Zé Pedro no Day After

Apocalipse. Armagedão. O fim do mundo. Esta merda vai acabar. O fim do mundo em cuecas é capaz de ser a melhor expressão de todas aquelas que anunciam que, como isto está, está tão mau, que deve ser pronuncio de que isto está para acabar, porque como está, é impossível continuar a viver, é inacreditável e sobretudo indesejável que exista vida, que a vida continue em tamanho caos. Não é bem assim… eu já vi o fim do mundo umas poucas de vezes, e, depois do fim do mundo surgiu sempre, mas sempre, vida, a minha. A mim o que me parece é que os prenunciadores do fim do mundo descobriram um nicho de mercado e nós, quais descendentes acéfalos do Zé Povinho, não queremos assumir a nossa responsabilidade ao tirar as cangalhas, esquecemos que Platão e José Saramago existiram e nos deixaram a alegoria das cavernas, cada um com a sua. Fartei-me de esperar pelo D. Sebastião de mão dada com a Nossa Senhora de Fátima carregando o saco do dinheiro do totoloto, fiz-me à vida e espreitei para o dia seguinte, aquele que dia que todos sabemos que existe depois de tudo ter acabado, behold: The Day After!

Seguir as instruções

Isto é tudo muito bonito, a coisa funciona, o Estado e os direitos adquiridos, incluindo a área onde eu trabalho e gosto de trabalhar: a educação. Toda a gente, mas toda a gente mesmo tem direito à educação e só assim, com a formação que a escola dá, sim dá porque é gratuita, exceptuando o que se tem que pagar, é que os indivíduos ficam preparados academicamente para interagir com a sociedade. Sim, academicamente porque alguma coisa a família terá que fazer, até existem umas palavrinhas que são “agentes de educação”, que é… muita gente! Bom mas isso agora não importa, que se lixe, o que me interessa registar para a posteridade é que a formação que nós, professores e escola, damos aos nossos alunos, funciona. Temos o 12º ano que antecede a entrada na universidade, a partir daí é facultativo. Leccionamos também uns cursos técnico profissionais de informática que servem para que as empresas acabem por contratar alguém que saiba muito da coisa e que trabalhe a troco de quase nada; outros cursos de jardinagem, que duvido muito que alguém com um jardim suficientemente grande para empregar um jardineiro contrate quem saiba plantar pouco mais que marijuana, a não ser que seja uma mais-valia para uma embaixada que tenha vantagem em demonstrar o produto comercializado no mercado negro; os cursos de hotelaria é que eu acho que são impecáveis, somos um país virado para o turismo, isto é: esperamos as migalhas dos outros para matar a fome, e eu acho que aqui é que é de apostar na formação da estudantada porque, quem não for para a universidade vai efectivamente trabalhar com turistas nos restaurantes; nas discotecas; nos centros comerciais e questiono-me como é que será o dia seguinte, o dia após o fim do mundo, o primeiro dia de trabalho, o primeiro dia depois da formação académica? Fui ver. Fui comer ao MacDonald’s. Lá tem tudo: competitividade pelo posto de trabalho, pouco dinheiro de ordenado, muito trabalho, é preciso saber um pouco de matemática e de informática para registar os pedidos, fazer umas contitas e saber falar estrangeiro. Óptimo! Eu ensino todas essas coisas. Até que me sentei a almoçar e… comecei a ler o que estava escrito no copo: “Seguir as instruções: 1º Pegar na palinha; 2º Mergulhar a palinha na bebida preferida; 3º Levar o copo à boca e desfrutar da uma sensação refrescante.” Valha-me Deus! Onde é que esta gente andou na escola? Terá sido no estrangeiro, por certo! Além do copo estar tapado, o que significa que caso caia na asneira de levar o copo à boca como sugerido, provavelmente só me irei molhar e… corro o risco de enfiar a palinha no olho, que não é o local mais apropriado para enfiar palhinhas.

Entra A’gosto

Quando um gajo não tem nada para fazer, não tem tempo para coisa nenhuma! Pior ainda! Começar a fazer alguma coisa e depois outra, e depois outra, e não ficar a coisa acabada, parece que não está nada feito, é uma chatice. É o que faz ter um dia livre, estou tão habituado a viver de acordo com o horário que, não sei estar sem ter nada para fazer. Estou de férias, a minha quase-esposa ainda está a trabalhar, então tenho que fazer alguma coisa, nem que seja o almoço, já vou tratar disso. Fui por uma máquina lavar roupa, enquanto a máquina lava e não lava, aproveitei para arrumar o quarto. Consegui partir aquela coisa que segura os estores, não sei o que é que parti mas que a fita desenrola e os estores não sobem isso, passou a ser uma verdade. E o dia continua, fui estender a roupa… consegui, das milhentas coisas estupefactas que já me aconteceram esta é daquelas digna de ficar como cromo raro na caderneta: ao estender a roupa, consegui derrubar as fitas da porta do andar de baixo, que é do senhorio. Então, depois de um dia assim, o almoço correu bem, não aconteceu nada de extraordinário (vá lá!) resolvi escrever mais uma página do meu registo para memória futura, pois hoje eis que começa o mês de Agosto e não é uma piada que se possa empregar todos os dias: “hoje entra a gosto”. Ah! que contente que eu estava por conseguir escrever estas parvoíces que, sem margem para dúvida, representam bem o que faz quem não tem nada para fazer, isto é: ocupa-se com coisa nenhuma. Sentei-me tranquilinho no sofá, para não fazer mais estragos, liguei o portátil, pu-lo ao colo e eis que quando puxo os cabos, a bateria do meu portátil não funciona há tanto tempo que nem sei onde é que está desarrumada, e desde que me assaltaram a rede, que nós cá em casa passamos a ter a rede montada por cabo. Foi precisamente um desses cabos que derrubou a nosso fotografia que está em cima da mesinha da sala. Até aqui tudo bem não fosse a moldura ser enfeitada por um casal de africanos com uma criança ao colo, moldura essa que a Sofia gosta muito… quando chegar a casa vai ter que se adaptar ao facto dos bonecos terem sido decapitados acidentalmente.

