados: 6

Nº de piolhos recém-nascidos: 8

Nº de piolhos residentes: 126

Nº de refeições diárias por piolho: 5

Total diário de refeições consumidas: 630

Total acumulado de vítimas parasitadas: 4199

– Maaãe! – Sim filho. – Porque é que os piolhos todos andam sempre de roda do pai? – Isso é uma longa história… – Queres que chame os manos para que possamos todos ouvir? – Não! – porquê? É segredo, ou não existe história, ou não é longa, ou o quê? – Deixa-te lá dessas coisas. – Maaãe! Já não sou nenhum cachopo. Para te estares a esquivar, alguma coisa se passa. – Se calhar está a chegar a altura. – Pois está. – Senta-te aí filho. Senta-te. Mas primeiro quero-te pedir que mantenhas esta conversa entre nós. – Tu és minha mãe, vais contar-me algo sobre o meu pai que nem os meus irmãos podem saber, consideras que eu sou digno de ouvir, então mãe, irei guardar essa informação como se fosse um tesouro. – Pois bem, a vida do teu pai nem sempre foi fácil. Todos os parasitas correm muitos riscos. A sua vida enquanto ser que vive às custas dos outros pode acabar de um momento para o outro e de forma violenta. O teu pai apercebendo-se disso e das dificuldades que passava enquanto parasita, resolveu vir para a cidade grande. Aqui teve de enfrentar unhas, coçadelas, pentes finos, produtos químicos e todas as dificuldades de quem vive por conta de outrem. Sendo tão difícil a sobrevivência, em condições que não lhe davam futuro nenhum, resolveu mudar de táctica: mudou de humano. – Como assim? – O teu pai reinventou a forma de parasitismo. – Como? – Em vez de ficar sempre na mesma cabeça e de procriar, não o fez. Ele mudou de cabeça. E ao mudar de cabeça algo de muito estranho lhe aconteceu. – Que foi?! – Ele apercebeu-se de que ouvia os pensamentos dos humanos. – Ele o quê? – questionou o filho com um ar de incredulidade – é uma modernice que acabei de inventar: piolhos com ar de incredulidade. Continuado que isto foi só um espaço em jeito de intervalo: – Ao aplicar o anestesiante nos humanos de modo a não deixar coagular o sangue, o teu pai passou a ouvir vozes. Assustado e não querendo ser morto pelas técnicas usadas para acabar com a vida dos parasitas, mudou de cabeça e ao alimentar-se voltou a ouvir o que o humano pensava. Todas as acções dos humanos são pensadas, racionais. E assim o teu pai tinha a oportunidade de saber quando corria risco de ser coçado por umas unhas, ou mesmo a zona da cabeça que mais comichão fazia ao humano e mudava de sítio. – Não é possível! – Constatou que mudando de humano sistematicamente, eles nem se apercebiam que estavam a ser parasitados. – Como assim? – Dantes, nós os parasitas vivíamos sempre do mesmo que nos alimentava. O teu pai reinventou o parasitismo: comendo um pouquinho de cada, ninguém se apercebe e nós prosperamos. – Uauh! – Ainda não acabou. – Há mais? – Claro, se ainda não acabou. O teu pai resolveu partilhar este estilo de vida com os outros piolhos. Ao princípio só conseguiu convencer um pobre desgraçado que para aí anda, que resolveu parasitar apenas humanos com sangue cheio de químicos, até que nos convidou, a mim e ao teu tio. Quando cá chegamos, depois da refeição, ele contou-nos o que tinha ouvido. Perguntou-nos se nós ouvíamos também. – E vocês?! – Ficamos sem saber como reagir. Aquilo parecia um disparate de todo o tamanho e não voltamos a falar mais nisso. Com o passar do tempo, tanto eu como o teu tio fomo-nos apercebendo que ele tinha falado a verdade. Pois de cada vez que um piolho se dirigia a ele, o teu pai sugeria-lhe um humano, e esse piolho, passado uns dias voltava com mais desgraçados para esta vida de parasitismo. O teu tio foi dos primeiros a fazer isso. A partir daí, apercebeu-se do grande poder do teu pai e prestou-lhe vassalagem. Tal como todos que vivem esta vida farta e sem riscos, desde que cumpram as regras que o teu pai estipulou, gozam de uma grande vida. Foram eles que promoveram o teu pai a “Grande Líder”.

