Greve (mais um zero à esquerda)

Eu já vi este filme em qualquer lado! Já sei, é uma repetição, é mais do mesmo só que… cada vez pior. Chegou um novo mês. Já paguei o passe do expresso e o do metro e agora, quando começa o mês… tenho que ir de carro! Mais uma greve. F***-**! Mais uma greve! Tenho tudo pago para usufruir dos transportes públicos mas tenho que ir de carro! Mais gasóleo, portagens e com os passes pagos, não compensa ir trabalhar! Parece mentira. Só falta agora o sindicato dos professores também querer que mais um dia destes façamos greve, não tenho dinheiro para isso! Já basta as ações de formação profissional obrigatórias e pagas, com muito peso na avaliação de desempenho, e pagas, é preciso pagá-las, que eu sinceramente já nem sei, nem percebo nada disto, onde é que eu hei de ir buscar dinheiro para poder ir trabalhar? Tanta greve, tanta greve, tanta greve, ainda não viram que não resolve nada?! Os políticos menores continuam por aí a deixar encerrar os serviços públicos nas terrinhas que não dão nas notícias; os políticos mais gananciosos continuam a fazer nomeações a torto e a direito para os filhos dos amigos, agora já nem é para os amigos, esses já se abotoaram, agora é para os filhos e a gente aqui a brigar uns contra os outros para tentar inventar dinheiro que pague este desgoverno. A greve é tão inútil que até tenho vários registos passados que, pelo que se constata, de nada valeram.

5:15 da matina começam os despertadores a anunciar o início do meu dia. O galo a anunciar aos outros, é depois do intervalo, ele só se deixa ouvir a seguir à passagem do camião do lixo. Eu até acho que são “os almeidas” que acordam o bicharoco! Não é surpresa que o toque do despertador não seja o suficiente para tirar do sono quem quer que seja à segunda-feira de manhã, como eu não sou excepção, arranjei uma técnica especial: uso os telemóveis, sim plural telemóveis, e coloco-os ao lado do candeeiro de maneira a que este fique entre a minha mão e os telefones, para quando eu os tente desligar, derrube o candeeiro, como tal não pode acontecer, porque eu não quero começar a dormir com o gato, tenho que evitar partir o respectivo candeeiro e não posso derrubar os telemóveis porque são meus, aquilo custou dinheiro; os toques estão intervalados dois minutos e, como se não bastasse tenho que ser rápido o suficiente para evitar que a minha quase-esposa não acorde. Sendo realista deveria dizer que ela acorde o menos possível. Acordar, acordar, não acordo mas pelo menos saio da cama e depois do duche as pestanas lá se começam a separar umas das outras. É o melhor remédio saltar logo para o duche, porque se fico na cama a fazer as orações da manhã adormeço novamente e, caso isso aconteça, e acontece frequentemente, repete-se toda a cena de evitar partir o candeeiro. Saio de casa conduzo dez quilómetros até ao Expresso, após uma hora de viagem, àquelas horas da manhã ainda não há trânsito, chego ao Campo Grande onde apanho o metro, mudo de linha e quase no final da segunda linha, mais ou menos três quartos de hora depois chego à escola. Amanhã é outra vez dia de greve, vou de carro. Faço tantos quilómetros para ir e voltar do trabalho, quantos os que percorro durante duas semanas para apanhar o Expresso. Falta somar o preço das portagens! Haja alguém que diga a essa rapaziada que faz greve, que o governo é minoritário! O que quer dizer, caso ainda não tenham percebido, que ninguém na oposição quer ter a responsabilidade de governar! Quase que me esquecia que os portugueses não votam… Vou magicar a minha revolta: quando os meus alunos, filhos dos grevistas, precisarem dos resultados da avaliação para transitar de ano, faço greve, quando ralharem comigo, faço outra greve, depois tenho é que ir apanhar peras para equilibrar as finanças, assim começamos em guerra uns contra os outros. Essa já é tão velhinha: “dividir para conquistar”. Somos uns joguetes nas mãos manipuladoras dos políticos que nos fazem guerrear uns contra os outros, desviando a nossa atenção do que é realmente importante. Crise? Eu não tenho ordenado que me permita fazer tanta greve, além de que as minhas despesas sobem consideravelmente nos dias de greve.

