Na Vila do Maranhal

1Rainha. Eu é que havia de ser rainha. Tinha os gajos todos ali aos meus pés! Pensava Mari’Alice enquanto batia com os dedos da mão direita no polegar. Era com uma energia que lhe descia do cérebro, passava-lhe pelo peito, provocava-lhe calores e arrepios pelo corpo e materializava-se ali naquele bater de dedos. Diga se faz favor. São seis bolinhas. Com certeza. É para já. Aqui tem, são setenta e oito cêntimos. Veja lá se tem trocadinho. Não. Não me arranja os oito cêntimos? Não. E três? Não. Então aqui tem obrigadinho. Até amanhã. Tenha um bom dia. Que eu se fosse rainha teria uma boa noite. Esta parte já não disse em voz alta. Ficou-lhe a pairar nas ideias, tal como o rádio anunciava a rainha da Jordânia e mais uns quantos, que os restantes já não lhe interessavam, provavelmente o marido e a comitiva do estado, estavam em Portugal. Intrigou-se o que é que será que uma rainha anda aqui a fazer neste fim de mundo? Olá, bom-dia! Diga se faz favor. São seis bolinhas. Arranja-me trocadinho? Quanto é que é? Setenta e oito cêntimos. Tenho sim senhora. Senhora? Esta observação ficou-lhe a pairar na cabeça. Será por ventura que esta gente acha que eu tenho cara de senhora? Senhora é coisa de velhas. Até a rainha deve ter uma cara nova. E queria ela ter um decote assim como o meu. E apertando com as duas mãos, cada uma em seu peito, olhou-se no espelho e pensou: isto é que é um par digno de uma rainha! Assim que tira as mãos do peito ouviu uma voz: – Bom dia. Tira-me um cafézinho se faz favor. Desta vez era um homem. – Então estavas a limpar o espelho? – ela pensou que ele não deveria ter visto todo o espectáculo, não é possível que num espaço tão pequeno ela não o tivesse visto, seja como for resolveu não dar parte fraca – Ó pá, estava a ouvir as notícias e dizem que a rainha da Jordânia está cá, deve ser cá uma vida! – o cliente pela resposta que deu parece não ter visto a parte do sensual espectáculo com que Mari’Alice se presenteou – Eu ouvi também nas notícias que o Presidente da República acha que ela é uma mulher que faz muito pelos direitos humanos. – Maria Alice convenceu-se, “este não viu nada”, e ele continuou a falar como que do assunto mais importante do mundo – Ela era boa era para ir para Angola, agora está muito na moda, direitos humanos, Angola e diamantes, tem tudo a ver com uma rainha. – depois do cliente ter pago e ido embora, Maria Alice ficou-se pelo profundo suspiro e segurando de novo o peito questionava-se enquanto que quase dançava em frente ao espelho: “ Será que os Angolanos fazem justiça ao que o povo diz? E aquelas imagens da internet? Aquilo será mesmo assim? Rapariga, rapariga – disse para si mesmo levantando a chávena do balcão – deixa-te dessas coisas que ainda te entra para ai alguém e apanha-te nestes propósitos e ainda nem são sete da manhã.”

“IAS! Era um nome que lhes ficava bem!” Dizia o taberneiro para consigo próprio. “Parecem a Inspecção das Actividades Sanitárias”, resmungava atrás do balcão. “Ali naquela mesa inspecciona-se se a sanita dará vazame a tanta merda.” E começou a secar os copos. “Quer dizer: vem para aqui, jogar umas cartas e primeiro que peçam um copo é um castigo, é quase preciso perder um pente de dez riscos, ainda se jogassem a nove, não, tem que ser a dez!” Olhava de esguelha para os quatro velhotes que jogavam às cartas depois destes lhe terem contado que tiveram que estar numa fila, escrever o nome na lista, esperar “tudo para cima de meia hora” para poderem almoçar. – Opa, tu nem queiras saber gente que para lá havia! – disse um dos velhotes batendo com a mão no balcão. – E gajas, havias gajas? – perguntou Dinis Santos Trindade ávido de estimular a conversa e o bom ambiente. – Eram mato! – foi o comentário. – Sabiam que nem ginjas – resposta pronta na ponta da língua – e por falar em ginjas, vai uma ginjinha? – ao que o velhote respondeu – Não estejas já a ralhar que ainda nos lembramos de ti, toma. – e puxa de um rolo de papel que tinha escondido: – Um calendário com gajas nuas, são é chinesas, mas tão nuas. Enquanto baralhava as cartas e  acabava de bebericar a ginja, um deles comentou: – Esta malta nova assim vai mal, em vez de pouparem para o futuro não, gastam-no todo nos restaurantes e nos cafés! – Cala-te e dá as cartas. – foi a resposta que obteve.

Seis e um quarto da tarde. Lá está o expresso paradinho à porta da taberna. Abílio Lopes Graça cumpre religiosamente a sua penitência antes da chegada a casa, depois de um dia de largos quilómetros, beber um copo. – Então não queiras lá saber – dizia ele de copo na mão e sorriso de orelha a orelha – Na viagem para cá trazia lá duas professoras no banco da frente – e quando bebericou o vinho, o taberneiro aproveitou a pausa para lhe perguntar de repente: – E eram boas? – ficou parado de copo molhado e pano na mão. Abílio Lopes Graça continuou o seu relato ignorando a interrupção – E então diziam que o tal Magalhães chegou à escola com erros. Foi escrito por um emigrante francês com a quarta classe! – Algo de bom nas tabernas são as vozes dos treinadores de bancada, logo se fez ouvir uma: – É só o programa de escrever é que tem erros. Bateu com o fundo do copo vazio no balcão de mármore e exclamou: – Vamos lá ao que interessa! – As gajas eram boas ou não eram boas? – perguntou o taberneiro muito rapidamente esticando o pescoço – O que interessa é quanto é que é o copinho? – respondeu Abílio Lopes Graça – estão quase os cachopos a chegar a casa e eu ainda aqui!

