Na ‘nha terra

Na ‘nha terra. Não é que eu saiba falar crioulo, não, não sei. É que toda a gente diz assim! “Fui à terra.”, “Lá na terra.”. Eu nunca fui muito de dizer essas coisas, aliás eu sempre disse o nome da terra. “Na ‘nha terra” faz lembrar o José Rodrigues dos Santos que escreve numa língua… sei lá, estranha! Estranha? Pelo menos para mim. Árabe ou húngaro e depois diz que o personagem disse e escreve em português a tradução e o outro respondeu em inglês, o que é surpreendente que em menos de nada, numa simples frase já se falam três idiomas e anda ali para trás e para a frente naquele vai e vem a encher linhas e linhas de palavras supérfluas, um pouco como eu estou a fazer agora, que não dão avanço nenhum à história, já de si longa e depois o produto final é um calhamaço que só faz mal aos pulsos, ter que segurar um livro tão pesado… Bom, eu sei que não sei crioulo e “na ‘nha terra” é o que eu tenho ouvido toda a minha vida. Este fim de semana fomos à santa terrinha também é uma expressão gira. Engraçado, uma piada que sempre ouvi é aquela dos tempos dos bailes lá nas terrinhas, quando ainda era preciso convidar para dançar, à frente de toda aquela gente – mãe incluída – e alguém conta que um dia uma rapariga (em português pode dizer-se rapariga) deu uma nega respondendo ao atrevidote, ou entesoado do rapaz, que só dançava com rapazes da terra, ao que ele terá respondido: Então e eu, sou da lua?

E por falar em lua “Over the moon” é uma expressão que aprendi recentemente, não sabia que em inglês se recorria a esta frase para dizer… ah! Não me quero armar em José Rodrigues dos Santos e tal e coiso. Curioso, é algo que eu costumo dizer aos meus alunos quando eles faltam por causa do tempo: nesta terra chove!

Bom e de terra em terra lá fui encontrando gente da minha terra. A última que encontrei, encontrei? não! fui encontrado, foi a Kina das Arreciadas, encontrou-me no facebook. Agora mora em Odivelas. Engraçado também se juntou a este reencontro a Maria José do Rossio e quem quando viu tudo isto na internet se juntou à festa o Vitor Mota, que morava no Entrocamento, dizem que estudávamos todos juntos no liceu de Abrantes, que agora mudou de nome. Bate certo sim senhor, lembro-me disso.

Dois ou três lá da Arrifana, aldeia onde nasci, também mudaram de pousio, esses foram um bocadinho mais brutos, mudaram de pais! Um dia encontramo-nos quase todos. Foi no casamento do Vaporubias (para aqueles que não se lembram do vick vapórubias, é o Sénica) na Nazaré. Casou com uma miúda lá da terra. O casamento foi bué de fixe. O padre foi perguntando aos presentes, reforçando os adjetivos “familiares” e “amigos”, se alguém sabia de um adjetivo, uma qualidade, que pudesse fazer falta para que este casal fosse feliz. O Zé Piérres disse “fidelidade” e depois de uns quantos terem falado, lá explicou o sacerdote que cada um dos amigos poderia ficar responsável por ser uma das folhas daquela flor, tendo cada um a tarefa de ajudar o casal em relação ao tema que tinha dito, afirmado na igreja perante todos, que era importante para o casal… e logo o Zé Piérres que tinha acabado de perguntar, antes de entrarmos na igreja, se alguém sabia porque é que as mulheres se masturbam? E como ninguém se chegou à frente, ele respondeu que não podia estar em todo o lado! Havia lá mais gente. O Mini que tinha vindo do Afeganistão ou do Irão ou do Iraque, duma guerra dessas, lá nessas terras, que era e ainda é de S. Miguel do Rio Torto mas que mora em Romanshorn. Estava lá o Buica, vai ser um gozo quando o voltar a encontrar e lhe disser que Buika, é atualmente uma cantora, sim, uma… Buika é feminino. Esse veio da Suiça, não sei bem qual a terra, Thun acho eu!  Agora vive em Londres, também não sei qual a terra, aquilo é grande c’mó caraças! O Toni, Barbatana era a alcunha mas ele não gosta, esse é o mais bruto deles todos tendo em conta não a atitude ou força física, muito menos a educação porque até é bastante bem humorado e de forma contagiante mas por ser camionista, foi o passou em mais terras. Os noivos foram morar para Loulé, lá em baixo no “All-garve”. O noivo é capaz de ganhar ao Toni, andou a dar a voltas ao mundo nos navios, sim plural. Ah! A minha quase-esposa que é da Adão-Lobo, embora tenha nascido no Bombarral. O meu alcunha? Ou a minha alcunha? Jurre Preta! Agora em adulto já em versão Black Iurre. Dizem eles que soa mais moderno. Uma vez lá na terra, cá estão as tais histórias, eramos putos e costumávamos jogar à bola na sede, nos finais da década de setenta pelas terrinhas fora desse pais era comum aparecer uma associação, tal como na década anterior tinha sido moda acabar com as ditaduras por essa Europa fora, aqui nesta terrinha à beira-mar plantada, a coisa deu-se mais tarde… Ainda hoje não sei jogar à bola, reminiscências de infância, por conseguinte era o guarda redes, que pouco mais fazia do que ir apanhar a bola que falhava a baliza. Foi numa dessas demandas, aventuras, buscas? como é que se diz “endeavor” ou “quest” em português? Sim. Estou-me a armar. Que fui buscar a bola ao monte de madeira queimada, sim aquilo lá atrás tinha ardido tudo, portanto não é coisa só de agora, já vêm, para mim, desde sempre, ao correr ouço uma voz chamar-me “Jurre Preta!”, viro-me para trás, era o Zé Piérres, catrapumba! Nem tive tempo de me virar para a frente. Quando me agarraram pelos braços e me levantaram estava todo mascarrado. Estava todo preto. Ainda tenho a cicatriz no cotovelo. Quando o Sénica casou foi revelado o mistério, como se de mistério se trata-se, “Jurre Preta” não tem nada a ver com mascarrado de preto mas sim, diz o Zé Piérres, eu queria chamar-te Nuno Pereira mas saiu-me aquilo.

