Função Pública: servir-se do público

Função Pública. Função Pública, eu pensei que fosse trabalhar em função de um público, que ao longo dos tempos o próprio público tenha criado as regras de todo um jogo social que lhe permitiria, a ele próprio viver em harmonia com todos os elementos que constituem a sociedade. Para que tal fosse possível, foram sendo criadas regras e condições para que essa tal sociedade fosse equilibrada e permitisse que todos tivessem as mesmas condições sociais, uma espécie de patamar igualitário de onde todos partem para a diferença, que passou a ser regra e depois obrigatório para que se preenchesse os requisitos de vivência em comum na referida sociedade. Surgiram assim, na minha cabeça, os direitos adquiridos. O que me leva a concluir o óbvio: se as pessoas têm direito a algumas benesses sociais fornecidas por elas próprias, então alguém terá que fazer essa tarefa. E é aí que surge, pensava eu, a Função Pública. Reli parte dos meus diários e infelizmente refleti, erro crasso, coisa que não se deve fazer nunca, jamais em tempo algum, é sair da ignorância e muito menos refletir! Porque o que eu li das minhas anotações para memória futura, levou-me a concluir que aqueles que gerem a Função Pública, em vez de servirem o público, servem-se do público.

Diário da minha crítica – acho que fica melhor assim – Diário da minha crítica soa bem. Então vá: Domingo, 6 de Setembro

Por vezes queixo-me da vida. Tenho aquilo a que eu intitulo como uma espécie de culto da desgraça quando as coisas não me correm bem. Se calhar devia renomear o diário para Diário da minha desgraça. Mas na verdade “as coisas” tem mais valor do que possa parecer à segunda vista. Sim porque o que parece à primeira vista é algo desfocado da realidade. Farto-me com ralhar, e bem, com tudo e com todos quando chamam a esta treta de conjuntura económico financeira de crise, cá venho eu apregoar aos sete ventos – ou a nenhum – que “Qual crise, qual carapuça! O que nós vivemos é uma grande assimetria social!”senão vejamos: o primeiro-ministro fugiu e foi ajudar os desgraçados do Darfur – esses sim desgraçados, sendo o desgraçado aquele que vive fora da graça de Deus, ora neste caso, por certo que uma das frações vive fora da graça de Alá, porque ambos são muçulmanos. O primeiro-ministro que por cá ainda anda, que também diz que é do mesmo partido daquele que partiu, com a arte em forma de desculpa de ajudar os desgraçados, desta vez os budistas, por conseguinte fora da graça de Buda, resolveu colaborar com o governo chinês fazendo que não vê que compactua com a máfia chinesa ao, tão vergonhosamente, legalizar comércio sem impostos com produtos manufacturados por escravos. Ainda sou do tempo em que se falava de direitos humanos. E por falar em direitos humanos, vamos até ao outro primeiro-ministro que para ajudar os desgraçados de Alá levou o pedido de ajuda até às Nações Unidas que até decidiram ajudar. Mas aquilo consta que é uma democracia e as negociações falharam. A China votou contra a ajuda aos desgraçados do Darfur, os de Alá. Neste imbróglio falta o gajo que manda no Sudão, que nem Deus, nem Alá, nem Buda, nem o raio que o parta o impede de rezar ao seu deus: a ganância. E não reza de joelhos, é mesmo sentado no alto de um sonho glorioso de riqueza e poder – confesso que já vi isto em qualquer lado – que vai vendendo o petróleo ao novo atleta à corrida industrial, a China – embora outros atletas como a Índia também corram, Shiva tem é muitos braços e não muitas pernas – a troco de muito dinheiro e armamento de forma a evitar que os desgraçados não morram à fome, matando-se uns aos outros. Não sendo assim obstáculo, os desgraçados, ao seu sonho de ter uma cidade parecida com Atlantis, sim porque as preocupações dos desgraçados serão um pouco mais básicas como comer, por exemplo. Ora e porque é que eu escrevo isto num diário? A resposta óbvia seria que vale sempre a pena tomar apontamentos num diário porque um dia mais tarde podem sair de lá boas ideias para não-sei-quê e é só mesmo por isso. Não vale absolutamente para mais nada. A única coisa que posso fazer é rezar por aquela gente e não votar nestes primeiro-ministro pequeninos, que cada vez que se tentam impor, vêm de lá meia dúzia de irlandeses com os copos e impedem seja lá o que for que vise a mudança, ou então um chinês qualquer que levanta o dedo. Talvez se o Presidente Americano fosse sudanês…

Ah! Só mais uma coisinha: ajudar o Darfur, ajudar o Darfur… então se até uma simples empresa espanhola em decadência faz mossa na gente… Onde? Mas onde é que iríamos ter força para ajudar seja lá quem for? Hum? A não ser que o próximo Enviado Especial Alto Comissário Para Ajudar Desgraçados seja o Alberto João Jardim, caso se verifique uma necessidade premente de ajuda em offshores. Digo eu, não sei.