Estou cansada. Quero reivindicar aqui o meu direito a estar cansada. Fartei-me de trabalhar. Acordei muito cedo e que bem que se estava na cama e agora estou cansada, queria sossego, queria ir até à internet um bocadinho, ver só por ver. É que depois de um dia inteirinho de trabalho, chegar a casa, ouvir os cachopos a ralharem um com o outro, é sempre a mesma coisa, o mais novito não aguenta muito tempo sem começar “Ó mãe, olha ela!”, diabo de rapaz, porque é que ele não se defende da irmã? De tanta coisa que dizem que ensinam na escola ao miúdo, bem que lhe podiam ensinar a dizer “ó pai!”. Até estou a estranhar, está ali no sofá, coisa rara, não ficou lá no bar dos bombeiros, é melhor assim, pelo menos não vem cá com vontades. Mas sinceramente Maria Alice, uma mulher jeitosa como tu, merecia melhor sorte. Uma máquina de roupa que pus a lavar antes de ir fazer o jantar, ninguém foi capaz de pelo menos, estender a roupa. Aquela miúda, que já está uma mulherzinha para certas coisas, não é capaz de lavar a loiça, sobra sempre tudo para mim! Mas o que tira o sono a Maria Alice é acima de tudo a conversa que a filha teve durante a refeição: – Vocês adivinhem lá o que é que foi o tema de conversa hoje lá na escola? Então ninguém diz nada? – perguntou toda sorridente, abanando a cabeça de cada vez que olhava para cada um dos presentes com um ar muito curioso. – Vá lá, tem três hipóteses! – bateu com garfo e faca na mesa, parou mantendo o sorriso. – De telenovelas… – resmungou o pai – De gajos disse de um salto o irmão, ao que ela retorquiu prontamente – Tu vê lá, vê lá! – Pronto minha filha, desistimos, conta lá o que foi? – Hoje estivemos a escolher quem mataríamos na nossa turma se tivéssemos uma metralhadora.

Esta conversa sim, tira o sono a Maria Alice. Ainda se a filha falasse de namoricos, que está na idade, ainda se a filha tivesse ido ao histórico do computador e descoberto os sites dos Angolanos por onde andou a mãe a navegar em seus devaneios, ainda vá que não vá, agora isto. Mesmo que proíba a rapariga de ver as notícias os outros contam-lhe, e que exemplo para o irmão, aí valha-me Deus que bem pode. Dizia Maria Alice numa angústia que lhe afugentava o sono. – Ó mãããe! O que é que eu levo vestido amanhã?

2

Acorda um homem bem disposto para enfrentar um dia de trabalho, que isto com mais de sessenta é preciso animo, e depois eles dão cabo de tudo. Alguma vez no meu tempo isto era assim? – ralhava Dinis Trindade logo pela manhã. – Deixa-te estar mas é calado que tu estás farto de estar bem. – respondeu o único cliente que se encontrava presente na taberna àquela hora da manhã. – Se vocês pensam que eu estou bem é porque me fartei de trabalhar. – continuou a conversa já de dedo no ar. – Fartaste-te de trabalhar ou de fazer contas como os merceeiros de antigamente, é que eu também sou do teu tempo? – foi a reposta que ouviu. – O que é que queres dizer com isso, hã? – agora Dinis Trindade já tinha as duas mãos no balcão e os cotovelos puxados para a frente como se fosse um forcado da cara. – Não quero dizer nada, anda, tira-me lá um café. – Dinis Trindade assim fez, virou-lhe as costas, agarrou o manipulo do café com a mão direita, colocando a esquerda em cima da máquina para se apoiar e fazer mais força no puxão que deu para tirar o respectivo manipulo, colocou-o debaixo do moinho, puxou a alavancazinha, saiu uma dose, calcou-a e sem tirar os pés do sítio tirou um cafezinho ao cliente. Esta gente tem mas é inveja da casa de um homem, que culpa tenho eu se eles se embebedam, ficam a dever, esquecem-se de pagar e depois quando cá vem pagar é normal que seja mais qualquer coisita, ora eu é que os aturo, isto não é fácil, pensava o taberneiro enquanto servia o café em silêncio. Maquinalmente alcançou o comando, ligou a televisão, pousou-o no meio dos copos, agarrou o pano e passou por cima do balcão que àquela hora da manhã ainda estava limpo. A jornalista apregoava que o ex-autarca de Sintra, ou lá de onde é que homem tinha sido Presidente da Câmara, afinal não tinha declarado ao fisco a compra de uma casa e de duas garagens. – Está a ver que não és só tu? – disse o cliente de chávena na mão, apontando com a outra para a televisão. – Essa gente é tudo uma cambada de malandros. – respondeu cruzando os braços e virando-se para a televisão prosseguindo – Se eu tivesse tanto dinheiro como o que aquele roubou não precisava de te estar aqui a aturar. – e continuou – então e a conta lá na Suíça do sobrinho que é taxista? Já falaram nisso, ou já se esqueceram? – Então e viste aquele que também era Presidente da Câmara lá no norte e apareceu na televisão, naquele programa em que eles vão morar lá para a casa, esse diz que o juiz ou lá o procurador de República, ou lá quem seja, é que é um malandro, porque ele afinal era inocente. – Sabes o que é que eu te digo, é tudo uma cambada! Eu é que fiz bem, e mais não sou político. – descruzou os braços, encostou as mãos ao balcão, aproximou a cabeça do cliente e disse baixinho – E aquela gaja que fugiu para o Brasil, lembras-te? Quando chegou cá foi com o dinheiro da câmara que lhe pagaram o advogado, quer dizer a gaja rouba a malta e ainda por cima é a câmara que lhe paga o advogado! – Tu é que votas neles, que eu cá não quero saber disso para nada. – respondeu o cliente encolhendo os ombros resignado. – Doem-me as cruzes, eles deram cabo de tudo, até este tempo não era assim.

Segurava o balcão de mármore com a palma mão esquerda enquanto com o pano na direita limpava os desenhos da autoria do fundo dos copos. Após uma breve olhadela de esguelha para a caixa registadora, resolveu aproximar-se da mesa do IAS.