Violador à solta no Oeste

54 euros e 17 cêntimos foi quanto paguei pela conta da internet o mês passado. É relativamente fácil, um gajo senta-se em frente ao computador e basta reenviar os e-mails que recebeu a explicar como é que se salva o mundo e… pronto. Já se pode dormir de consciência tranquila pode ter feito algo para tirar alguém ou alguma coisa da miséria. Isso não é um problema, é um facto que está na moda. Para ocupar o meu dia resolvi ir ajudar quem precisa, a gratificação do voluntariado é o acto de ajudar em si. Aquela associação onde fui, tal como tantas outras, junta o grupo mais improvável de pessoas em torno da mesma causa: limpar a porcaria que os outros fazem. Embora tenha várias dezenas de sócios, a verdade, tal como em tantas outras situações que estão na moda, serve apenas para efeitos decorativos, na realidade ajudar, trabalhar e fazer as coisas efectivamente, é tarefa de pouco menos de meia dúzia de mulheres. Toda a gente sabe onde se situa o canil, toda a gente se esquece que não é municipal, essa parte parece ser conveniente esquecer quando se trata de apontar o dedo às obrigações que as pessoas acham que a associação tem perante a sociedade em geral, especialmente de dar destino às ninhadas das pessoas que se recusam a ser responsáveis pelos próprios animais que dizem estimar. Cães amarrados à porta do canil, que é provisório, diga-se de passagem, ninhadas dentro de caixas e inúmeros telefonemas a alertar para animais abandonados ou acabados de abandonar é uma constante, ou seja não é novidade que as pessoas escondidas no seu anonimato exijam que a meia dúzia de voluntárias da associação se responsabilize pelo que eles e elas não são, nem querer ser capazes de fazer: ser pessoas íntegras e responsáveis pelo que outrora chamaram de “seu”. No meio de tanta coisa que já vi, de tanto cromo que já juntei, hoje mais um surge como, infelizmente, não sendo muito raro: um dos cães tremia que nem varas verdes, como alguém e tilintar de frio, quase a entrar em hipotermia, quando me viu. Muito debilitado e com um monte de outras mazelas que não quero escrever, passado um bom bocado, lá brincou comigo deu-me beijinhos e tudo. O que é fantástico para um cão que foi violado.

Crime contra as águias

Um dia em casa. Finalmente. As mulheres são de compreensão dura mas, lá vão mostrando sinais de que por vezes até os homens podem ter alguma coisa parecido com uma boa sugestão. A minha é: aos domingos não ir para a praia! Aquilo por lá está cheio de gente! Ainda por cima daquela gente que faz muito barulho e fazem do areal um parque de diversões onde estão completamente sozinhos, não há nada nem ninguém que os demova das suas actividades circenses independentemente do facto de alguém se manifestar incomodado com isso. Bom, um dia em casa parecia-me bem, silêncio, todos os vizinhos foram para a praia, é domingo, o dia está calmo, ou seja um bom dia para ensaiar uma peça nova. À hora do almoço, a minha quase-esposa preparou um autêntico manjar dos deuses e a coisa estava de feição eis senão quando, ao abrir a garrafa do vinho, a mim tudo me acontece, até parece mentira, com um daqueles saca-rolhas que os braços vão levantando enquanto a rosca tira a virgindade à rolha, ao baixar as respectivas alavancazinhas para tirar a rolha do gargalo, entalo um dedo na roda dentada daquela engenhoca. O indicador esquerdo, ainda por cima! Logo hoje que eu queria ensaiar uma música nova! Não sei como é que consegui fazer uma coisa daquelas. Mas a triste verdade é que o dedo sangrou quanto baste e tem as marcas dos dentes do saca-rolhas decalcadas. “Isso quer dizer que não vais tocar hoje?” – perguntou-me a minha quase-esposa. Nem hoje, nem na próxima semana. “Então podemos ir sair?”

Não, não fomos para a praia. Passeamos naquela serra onde a Blimunda se viu atrapalhada com o Franciscano e visitamos as ruínas daquele que é, ou foi?, um dos primeiros conventos de uma ordem religiosa do país. Tenho pena de não ter levado o telemóvel que tira fotografias e a máquina fotográfica ficou de fim-de-semana porque, às vezes sinto-me socialmente incapaz, parámos o carro junto à ravina onde nidificam as aves de rapina. Espécie e local protegido. Está lá a placa que proíbe a escalada e o salto de asa delta de Janeiro a Agosto. Pois contamos seis alpinistas pendurados nas escarpas. É triste mas é verdade se eu tivesse fotografado… Lembro-me daquelas aves de rapina que foram soltas para nidificarem numa escarpa junto a Óbidos, numa terriola que lá está pertinho. Hoje, estão embalsamadas, enfeitando as lareiras de alguns criminosos que por ali residem. Eu já sou professor, não sei que mais possa fazer para mudar a mentalidade das pessoas.