Diário da minha revolta. Não. Diário… das minhas lamúrias? Também não. Já sei! Anedota do dia 9 de Setembro, Quarta-feira: A Piscina municipal!

 Valha-me Deus, que bem pode. Pois é, mas não pode ser apenas valha-me de Deus. Sendo de importância vital o bem-estar espiritual, ou psicológico como queiram chamar-lhe, eu prefiro denominá-lo de consciência, só que não bate certo com o que vou dizer a seguir. É importante a condição espiritual, pronto fica assim, embora não devamos descurar a condição física. Não pode ser só comer bolachas em frente ao computador, tenho de zelar pelo meu cabedal, já que ninguém o fará por mim, o que é pena diga-se de passagem. Correr ainda é grátis. Cá está o mas, umas boas sapatilhas são caras, mais caro será reparar os joelhos. Preço a pagar por se ser pobre quando se corre pelo mato fora na idade do armário. Diz a voz do povo que a natação é um desporto muito completo e com razão. No início do mês lá fui até à piscina municipal para nadar, como é evidente. O único serviço prestado por aquele complexo desportivo é esse, a natação. É uma piscina. No dia 2 fui lá, equipado e deparei-me com dois funcionários que aguardavam por mim, devia ser por mim porque era o único, pacientemente me disseram que estavam à espera de um aparelho para filtrar a água por esta não se encontrar em condições para a prática desportiva. Tudo bem. Já não sou assim tão parvo como possa parecer e hoje, esperto, em vez de me deslocar às instalações, primeiramente consultei o site. Não havia informação nenhuma acerca da não funcionalidade da mesma. Ainda duvidei. Aproveitei a página aberta e tive uma epifania: “então e se eu telefonasse?”. Isto das epifanias funciona. Telefonei. Responderam-me que embora a piscina esteja aberta, não se pode nadar. Não percebi muito bem. A tal peça que estavam à espera ainda estão. E a coisa piora: as instalações encontram-se abertas ao público mas não se pode nadar. Quer dizer o único serviço que aquelas instalações facultam é a prática da natação, a piscina está aberta, os funcionários estão lá, mas não se pode nadar. Não percebi. Perguntei quando poderia nadar. A resposta foi que a partir do dia 14 já poderei nadar. Questionei ainda se até lá chegaria a tal peça. Não, foi a resposta, mas já se pode nadar. Portanto, e isto em jeito de conclusão, a culpa de “as piscinas estarem abertas mas não se pode nadar” deve ser de quem votou no primeiro-ministro. Está um bocado agora na moda culpar “eles lá”. Quando começar a escola os alunos vão ter as aulas de natação numa piscina onde não se pode nadar. Então se a culpa é “deles lá” para que é que serve a avaliação de desempenho?

Quinta-feira, 24 de Setembro, Diário da minha revolta!

Não consigo compreender como é que alguém pode mentir tão descaradamente, sorrir e acreditar que está a dizer a verdade. Quando “as gentes” dizem “coitadinhos daqueles lá dos países do 3ºmundo” estão obviamente a rir-se da sua própria ignorância e infelicidade. É muito fácil dizer que aquelas mulheres que usam burca na cabeça são ignorantes e que quem manda não quer que elas saibam umas certas coisas. Nós somos muito pior. Porque sabemos dizer isso, mas não passamos de ignorantes com um sorriso. Lembram-se do tocador de flauta? Quero deixar aqui escrito, para que eu não me esqueça, que um dos slogans do Partido Socialista dizia que todas as crianças estão a aprender inglês. O que é uma pena, é triste e é falso. Primeiro todas as crianças deveriam estar a aprender. Não estão, apenas vão à escola. Deviam de aprender inglês, português, matemática, formação cívica e não vou enumerar todas as disciplinas porque isto é um diário e não uma aula. Vangloriar-se em público de que as crianças estão a aprender uma disciplina é… estranho. Na verdade, a parvoíce que se passa no 1ºciclo com as disciplinas extra curriculares apenas serve para dividir as crianças, isso sim é uma boa lição, ficam já a saber que o PS acha que uns são mais do que os outros, porque no 2º ciclo eu vejo bem como ficam envergonhados os alunos que não tiveram disciplinas extra curriculares porque os pais não tinham dinheiro para as pagar, e essa é uma grande lição: os pobres são considerados inferiores – esta frase é minha! – só que não é a escola que ensina tal barbaridade (embora verdadeira) mas sim o PS. Também vejo como é que os alunos que tiveram AECs olham para quem não teve. Os slogans continuam. Um apregoa uma treta qualquer sobre o complemento solidário. Na feira do vinho no Bombarral falei com um velhote artesão que, lá me foi contando, teve que aproveitar a oportunidade para expor extraordinários trabalhos que faz em restinhos de madeira, com a intenção de os vender, para ganhar algum e, já que o stand era gratuito e a reforma de duzentos e noventa euros mal dá para comer (290€), ficou muito agradecido. Lamenta apenas o facto de ninguém comprar nada. Bem lhe disse que se os preços fossem mais elevados, a probabilidade de vender também aumentaria. O homem não acreditou muito em mim. As conversas são como as cerejas e enquanto a minha quase-esposa andava por lá a pedir restos de comida para dar às cadelas e gatas abandonadas, o artesão contou que lhe foi atribuído o tal do complemento solidário. Pediram-lhe imensa papelada, que tratou e foi-lhe conferido um aumento no valor mensal de um euro (1€). Agora atentem: por ser muito pouco, o valor de um euro (1€) não lhe é pago mensalmente mas sim a cada cinco meses. E o Partido Socialista faz desta anedota um slogan. Afinal quem é que é ignorante?