– Eh rapaz! Então isso tem algum jeito? Puxar a trunfo de terno! – resmungava um. – Se o homem puxa a trunfo de carta baixa é porque está seco. – diz o adversário. O próprio defende-se – Ainda bem que a sueca foi inventada por mudos…

Após o atribulado “pente”, para gáudio de Dinis Santos Trindade, encostados ao balcão, lá iam batendo com o fundo dos copos vazios depois de um sonoro ah! Derrota não alimenta conversa, apenas engorda a registadora. O tema agora era Angola. – Aquilo no meu tempo não era nada assim. – dizia um. – Deu nas notícias que aquele lá do Algarve, o Presidente, acha que Angola é muito boa para  as nossas relações comerciais, inteligente. – não se ficou sem resposta, do outro lado do balcão é atirada mais uma acha – Pois o gajo do Bloco de Esquerda nem se fez representar porque eles não respeitam do direitos humanos, é de homem! – Deixem-se dessas coisas. – exclamou um reformado da GNR ao entrar na taberna – Toda a gente sabe que o que eles querem são os diamantes. Estão p’ra aí com conversa fiada para quê? Todos sabem mas ninguém diz nada, aquilo é tudo a mesma corja. Desde quando é que eles se importam com os pobres? Hã! – Não sei lá como é que vocês não ficam com a garganta seca de tanto falar. – rematou Dinis, parando de secar os copos.

Na viagem de volta os passageiros são sempre em reduzido número. Normal, não há muita gente que queira vir para uma vila que terá como expoente máximo de sábado à noite, uma animada conversa no café. Dos passageiros que por aqui viajam este foi sem dúvida dos mais originais dos últimos tempos: um palhaço. Sentado no banco da frente, ali mesmo ao pé de mim, a conversar, lá íamos superando as normais características das auto-estradas portuguesas, as obras e foi por aí que começou a nossa conversa. – Os pesados só podem ultrapassar recorrendo à faixa da esquerda, por causa das obras, se o veículo da frente assinalar marcha de urgência. – expliquei. – Se arriscar ultrapassar? – perguntou-me. – A nova brigada de trânsito, descaracterizada, vê-me e eu fico sem poder pagar a casa ao banco. Olhe ali aquela carrinha Ford Mondeo cinzenta, está a ver? São os gajos! – Fui a um casting para um novo programa na televisão e uma situação destas seria digna de uns comentários. – Isso deve ser giro, a televisão. – disse com curiosidade mas sempre sem me esticar porque não vou estar ali a perguntar aos passageiros coisas da vida deles, não é? A minha tarefa é conduzir e ser simpático, para conversa de encher chouriços basta-me a Vila do Maranhal. Mas o homem para minha satisfação lá foi contando e vendo a paisagem. Queriam um personagem que tivesse na casa dos trinta para ter um aspecto credível, um pouco maduro, como as caras que estão na moda agora na televisão todos tem quarentas e aparentam ter trintas. Um homem de fato e gravata para comentar a actualidade, indo um pouco na linha de todos aqueles programas que convidam os amigos para opinarem majestosamente acerca dos problemas do mundo. Explicam, explicam e depois ouve-se a opinião dos convidados como se fosse essa que fará o país andar para a frente, como se fosse a coisa mais importante do mundo sem a qual quem quer ser um homem dos dias de hoje não pode prescindir: a opinião publicada! Essa sim a mais importante na vida de um homem moderno, saber e estar de acordo com a opinião que a televisão diz ser a de Portugal. Então o papel que ele iria ou irá desempenhar é o de palhaço disfarçado de fazedor de opinião. Vestido de fato e gravata de forma a auferir de uma certa legitimidade, com uma bolita vermelha na ponta do nariz, a notar-se os elásticos a vincar a cara e umas luvas em forma de mão para que fiquem muito grandes e se note bem quando gesticula, sendo que as mãos estarão sempre em cima da mesa ora postas, ou com os dedos entrelaçados e abrindo as mãos de cada vez que fala como se revelasse o mundo. Se impossível fosse de perceber a palavra inquisidora, tornar-se-ia bem perceptível pelo comprimento do dedo. Quando parou na taberna antes de ir para casa ainda tentou meter conversa mas perguntaram-lhe logo pelas gajas, pagou e foi-se embora.

3

Ao ouvir o som do autocarro a parar, os olhos ensonados de Maria Alice fixaram-se na porta e foram despertando. Pondo a mão aberta no peito desnudado, como usa os primeiros botões desabotoados encosta-a directamente na pele, mesmo por cima da grande bijutaria que lhe adorna o volumoso peito, inspirou fundo, reteve a respiração e os pensamentos por um bocadinho e, deixou sair um suspiro enquanto expirava. – Bom dia rapariga, então, logo de manhã a suspirar dessa maneira? – saudou Abílio Graça ao entrar com um leve sorriso nos lábios. – Olá, sabes, acho que estava a acabar de acordar. – foi a resposta mas não o pensamento. – Eu não – continuou Abílio – eu desperto logo no duche, tira-me um cafezinho se faz favor. Calou-se, não deu resposta porque a imagem daquele homem a entrar no duche começou a ganhar forma, abriu os olhos de espanto e quase se assustou quando agarrou no manípulo do café! “Então cachopa, deixa-te lá dessas coisas logo de manhã e concentra-te no que estás a fazer.”