Apertem o cinto! (coitados de vocês)

No dia seguinte, aquele que esperamos que não venha porque é pós apocalíptico, ou que caso venha, seja, não direi um caos como vai sendo anunciado na televisão e na bíblia, mas sim diferente. O dia seguinte é a prova de que foi possível sobreviver aos dias difíceis, o dia seguinte é sinal de esperança, de continuar a vida depois de as dificuldades terem sido superadas, se assim não fosse, não seria o dia seguinte mas sim apenas mais uma das estações do calvário. Então, por mais que o mar bata na rocha, o Zé Pedro lá vai sobrevivendo, claro! Após não uma, mas duas campanhas de colheita de fruta, a primeira foi a da pêra rocha e a segunda, que nem deu para ter um dia de descanso, pois a fruta não espera, foi a da maçã, chega o dia seguinte, aquele em que nos apercebemos que a nossa casa não pode esperar mais, o sofá e o comando da televisão terão que aguardar impreterivelmente porque isto não é uma casa desarrumada, é um caos. Pus uma máquina a lavar e o monte da roupa mal baixou. A canalização entupiu. Muito simples: andava eu a tentar arrumar aquelas peras, maçãs e tomates guardados em todos os cantos da cozinha quando começou a chegar água vinda da marquise. Como ainda não tinham chegado as nove da manhã, não valia a pena ir para a porta da mercearia esperar que me vendessem desentupidor. Acalmei-me, ou pelo menos tentei, fui arrumando o que me foi sendo possível. Acordou a minha quase-esposa, fiz-lhe um relatório do sucedido, ela bem que chegou com uma carinha de sono à cozinha, daquelas que dá vontade de encher de beijinhos, mas quando viu aquele caos rapidamente acordou o bocadinho que faltava. Durante o pequeno-almoço tentei programar a manhã, vivo melhor assim, com as coisas ordenadinhas, deve ser defeito profissional: primeiro vou à costureira da rua de cima porque aqui a de baixo sugeriu-me um sapateiro para coser as alças da mochila; compro o desentupidor, aproveito e passo pelo barbeiro, quando chegar a casa estou um homem novo! Foi assim: a costureira estava fechada; o sapateiro estava encerrado; a mercearia ainda não tinha aberto e para rematar o barbeiro ainda não tinha dado sinais de vida. Fui jogar no totoloto para ver se me acontece algo de bom, a esperança é sempre a última a morrer e também porque estava aberto. Fui beber um café para… nem sei para quê, penso que para não ir para casa descarregar em quem não tem culpa nenhuma. Estava na varanda a regar as plantas eis que passa o barbeiro: “Ó Zé – grito-lhe da janela – já acordaste?” Ele fez sombra aos olhos com a mão procurando a voz. Fomos beber um café (mais um) e aproveitei a oportunidade para me certificar que as mãos dele não tremiam. O pescoço é meu e ele é que vai ter a navalha nas mãos! (depois do corte de que resta do cabelo ainda passei pela mercearia, “já” lá tinha um papel afixado: “Encerrado hoje”) Cheguei a casa era quase meio-dia. Nova reunião do casal. Chegámos à brilhante conclusão que o melhor que tínhamos a fazer era passar pelo “Modelo”, comprar um frango, fazer um piquenique e ir para a praia. Se bem o pensamos melhor o fizemos. Ao passar pela portagem do “Modelo” deixámos lá o equivalente a 1/10 do ordenado mínimo. Os políticos, aqueles que nos roubaram e roubam, por mais que falem em apertar o cinto, não tem consciência, nem experiencia para perceber que os pobres estão efectivamente a emagrecer por passar fome. Essa gente que apregoa governar mas apenas desgoverna o país, não tem a mais pequena ideia do custo de vida. Todos, mas todos os que vão para a televisão “cagar sentenças” não sabem do que falam. É muito fácil dizer aos outros para passarem fome, para que eles possam viver à fartazana. Afinal o dia seguinte é igual aos outros.

Quanto custa uma consulta no dentista?