Lá na terra onde queimei os últimos anos de juventude e pensei que passei a ser um homenzinho, há por lá um, que eu nunca conheci, que tem o alcunha mais extraordinário de todos! Caga azeite. Nem sei se deveria escrever isto aqui, pois eu nem conheço o homem mas “Caga Azeite”… realmente é de esboçar um sorriso, no mínimo. Ai o meu alcunha é outro, “Guedelhas”. Hoje não é nada óbvio, hoje os mais novos, ou melhor os filhos dos amigos lá da terra, ficam muito surpreendidos ao verem os pais chamar e apresentar “este é que é o Guedelhas” a um gajo careca. Por motivos óbvios, que saltaram à vista, foi assim que fiquei conhecido nas Mouriscas. O Chris Wadlle também era guadelhudo, vive em Toronto. O “R” vive na Chainça, foi esse! Sim foi esse que se escangalhou a rir quando me apresentou ao filho! O que temos em comum os três é que fomos em simultâneo ao Jaquim Barbêro, entramos lá guadelhudos e saímos de lá quais mancebos, ah valente cerveja que há naquela terra!

Quando estudei em Viseu chamavam-me “o alentejano” por causa do sotaque. Ali onde a Beira Baixa, o Ribatejo e o Alentejo se cruzam, mais fácil dizer no Mação, que pode facilmente ser identificado por causa dos fogos, verifica-se um fenómeno linguístico curioso, o da monotongação. É simples, como diz a malta lá da terra, “tiramos o «i» do lête e pomezio no cafei”, embora estejam a fazer batota pois assim o «fei» passava a ser ditongo, mas cada roca com o seu fuso. (fuso que em crioulo quer dizer outra coisa). Coisas curiosas se aprenderam lá naquela universidade, ficava para lá de Abraveses. A professora, essa sim sabia falar crioulo, pois aprendera na sua terra natal, em Cabo Verde, explicou, eu fui a essa aula, que os alentejanos falam no gerúndio, os do norte falam com as vogais abertas, ora o que é que podemos concluir daqui? Eu confesso que já não sei se foi a professora que explicou, se foi o que eu compreendi que foram eles que colonizaram o Brasil. Um ésse no meio das vogais tem o valor «zê», imagine-se se fosse feito um acordo ortográfico que espelhasse a evolução da língua tal como é feito pelos falantes da mesma. Tal como na terra onde se fala o português padrão, em Leiria e não em Coimbra, ena pá Coimbra! Terra onde fui à inspeção (agora são os carros, é uma questão de importância). Havia lá gente de todas as terras mas isso são outros quinhentos. O Silva de Sernancelhe que dizia que gostaria de voltar a cantar com “o alentejano”, quando a malta de São Pedro do Sul à Covilhã, se lembrou de juntar num jantar em Viseu para matar saudades, não pude ir, estava no Peso da Régua. Mesmo assim lá vou encontrando a malta. Um belo dia, no hospital das Caldas da Rainha, encontrei o “Clone”. Fácil de perceber, ele e o irmão gémeo estudavam enfermagem, ao mesmo tempo que eu tentava estudar línguas por lá, em terras de Viriato. Quando irrompo pelo hospital a dentro com a minha irmã mais nova “tu conheces toda a gente” foi o que ela disse. Não fazia a mínima ideia que o “Clone” trabalhava lá. Mora em Peniche. Voltamos à terra dela, à terra dela não! À terra onde morava a minha irmã, D. Durão. O médico diz que não deu com a coisa. No dia seguinte voltamos ao ponto inicial, onde começou esta triste desventura, o hospital de Torres Vedras e durante uma semana