Não percebo mesmo nada – dizia uma cliente para a que vinha com ela ao entrarem na padaria – e depois queixam-se. Gesticulando com a mão  que estava livre, com a esquerda segurava o saco das compras, lá foi entrando e fazendo sinal com a mão para a amiga como se fosse um sinaleiro de passadeira – anda, anda. – Então, ó Mari’Alice – continuou pondo a mão livre aberta em cima do balcão – fomos ali ao chinês, está cheiinho de gente! Fomos lá ver umas coisas que eram precisas e aquilo tem para lá gente – e ia batendo com a mão marcando compasso –  que eu não compreendo, então não dizem que isto está mau? Não parece. – E o que é que vocês vão querer? – Olha eu quero café, tu também queres café, não queres? – pergunta virando-se para a outra. – Pode ser. – foi a resposta abanando ligeiramente a cabeça em sinal de aprovação. – E um bolinho, tu também queres um bolinho, não queres? – Já Maria Alice estava de roda da máquina do café pensado para com os seus botões desabotoados que permitiam regalar os olhos ao mais baboso analisando o decote por debaixo daquele fio enorme: antes é que eu tinha tempo para estas coisas todas – Quais é que são os bolos? – mas eu não era como estas pelintras, já que tinha tempo, ia até ao shopping – Aqueles dois ali! – as montras cheias de coisas bonitas, gente bonita, gente fina, sempre todos muito bem postos, não era cá nada disto de se meterem na vida dos outros. Boa vida é o que esta gente tem! Aqui a meio da manhã a beber café e a comer bolos, vê-se mesmo que não tem aquilo que a gente fina tem, lá no shopping elas bebiam chá, é mais chique e não faz mal, depois queixam-se que estão gordas e que isto está mau. Meu rico tempo! Ia até ao shopping, via os gajos bons, tinha tempo para mim, era o que era, agora farto-me com trabalhar para quê? Ganho mais meia dúzia de euros do que quando recebia do fundo de desemprego! Acordo cedíssimo, não tenho tempo para ir às salas do messenger, e isto tudo para quê? Para estar aqui a aturar esta gente? Enquanto era assolada por este pensamento roda a cabeça ora para a esquerda, ora para a direita, sempre com os olhos fixos no espelho, enquanto que com a ponta dos dedos ajeitava os caracóis pintados. – Estás bonita, estás!

À hora certa podemos ver o autocarro parado junto à porta da tasca. – Então as gajas hoje, como é, ainda usam aquelas camisolinhas de quando eram crianças? – perguntou Dinis Trindade todo guloso. – Opá, nem queiras saber! Então não é que agora na viagem para cá, vinha lá um gajo que com tanta gente para meter conversa tinha que ser logo comigo! – Ainda se fosses uma gaja… – interrompeu Abílio. – O homem dizia que por cada 100 euros em compras de produtos Made in Portugal, cada um de nós está a preservar um posto de trabalho de um cidadão português. – esta frase chamou a atenção de outro cliente que estava ao lado dele para o qual se virou e continuou – Em contrapartida, cada 100 euros em compras de produtos estrangeiros resultam no despedimento de um trabalhador ou na não criação de um novo emprego, vocês estão a ver isto? – abrindo as duas mão para a frente como que mostrando que nada tinham. – Eu já estou a ver onde é que ele quer chegar, isso é gente que tem dinheiro para comprar do mais caro. – disse o cliente. – E então? Continua lá! – perguntou Dinis Trindade, fazendo sinal com a mão para a conversa prosseguir. – Fiquei parvo quando ele me perguntou quantos trabalhadores portugueses é que eu já tinha despedido devido à minha indiferença? Talvez um amigo, um vizinho ou um familiar… Tem consciência disso?, já viram isto? Vai ali um gajo a conduzir o autocarro, farto de trabalhar, vem este filho da puta culpar-me do desemprego! – É sempre a mesma merda – dizia o cliente – são os pobres é que tem culpa de tudo, se as coisas não fossem tão caras! – Eu contribuo com a minha parte – interveio o taberneiro – o vinho é todo comprado “ao produtor”! – Pois – anuiu baixinho o cliente – mas sem recibo. – O que é que queres dizer com isso? Que a culpa é minha é? – Deixem-se lá dessas coisas – levantando as duas mãos para o céu o condutor do autocarro prosseguiu – deixem-me lá acabar a conversa, a coisa piorou quando o homem disse que cada euro gasto num produto estrangeiro contribui ainda mais para o empobrecimento do país. E então se tu compras o vinho ao produtor, estás a fazer muito bem, porque assim conservas o emprego dos gajos que lá trabalham. E a conversa findou quando Dinis tentou vender mais um copinho a Abílio, que só bebe um, lembrando-se que tem de ir para casa antes de os filhos chegarem a casa.

4

– Bom dia Alice! – diz o condutor do autocarro entrando no primeiro café a abrir portas na Vila do Maranhal. – Bom dia Abílio. – respondeu Maria Alice enquanto enchia o peito de ar suspirando lentamente. Facto que não passou despercebido aos olhos de Abílio Lopes Graça, já habituado a ver destes espectáculos pelos espelhos do autocarro. “Que grande par de mamas” foi o pensamento que rapidamente lhe passou pela cabeça. É inevitável não pensar naquele decote nem que seja só por um bocadinho. Tudo isto lhe passava pela cabeça quando disse: – Então, ó cachopa logo pela manhã a suspirar dessa maneira? –  desvia o olhar dela, centra-o na montra dos bolos, esfregando as mãos e caminhando lentamente – Tira-me lá um cafezinho se faz favor!

Do outro lado do balcão lá estava a sonhadora Maria Alice perdida em seus, também inevitáveis, porque não lhes consegue resistir, pensamentos “Este é que é um homem, que presença, moreno, simpactico, cavalheiro, sempre sorridente, que noite que nós passávamos os dois! Uma noite? Um bocadinho à tarde já era bom! Era um instante enquanto ele me tirava a bata” e nisto responde: – Acho que não é suspiro, ainda é um restinho de sono. – Tens que ir para a cama mais cedo. – disse Abílio logo arrependido por ter falado em cama “Espero que ela não me leve a mal, será que ela reparou que eu olhei para aquele par? Também é bem feita, quem a manda ter aquele espectáculo assim, tão… tão visível?” – Sabes – respondeu Alice servindo o café – não é fácil, cama queria eu mas quando saio daqui ainda tenho tudo lá em casa por fazer. A cachopa faz-se de despercebida, só sabe é ralhar com o irmão, o meu homem quando sai das oficinas, vai para os bombeiros, sobra tudo para mim. – É a vida. -foi a resposta que se pode arranjar porque a que ficou na cabeça foi “como é que com um matacão destes em casa um homem sai e não passa lá o serão”. – Tenho que ir! – Boas viagens! – foi a resposta que se pode arranjar.