Mais um dia…

Quando findar este mês passo a viajar de transportes públicos. Graças a Deus que já está de resto. A viagem para a escola faz-se bem. Como ainda é de noite quando saio de casa, o trânsito é muito reduzido. Ali na recta das putas, onde costuma estar o radar, lá sou eu ultrapassado por tudo e todos, embora circule a 60 km, ou seja 10 km acima do permitido por lei. Sigo viagem até à auto-estrada, onde na faixa da direita transito a 110km e o único camião que me ultrapassa é o Expresso. Todos os veículos ligeiro ultrapassam o Expresso. Esta é uma, se não a única vantagem de ter um carro velho, conduzo devagar. Já fiz as contas e para o mês que vêm compensa fazer a viagem de transportes públicos. Demoro duas horas para chegar à escola e outras duas para chegar a casa mas, não tem problema nenhum! Sempre é melhor do que correr riscos de acidente a cada quinze minutos. A carta de condução não deveria ser dada, vendido, ofertada, subornada, a qualquer um. Dever-se-iam fazer testes psico-qualquer-coisa à malta antes de os autorizam a conduzir uma máquina de matar no meio dos inocentes. Quando comparo o cansaço do final de um dia de aulas, com viagem pelo meio e tudo, é sem dúvida saudoso o cansaço de apanhar as peras. É que esse é físico, suporta-se bem e ajuda a adormecer, não enerva. Em relação ao cansaço psicológico a conversa é outra, é muito mais difícil de suportar e cansa mais. Tentando começar a descontrair na viagem de volta e visto a pressa não ser nenhuma, ligo o rádio. Desta feita ouvi a campanha eleitoral. Faz lembrar a escola, parece que estão todos a ler o mesmo livro: vêm um e lê as leis da oferta e da procura; depois alvitra a propósito do aumento da produtividade que terá como consequência a melhoria das condições de vida; B, A, bá que toda a gente sabe; de seguida passam o livro a outra voz que apregoa mais ou menos o mesmo. Lá surge um leitor mais atrevido que lê o capítulo da igualdade social, antes ou depois daquele que enche a boca de toda a gente que é o dos serviços públicos, uma vez por outra, outro que lê mais mal ainda tenta ler parte do capítulo da justiça mas rapidamente se cala. Chamou-me a atenção um testemunho feminino que dizia que em cada final do mês não sabia se havia de pagar ordenados ou impostos, visto o dinheiro não chegar para as duas coisas. Não meti as duas mãos na cabeça porque estava a conduzir. Por mais que escreva, não consigo perceber como é que uma empresa destas tem as portas abertas? Não percebo como é que é possível, ainda por cima, ter o descaramento de pedir subsídio? Pior ainda como é que os locutores de rádio prometem salvar da falência uma empresa que já deveria estar encerrada e sepultada há muito tempo! É tão óbvio, se não produz o suficiente para pagar impostos ou ordenados, o único produto que sairá dali, são os desempregados que vão receber de um “bolo” para o qual a empresa não contribuiu! E ainda por cima quis subsídio. Estou a pensar seriamente em comprar um rádio com leitor de CDs. A campanha eleitoral faz lembrar a antiga telescola: um locutor armado em detentor da sabedoria, a ler para o vento, a ler para uns que fingem que prestam atenção quando na realidade não querem saber do que ouvem absolutamente para nada e, na hora da decisão, todos escolhem o mesmo: aquela que tiver as mamas maiores.