andamos naquele vai e vem diário entre médicos no Bombarral e clínicas particulares quando finalmente voltámos novamente ponto de partida onde foi, imagine-se, operada de urgência. Agora vive em Steyr, na Áustria, depois de uma passagem por Nampula, lá por aquelas terras onde anda o Horta das Mouriscas. Mas ele não está em Moçambique, optou por Bawku, no Gana, é mais uma daquelas terras que está em guerra. Lá das terras de Angola veio o Ruben, de Lubango, trabalhámos juntos na Amadora e foi ele que me reconheceu “O teu pai não vive na Alemanha? Tu não és o Nuno?” Que eu sabia que era o Nuno, isso era óbvio, mas ao fim de três semanas a trabalharmos juntos dia a dia, num grupinho de dez pessoas, deixa cá ver as terras deles: Aveiro; Setúbal (onde se fala charroco); Guarda; Alenquer; Massamá; Macedo de Cavaleiros; Kongo; Buraca; Vila Pouca e Cadaval! Faltava eu! Epá, eu sou o Ruben! (também já tinha dado por ela!) Estudámos juntos em Santarém. Entretanto passaram-se vinte e cinco anos… Lá na Alemanha também aconteceu uma coisa engraçada que tem a ver com terras, o meu pai morava em Bochum, já vou explicar o que é que isso tem a ver, é que a Rosa e o marido tiraram uma fotografia na Trafaria, e eu reconheci o sitio porque trabalhei lá, e reconheci a Rosa porque é uma das amigas de infância que mora atualmente numa terrinha a vinte e cinco quilómetros de… Bochum e eu não sabia nada disto se não fosse o facebook!

Das expressões mais giras que já ouvi, a que lidera este top imaginário, foi a que ouvi na Suiça em Interlaken, com a minha irmã mais velha, numa stammtisch, eu não sei como é que se escreve isto em alemão mas sei o que quer dizer, e então dizia ela que por ali havia gente que não sabiam muito bem de que terra eram! Não pode ser! Pensei de mim para comigo e experimentei: – Tu és de onde? Epá sou mais ou menos dali ao pé de Aguiar da Beira, que fica lá no norte, não sei se conheces? O que eu não percebi é de onde é que és, como é que se chama a terra? Ah!… sou de Dornelas. Uma vez em Grindelwald, com a minha irmã mais velha, descobri um gajo que sabia de que terra era, embora tenha andando nos navios à volta do mundo, esqueci-me de lhe perguntar se conhecia o Sénica, mas como isto aconteceu antes do casamento, não faria sentido, era do Sardoal. Sardoal? Ah! Dei aulas lá! Disse o Ruben que estudou comigo em Santarém, que é de Lubango (e tem um boné para o comprovar) e trabalhámos juntos na Reboleira onde descobri a minha madrinha de batismo que é da Cabeça das Mós, que fica ao pé do Sardoal que também anda a arder desde que me lembro!

Curiosa que é a ‘nha terra. Uma vez dei aulas em Moura, ao pé de Barrancos, que fica ali depois da maior reserva artificial de água da Europa, onde há seca, fui recebido pela Aldina, que é da Covilhã, que curiosamente, além de termos sido da mesma turma em Viseu, estagiámos em Castro Daire juntamente com a Leta que é…imagine-se de Dornelas, que casou com o Cantão, após terem trabalhado juntos numa das ilhas nos Acores e que eu voltei encontrar, a ele, nas Caldas da Rainha. Vivem agora numa das terras dos meus colegas de trabalho, do grupo de dez, em Aveiro.

Que grande que é a minha terra, afinal Portugal não é só Lisboa…

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