E então lá vinha eu, cedo, é claro! Imprevistos podem acontecer e, em dia de greve do metro, é normal que o tráfego aumente. Notei bem a diferença ao sair de casa, já é quase de dia. Deixo as vinhas e pomares rumando a Lisboa e eis senão quando estranho dois carros da extinta brigada de trânsito parados numa rotunda. Um dos gajos de colete, não estava fardado, tinha a barba por fazer, tal como eu, tive que me despachar cedo, estava com receio de me atrasar… e fez-se luz neste cérebro acabado de acordar: são os gajos do piquete de greve dos camionistas! Agora reparo, não vi nenhum camião até agora. O Carregado é uma zona fortemente industrializada, não vi nem um único pesado de mercadorias numa zona que normalmente está cheia deles. Entrei na auto-estrada, Vila Franca de Xira, Alverca, onde está situado “o” terminal de pesados de mercadorias e nada. Quase a chegar a Lisboa, gigantesco porto marítimo e terminal de transportes aéreos e vi, finalmente e curiosamente até os contei todos: cinco. Nada mais, nada menos do que quatro camiões no sentido sul-norte e um à minha frente. Passei ainda pelo acesso à ponte Vasco da Gama e não encontrei mais nenhum. Cheguei à escola cedíssimo, afinal tinha tido tempo de fazer a barba.

Visto utilizar este meio de transporte, quando está disponível, para me deslocar para o trabalho e não só, serve também como meio de análise não cientifico do comportamento de quem por lá ciranda, (e também para apreciar as pernas das gajas) (vê-se mesmo que estou a ficar velho, com tanto umbigo à vela, ainda olho para as pernas…) (quer dizer! A verdade é que eu ainda sou do tempo em que se apreciava um bom decote!) resolvi contribuir, para empobrecer o meu registo de acontecimentos na minha vida isto é o meu diário, com um apontamento acerca do que por lá se passa. Munido de um telemóvel, aí vou eu qual repórter fotográfico a recibos verdes, registar o impasse. Ainda pensei em filmar aquele dois urinóis imundos e o terceiro avariado, situados num lago de urina que cobre o chão, mas como não vou à natação já há algum tempo, não sei se aguentava tanto tempo sem respirar. E provavelmente o segurança também não me deixava. Fiquei sem perceber o porquê de tanta greve quando o governo é minoritário. Fazer uma greve depois de o governo ter caído, ainda percebo menos. Agora, quem vai ser ultrapassado por um automatismo que exclui a necessidade de condutor para o metro, deveria era, de acordo com a minha modesta opinião, estar a tirar formação que lhe permita manter ordenado! Ou emprego, como lhe queiram chamar, em vez de estar a dar razão aos comediantes que gozam com quem se manifesta, dizendo que a luta está na rua.

Este meu documentário está dividido em dois momentos principais e importantes, são eles: o intróito e desenvolvimento e, por fim, o epílogo e a conclusão. A situação financeira que atravessa a equipa de filmagens, eu próprio, apenas permite que a recolha das mesmas tenha sido feita por um simples telemóvel “achado no chão de uma esplanada”.

Já não é registo para memória futura, já não é novidade falar ou melhor, escrever acerca da greve no metro, é ridículo. Isso sim, ridículo é um adjectivo aceitável para tamanho disparate! Três dias de greve no mesmo mês, com um governo demissionário, é de quem não tem consciência do que está a fazer. Quando o metro for totalmente automatizado, quando eu puder carregar o meu passe em casa, coisa que já posso fazer ao meu Cartão de Cidadão, pois comprei o terminal que permite adicionar as informações ao chip, os empregos desta gente toda são dispensáveis. Para o mês que vêm irei de novo comprar o passe, infelizmente sei de antemão que o serviço será intermitente, pois já estão anunciados mais um par de dias de greve. É de uma irresponsabilidade e incompetência sem igual. Quando se pensa que aquela gente da cidade grande é que ganha bem, ignora-se estas pequenas despesas extras que fazem toda a diferença. E a pilha de nervos que isto é? Passo a portagem, entro na 2ª circular e depois da primeira saída, o sinal informativo apresenta os seguintes dizeres: “Acidente a 9km – Alternativa nº não-sei-das-quantas – Trânsito lento”. Não, não têm piada. Olhei para o relógio e este marcava 07:13; a saída para a alternativa proposta estava de tal forma entupida que até agora ainda não descobri porque é que lhe chamam de alternativa; trânsito lento, prova a incompetência dos professores visto que não ensinaram a diferença entre transitar e estacionar. O que se passava ali, era que não se passava ali, estacionava-se por ali. A placa informativa deveria dizer “estacionamento lento”. 37, nada mais, nada menos do que trinta e sete minutos depois cheguei ao local do acidente. Logo a seguir sou ultrapassado quando o meu ponteiro marcava 150k/h. Ainda reparei que a placa proibia de circular a mais de 80, outra asneira porque o que deveria proibir era o estacionamento a mais de oitenta viaturas. Aquilo foi chegar aos 150 e começar a travar até imobilizar a viatura devido aos monstruosos engarrafamentos sucessivos. Demorei duas horas e meia para fazer um trajecto que, de volta a casa, fiz, dentro dos limites de velocidade, respeitei-os todos, em menos de uma hora. Com o mal dos outros posso eu bem e a verdade é que no meu emprego não posso chegar atrasado, não posso chegar depois do segundo toque, acabou, tenho falta, já está a trabalhar o professor de substituição, mais nada. Se nos outros empregos se pode chegar atrasado, neste não. Azar. É menos um dia que se ganha. Portanto, em jeito de conclusão porque a verdade é esta, quando começa o dia de trabalho, já estou uma pilha de nervos. Ainda há quem queira ir trabalhar para a cidade grande?!