Vendedores de barretes

Dia nº 36

Nº de piolhos recém-chegados: 6

Nº de piolhos recém-nascidos: 8

Nº de piolhos residentes: 140

Nº de refeições diárias por piolho: 5

Total diário de refeições consumidas: 700

Total acumulado de vítimas parasitadas: 4899

Seis e meia da manhã. Isto começa cedo. É difícil ter que acordar logo com a actividade das senhoras da limpeza mas… é a vida o que é que se há-de fazer? Pronto. Já aí vêm os primeiros passageiros. Chegou a hora do pequeno-almoço. Aí está o primeiro voluntário a sentar-se. Um saltinho e… já cá estou. Uma picadinha, anestesiante e… venha daí o alimento. E as ideias. Isto é melhor do que ler o jornal. “Epá que chatice! Uma casa tão boa, a um preço tão jeitoso, com terreno e tudo, tinha que estar tudo embrulhado. O terreno é bom, já dava para plantar uma dúzia de árvores. Tinha que haver complicações, chiça! O dono não quer acabar a casa; o construtor quer vender a casa por acabar, ou se for ele a concluir a obra que começou, o preço dispara como uma flecha; o vendedor não finge que não percebe nada do que se está a passar. A simulação permite-nos pedir um crédito que conseguimos suportar até aos valores anunciados, mas com as obras de conclusão… temos que partir para outra.”Eu ainda aqui fico a acabar o meu pequeno-almoço. “Os três apartamentos junto ao super mercado, com aqueles preços, mesmo por acabar, estavam uma pechincha. Afinal está tudo embrulhado com a falência do construtor e é uma habitação horizontal, não pode ser parcelada, ou seja tem que ser vendido tudo junto. Ainda se fosse vertical, dava para comprarmos só o nosso, mas não é possível vender separado.” Agora deixou-me curioso, o que é que será que vai sair desta confusão? “O T2 com duplex era extraordinário! Até parecia que iríamos viver num sonho. Desapareceu o dono. Ninguém consegue vender aquela m****. Quer dizer, estar à venda está, mas não se pode vender, porque não se descobre o dono. Anda meio mundo à procura dele: finanças, banco, imobiliária e mais o diabo a sete.”A voz tem anunciado as estações e ele ainda não pensou em sair, vou ficar mais um bocadinho. “O outro apartamento da varanda grande, grande não enorme, que até tem um preço camarada, os inquilinos tem dois processos em tribunal: um com o construtor, outro entre eles porque não querem pagar o condomínio.”Por essas e por outras é que os parasitas não têm nem precisam de casa própria, para quê? É só chatices. “Aquele todo moderno, à estreia, impecável, mesmo do melhor, a vendedora fez-nos umas simulações que ficaríamos com uma prestação que dava para comprar uma casa, um barco, dois carros e uma bicicleta. Oi! Esta é a minha estação!” É agora que este se vê livre de mim, obrigadinho pelo pequeno-almoço. E disto isto saltou da cabeça. Estes humanos quando se fartam de estar bem com a vida, inventam problemas. Não os percebo.

Se não fossem os velhos…

Dia nº 37

Nº de piolhos recém-chegados: 6

Nº de piolhos recém-nascidos: 8

Nº de piolhos residentes: 154

Nº de refeições diárias por piolho: 5

Total diário de refeições consumidas: 770

Total acumulado de vítimas parasitadas: 5669

Jantar. Acho que está na hora de jantar. Não é que tenha muita fome. Mas, já que as pessoas estão aqui à mão de parasitar, tenho que aproveitar. Qual é que será a novela do jantar? “Ai que bom, ainda bem que a minha sogra fica com os cachopos, assim ficamos livres para poder sair para a night!”Raro, muito raro, é das primeiras que ouço a dizer bem da sogra.“E podemos ficar até tarde, o pai dele sai cedo e assim sendo ele pode chegar ao escritório à hora que quiser e bem lhe apetecer.” E agora está a dizer bem do sogro? “Graças a Deus que o homem é construtor. Bela casa que ele nos ofereceu. Ainda por cima o escritório fica logo ali no quintal. A sogra fica toda contente quando vamos lá almoçar, é só passar o muro. Nunca na vida que eu vou deixar fugir um partido destes.”Engraçado, se bem que há humanos que se queixam, por outro lado também os há que levam grandes vidas. Estes é que a gente devia parasitar. Embora eu ache que eles nos fazem concorrência.