Aquela fé tão portuguesa de que as coisas ruins hão-de passar, parece que veio para se enraizar no meu ser. Que coisa mais irritante! “Ah, isto há-de passar!” (nem sei se hei-de escrever com hífen ou sem hífen ou o raio que parta, eh!). Quando acordei, constatei que a dor de dentes de ontem não tinha passado. Esperei pela hora de abertura da clínica que tem acordo com a ADSE e telefonei para lá. Nem para o mês que vem, que começa amanhã, há vaga, só para o outro. “Tenho que resolver isto à minha maneira!”- pensei para comigo. Fui lá. Depois de almoço convidei a minha quase-esposa a dar uma voltinha, beber um cafezinho na esplanada, quem sabe dar um saltito até à praia e passar pelo dentista, o consultório ainda dista trinta quilómetros da nossa casa. Chegamos à clínica depois de termos bebido o tal café (eu ainda continuo adepto dos abatanados), dei as boas-tardes aos posters, a recepcionista materializou-se, lamentei as minhas maleitas e fui atendido de imediato. O dentista explicou-me tudo muito bem explicadinho, como se eu fosse muito burro, e devo ser porque nem eu explico as coisas assim aos meus alunos, dizer que “o dente tem aqui uma coisa na raiz” é… não é elucidativo. Bom seja lá como for, depois do raio-x, passou-se à explicação, que é a seguinte (mais ou menos assim): “O dente morreu; o que o meu colega fez, não fez bem feito (…)”; “blá, blá, blá” – e blá, blá, blá porquê? Porque eu queria saber o que é que ele iria fazer, até que chegou a essa parte: “agora tenho que desfazer o que o meu colega fez (…) (reticências que é para não escrever mais blá, blá, blá) depois pomos medicamentos (pomos?!) para a próxima (…) a seguir (…) e depois (…) e quando (…) após (…) ‘tá bem? Fiz o gesto de “afirmativo” com o polegar esquerdo. Fiquei sem saber quantas vezes é que tenho de lá ir! Quanto me custará o tratamento? Nem um orçamento, nem um valor aproximado… nada. É mais ou menos. Nem durante quanto tempo, “Vá marcando ali com a Teresa*” (o asterisco é para nome fictício, a recepcionista não se chama Teresa). A próxima consulta ficou marcada para a vaga que havia quando telefonei de manhã. É claro que eu não disse que tinha telefonado. Não me chamasse eu Zé Pedro, é que aqui ainda surge outro problema, situação que para mim não é novidade, novidade seria se corresse tudo bem, a validade do meu cartão de ADSE termina hoje. A Teresa explicou-me muito bem explicadinho, como se eu fosse muito burro, que mesmo depois de entrar ao serviço, eles lá na ADSE ainda demoram mais de um mês a “por a coisa no sistema informático”; ou seja ela ali não vai reconhecer nada provisório, só quando eles lá na ADSE “puserem a coisa no sistema” é que eu tenho desconto, até lá terei de pagar tudo na totalidade. Fiquei sem saber quanto pois… “depende”. Esteve um excelente final de dia na praia.

A outra face da moeda

Setembro. Mais um mês que começou. O relógio não pára. Ainda ontem tinha emprego, hoje já estou desempregado. A ansiedade, quanto a mim, é o maior de todos os males. Subsídio de desemprego, ter ou não ter eis a questão; trabalho quando e onde, eis outra questão; desta vez é que mudo de carreira, nem posso colocar a questão nesses termos, desta vez é que mudo de profissão, será uma hipótese em aberto, enfim o costume. Mais do mesmo. Assim sendo, mais do mesmo, vou começar o chorrilho de lamechas do costume: “a culpa é deles lá, que deviam ser mais competentes porque não sabem o que é que isto custa”; “não tenho sorte nenhuma, é todos os anos a mesma m****”; “vejo os outros todos que estão bem na vida, quando é que chega a minha vez” e mais uma quantidade de palavras que alimentam o culto do coitadinho. Mal seria se a experiência não tivesse ensinado nada. A verdade é que “o dia seguinte” é sinal de vida após o caos. Eu tenho a oportunidade de ver a realidade como ela é e não como a moda aponta para que seja, não como a opinião publicada pelos fazedores de opinião pública vai querendo que seja: fria e sombria, com sangue à mistura que é para vender muito, já estou a ver os headlines: “Professores fazem da 5 de Outubro a rua da amargura” Os paralelos da calçada foram a arma de arremesso contra as vidraças do ministério da educação. Foi notório que a força policial não esperava tamanha violência. Policias feridos, carros partidos e mais assim umas frases copiadas de episódios de cacetada e remata-se com uma questão – tem mais pinta se for assim – São estes os professores que educam os nossos filhos? Era pano para mangas, muito se escreveria nos blogues, afinal os professores tem razão “a sociedade está à espera que sejamos nós a fazer o que os encarregados de educação não fazem”; “violência na sociedade, culpa dos professores”; “tutela da educação sem controle” (ficava melhor “Tutela da educação sem control”) e por aí a fora. A ansiedade combate-se (ela não se combate sozinha) com a serenidade, nestas alturas não é a porca que troce o rabo mas é um bom momento para jogar as cartas todas, ir buscar força onde ela está, hoje comecei o meu dia, como todos os outros, a despertar o meu lado espiritual, a minha consciência e dei por mim a pedir a Deus “serenidade para aceitar as coisas que eu não posso modificar, coragem para modificar aquelas que eu posso e sabedoria para distinguir umas das outras” e, a verdade é que, bem vistas as coisas, a minha vida tem melhorado um pouquinho todos os anos. “Isto está mau!”; “É uma grande crise!”, nada disso é novidade. Este ano foi melhor que o ano passado, o ano passado foi um bocadinho melhor que o anterior e, se eu continuar a andar para trás, vou chegar ao ano lectivo em que estive colocado em três escolas diferentes, vou chegar a uma situação que me vai fazer dar valor ao que tenho hoje. É assim que se é feliz, dando valor àquilo que se tem. Não vou estar a lamentar o que não tenho. O melhor que eu tenho a fazer é continuar atento e ir aprendendo “a ternura dos quarenta” do Paco Bandeira.