Apertei-lhe a mão quando o conheci. É assim que mandam as regras da boa educação. Mas… quando me despedi, votei-lhe a apertar a mão, quando o que me apetecia era apertar-lhe o pescoço. Não obstante uma oportunidade é sempre uma oportunidade, embora por vezes, confesso que teria sido melhor permanecer na ignorância. Tive a oportunidade de conhecer um maquinista do comboio. Conversa puxa conversa e não resisti a pedir uma elucidação acerca de todos estes episódios de greve. Fiquei esclarecido. As obras do TGV continuam e os contratos com as empresas, obviamente, estão assinados e são para cumprir. É só para ficar o registo porque nem sei o que hei-de dizer. Eu já nem sei como é que se escreve “hei-de”, quanto mais o que é que “hei de dizer”, mas pronto. Mais estranho ainda porque “mas” é elemento de ligação frásico e “pronto” conclusivo. Os maquinistas ganham o ordenado – pois está certo – e recebem horas extras, contadas ao minuto e ao quilómetro. Tudo com os respectivos e legais descontos nos impostos. Os bónus ou os prémios ou lá como é que se chama isso, são pagos em bruto, sem serem alvos de descontos, de impostos – percebi. É contra isso que eles se manifestam – não percebi. Descontam 1,5% do ordenado para os sindicatos e quando o sindicato manda fazer greve, fazem – percebi mas não acreditei. Normalmente o pastor é que manda e as ovelhas obedecem. A greve consistia em não percorrer distâncias superiores a oito horas, mesmo que acumulando, ou seja se a viagem a iniciar fizesse com que o maquinista superasse as oito horas de serviço, a viagem não se realizaria. Os sindicatos pagam-lhes o dia de greve – percebi e fiquei com inveja. O Estado é dono de mais de cinquenta por cento da empresa – ainda agora me custa a acreditar nisso. Respondi-lhe rapidamente que o primeiro-ministro estava demissionário mas não obtive resposta porque ele próprio também não a tinha, sabia que era assim e, e pronto.

Os pica-bilhetes, que ganham menos do que os maquinistas mas mais do dobro do meu ordenado, não concordam que passem a ser considerados funcionários do Estado, pois assim teriam que trabalhar oito horas – começo a perceber por que é que ninguém de jeito quer ser primeiro-ministro.

5 x quase 170 km + portagens ida e volta + desgaste da viatura e da paciência, com os “passes” pagos = ao que tive de pagar pela greve desta gente num espaço de 30 dias.

2 responses to “Greve (mais um zero à esquerda)

  1. BPN e seu gangue

    Não concordo, a greve é a unica forma de luta que o trabalhador tem, tal como o povo a manifestação. Devemos ser solidários. Lutar é necessário, é mesmo obrigatório no meu ponto de vista.

  2. nunoanjospereira

    Curiosamente os funcionários efetivos da empresa de transportes que uso para chegar a Lisboa, estão de greve. Gostei de ver. Finalmente os privados a fazerem greve. Claro que o patrão das empresas de transportes tem várias firmas e os lucros deslizam de umas para as outras. Os contratados furaram a greve, obrigatoriamente e nós, os passageiros, nem demos por ela. No caso do Metro… é uma empresa ultrapassada, já pululam pela europa fora comboios automáticos. Deveriam estar mais interessados em formação profissional para converter a carreira, mas isto é a minha sugestão, que vale o que vale, do que estimular a guerra civil, a discórdia entre os outros. É que quem trabalha dentro das estações de Metro, não pode sequer ir trabalhar. Infelizmente constato que o recurso frequente à greve, fá-la perder força e, só para lembrar os mais esquecidos, o local da greve não deveria ser o sofá de casa.
    Claro que concordo consigo e há que dar apoio. É esse um dos nossos grandes problemas sociais: não intervimos ativamente na nossa política, nem na empresa onde trabalhamos. Limita-mo-nos a reclamar à posteriori.

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