As aparências iludem

Dia nº 38

Nº de piolhos recém-chegados: 6

Nº de piolhos recém-nascidos: 8

Nº de piolhos residentes: 168

Nº de refeições diárias por piolho: 5

Total diário de refeições consumidas: 840

Total acumulado de vítimas parasitadas: 6509

Olho para a frente e o que é que vejo? Vejo-me a mim. Como fui, como penso ter sido. Sentada no banco à minha frente do lado direito, está uma miúda já grandota! Com um belo e grande par de mamas, faz-me lembrar quando eu tinha a idade dela. Eu pensava que era assim. Bonita, boazona, vistosa. Se tiver mais do que dezoito anitos, será apenas mais um ou dois. Teve o bom gosto de por espuma de volume nos caracóis, ficam mais escuros mas mesmo assim ainda se nota que são loirinhos mesmo dela; olhitos azuis e até o nariz é arrebitado. Joelhitos unidos, mãos no colo em cima dos livros, sapatilhas cor-de-rosa e cinzentas, da adidas, costas direitas, queixo erguido, um ar simpático e estes babosos todos a olhar para ela. Já a tenho visto mais vezes. Não sei se um dia fui assim, ou se penso que gostaria de ter sido assim. Desejada. E aqui estou eu ao meio. Este gajo que está à minha esquerda deve ser mais novo do que eu, para aí uns trinta, embora possa parecer mais velho por não ter dentes de cima e a barba por fazer à duas semanas, não tem rugas no rosto, ou seja ainda é novo. A última vez que o vi, estava sentado lá fora com estas mesmas sapatilhas, brancas da adidas, velhas e gastas, as calças devem ser as mesmas, pretas mas mais sujas, o blusão não falha mesmo nada, é de cabedal castanho claro, menos sujo do que as calças e o gorro enfiado até às orelhas não deixa ver o cabelo. Também já fui assim, tentava esconder o rosto, pensava que ninguém me via. Ele parece não ter vergonha, com as luvas azuis segura na mão direita uma super bock que vai bebendo com sofreguidão. Da outra vez também estava a beber uma. No meu tempo… é o que ele me faz lembrar, naqueles tempos o meu pequeno-almoço não era uma super bock mas três! Coitado deste gajo, cheira mal que tresanda. Acabou de beber a cerveja e abriu o saco vermelho do Benfica, tirou de lá outra garrafa, e que cheiro! Até parece que me vem à boca o gosto da cerveja. A miúda nem sabe para onde olhar, ora para o chão, ora em frente. Também já fui assim: um farrapo humano que pensava que era uma gaja boa. Uma mistura deles os dois. Uma miúda na força da idade símbolo de beleza e desejo e uma pobre alcoólica que sofre em silêncio com o escárnio dos ignorantes. Agora aqui estou. A meio da vida. A meio da semana. A meio do mês. A meio da viagem para casa. Que é meio minha, meio dele. No meio entre o dia e a noite. E com isto tudo já apanhei foi piolhos, estou com uma comichão na cabeça que é uma coisa parva!

Face oculta

Dia nº 39

Nº de piolhos recém-chegados: 6

Nº de piolhos recém-nascidos: 8

Nº de piolhos residentes: 182

Nº de refeições diárias por piolho: 5

Total diário de refeições consumidas: 910

Total acumulado de vítimas parasitadas: 7419

Cheguei aqui não tinha nada. Vi de boleia para a cidade grande num cabelo de um gajo qualquer, que já nem me lembro quem. Não estendi a pata à caridade alheia. A vida de um piolho é mesmo assim: parasitar os outros. Chamam-me de Grande Líder e até tenho vassalos, apenas porque partilhei ideias e técnicas sobre como parasitar os outros sem ser apanhado. Conta e muito o facto da nossa fonte de alimentação ter vergonha de ser parasitada. Nem percebo o porquê de tanta esquisitice, a maioria deles são pessoas sozinhas! Eu constituí família e se calhar até já tenho netos. Tudo isso sem grande esforço. O que eu gostava mesmo era de ficar agarradinho a um cabelo limpinho, lavadinho, bem tratado, perto do couro cabeludo, quentinho… mas o raio dos pentes podem vir lá e partir-me as patas. Eu acho que tenho que agradecer ao Deus dos humanos por eles se manterem sempre caladinhos e com vergonha quando se sentem inferiores aos outros e nunca, mas nunca são capazes de admitir que pode estar algo errado na cabeça deles…