Reflexo social

Já há algum tempo que não escrevo nada de novo no meu… “registo para a posteridade” como lhe gosto de chamar. E isto porque não há efectivamente, pelo menos que eu tenha visto, nada de novo digno de registo. A minha vida está na mesma, felizmente. Estou cada vez mais pobre, ou como diria o pai da minha quase-esposa “eu de pobre não passo” portanto, nada de novo. Tal como tantos outros, demoro mais de metade de um horário diário de trabalho normal, as oito horas convencionadas, para me deslocar do trabalho a casa e de casa ao trabalho e, se não trouxesse trabalho para casa, não teria trabalho. Gasto tanto dinheiro para ir trabalhar, como pago de renda de casa e já perdi a fronteira entre o trabalhar para viver e trabalhar para ter que chegue para poder ir trabalhar. Sou uma pessoa normal. Os outros não me têm surpreendido. A economia de mercado, aquela em que os muito gananciosos escravizam os desgraçados, continua a lucrar à custa de quem pensa que para ter um estilo de vida como os gananciosos, basta comprar o aspecto dos gananciosos, que são os ambiciosos. Depois dos gananciosos terem enchido a barriga às custas de ambiciosos, ainda sobram uns restinhos para vender aos que aspiram a ser como os fantoches que os fazedores de opinião vão divulgando pela comunicação social, ou seja personagem da imaginação de um qualquer inspirado nos sonhos e ambições das pessoas. O que diga-se de passagem é fácil de fazer. Depois de satisfeitas as necessidades mais desnecessárias, basta alimentar aquelas necessidades que não fazem falta nenhuma. E quem nada tem, é fácil de encher com o vazio. Sexo, violência, riqueza, roubo, traição, enfim tudo o que seja muito sensacionalista, mentira e que não faça falta nenhuma nem bem à saúde, satisfaz qualquer barriga com sede de coisa nenhuma. Por isso é que eu não tenho escrito. Novidades… não há. Quer dizer novidades, novidades… até há, dignas de registo é que não, não os factos relatados acima, mas sim o facto de se fazer publicidade aos mesmos.

Ensino grátis não obrigatório

E lá ia eu a andar descansadinho para o metro, ao fim de uma semana de trabalho, eis senão quando uma pedra passa a uns escassos vinte centímetros da minha perna direita, ainda pensava se me devia virar para trás ou não, já aterrava outra do lado esquerdo. Enquanto descia a calçada, conversei com vários alunos pelo caminho, portanto sabia que atrás de mim viria uma chusma deles. Virar-me ou não virar, eis a questão, se virar faço figura de parvo porque sei que não vou conseguir identificar o responsável, mesmo que seja acusado pelos outros, a veracidade dessa acusação é duvidosa, assim optei por fingir que não me apercebi. Nada mau comparado com os colegas que já foram agredidos no espaço escolar. Sim, colegas, plural, e para que não fiquem dúvidas o espaço escolar significa dentro da escola.
Alunos que faltam, que se portam mal, muito mal, ninguém nem nada os corrige, porquê e para quê? Para a falta de educação e respeito tem todas as desculpas e mais algumas. Não existe uma razão para que as pessoas se portem bem, não existe uma razão porque é que não se há de tratar mal os outros e desrespeita-los? Então, se assim é, gostaria de participar num ensino eficaz. Já que é obrigatório até aos 18 anitos, podíamos aproveitar para ensinar algumas regras de respeito e salutar convivência social, ação social e voluntariado, responsabilidade civil, mas como disciplina mesmo! Todos nós vemos a falta de respeito que temos uns pelos outros quando vamos a conduzir, até beatas acesas saem pelas janelas fora. “Certificado de aptidão de motorista” seria uma disciplina teórica nas escolas e que posteriormente articularia com as escolas de instrução de condução. Chamam-se escolas e da meia dúzia de alunos que chegassem ao fim, ser-lhes-ia atribuída uma carta de condução. O ingresso para esta disciplina comportaria uma avaliação psicológica por parte do psicólogo da escola, não por um independente, isto é: por alguém subornável.
Ensino grátis sim, mas não obrigatório. Quem não cumprir as regras, sofre a respetiva sanção e, uma geração depois, sentir-se-ia na pele e na vida, a falta que os estudos fazem. Claro que para que este quadro fosse verdade, não poderiam recompensar os menos esforçados, os baldas e os delinquentes com RVCCs. Evidentemente que quem prevaricasse, teria que ser real e efetivamente sancionado (em vez de sentir na pele a elevação de estatuto).