– Olá, bom-dia! – Bom-dia, diz! – Tira-me um cafézinho se faz favor e já agora dá-me também aquele bolinho ali – pede a cliente apontando para a montra – e se tiveres um bocadinho de vontade, agradecia. – Vontade para quê? – pergunta Mari’Alice já com a mão no manipulo do café olhando por cima do ombro. – Eu sei lá, como te vi com essa bata de enfermeira podia ser que tivesse para aí um remédio para a falta de vontade… – Ó se eu fosse enfermeira! Era bom era! – Diz levantando apenas o queixo visto ter as mãos ocupadas – Não estava aqui! – Então? Estavas de greve? Dois dias, nada mau! – Ó filha se eu fosse enfermeira a esta hora estava rodeada de gajos bons. – e serve o café batendo com os dedos no polegar. -Gajos bons ou gajos doentes? – pergunta a outra rindo. – Não sejas assim, era outro ambiente. – diz franzindo o sobrolho. – Não sei não. – respondeu com o dedo no ar negativamente – Era outro tipo de homens. – diz Maria Alice já com o queixo erguido, o ar sonhador e levantando uma mão para o céu como que acenando para si própria. -Sim, mas não podias usar essas medalhas todas no decote… – Mari’Alice nem a deixou acabar a frase. – Não era preciso – e nisto comprime o peito volumoso com as mãos – usava outros argumentos mais fortes! – e olha para o decote. – Eu imagino – diz a outra lentamente abanando a cabeça – tu no meio dos doentes infectados com o vírus da sida por negligência dos tempos em que Leonor Beleza era ministra. – Lá está, para “beleza” estaria lá eu. – Serve o bolo e aponta com o indicador. – A mim ia-me calhar um médico todo bom, nada dessas tonterias que estás para aí a vo-ci-fe-rar. – e dito isto muito lentamente acompanhou com um gesto da mão direita sobre o garganta – A ti? A ti calhava-te aquele médico do Hospital de Santa Maria, suspeito de ter assassinado doentes por negligência. – dito isto riu-se e deu uma dentadinha no bolo. – Com amigas assim… – resmunga Mari’Alice engelhando o lábio de baixo. – Olha minha querida Alice, – sorri a outra – sabes o que te digo? Obrigadinho por esta dose do boa disposição, que ainda é melhor que “boa vontade”! – De nada, as enfermeiras estão aqui é para servir – aperta com as mãos a ponta da bata, cruza as pernas e dobra ligeiramente os joelhos com um aceno de cabeça – dispõe!

Após um pente de sueca, para gáudio do taberneiro, os membros do IAS encostam as barrigas ao balcão, pedem copinhos de vinho e conversa: – Que Deus me perdoe – diz um deles depois de um valente “ah” de satisfação e de ter batido com o fundo do copo no balcão – mas esse Pinto da Costa havia de ser do Benfica! – Ou estás bêbado ou estás parvo – ralha um deles – para histórias de malandros já bastam as dos assaltos e burlas dos pneus do Vieira do Benfica! – São todos a mesma corja – interveio outro – até os árbitros comem dessa gamela, portanto não vale a pena estarem aí com conversas que o que eles querem é putas.  – Não sejas assim, a boazona da Fátima Felgueiras deve querer é um bom macho! – disse aumentando o tom de voz, fechando o punho e agitando o braço. O taberneiro assim que via os copos vazios tirava-os logo de cima do balcão, indo pô-los no lava-louça. A conversa continuou: – Sabem o que digo eu? Essa gente: autarcas, esse Isaltino Morais, são todos uma cambada de corruptos. Então lembram-se daquele autarca alentejano que foi queimado no seu carro e cuja cabeça foi roubada do Instituto de Medicina Legal? Lembram-se? – Esticando o dedo indicador continuou como um advogado que acusa – no tempo em que ainda mandava a Isabel Ribeiro, amiga do Moita Flores, aquele de Santarém tão lembrados? Pois acho muito bem que se deixem dessas coisas e joguem lá à bola, que é para ver se não precisam de Pintos da Costa para ganharem campeonatos! – e vá de murro na mesa. – Ó Dinis! São mais quatro vá anda lá! – e aproveitando a palavra continuou – ainda ontem ouvi nas notícias o bastonário da ordem dos advogados a insinuar que até os juízes aceitavam companhia paga para dormir, vejam bem ao que isto chegou! – É verdade – responde outro ao agarrar no copo – até já esse que devia estar bem caladinho, anda a cagar a sua sentença – bebe o copinho de um trago e diz – não tem vergonha nenhuma. Bate com o copo no balcão, limpa a boca à manga e virasse para aquele que já estava a falar – Quando este país começar a ser governado por advogados, – e pondo o dedo no ar calou-se rondando a cabeça em volta olhando todos os presentes, aguardou mais um pouco e concluiu – voltamos ao tempo da escravatura. E já não bebo mais nada.

Ás seis e um quarto da tarde é a hora em que se pode ver o expresso parado à porta da taberna. – Então, muitas gajas hoje? – pergunta Dinis trindade pousando as mãos abertas no balcão.  – Hoje saiu-me um par de inspectores. Dá-me lá um copinho que é para me ir embora.  – Judiciária? – interroga Dinis enquanto serve o copinho. – Epá, pela conversa parecia – e dá um golo no copinho –  ou era o “caso” Portucale, que eu não me apercebi nada do que eles disseram, tenho mais que fazer, ou a “operação” Furacão, voltaram a empregar outra vez o termo “caso” enquanto falavam do Braga Parques – bebeu o resto do copinho – e quando paramos nas obras da A8 comentaram os negócios escuros do grupo Carlyle do senhor Carlucci em Portugal. O mesmo grupo Carlyle onde labora o ex-ministro Martins da Cruz, apeado por causa de um pequeno crime sem importância, o da cunha para a sua filha, o que é que me dizes a isto? – olhou directamente o taberneiro e abriu as palmas das mãos erguendo-as, aguardando resposta. – Pois, com uma conversa dessas, é de quem sabe, não é. Bebes mais um? – Não, tenho que me ir embora, antes que os cachopos cheguem. – Pois é a tal coisa, estamos num pais de “casos”, não estamos num pais de crimes. Até amanhã.