REN, EDP e minas de ouro

Dia nº 40

Nº de piolhos recém-chegados: 7

Nº de piolhos recém-nascidos: 9

Nº de piolhos residentes: 198

Nº de refeições diárias por piolho: 5

Total diário de refeições consumidas: 990

Total acumulado de vítimas parasitadas: 8409

“A rede eléctrica nacional é a coisa mais velha e mais obsoleta que há e ninguém dá por ela! Todos precisam do raio da electricidade, mas fazer a manutenção e “actualização” da rede, ninguém faz! É só meter ao bolso. Venha a nós! Aí daquele que não pagar a luz a tempo e horas! E ao preço que “eles lá” entenderem e mais nada, não há cá contestação. Paga e não bufas.” – pensava um – “Onde é que já se viu uma rede de metro sem luz?” – questionava outro – “E agora o que é que eu faço à minha vida!” – remoía mais alguém – “E se alguém me rouba?” – pensava uma senhora de idade -“E se me dá uma coisa aqui presa?”- sofria por antecedência alguém – “Eu se calhar até tenho daqueles medos como as pessoas que ficam presas nos elevadores?” – mais uma daquelas que sofre com o que ainda não aconteceu – “F***-**! Vou chegar atrasado!” – este é português! – “Como é que é possível uma coisa destas?” – nova demonstração de ignorância – “Será que os alarmes dos bancos funcionam sem luz?” – outra – “Agora já posso coçar a cabeça que ninguém está a ver.” – pensava uma oportunista – “ Que comichão desgraçada!” – reclamava outrem – “ Alguém se encostou a mim porque eu não tinha esta comichão.” – aumentava a lista de reclamações – “ Deixa-me cá coçar antes que venha a luz.” – mais um português com sentido de oportunidade.

O pânico instalou-se entre os piolhos.

O Total acumulado de vítimas parasitadas diariamente atingiu hoje o valor de 8409 cabeças. Imagine-se a quantidade de gente que aproveitou para coçar a cabeça. Ele era dedos e mais dedos; unhas compridas e mais unhas; canetas! Tudo servia para coçar a cabeça, até o título de transporte – que é assim que se chama o passe, é mais rígido que o cartãozinho verde – era útil na caçada à comichão. São daqueles momentos que servem para matar saudades da vida difícil onde as pessoas não tinham vergonha do que se passava na sua cabeça.

Depois de jantar, após os passageiros pouco a pouco terem abandonado as carruagens do metro, os parasitas foram-se juntado. Dez, vinte, trinta por banco, até chegarem quase aos duzentos. Um pouquinho de conversa e pouco a pouco, como uma brisa que sopra leve, a ansiedade foi crescendo. Pairou no ar uma dúvida de incredulidade. Todas as cabeças giravam e olhavam em volta. Nada. Toda a comunidade foi novamente invadida por uma onda de pânico. Todos procuravam o mesmo e ninguém obtinha respostas. A agitação na carruagem do metro era algo nunca testemunhada até então. Piolhos corriam para um lado e para o outro, quais baratas tontas sem rumo e sem saber o que procurar. Desprovidos de sentido subiam velozmente bancos e exploravam encostos. Pelo chão corriam desordenadamente dezenas de piolhos à procura não se sabe bem do quê.

Pouco a pouco, durante um tempo que parecia eterno, as correrias foram diminuindo. Alguns piolhos foram parando a sua busca. Uns no chão, outros nos bancos. As vozes foram sendo caladas, o vento que não soprava parou e deu lugar a um silêncio de morte que caiu como se uma nuvem negra tivesse pousado muito lentamente no chão do metro. Ninguém foi capaz de anunciar a morte do Grande Líder.

Silêncio e um sentimento de pesar, como se alguém quieto e parado segurasse uma bola de ferro na mão, a deixasse cair e nada tivesse batido no chão. Silêncio.

Excepto aqueles do pandam, esses continuavam pum-pum-pum.