As Igrejas contêm em si e per si, muita energia positiva. O pessoal abancava ali, ou melhor ajoelhava e fazendo um exame de consciência, enumerava as coisas que tinha feito malfeito, debruçava-se um bocado sobre o assunto, reflectia, partilhava com Deus ou com o padre e aliviava a carga. Saindo de lá aliviado, tranquilo, mais calmo. Agora o muro das reclamações passou para o cubículo que adorna a máquina do multibanco da Caixa Geral de Depósitos (eu sugeria que se mudasse o nome para Caixa Geral de Arrelias). Ao fim-de-semana, que é quando tenho tempo para fazer a actualização da caderneta, a máquina não funciona. Não permite operações com a caderneta, quando o permite, fica lá com ela. A penúltima vez foi no Natal e a última foi agora, ia para actualizar a caderneta de substituição que me foi atribuída em Abril e, apenas iniciei o processo. Vi que do lado direito, em vez de um quadro com uma gaja nua, tem um telefone, que não deve servir para nada, pois apenas emite um sinal sonoro parecido com o de ocupado. Situação essa que reflecte um pouco a brincadeira que é este país. Os serviços públicos disponibilizam linhas telefónicas, meia dúzia delas, para atendimento ao cliente, ainda bem que pouco mais de meia dúzia de algarismos existem senão, ainda estaríamos a ouvir as funções de cada um deles, que são no fundo todas a mesma, ou seja nenhuma. O que nós queremos é falar com alguém. Quem quer ser atendido mas vale que ligue para uma rádio que disponha de discos pedidos. O atendimento existe e ouve-se música à mesma. Mas o engraçado é que está na moda o choque tecnológico, realmente… disponibilizam-nos a hipótese de colocarmos dúvidas via e-mail; quando surge resposta normalmente trás em anexo mais uma dúvida. Basta de tretas. Os serviços on-line existem, mas os públicos não funcionam; os serviços via telefone também existem e os públicos não funcionam. Os privados funcionam! E bem! Eles descobrem a que horas estou em casa para me tentarem vender pelo telefone algo que eu não quero, não preciso e penso que não tenho dinheiro para comprar. Ora o serviço em si funciona. Eu penso que a jogada seja fornecer um espaço público para descarregar frustrações pessoais acumuladas durante a semana, vociferando um rol de asneiradas em frente a uma máquina. Os psicólogos, psiquiatras, taberneiros, padres e outros parasitas que tais, é que são capaz de não achar muita piada à concorrência. Por sua vez a incompetência dos serviços públicos, acaba por prestar um verdadeiro serviço público facultando um espaço de… de… substituição de pressão acumulada causada pelas situações anteriores, por um novo problema. É isso. Essa escumalha toda deveria ter uma avaliação de desempenho.

Com tudo isto, os espaços disponibilizados pelas Igrejas para estes fins, ficaram às moscas.

Como um gajo não pode ficar sentado à espera do que não vêm, convêm aproveitar o tempo para investir na formação pessoal. Assim fiz. Descobri uma palavra nova: outsourcing. É estrangeira e tudo, portanto deve ser muito importante. Para perceber o que é que é isto do outsourcing precisei de montar um esquema e como não quero ser preso, camuflei as empresas do meu exemplo com cores. Imaginemos a empresa Azul. A empresa Azul disponibiliza um espaço comercial. Agora imaginemos a empresa Verde. A empresa Verde produz um artigo. Imaginemos ainda a empresa Amarela. A empresa Amarela é o parasita que intermedeia entre o espaço disponibilizado pela empresa Azul e o artigo produzido pela empresa Verde.

A empresa Verde paga à empresa Azul para que esta disponibilize um espaço comercial para escoar o seu produto. A empresa Azul não emprega quem coloque os produtos da empresa Verde à venda. A empresa Verde também não, visto o espaço ser da empresa Azul. Então a empresa Verde contrata a empresa Amarela para que faça esse serviço, e paga-lhe. A empresa Amarela por sua vez, fica com o dinheiro que a empresa Verde pagou por um serviço e dá uns trocos a quem for colocar o artigo da empresa Verde à venda no espaço da empresa Azul.

A empresa Azul não cria postos de trabalho; a empresa Verde também não e a empresa Amarela idem-idem, aspas-aspas, logo estas empresas não fazem descontos para a segurança social por empregados que não têm, obviamente.

O desgraçado que trabalhou pelos trocos da empresa Amarela, recorre à empresa Azul para comprar o artigo da empresa Verde.