5

Olá muito bom-dia, dá licença? – é a voz de Abílio Graça que se faz ouvir na Padaria que mais cedo abre na Vila do Maranhal. À porta para dentro apenas passou o pé direito e com a mão bate no vidro da porta sorrindo. – Alegria e boa disposição são sempre bem-vindas, entre lá vá! Queres café? – o sorriso de Abílio fora contagioso, Maria Alice já sorria também. -Sim, se faz favor. – e entra esfregando as mãos – Ah! Tu hoje não suspiraste, mas mesmo assim está com um ar chocho, o que é que foi agora? – ainda detêm o olhar nos bolos mas não passa disso mesmo, um olhar. – Agora também não te quero estar a incomodar com as minhas coisas todos os dias. – e começa a tirar o café. – Deixa-te dessas coisas, para que é que servem os amigos? Os problemas partilhados tornam-se mais leves, não é? – Sabes é minha mais velha – disse honestamente e com o semblante preocupado – já está em idade de sair, quer ficar a dormir em casa lá de uma amiga este sábado, e ouve-se por aí tanta coisa – e acaba de tirar o café e serve Abílio – que eu não consigo deixar de ficar preocupada. – Percebo-te muito bem mas nós também temos de lhes dar um pouco de rédea. É inevitável ficar preocupado. – Olha o desaparecimento da Madeleine McCann. – Essa era muito novinha e aquela gente doida. – A miúda desaparecida em Figueira, Portimão. – Que hipóteses é que a tua filha tem de lhe acontecer uma coisa dessas? – Como assim? – Eles noticiam a coisa, mas qual a probabilidade de um caso desses acontecer com os meus filhos? Ó cachopa – e dito isto esticou as duas mãos – a gente tem que os deixar crescer. – Então vá – e dito isto toca com o indicador direito no da mão esquerda como quem inicia uma contagem – o miúdo electrocutado no semáforo, um – agora estica o dedo médio e toca-lhe – o outro afogado no parque aquático. – Tu és maluca – diz Abílio levando as mãos à cabeça – não me digas que sabes isso tudo de cor? – Uma mãe preocupasse com essas coisas, se não é o caso da Casa Pia, é o do padre Frederico, pessoas em quem à partida se confia. – Espera aí – juntando as mãos no peito Abílio sorri e pergunta – ainda registaste mais alguma? – A das crianças assassinadas na Madeira. – depois de responder inclinou a cabeça para o lado e olhou fixamente para o seu colocutor aguardando uma resposta. -Já te percebi. – e bate com a mão na testa – estás assim por causa da excursão que eles vão fazer lá na escola. Não te preocupes, eles vão comigo, é só ali até Coimbra, fica descansada. – mete a mão ao bolso tirando de lá uns trocos para pagar o café dizendo – uma mulher tão bonita e tão preocupada logo de manhã, não fiques assim. “Bonita e boa” pensou Maria Alice enquanto registava os cinquenta e cinco cêntimos do café. – Vá, tem um bom-dia e faz boas viagens. – Obrigadinho. – Eu é que agradeço este desabafo e desculpa lá qualquer coisinha. – Já estava Abílio saindo e acenando com a mão.

Dinis Santos Trindade acorda cedo e bem disposto. Vai lá atrás ao quintal dar de comer à criação e segue para o trabalho. Sai de casa vira à esquerda descendo a Avenida 1º de Maio a pé. Do lado esquerdo da avenida, no sentido sul/norte predomina a paisagem rural, pomares e vinhas contrastando com a zona VIP do lado direito. É aí que Dinis sonha que se tivesse feito tantos crimes de evasão fiscal como fez Artur Albarran, também ele poderia ter uma casa daquelas. Estes pensamentos são todos fruto das conversas na taberna, pois a casa dele situada ao fundo da Avenida 1º de Maio, do lado direito, no sentido norte/sul é uma das maiores e não tem vizinhos. Mesmo assim Dinis lamenta a triste sorte. Ao passar pelo quartel dos bombeiros surge novo lamento acerca das velhas carcaças que servem de viatura de combate a incêndio: “ Se o governo não tivesse gasto o dinheiro todo, o nosso dinheiro, em submarinos, estes desgraçados podiam ter uns camiões em condições.”- Eh Dinis! Bom-dia! – Adeus homem! – e lá prossegue a sua peregrinação rumo à taberna. Com as articulações já marcadas pelo passar do sessenta e quatro anos lá vai caminhado e resmungando que: – Desde a morte de Francisco Sá Carneiro e do eterno mistério que a rodeia que neste país tudo se pode! – e obtém resposta de um cliente: – Olha que não vai continuar sempre assim. – O que é queres dizer com isso? – Então não viste em França a malta nova a revoltar-se? – Não estou a perceber onde queres chegar. – Então não viste agora na Tailândia a malta a revoltar-se a torto e a direito? – Achas mesmo que esta gente é capaz de fazer uma revolução como nós fizemos, achas? – disse franzindo o sobrolho. – Os mais novos sim. – Os mais novos! – quase gritou Dinis de admiração – Então esses nem sabem o valor de uma camisa, compram a crédito, quanto mais uma revolução! Oh, oh tu deves estar é tonto! – e dito isto aponta com o indicador para a testa. – Não. Eu vou-te explicar – abre as duas mãos fazendo sinal a Dinis para parar – esta geração dos trintas e dos quarentas só, quer é luxo, dizem que está uma grande crise mas os velhos lá lhes vão pagando as dívidas, certo? – Certo. – Os filhos deles, portanto os nossos netos, já estão habituados a ter tudo sem esforço, estão feitos nuns egoístas – Eu bem que vejo pelos meus dois – interrompeu Dinis – mas espera – voltando a mandar parar com as mãos – quando os netos, egoístas que estão habituados a ter tudo quiserem dinheiro, trabalho ou alguma coisa e não houver, então aí sim, vão fazer merda. Porque não estão habituados a respeitar nada nem ninguém e a ter tudo o querem sem esforço. – Estou-te a perceber… veremos. – Por falar em perceber, viste as famosas fotografias de Teresa Costa Macedo. Aquelas em que ela reconheceu imensa gente ‘importante’, jogadores de futebol, milionários, políticos, magistrados? – Eu? Eu não tenho sorte nenhuma, nunca vejo nada disso, eu fotografias… só aquela gente que mora ali na minha rua e mesmo assim não são capazes de vir aqui beber um cafezinho.