Ninguém fala por mim

Dia nº 41

Bom, ao fim de quarenta dias o líder está morto. Não há quem transmita informação. Ninguém relata o que se passa na cabeça dos humanos. É um dia vazio após a morte daquele que todos seguiam. Em relação às outras informações, essas são fáceis de redigir, as estatísticas existem para comunicar resultados e as contas ainda são mais simples de realizar, basta acrescentar os números que o Excel faz sozinho. Sozinho, sozinho não será bem assim… fiz as fórmulas que permitem interpretar a evolução do número de parasitas; vejamos: os piolhos recém-chegados são na ordem de grandeza de 7 – gosto do termo ordem de grandeza – o número de piolhos recém-nascidos atinge os 9 por dia – aprendi na televisão, ordem de grandeza – os piolhos residentes actualmente são 214 – no noticiário do canal 2, às dez da noite – as refeições diárias continuam restringidas ao número de cinco, convém não abusar – com o Sr. Ministro das Finanças! – o total diário de refeições consumidas atinge as 1070 – ele é que disse que “os valores dos aumentos serão na ordem de grandeza de zero porcento” – Total acumulado de vítimas parasitadas: 9479 – e é Ministro! – quase nove mil e quinhentas pessoas por dia, cada dia, alimentam os parasitas. Tenho que fazer as contas para informar de quantas pessoas é que já foram parasitadas até à presente data. Ser parasitado é diferente de ser altruísta. Tal como ser egoísta é diferente de ser parasita. – ordem de grandeza de 0%, olhem que ele há cada maneira de dizer as coisas!

Não há informação porque o Grande Líder está morto. Ninguém relata o que se passa na cabeça dos humanos. Não há porta-voz.

PARTE II

Casas para venda

– Oh mãe!

– Sim…

– Olha lá… eu queria-te perguntar uma coisa.

– Diz filho!

– Sabes o que é… – e o piolho continuava renitente por mais umas poucas de deixas e frases, avançando: – uma vez dissestes-me que o pai ouvia vozes…

– Sim!!! E? – perguntou e “arremelgou” muito os olhos aguardando com a maior cara de surpresa que um piolho pode ter – porque é que perguntas isso?

– Mas olha lá o que o pai ouvia, eram as vozes dos humanos?

– Filho, tu já és crescidinho, o que o teu pai ouvia eram os pensamentos dos humanos. E ele pôs ao serviço desta nossa comunidade, essa sua capacidade de ouvir, saber calar, e usar a informação no momento oportuno para ajudar os outros. Foi assim que eu vi cá parar.

– Ah…

– Toda esta comunidade deve ao teu pai as técnicas de um parasitismo simples, fácil, saudável e duradouro.

– Como assim?

– Nós sabemos que é impossível para a nossa espécie viver sem que os humanos se apercebam da nossa existência. O que o teu pai desenvolveu foi uma técnica que vai um pouco contra a nossa maneira de estar na vida. Esta regras sugeridas, de não parasitar sempre o mesmo humano, de não ser ganancioso, de saltar da cabeça onde está conforto evitando assim o perigo de ser apanhado, e sobretudo resistir às tentações do mundo lá fora e ficar aqui sossegadinho aguardando que chegue o alimento, foi ele que as aprendeu à sua custa e depois partilhou connosco. Através do exemplo e da falta de reacção dos humanos ao nosso estilo de vida, que embora se sintam incomodados com o que se vai passando na própria cabeça, pelo facto de sentirem que não estão a ser iguais aos outros, não assumem que algo de errado se possa passar, então preferem viver a vidinha como se nada fosse, nunca sendo capaz de admitir que algo se passa na sua cabeça, ora assim sendo nós parasitamo-los com um risco de detecção mínimo.

– Então assim sendo os humanos alimentam-nos?

– Filho é a nossa génese, está no nosso sangue sermos assim. Nós somos uma espécie única.

– Ah não somos não! – disse levantando a patita gesticulando em sinal de negação.

– Então! – nova arremelgadela de olhos – chegou outra espécie? Vão-nos fazer mal? – e caindo em si, a mãe apercebeu-se da pergunta do filho. Como este não respondia ela continuou – Filho, a questão que me colocaste sobre o teu pai, tem a ver com o que tu ouviste, não tem?

– Oh mãe, na verdade tem sim. Eu não quero alarma-la mas…

– Conta lá à tua mãe. Talvez eu te possa ajudar com o que te preocupa.

– Eu ouvi um humano que se queixava que queria comprar casa. Primeiro tinha que pagar ao vendedor; depois tinha que pagar ao angariador; e também tinha que pagar agente imobiliário que emprega o angariador e o vendedor; em segundo tinha que pagar ao banco o dinheiro e as burocracias, estes os do banco, por sua vez também pagam aos da imobiliária uma comissão por levar lá o cliente; em terceiro é preciso pagar ao dono da casa que era dono do terreno, que por sua vez foi pago pelo construtor que teve que pagar aos fornecedores de materiais de construção. Quem recebe menos no meio disto tudo são os gajos que andaram a dar ao cabedal ilegalmente. O que nos leva a mais um grupo de humanos aos quais também foi preciso pagar: os dos impostos. Alguns dos materiais pagaram impostos; os da imobiliária também pagam alguns impostos e o humano que compra a casa tem de pagar impostos outra vez sobre o produto de todo este imbróglio: a casa, e continuar a pagar durante toda a vida a um novo grupo de humanos, nomeadamente aqueles que recebem os impostos.