A empresa Verde contrata a empresa Amarela para distribuir publicidade ao seu produto disponível na empresa Azul, não precisando assim nenhuma deles de contratar funcionários para o fazer, isso ficará a cargo da empresa Amarela. Existem vários precários disponíveis no mercado para fazer estes serviços de outsourcing: os precários de tipo 0, não existem, logo se não existem, não existem; depois temos os precários de tipo 1, os de tipo 2 e por aí a fora… a grande diferença entre os precários disponíveis no mercado é que quanto mais alto for o número equivalente ao tipo de precariedade, mais iludido o indivíduo está. Ora, a empresa Amarela estabelece relações comerciais, ou seja dá uns trocos aos precários de tipo 0, para fazerem a publicidade ao artigo da empresa Verde no espaço da empresa Azul.

Agora surge a empresa Castanha. A empresa Castanha propõe à Azul guardar-lhe o dinheiro que ao fim do dia o precário lá deixou, por ter comprado o artigo da empresa Verde. A empresa Castanha promete rentabilizar o dinheiro da empresa Azul, numa outra empresa. A empresa Cor-de-rosa. Quando a empresa Castanha tiver um aumento no volume de trabalho não emprega mais ninguém, seguindo o exemplo das empresas Azul, Verde e Amarela, recorre ao outsourcing, não da empresa Amarela mas de uma outra que se vem juntar à festa: a empresa Amarelo Torrado. A empresa Amarelo Torrado por sua vez, também não tem pessoal disponível a quem dar uns trocos, terá que ir dar uns trocos aos serviços prestados por um precário, com mais nível, um tipo 2 por exemplo.

Se a empresa Castanha pagar horas extras aos funcionários, terá que pagar o respectivo imposto. Como a empresa Castanha apresenta despesas com os serviços da empresa Amarela Torrado. Logo não tem lucros acima de um valor tributável considerável, caso os tenha, passa a aumentar o volume de negócio com a empresa Amarelo Torrado, ou seja não se verifica lucro, não se paga imposto sobre ele, porque foi feito um investimento.

Os precários de tipo 2 que aspiram aos trocos disponibilizados pela empresa Amarelo Torrado, vão comprar os produtos da Verde, disponíveis na Azul.

O dinheiro saiu da Verde para a Amarela, que reteve uma parte substancial e deu uns trocos ao precário tipo 0; que por sua vez deixou ficar na Azul; a Castanha virá cá buscá-lo e dá uma parte à Amarela Torrado, que fica com uma grande parte e dá uns trocos ao especialista tipo 2; o tipo 2 também deixa os trocos na empresa Azul e este ciclo não se repete. Quando começar isto tudo de novo, já a empresa Amarela não existe, abriu falência que é um sinónimo de Mercedes, BMW e Audi; agora chama-se empresa “Amarela assim à atirar p’ró escuro”. Por sue vez a Amarelo Torrado também faliu, contudo este tipo de falência tenha como sinónimo apartamentos na praia e vivendas de luxo com piscina. Quem quiser contratar os serviços da empresa Amarelo Torrado, terá que procurar a nova designação: “Amarelo Torrado assim à atirar p’ró escuro”.

Para que a empresa Azul tenha o espaço comercial, o governo, não o Estado, porque o Estado não percebe nada disto por isso é que tem um governo, esse mesmo que vai subsidiar a empresa Azul, isto é: vai pegar nos parcos descontos dos precários tipo 1 e tipo 2, pois o tipo 0 não existe, e dar à empresa Azul.

As empresas Amarelas tiveram que abrir falência visto ser a melhor forma de justificar os sinais exteriores de riqueza.

Ainda falta mais uma empresa neste imbróglio todo, que ninguém sabe muito bem o que é, mas é para lá que é escoado o dinheiro destas empresas todas: uma tal de empresa Cor-de-rosa! Que também tem um nome estrangeiro, a modos que lhe chamam Offshore.

Na fotografia podem ver outro tipo de outsourcing: animais domésticos a limparem o pó dos livros. Muito mais económico!

Poderia falar de outras profissões, recorrer a outros exemplos mas como sou professor é mais fácil falar da minha, mais rapidamente percebo o que estou a dizer. Imaginemos as obras públicas. Fácil, até a decoração de uma rotunda é uma obra pública, portanto, exemplos é o que por aí não faltam.

O ano lectivo começa em Setembro, as aulas é que começam um pouco depois do início do mês.

A minha tarefa consiste em leccionar doze unidades temáticas durante três momentos (períodos), tem que estar tudo pronto em Junho.

Para melhor colorir o exemplo, vou criar um grupo de trabalho modelo. Caracterizemos então a turma: divide-se em grupos de cinco (mais fácil de perceber as contas – e para quem está a fazer que não percebe, trata-se de uma forma de dividir o grupo de trabalho): 5 que passam fome; + 5 que se portam mal; + 5 que faltaram (ou porque estão nos jogos, ou nos campeonatos, ou doentes, ou…); + 5 com dificuldades de aprendizagem; + 5 assim-assim e + 5 muito bons. Um total de 25 alunos que são suficientes para fazer um exemplo de turma.