“Finalmente chegou o fim do dia, pensando bem, ainda não é o fim do dia, é mais o fim desta fase porque já sei que chegando a casa está tudo por fazer, ter fé é uma coisa, acreditar em milagres é outra.” Eram estes os pensamentos que dominavam a cabecinha de Maria Alice enquanto fechava a porta da padaria. Virando à esquerda desce a rua Direita até à Avenida 25 de Abril na qual não perde oportunidade para resmungar com os seus botões acerca do excesso de velocidade com que se transita dentro da Vila do Maranhal. Dois “até amanhã” mais tarde vira à direita e sobe a Rua da Igreja Matriz onde mora, quase ao fundo da mesma, já na zona velha da vila, depois da respectiva igreja. As suas premonições não podiam estar mais certas: tudo por fazer! Depois da gritaria do costume quando os filhos chegam a casa, das rotineiras e não menos obrigatórias tarefas domésticas, do eterno atraso do jantar esperando inutilmente pelo “pai” que, para não fugir à regra, ficou nos bombeiros até mais tarde, eis que Maria Alice consegue finalmente falar com a filha: – Olha lá, explica-me lá uma coisa que eu não percebi muito bem! – Ó mãe agora estou aqui a ver uma coisa no computador! – resmunga a filha mais velha em voz alta. Maria Alice foi ter com ela, puxou uma cadeira, bateu duas vezes com as palmas das mãos nos joelhos unidos e disse: – Só quero que me expliques uma coisa se fores capaz. – Diga lá o que é! – retorquiu a miúda sem tirar os olhos do computador. – Hoje elas estavam lá com uma conversa na padaria que eu não entendi nada – Ah! E então se a mãe não entendeu, como é que quer eu entenda? – Ouve. Elas falavam acerca da filha de uma que ainda mal começou o terceiro período já recebeu um recado em casa sobre a prova de recuperação que ela teria que fazer para a semana. Não percebi nada. – Mas o que é que a mãe não percebeu? – Então se a miúda chumbou por faltas, fez um teste de recuperação, chumbou, e agora já tem que fazer outro teste de recuperação, não faz sentido. Tu que andas na escola explica-me lá isso. – Então é simples – começa a resposta sem tirar os olhos do computador – A filha dela não chumbou por faltas, passou o limite de faltas – e apontou com o dedo indicador para o tecto, fazendo-o girar – por causa disso a professora no final do período tem de lhe fazer um teste de recuperação porque ela está na escolaridade obrigatória, estás a perceber? – Sim, ainda não fez o nono ano. – Por agora, porque depois o décimo segundo é que passa a ser obrigatório. Depois, nas reuniões da Páscoa, os professores que deram negativa tem de fazer um plano para os alunos cumprirem para que consigam ter positiva – Então mas se eles chumbaram? – Não, apenas não tiveram positiva no teste de recuperação que tiveram de fazer por causa das faltas, estás a perceber? – Mais ou menos. – Agora no terceiro período os professores vão ter que lhes fazer, a todos aqueles que excederam o limite de faltas e não tiveram positiva no teste de recuperação, novos testes de recuperação até eles terem positiva. – Isso é anedota? Eu não percebi as coisas e tu queres é gozar com a tua mãe. – Não, nada disso. – e dito isto finalmente virou-se para a mãe que já estava de braços cruzados a escutar a filha muito atentamente com as sobrancelhas muito carregadas enrugando-lhe a testa. – Mãe – disse virando as palmas das mãos para a Alice com quem manda parar – os professores por cada um desses alunos, tem que ter um plano de recuperação, se o aluno voltar a ter negativa, então é porque o plano do professor não resultou. Tem que fazer novo plano, novo teste de recuperação, até que o seu plano, o do professor para aquele aluno, resulte, percebeste? – Então se ela não estudava até agora, vai passar a estudar? – Isso não interessa! – E se voltar a faltar? – Também não interessa porque o problema agora passa a ser do professor visto que o plano dele para aquele aluno não funciona, percebes? O problema está no professor que tem que explicar porque é que não é capaz de ensinar àquele aluno! – Então e a ministra sabe que isso é assim como tu dizes? – perguntou Maria Alice inclinando a cabeça. – Mãe – quase que grita – é o que está na lei! – e volta a mostrar as palmas das mãos encolhendo os ombros. – Isso assim não tem jeito nenhum. Vocês assim aprendem lá alguma coisa, que parvoíce. – Mãe, tu não vez as notícias? Não és deste mundo, dah! Então se o primeiro-ministro tira um curso superior sem ir às aulas, se o pessoal anda por aí a conduzir aqueles carrinhos de corda sem carta, quem é que precisa de aprender seja lá o que for? Diz-me? – Assim os alunos estão metidos em apuros. – Não quem está com problemas são os professores, porque eles é que vão ser avaliados e é se querem para o ano ter emprego! – agora já aponta novamente com o dedo para o tecto, virando-se para o computador. – Então e quando forem para a universidade? – Ó mãe, deixa-me lá fazer aqui uma coisa! – Ó filha eu já te deixo em paz. Pelo que eu percebi, quando chegarem à idade de ir para a universidade não sabem nada! – Qual delas mãe, a Universidade Independente ou a Universidade Moderna? – disse com cara de gozo. – Lá estás tu com essas atitudes, sai mas é daí que já se faz tarde! – ditando a sentença levantou-se e puxou a cadeira da filha. – Só mais um bocadinho! – Mas despacha-te que eu ainda preciso de ir aí ver umas coisas.