– Meu filho – exclamou a mãe com um ar muito feliz – estou tão feliz! – (eu não disse?”exclamou a mãe com um ar muito feliz”).

– Então porquê?

– Já sabes dizer “imbróglio” e “nomeadamente”!

– Óh mãe! Que parvoíce, és mesmo dah!!!

– Filho, tenho que te dizer que já está lançado na vida: até já sabes gozar com os mais pobres de espírito.

– Não percebi. Mas deixa-me lá acabar de te contar. Ora, aquela gente toda, está a viver à conta de um só, certo? Os primeiros humanos que trabalharam, os tais que não pagaram os impostos, e agora aquele que eu ouvi que queria comprar uma casa, é que sustentam os outros todos. Ora estamos ou não perante uma nova espécie nossa concorrente? Mãe!

-Ó filho, aproveita mas é esse sangue que isso é gente que está muito bem alimentadinha. E com o cabelinho lavado.

Ainda falta a informação mais importante, as estatísticas:

Dia nº 42

Nº de piolhos recém-chegados: 7

Nº de piolhos recém-nascidos: 9

Nº de piolhos residentes: 230 (menos um que é o que morreu, mas anotar esse dado atrapalhava-me as contas e também mais ou menos um, o que é que isso interessa?)

Nº de refeições diárias por piolho: 5

Total diário de refeições consumidas: 1150 (cá está! Tinha que subtrair aqui o número correspondente às refeições diárias consumidas por um só piolho, no valor de 5)

Total acumulado de vítimas parasitadas: 10 629 (como é que eu hei-de resolver isto das estatísticas?)

P.S. (não, podem confundir as coisas! E os piolhos ainda não falam latim (isso é só para candidatos a intelectuais de antigamente) Qual PS qual carapuça…)

Informação de última hora (pronto!): Chegou um novo inquilino à comunidade de parasitas que vive na linha azul do metro da cidade de Lisboa. Entre as famílias que vão chegando, os aventureiros e os do pandam, hoje chegou um emigrante. Pela primeira vez nesta história (que eu me lembre e não me está a apetecer ler isto tudo, está um lindo dia de sol e ainda tenho que ir fazer o almoço) chegou ao parasitismo um emigrante. ( e pronto, estão as contas arrumadas.)

“Os números inflamam por si”

Dia nº 43

Nº de piolhos recém-chegados: 7

Nº de piolhos recém-nascidos: 9

Nº de piolhos residentes: 246

Nº de refeições diárias por piolho: 5

Total diário de refeições consumidas: 1230

Total acumulado de vítimas parasitadas: 11859

Não é por não se falar nas coisas que elas não acontecem. Vejamos os números do parasitismo só numa semana, do 44º ao 50º dia: nº de piolhos recém-chegados 77; nº de piolhos recém-nascidos 91; nº de piolhos residentes 2338; nº de refeições diárias por piolho 5; total diário de refeições consumidas 11690; total acumulado de vítimas parasitadas 126273. Pois é! Parece que era só um piolho a dizer umas asneirolas, não era? Sempre com o número, quer de recém-nascidos, quer de recém-chegados a aumentar na ordem de grandeza (lembrando as palavras do senhorministro) constante de um elemento por dia, nas duas semanas subsequentes, do dia 51 ao 64, passaram a viver à custa dos outros mais 175 piolhos recém-chegados; nasceram mais 189 o que faz com que o total de residentes seja de 6160. Que, continuando religiosamente a respeitar as regras do jogo comendo apenas 5 refeições por dia, perfaz um total de refeições consumidas de 32981. Para conseguir este feito, foi necessário chupar o sangue a 420240 vítimas. E é sempre a somar!Vejamos num mês. Dados mensais: estatísticas daquela coisa que se passa na cabeça de quem trabalha e usa o metro; na cabeça de quem tem de alimentar todos estes piolhos, tendo vergonha de assumir que algo está errado no meio disto tudo e chega de conversa e vamos às contas do dia 65 até 31dias depois, ou seja: dia 96 (inclusive! Que muito por aí se explica que quando é do dia “x” ao dia “tal” que o “tal” também está incluído. Ora é óbvio, porque se não estivesse seria até ao dia antes do “tal”), contemos pois os números relativos ao nonagésimo sexto dia: nº de piolhos recém-chegados 399; nº de piolhos recém-nascidos 423; nº de piolhos residentes 25200; nº de refeições diárias por piolho 5; total diário de refeições consumidas 500969; total acumulado de vítimas parasitadas 7466270.