Daqui a um par de meses virá transferido um aluno com NEE, que por causa da inclusão e mais outras palavras caras que não servem absolutamente para nada a não ser para que o aluno se sinta mais marginalizado ainda. Tal como nas obras públicas surge sempre por ali alguém que ninguém percebe muito bem o que é que está lá a fazer mas já que está por ali, pode-se aproveitar a oportunidade para o culpar pelo atraso dos trabalhos.

A chegada do segundo momento vêm de mãos dadas com as desculpas do costume: “Epá, chegou o inverno e disso ninguém tem culpa, muita chuva constipações, férias do carnaval, falta de condições, muitas dificuldades imprevistas por causa disto e daquilo, é a vida, temos que compreender…” e outras desculpas que tais que são promovidas a argumentos, ou melhor, à falta de melhor são uns argumentos que não passam de desculpas. Entretanto chegou a Páscoa, parou a obra. É um feriado muito importante. Há quem diga que é o feriado mais importante deles todos. Permitam-me a correcção mas é grande a diferença entre um feriado e um dia santo.

3º e final momento. Com isto tudo, está feito um terço da obra. Quer dizer em linguagem de professor que não é possível dar as tais doze unidades até meados de Junho.

Então, vá de argumentos: infelizmente não pode estar pronta a tempo porque os 5 que passam fome, tiveram muita dificuldade de memorização, especialmente na parte da manhã, os trabalhos não corriam como o esperado. Os 5 que se portam mal, é certo e sabido que dificultam muito o andamento da obra e, caso ainda não estejam convencidos da necessidade de prolongar o prazo, bastará relembrar que 5 faltavam constantemente porque estão nos jogos, ou nos campeonatos, ou doentes, ou outra coisa sem justificação, faltaram e prontos!

A solução (vão-se lembrando das obras públicas) “É que eu até estou disponível para fazer o favor de ter prolongar as aulas em Julho. Se todos concordarem, evidentemente.”

Concordaram. É importante que a obra fique pronta.

Então como concordaram, é justo que eu receba o dobro, visto que eu vou trabalhar muito mais do que o previsto e agendado no início da obra, neste caso do que o programado no início do ano lectivo, e como já concordaram, já está no papo, posso exigir mais algum dinheirito.  

Infelizmente, como um homem não é de ferro, tive que ir ao médico, como é normal numa situação extrema, em que exigem que um homem trabalhe a contra relógio, depois de um ano lectivo intenso e cheio de dificuldades e por conseguinte, para evitar uma desgraça, o senhor doutor passou-me uma baixa de uma semana, para que eu me possa recompor. É claro que, tendo em consideração o facto de ser urgente acabar a obra, que as pessoas confiaram em mim e aceitaram as condições que permitiriam levar esta tarefa hercúlea a bom porto, eu apenas repousei durante cinco dias, não usufrui dos dias todos, a minha mulher também não tinha mais férias.

Acontece que com este ritmo alucinante, os 5 alunos com dificuldades de aprendizagem e + 5 assim-assim, não se revelaram capazes de acompanhar o ritmo. Não é possível concluir a obra até final de Julho. Paciência.

Ainda faltam 5 alunos, os mais inteligentes. Os pais deles estão dispostos a sacrificar o mês de Agosto para que o programa seja cumprido na íntegra, tal como uma obra, terá que ficar pronto até ao fim, não se vai deixar a coisa quase pronta, ou é ou não é! Ainda bem que um dos pais é engenheiro e compreende estas coisas.

Está toda a gente disposta a fazer o sacrifício, mesmo os que não estão. Quanto a mim, irei continuar a receber o meu ordenado, mais o extra igual ao de Julho e mais as férias pagas. Pronto, só assim é que se consegue fazer tudo/ dar todas as unidades. Sim senhor! Assunto arrumado.

É chegada a altura de apresentar a minha condição para que trabalhe durante o mês de Agosto. Convenhamos que será mais favorável a aceitação da mesma se for negociada em privado, o público poderá não compreender estas coisas das negociações técnicas. Só faço este sacrifício, de trabalhar em Agosto, se para o ano tiver trabalho e é se querem a obra pronta a tempo e horas!

Ainda não vi nenhuma obra pública inacabada.

Setembro trás consigo novo ano lectivo e toda a gente compreende que preciso de tirar umas férias! Ninguém é de ferro e vem aí um novo ano que promete dar muito que fazer.