Atualização da caderneta

Descritivo

Movimento

Saldo

20111023 DIA DE S.RECEBER

Ex.: ordenado mínimo 485×2

*970,00

1

20111023 LEVANTAMENTO R Pde Jo

*20,00

*950,00

2

20111023 COMPRA GALP

*56,65

*893,35

3

20111023 COMPRA MODELO

*76,92

*816,43

4

20111023 CIR **CABOVISÃO

*54,74

*761,69

5

20111024 LEVANTAMENTO CC Colom

*20,00

*741,69

6

20111024 COMPRA LIVRARIA BERTR

*12,69

*729,00

7

20111024 TMN

*13,27

*715,73

8

20111027 LEVANTAMENTO R Pde Jo

*20,00

*695,73

9

20111027 COMPRA MODELO

*49,43

*646,30

10

20111027 COMPRA LIDL & CIA

*19,69

*626,61

11

20111028 COMPRA LOJA AKI COLOM

*39,95

*586,66

12

20111101 COMPRATERMINALRODOV

*152,50

*434,16

13

20111102 BX VALOR 03 TRANSACC

*2,40

*431,76

14

20111102 TRANSFER (renda de casa)

*280,00

*151,76

15

20111103 LEVANTAMENTE CC Colom

*20,00

*131,76

16

20111105 COMPRA CAMPO GRANDE

*32,00

*99,76

17

20111101 COMPRA GALP (gás)

*24,25

*75,51

18

20111107 EDPAGUAS00123456789

*54,17

*21,34

19

20111107 AGUA

*11,02

*10,32

20

20111108 LEVANTAMENTO R Pde Jo

*20,00

*-9,68

21

20111108 COMPRA PINGO DOCE

*32,24

*-41,92

22

“O carro come à mesa com a gente!” diz o povo e com razão, mas o meu, normalmente, só come na mesa de Natal, excetuando este mês que comeu um farol médio do mesmo preço que uma sobremesa. O meu subsídio de Natal serve para pagar o seguro do carro. Quando sobra algum dinheiro, fica na gaveta das meias para ir pagando os serviços do mecânico. A seguir a agosto vêm o desemprego, tem sido sempre assim para os professores contratados. A última entrada de verba regista-se a 23 de agosto. A próxima será a meio de outubro, o subsídio de desemprego. Na eventualidade de ser colocado numa escola depois de a secretaria ter fechado a caixa (o que me aconteceu as vezes todas!), a entrada do vencimento registar-se-á no dia 23 do segundo mês de trabalho. O subsídio de férias é o que me permite evitar contrair dívidas mantendo as contas atualizadas, fazer as respetivas deslocações para o novo local de trabalho e, enfim, sobreviver até o ordenado começar a fluir regularmente. Não consigo evitar ficar preocupado com o dia de amanhã. A única hipótese que eu tenho é poupar, mas poupar o quê? Poupar o que não há?

Dia da defesa nacional?

Não há nada como chegar a casa depois de um dia de trabalho e jantar. Descansadinho. Nós conseguimos, após muitas tentativas frustradas, manter a conversa em dia, fazer um up date, digamos um briefing que é mais fino (embora nada romântico, que má escolha de palavra), como é que foi o teu, como é que foi o meu, e assim mais ou menos. Hoje a coisa estava assim um bocadinho para o silencioso… achei estranho. Quando ela começou a perguntar o que é que eu tinha, que andava diferente e tal… deixei de achar estranho, passei a achar normal, provavelmente irá reclamar de qualquer coisa que eu fiz, ou que não fiz, ou de um defeito qualquer que pensa que eu tenho, mas seja lá ele qual for, avisa já que “isso” é impressão tua! “É que tu dantes não eras assim.” Bom, o diálogo num casal, tal como a frontalidade, abertura, etc. e essas coisas todos que fazem de nós dois a melhor pessoa do mundo um para o outro, tolerância e mais outras tantas características fundamentais para equilibrar e fazer durar uma relação, são necessárias para que… nem sei o quê, mas é melhor ouvi-la por várias razões, nem que seja na eventualidade de ela ter razão. Chega de me martirizar, enquanto pensei tudo isto e mais um par de botas, fui respirando… (ah! tolerância também é importante) (e respeito) pronto! Chega. “Tu dantes eras mais divertido.” – fiquei caladinho – “Tinhas mais sentido de humor.” – continuei calado, o meu silêncio estava a ser melhor do que as minhas palavras – “Agora tens umas conversas… falas dos assuntos sérios, mais a sério, o que é que te preocupa? Parece que andas permanentemente armado em inteligente. Passa-se alguma coisa?”. Adiante. O jantar continuou e quando eu referi que passei pela Junta de Freguesia e li o edital, “Ora cá está!” – diz ela – “coisa que não costumavas fazer!” “O quê?! Ler os editais da Junta?!” – perguntei surpreendido (porque agora não me lembro como é que se escreve estupfacto) – “Não! Comentar isso ao jantar.”. Bom, a verdade é que a refeição acabou connosco a comentar que o estímulo para ir à tropa seja a defesa da pátria, é ridículo. Defender de quê, de quem, dos espanhóis? Os verdadeiros ladrões estão cá dentro! Quem nos rouba, nos mata, nos escraviza e quem impõe a sua vontade à força está dentro de portas! Chamar “Dia da defesa nacional” a uma fotografia de um gajo e três miúdas é… “´Tás a ver?” – diz ela – “Estás ou não estás diferente?”. Se calhar ela até tem razão. Estava quase, quase a dar-lha, quando ela borrou a escrita dizendo que do que mais tem pena de não ter feito na vida… é de não ter ido à tropa.

Um domingo c’mós outros

6 e 13. 6 e 13?! Como é que isto é possível?! O telemóvel toca às 5 e um quarto! 6 e 13 não faz sentido! O que é se passa? – tão depressa passaram estes pensamentos todos pela minha cabeça, tão depressa quanto a resposta: hoje é domingo. Ah… suspirei de alívio. Ah! (outra vez) e ainda por cima é aquele da mudança da hora! Este ano não me esqueci! Boa!!! Afinal que horas serão? Sejam lá que horas forem, que raio é que eu estou a fazer acordado?! Depois de uma semana inteirinha a acordar às cinco e um quarto da manhã, pelo menos ao domingo tenho que dormir mais um pouquinho, nem que seja à força. E tentei adormecer. Enquanto o fazia lá ia pensando que uma semana inteira de aulas e de reuniões, sim, todos os dias tive reuniões intercalares na escola, todos os dias… ou melhor: todas as noites! É o que faz ter cento e cinquenta alunos divididos por seis turmas. Que isto foi uma semana de loucos. Era chegar a casa, arranjar a roupa para o outro dia, jantar qualquer coisa, reclamar do dia de trabalho e tentar adormecer, porque daqui a nada está o despertador a tocar, não foi fácil, portanto, vá de dormir. Mas dormir que era bom, nada. Então já que estou aqui, estão aqui estas pernas junto às minhas, estas costas junto ao meu peito, o meu braço direito está a passar por cima da cintura dela e… comecei a ficar entusiasmado. Muito. Com um entusiasmo muito grande. A resposta que veio do lado de lá foi uma resmunguice que eu percebi que não iria adiantar de nada acordá-la. Acordei eu. Fui rentabilizar o dia. Tocar guitarra não posso que faço barulho, arrumar seja lá o que for que por aí há que fazer, também não posso porque faz barulho e eu não tenho vontade nenhuma. Computador a uma hora destas, é de gente maluca, acordar mais cedo para ir para o computador, é caso para ir ao médico. Fui por a roupa a lavar. Ir, fui, mas a máquina lavar não lavou. A água não chega à máquina, talvez quando a minha quase-esposa acordar ela saiba o que é que se passa. Não sabia. Resolvi despejar água à mão, com um garrafão, por cada vez que o motor pedia água. Lá está a tal da crise, é mais uma máquina de lavar que não vai ser comprada com o subsídio de Natal. Fomos ver o preço delas ao shopping, não se cabe lá com gente. Fomos beber um cafezinho na praia, não encontramos vaga na esplanada. Isto não pode continuar assim, temos que acabar o dia em grande! E acabamos. Fizemos um piquenique à beira-mar, dentro do carro, sossegadinhos a ver o pôr-do-sol. Em outubro, quase novembro.