Por este andar, qualquer dia os parasitas tem que começar a repetir o mesmo… o mesmo, como é que lhe hei-de chamar? “Altruísta”.

Três mesitos, mais coisa menos coisa.

Um lugar no poder

Dia nº97 Total diário Total acumulado
Nº de piolhos recém-chegados: 61 406
Nº de piolhos recém-nascidos: 63 420
Nº de piolhos residentes: 4080 26026
Nº de refeições diárias por piolho: 5
Total diário de refeições consumidas: 86935 527030
Total acumulado de vítimas parasitadas: 1382914 7993335

Empenhada da educação do filho, a mãe resolve levá-lo à aldeia para que melhor perceba as origens do pai, de quem já começa a seguir as pegadas.

Na viagem de volta, pela conversa do filho, a mãe pode constatar que tinha valido a pena. A sua demanda revelou-se profícua. Ele comentava que “as pessoas da cidade até pensam umas coisas” concluindo que “mas são sozinhas.” O piolho primogénito revelava um conceito de família que deixava a mãe indiferente às restantes palavras do filho, ficando presa nos seus próprios pensamentos, sorrindo com um ar feliz e com um sentimento que só uma mãe sabe compreender quando sente que o seu filho aprendeu a lição. O piolho primogénito estava preparado para liderar a comunidade de parasitas de Lisboa.

Porém, ao chegaram ao metro, foram surpreendidos. Não no imediato mas no decorrer do dia. Havia duas facções: nos bancos do lado direito da carruagem estavam os que diziam ser descendentes do Grande Líder; tendo por conseguinte direito a serem eles próprios candidatos ao lugar de 1º-Piolho; nos bancos do lado esquerdo do metro, estavam os que não concordavam com nada daquilo e alegavam que iriam tomar o poder, nem que tivessem que para tal fazer uma revolução. Os da direita propunham que deveria haver uma família dominante em cada carruagem, para estabelecer a ordem fazendo garantir o bom funcionamento das regras, zelando para que os restantes piolhos tenham condições dignas de sobrevivência, tendo estes que lhes prestar vassalagem, todos poderiam circular livremente em todas as carruagens do metro, mas em cada uma delas mandaria a família com direitos sucessórios. Os do lado esquerdo, não concordavam com nada disto! Era só o que faltava os que estão nos lugares de chefia e zelo em cada carruagem terem direito a tal, apenas por serem descendentes da família do Grande Líder. Propunham que todas as carruagens do metro fosse bem comum, em vez de ficarem nas patas de uma só família, desde que fossem eles a mandar e a controlar tudo o que se passa no metro.

O piolho primogénito rapidamente fez valer a sua influência. Em vez de tal como o pai, sugerir boleias nas cabeças das pessoas aos piolhos que livremente pretendiam tirar da miséria os amigos, conhecidos e familiares, ele próprio já mandava: este grupo vai para norte; aquele vai para sul; estes vão para este; vocês de expresso; uns agora, outros depois, uns de dia outros de noite.

Os resultados fizeram-se sentir.

Trinta dias depois:

Dia nº127 Total diário Total acumulado
Nº de piolhos recém-chegados: 91 616
Nº de piolhos recém-nascidos: 93 630
Nº de piolhos residentes: 8730 57316
Nº de refeições diárias por piolho: 5
Total diário de refeições consumidas: 277065 1762390
Total acumulado de vítimas parasitadas: 6587519 40593490

Os resultados fizeram-se sentir… estatisticamente falando! Na realidade o ritmo de crescimento foi o mesmo. A informação tem impacto porque apresenta uma lacuna de trinta dias. Ignorando a taxa de crescimento, comparando um dia com o outro a diferença é abismal, no entanto nada mais é do que o que tem sido até agora: um piolhinho de cada vez, a comer à conta de um humano que tem vergonha de assumir que alguém lhe está a chupar o sangue.

EPÍLOGO

Casas no Dubai

– Querido!

– Hum?!…

– Tu ainda não me contaste a verdade!

– Eu?, qual verdade?

– Como é que tudo isto foi possível? Assim sem que o esperasse, umas férias fora de época, e agora uma surpresa destas?

– Sabes… tenho cá os meus truques.

– E não me queres contar?