Outubro, depois de me ter apresentado ao serviço, fico de baixa um mês inteirinho. Preciso de me recompor do excesso de trabalho em Julho. Afinal deveria mesmo ter descansado a semana inteira e não apenas cinco dias, se o tivesse feito, nada disto seria necessário.

Novembro, faltam dar doze unidades. “Não estão à espera que conseguida dar isto tudo em tempo útil, pois não? É que o Natal está já ai à porta, e bem viram como é que foi o ano passado!?”

Como é que isto não há-de estar mau? Tenho o passe pago, tenho o título de transporte pago, que é a mesma coisa que o passe, só como é em Lisboa emprega-se uma palavra mais cara, mas não me posso valer deles para ir trabalhar, tenho que ir de carro. O que daí acresce, diminui na minha carteira; portagens, gasóleo e desgaste. Esta é a técnica mais velha do mundo e não foi o primeiro-ministro que a usou: dividir para conquistar. Tentei, a sério que tentei perceber a greve e então é assim: o governo é minoritário, está em funções a seu bel-prazer tal como quando tinha maioria absoluta, ninguém chega à frente e agora faz-se greve? Não consigo perceber. Então as pessoas não votaram! De que é que estavam à espera? Não cumpriram com os seus deveres cívicos, agora queixam-se?

Antes de chegar à escola fui beber um cafezinho. O café estava aberto. A senhora do café estava a trabalhar. Esta treta toda do episódio de beber café, serve apenas para dar a entender que, se calhar é melhor dizê-lo de forma directa, cá vai, quem tem um negócio para gerir… não fez greve! Ao banalizar-se a greve, ela perde força. Manifestámo-nos 80% de uma classe profissional, 80% de uma classe profissional esteve presente, junta, na rua, a manifestar-se, não adiantou de nada.

Hoje sou responsável por três turmas, mais ou menos setenta e cinco alunos, números redondos, quem é que fica responsável por essas crianças? É que ficarem por aí ao deus dará, é muito bonito nas canções, porque na verdade ficam é susceptíveis de … vamos começar docemente… passar fome, apanhar uma molha e por conseguinte ficarem constipados; agora a coisa já pode piorar: “a ocasião faz o ladrão”.

Nós vimos nas notícias o resultado das greves gerais nos outros países, pois então vamos fazer o mesmo? Lembro-me de uma frase do Alberto João Jardim: “Cuidado com a imagem que passam lá para fora!”.

Parece que estou a ver os gerentes dos bancos cá fora, de porta fechada e guarda-chuva na mão a fazer greve. Aáááàààaãããâh! (isto agora já se pode usar o acento de qualquer maneira, é tudo nosso) as empresas visam o lucro e os bancos lucraram centenas de milhões de euros, portanto a crise não é financeira, cá está a tal assimetria que eu tenho vindo a apregoar, então se protestamos contra o aumento de impostos, o problema reside na governação do país, do tal país onde as pessoas não votam!

Eu trabalho na função pública, sou professor, exerço uma função ou presto um serviço ao público, o objectivo do meu trabalho não é o lucro.

Esta tarde fiz exames médicos. Curioso! Estava tudo a funcionar.

Fazia a volta normal de zapping antes da deita e, ou não fosse hoje dia de eleições presidenciais, após lhe ter pedido a opinião acerca da minha indumentária para o dia de amanhã, comentamos ligeiramente os resultados das mesmas, embora tenham sido eleições não legislativas a questão foi: quem governaria a nossa casa, quem governaria a nossa casa com o rendimento que nós usufruímos mensalmente, a quem estaríamos nós os dois, dispostos a dar o nosso dinheiro para que o gerisse em nosso benefício e que não fosse a nós próprios? Ela ficou a pensar e questionou-me: – Quem escolherias tu? – Apenas para candidato? – retorqui – Sim, só por… curiosidade! – Escolheria, para candidato… as minhas (mais velhas) e tu, quem escolherias? – O meu pai.

A verdade é que mais de metade dos portugueses nem sequer vota. É curioso, não! é melhor chamar os bois pelos nomes, é vergonhoso que as pessoas não se interessem por quem lhes governa a casa, de uma coisa ficamos certos: quem não for da família, não mete lá a colher. Aquilo está tudo arranjando entre eles e os estranhos não têm hipótese. Os espanhóis, com metade do dinheiro que nós gastamos para sustentar a família da presidência, sustentam uma família real. Ora nós por cá, sustentamos várias, nós que curiosamente não somos menos de metade dos espanhóis, conseguimos gastar cinco vezes mais, pois temos uns poucos de presidentes à mama. Pois é, realmente uma família ser considerada real, acima das outras, ser nobre é… como é que há-de ser o nome deste boi? É facto! É um facto e seria muito bom que fosse apenas uma.