“Um domingo c’mós outros – segunda parte “A vingança da minha quase-esposa”

Todo o domingo começa, no sábado à noite! Apesar do festival de rock cá na terra; dos inúmeros bares de karaoke e mais uma quantidade de oferta variada de diversão, a melhor festa faz-se em casa. Verdade seja escrita: a melhor – não vale a pena estar-me a enganar – e a mais baratinha (é verdade, a crise existe já entrou). Aliás se não me deitar tarde, no domingo será mais fácil adormecer cedo e mais uma quantidade de argumentos incluindo estar uma mulher na cama! Para que se perceba tudo isto, convém ter em conta o Banzé. O raio do gato afia as unhas no papel higiénico. O nosso rolo não está no lugar próprio, porque esse fica à pata de semear, mas sim em cima do autoclismo. O stock por sua vez e por falta de espaços fechados na casa de banho, fica armazenado na despensa (os espaços fechados e os outros todos também, estão cheios de frascos e frasquinhos e cremes e mais uma panóplia de coisas que as mulheres compram para desarrumar as casas de banho). Fartei-me de tanto ficar sem papel higiénico, quando dele mais precisava, que tentei propositadamente que a minha-quase esposa passasse pela mesma triste experiência. Não consegui, desisti de falar nisso. Remédio santo! Quando um gajo deixa de falar nas coisas, elas acontecem! Demorou mais de um ano, mas ela… finalmente lá me contou que ficou sem papel higiénico quando eu não estava em casa. É que de todas as vezes que isso lhe aconteceu, eu estive por perto para desenrascar a coisa, o lixado continuava a ser o mesmo. Finalmente, desta vez não. Não consegui esconder o tão tardio riso, ela não achou piada nenhuma.

Vamos lá então ao domingo de manhã: acordei, eram dez e quarenta e quatro. Que alegria! Que festa! Até parece mentira! Pensei de mim para comigo, finalmente consigo dormir até tarde! Estava mesmo precisado. Mas eu tenho um raio de um feitio que a ideia seguinte foi: vou-me ver à rasca para adormecer cedo. Abandonei essa rapidamente e optei por ficar alegre. Levantei-me todo sorridente, parecia a primavera (se bem que é um bocado amaricado um gajo parecer a “primavera”, mas depois da noite de ontem não estou cá para me ralar com essas tretas). Fui à cozinha, liguei a máquina de café e… siderado! Acho que é essa a palavra. O relógio da cozinha assinalava sete e cinco da manhã. Como é que isto é possível? Ainda este verão mudei a pilha ao relógio!?

A minha-quase esposa bem que me tentou convencer que deveria ter sido o gato que carregou nas teclas acidentalmente, para justificar o mistério do relógio da mesinha de cabeceira adiantado.

Então e o domingo?

Então e o domingo? Foi um domingo c’mós outros! Como é que haveria de ter sido? Começou no sábado à noite, depois de jantar saímos. Depois… tudo normal, um gato a miar muito aflito. Um bichinho que não terá ainda quatro mesitos, muito assustado, faminto, desesperado. Ir buscar comida, água, tentar apanhá-lo, pois era desesperante ver a aflição do bicho acabadinho de abandonar. E conseguir apanhá-lo? Que aventura! Lá chegamos ao domingo de manhã, tal como quem anda à chuva molha-se, quem anda às gatas de noite… sofre com o cio. A outra princesa cá da casa anda com o cio. Foi recolhida depois de ter sido atropelada e, como tem asma e outras complicações respiratórias, não pode ser anestesiada normalmente para ser esterilizada. De outra forma, nós não temos dinheiro. A pílula, sei lá porque carga de água, não fez efeito, ora eu acordar cedíssimo por causa do cio da gata não é novidade. Acordei e sai da cama. A máquina do café, que mal fez um mês, já faz um ruído esquisito. Foi um bom negócio: a máquina está à venda por 119€; o gajo da Delta, esse sim que devia ser primeiro-ministro, sugere no site que seja vendida por 79€; a minha quase-esposa comprou-a por 39€, as cápsulas estavam a 2,90€ 10 unidades, bom negócio (concorrência às idas à esplanada). O autoclismo (tudo me acontece, até a porra do autoclismo!) avariou. A bóia que faz disparar o sistema para terminar de encher o depósito, pifou, sei lá como, aquilo continua a correr água! A torneira de segurança junto à sanita não roda, nem para um lado nem para outro.