– São muitos anos disto. É tudo jogo de cintura. – dito isto deixou sair uma gargalhada.

– Conta lá, vá lá!

– Despedi metade da minha equipa de marketing.

– E sobrou-te este dinheiro todo?!

– Não. Contratei um recém-licenciado em arte que conseguiu num par de meses o que os outros não conseguiram em anos.

– Que foi?

– Bom ambiente no metro. As pessoas conversam umas com as outras.

– Como é que ele fez uma coisa dessas?

– Com um piolho. Imagina tu. Levou um piolho na própria cabeça.

– Então e os lucros… o que é que tem a ver?

– Foi tão bem jogado que me permitiram comprar-te este apartamento aqui no Dubai.

– Ai se a tua mulher desconfia…

– Não te preocupes com isso. Também lhe comprei um a ela.

Uma das críticas que fizeram a José Rodrigues dos Santos, foi que se notava que nas cenas de sexo, ele não tinha aquela experiência, por conseguinte mais vale não entrar em detalhes enquanto não se domina muito bem a coisa. Gosto da sugestão. Então imaginemos a cena como se os intervenientes estivessem num quarto de hotel, após uma queca, ele a fumar um cigarro com a mão direita, o cinzeiro na mesa-de-cabeceira; uma cama castanha clara, baixa, linhas direitas; parede do fundo toda ela uma janela, com vista para a praia (artificial); não sei se o chão há-de ser uma carpete felpuda os piso flutuante, bom seja como for, cada um que imagine o melhor que conseguir (ou o melhor que a experiência lhe permitir!).

Caos em Lisboa

Headline de abertura dos noticiários em todo mundo: “Metropolitano de Lisboa fecha as portas para desparasitação”

Dantes diziam-se que eram os treinadores de bancada, não sei se o termo ainda se utiliza, mas não obstante as vozes da sabedoria popular não coibiram de se fazer ouvir: uns diziam que “Os portugueses fazem de tudo para entrar na história!” outros pediam contenção “ Também exageram um bocadinho, porque afinal foi só a linha azul que fechou!” – e era assim que por aí se falava. A nível oficial, porque o que o povo diz, não conta, o que é verdadeiramente importante é a informação oficial, e como quem tem dinheiro manda, vá de chegar mensagens a tudo o quanto é telemóvel: rede 96: “DGS – Com sintomas de piolhos fique em casa e ligue 808 nº tal tal ou contacte o seu medico. Reforce as medidas de higiene. Evite contagiar outros. Consulte http://www.dgs.pt/especialdecorridapiolho.pt” ; para a rede 91, médico também não tinha acento gráfico. Para as outras redes “não tenho essa experiência”.

Um ano depois…

Dia nº 365

Os piolhos que agora habitam na Linha Amarela dizem que lá na terra de onde eles vêm, não existe isso de pagar impostos, a especialidade deles é o comércio e quem quiser frequentar aquela linha, só se for para comprar alguma coisa. “Lá na nossa terra pode não se pagar impostos, mas temos televisão e podemos ver as notícias de todo o mundo. Estes humanos aqui, quem parasita, somos nós.”

Os piolhos que agora habitam na Linha Verde pouco dizem, são de poucas falas. O pessoal lá na terra deles trabalha que se desunha para não morrer à fome. O interesse da família vem em primeiro plano, acima dos interesses do indivíduo. Também têm televisão. Reservam-se o direito exclusivo ao usufruto daquela linha.

Os piolhos que agora habitam na Linha Vermelha, querem é curtir! “Lá na nossa terra também há televisão, mas a gente não quer saber disso para nada, a gente quer é curtir!”

Aquelas leis não-escritas, como por exemplo os códigos de honra dos filmes a preto e branco dos mafiosos, que ninguém leu em lado nenhum, que não são oficiais mas que toda a gente conhece e respeita “Para manter a sobrevivência temos que respeitar as regras…” aquelas já antigas de “Comer apenas cinco refeições por dia…” e outras como “saltar sempre da cabeça do humano parasitado…” foram adoptadas por todas as linhas. Adoptadas e adaptadas. Nas da linha amarela acresce: “Quer comprar? Vendo barato!”; na verde: “Temos comida típica da nossa terra. Comer rapidinho, ir embora e não visitar a cozinha.”; na vermelha. “Quando é que fazemos uma party? Mas só p’a gente!”

Na Linha Azul, além dos slogans tradicionais, paira uma nova questão no ar: “Ouvi vários humanos dizerem que vem aí um TGV, o que é isso?”

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