Alguns portugueses querem no poleiro o gajo responsável pelas parcerias público-privadas e eu, para que perceba melhor toda esta pouca vergonha, ou pouco interesse ou melhor ainda; esta desresponsabilização em relação aos deveres cívicos, recorro ao meu exemplo profissional, assim sendo, tendo em conta a brincadeira que hoje se tornou o ensino, com os políticos a quererem ensinar que o importante é as estatísticas e não o conhecimento (onde é que já se viu políticos metidos no ensino?!) é urgente fundar uma escola que não ensine. Ora bem, alinhavo uma proposta muito mal “enjorcada”, copio umas coisas da internet, convido um advogado para dar um aspecto técnico aquilo tudo e, concorro ao subsídio para fazer a tal escola onde não se aprende coisas nenhuma. Convém que os professores não saibam nada disto, para professor basto eu, um advogado, um construtor, dois políticos que é por causa dos subsídios, umas verbas da Europa e a coisa está feita. Quando aquela m**** descambar tudo, que se lixe, a maioria dos portugueses não quer saber disto para nada, então o Estado paga. A minha quase-esposa disse para eu me deixar de parvoíces e ir dormir, que amanhã é dia de levantar cedo, essa é que é essa.

É assim que o país sai da crise. Qualquer dia tenho de pedir um crédito para poder ir trabalhar! E depois fico como Portugal, a gastar mais do que o que produzo. Quando eu conseguir produzir tanto como o que gasto, ainda não será suficiente pois falta começar a pagar o que pedi quando gastava mais do que o que produzia. E agora em vez estar aqui a escrever muita treta, basta fazer “copy paste” deste mesmo tema no mês passado: “5:15 da matina começam os despertadores a anunciar o início do meu dia. (…) Expresso (…) metro (…) depois chego à escola. (…) outra vez dia de greve, vou de carro. Faço tantos quilómetros para ir e voltar do trabalho, quantos os que percorro durante duas semanas para apanhar o Expresso. Falta somar o preço das portagens! (…) o governo é minoritário! O que quer dizer, caso ainda não tenham percebido, que ninguém na oposição quer ter a responsabilidade de governar! (…) Essa já é tão velhinha: “dividir para conquistar”. Somos uns joguetes nas mãos manipuladoras dos políticos que nos fazem guerrear uns contra os outros, desviando a nossa atenção do que é realmente importante. Crise? (…) as minhas despesas sobem consideravelmente nos dias de greve.” Evidentemente que eu não vou pedir um papelinho a justificar a minha falta ao trabalho por causa da greve, eu vou trabalhar.

Se olharmos à nossa volta só se vêm é mulheres. A Presidente do Brasil é mulher; Rainha de Inglaterra, não rei; a Presidente da Irlanda; a Europa é chefiada por uma chanceler; até do outro lado do mundo, lá em baixo ao fundo onde o dia começa, a Austrália tem uma primeira-ministra, felizmente a mudança acontece. Vai chegar o momento onde posso chegar a casa descansado ao fim de um dia de trabalho e… mais nada. Era tão bom. É um regalo imaginar isso… um gajo apenas ter que ir trabalhar e mais nada, absolutamente mais nada, chegar a casa fazer as tarefas domésticas, deixar o ordenado à tutela da mulher e… ser ela a fazer tudo! Já chega de utopia, se a minha quase-esposa lê isto, ainda interpreta como um desejo, não muito íntimo, de não fazer nada. Agora que deve passar a ser muito divertido ver televisão, lá isso deve! Se não divertido pelo menos sexy. Imaginemos as mulheres governantes a serem acusadas de violação, ou de tentativa de violação, as inimigas políticas a contratarem gajos para irem para a cama com elas e filmarem a cena toda, acusar as inocentes de tudo o que é depravado e erigir um altar às mais falsas, àquelas que fazem tudo o que a imaginação mais doida possa alcançar e ninguém desconfia de nada. E o povo? Todos muito iludidos a pensarem que as mulheres são melhores que os homens, que o facto de não vestirem todas de igual as torna mais santinhas que o gang dos engravatados. “Nunca mas nunca que uma mulher com aquele excelente aspecto seria capaz de ser corrupta?!” – “É tão simpática, tão amiga dos pobres, nunca iria desgovernar o dinheiro dos impostos!” – “A culpa foi dos homens quando estavam no poder!”. Isto está giro, viramos o mundo para o lado feminino, fica tudo mais bonito, mais colorido, mais sexy, mas na verdade, o rendimento cá em casa continua a ser o mesmo. Se não baixarmos a despesa e não aumentarmos o rendimento, basicamente, continuaremos na mesma.

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