Uma linda manhã de sol. Almoço e, optamos por ir dar um passeio, para desanuviar. Ainda não tínhamos feito cinco quilómetros… a expressão “chovia que Deus a dava”, não serve para o caso. Conduzir em terceira ainda vá que não vá, mas eu não via, teve que ser em segunda. O único carro que vimos na estrada estava parado debaixo de uma árvore porque chovia cântaros. Não é “chovia a cântaros”; é mesmo chovia cântaros, porque aquelas pedras de gelo que batiam no carro mais pareciam cântaros que chuva. A estrada estava cheia de bolinhas de gelo. Estacionamos no parque do Modelo, estava demasiado perigoso para continuar viagem. No Modelo, com o gerador a fornecer energia, não havia o suficiente para a máquina de café estar ligada. Agora que o peixe começou a render, subiram o preço às cápsulas, já vai chegando aos 2,99€. Portanto, nada a assinalar, um domingo normal, nada digno de registo para a posteridade.

 Pedofilia governamental

 Alguém está a ter prazer, doentio, às custas de um inocente que não se apercebe que está a ser violado, pois confia incondicionalmente no violador, nunca suspeitando de que o ato que está a ser alvo, seja uma violação contra a sua pessoa. Aliás é suposto a criança confiar na figura do adulto. As melhores formas que eu encontro para perceber as coisas é explicando, a isto não chamo defeito profissional, e enquanto explico percebo, ora de que é que eu percebo, de ensino, então uso esse exemplo, por exemplo 150 alunos para 10 professores, só para “ser” números redondos, é mais fácil de fazer a simulação. Numa escola, 10 professores ensinam 150 alunos, com o aumento obrigatório de mais meia hora de trabalho, deixam de ser precisos 10 professores para ensinar 150 alunos e, apenas com 9 faz-se o mesmo trabalho. Passou 1 professor a receber subsídio de desemprego, certo? Vamos aqui alterar umas palavrinhas: numa empresa, trabalham 10 funcionários e seja lá o que for que eles produzem, dá um produto total de 150 unidades; com o aumento obrigatório de mais meia hora de trabalho, deixam de ser precisos 10 funcionários para produzir 150 unidades, apenas com 9 realiza-se igual produto. Passou 1 funcionário a receber subsídio de desemprego (já lá estava um professor). Vamos aqui alterar uns números, só para dar alguma dimensão ao meu exemplo: acrescentemos-lhe um “0”; 100 funcionários em vez de 10; 1500 unidades em vez de 150; desempregando 10 em vez de 1, produzindo as mesmas 1500 unidades visto ter aumentado a carga horária. Agora a coisa começa realmente a ganhar dimensão: mais um “0”; 1000 em vez de 100; 15000 unidades em vez de 1500; desempregando 100 em vez de 10; produzindo com 900 o mesmo que se produziria com 1000, repare-se na quantidade de gente desempregada, a receber subsídio de desemprego e a empresa do exemplo a descontar cada vez menos para a Segurança Social, por ter menos funcionários. Não somos tão ingénuos ao ponto de pensar que a empresa vai partilhar alegre e abertamente os lucros com o Estado! Provavelmente irá pedir subsídio ou regalias sociais para empregar mais alguém. Efeito bola de neve: 2 empresas e agora repetir o episódio todo. Quanto mais explico, mais percebo mas… em que é que a violação ajudou a criança?

Depois do Fim do Mundo

Tanto se fala e se apregoa o fim do mundo. Diz que depois do fim, isto fica tudo de rastos. Eu já passei pelo fim do mundo um par de vezes e, pelo que tenho visto, depois do fim do mundo há sempre o dia seguinte. E o dia seguinte, segue o outro dia a seguir e assim sucessivamente até o ciclo se fechar a voltar a ser tudo quotidiano, com algumas diferenças, é claro. Vínhamos nós de Lisboa, de carro por causa da greve, e na reta do costume, junto ao mercado de sexo, lá avistamos mais um cão abandonado. Situação perfeitamente normal, é que normalmente socorremos três a quatro cães por ano, abandonados ali. O líder da oposição era contra tudo e mais alguma coisa daquilo que o primeiro-ministro fingia que fazia para disfarçar a vergonha que estava a ser a sua governação; a seguir o líder da oposição passa a primeiro-ministro, não só concorda com aquilo que ele acusava de ser o maior roubo da história da democracia, como ainda faz pior. Eu, cada vez tenho mais formação e tenho tido colocações mais prolongadas no tempo e com ordenado completo, mas estou mais pobre. Apesar de pobre, fomos para o centro comercial, estava cheio de gente, à pinha, e na televisão anunciam a crise. Vimos um cão ser vendido por setecentos e cinquenta euros e quando saímos do shopping recolhemos mais um, acabadinho de abandonar. A minha quase-esposa é que tem razão: “Lá pelo Natal teremos outros problemas, estes já terão passado”. Se continuarmos a fazer as mesmas asneiras e a cometer os mesmos erros que temos feito e cometido até aqui, vamos continuar a chegar aos mesmos resultados que temos chegado. Portanto, registar num diário as coisas que acontecem, considerando que ficam como registo para a posteridade, só se justificaria se elas não se repetissem, mas como afinal esta sociedade é sempre a mesma coisa, não vale a pena. Eu sei o que tenho mudado para mudar quem sou. Ah! Algo mudou! O cão estava chipado e conseguimos contactar o dono.

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