6

-Este fim de semana até estava sol, fomos só beber um cafezinho à praia, que isto não dá para mais, mas já que estávamos ali, não é, fomos jantar ao shopping, tivemos que aproveitar a oportunidade, como somos só quatro e vinte euros para o jantar e mais dez já com gelados e café, também não é assim tão caro como isso. A chatice foi arranjarmos lugar para nos sentar. – Fizeram vocês senão bem, é o que se leva desta vida! – Podes crer! Farto-me com trabalhar aqui, acordar cedo, chegar a casa e ter sempre tudo por fazer… – Como eu te compreendo. – Ao menos ao Domingo sempre tenho uma folgazita – Aproveita! –  e o meu homem, não sei lá porque estranho milagre, até ficou em casa depois do almoço! – Ai sim? – Coisa rara. Depois da missa enquanto fazia o almoço começou com umas conversas de ir beber café à praia, não me fiz rogada, que isto está mau lá isso está, mas os cachopos também merecem sair um bocadinho, não é? – Claro, então não? Sempre sais daqui e arrebitas um bocadinho. – Arrebitar, eu? – Sim às vezes pareces que andas um bocado chocha. – Ó filha, estas saídas fazem tão bem nem que seja só para encher o olho! – E ainda não é Verão e já mudou o teu arzinho. Agente o fim-de-semana passado também estivemos lá. – Onde? – No Centro Comercial! – Ah! – E eu não percebo, aquilo estava cheio! – O shopping todo? – exclama Maria Alice fazendo uma cara de espanto. – Nããão… – devolve a sua companheira de tagrelice – só a zona dos “comes”, que isto está uma crise que não pode dar para tudo.

Terno de espadas! – grita uma voz – Isso é um terno de espadas! – repete gritando a mesma voz enquanto aponta com o dedo para a carta que um dos adversários jogou. – É. – responde o que jogou fechando os olhos. – Pois – riu-se o que o acusava de ter jogado o terno de espadas – eu não fechei os olhos, tu não assististe à segunda ou terceira vaza que foi puxada a espadas. – Renúncia! – grita o colega de equipa daquele que acusou o outro de ter jogado o terno de espadas e dito isto baixa o jogo mostrando as cartas e levantando os braços na cadeira. – Mostra lá onde é que isso foi. – Pede o colega de equipa do jogador acusado de não ter assistido. Fez-se silêncio na mesa enquanto que o denunciante procurava a vaza onde podíamos ver o rei de espadas, jogado pelo próprio, a quina de espadas, jogada pelo que reclamava, a dama de espadas, jogada pelo colega de equipa e – Aqui está! Uma quadra de ouros. Até estranhei ele não ter cortado com trunfo uma jogada de seis tentos! – Porra pá! Quem joga assim são os rapazitos! – esbracejava enquanto espalhava as cartas pela mesa. – Não me apercebi. – foram as suas parcas palavras de defesa. – Ah! Não te apercebeste! – continuava o ataque. Apercebendo-se que tinha que recorrer a mais argumentos em defesa própria o prevaricador puxou da palavra dizendo: deixa estar que eu pago a despesa sozinho. – ouvem-se arrastar cadeiras e três homens já em idade de reforma erguem-se puxando as calças e gargalhadas. O que permanece sentado arruma as cartas. – Ó Dinis, dá lá aí mais uma rodada que pago eu! – gritou apontando com o dedo para eles os quatro. – Ah! Não me apercebi! Isso lá são maneiras de um homem de tua idade jogar? – continua dizendo em voz alta o derrotado por culpa do colega. – O que é que tu queres? Processar-me? Enganei-me pá, pronto! – Processar-te, processar-te, onde é que tu tinhas dinheiro para perder uma causa em tribunal? – e os copinhos de tinto chegam ao balcão – Até parece que tu agora também tinhas dinheiro para me abrir um processo! – Estás a querer dizer que a justiça é só para os ricos? – calou-se e bebeu parte do copinho, entretanto um dos laureados com a vitória intervêm – Ele tem razão. – O quê! Agora também tu o vens defender? – e a vozes começaram a soar mais baixo, mas pouco mais. – Precisavas de dois meses de reforma para lhe abrir um processo! – diz em tom perfeitamente normal o quarto jogador que já se tinha juntado ao trio, estando agora o quarteto completo junto ao balcão. Agarrou o copinho, bebeu um pouco e continuou: – Se precisares lá de um daqueles papéis que é preciso fotocópia, são doze euros cada folha! – O vinho já vos está a subir à cabeça, então onde é que já se viu uma coisa dessas? A justiça também é para os pobres. – E tu ainda acreditas nisso? – A justiça para os pobres só se for a divina! – Toda a gente sabe que só quem tem dinheiro é que tem acesso não é à justiça, é aos tribunais. – Não se trata de ser justo, trata-se de ser rico. – Ou de ter dinheiro para pagar a um chulo de um advogado que seja mais malandro que o outro. – Dois meses de reforma? – perguntado isto em voz alta, fez-se um certo silêncio, o que foi bom, porque já não se percebia quem é que dizia o quê. Interveio Dinis Trindade: – Da tua reforma sim. Foi o que deu nas notícias. Dizem que é para desencorajar quem quiser processar o vizinho por “dá cá aquela palha”. – Então mas assim os coitados dos pobres deixam de ter direito a justiça! – E desde quando é que neste país há justiça para os pobres? – E na saúde é a mesma merda! – Só quem tem dinheiro é que pode estar doente. – Um gajo se precisar de alguma coisa tem de ir aos privados. – Pois aqueles que trabalham no estado para ter direitos mas depois vão para o privado para ganhar dinheiro. – Ó Dinis! Serve aí mais quatro, se faz favor. – esta voz quase que fez nova pausa na discussão onde todos estão de acordo. – Ah eu não bebo mais. – Não só bebes, como vais pagar! – e a discussão continuou agora incidindo sobre o facto de os juízes virem a público comentar que a maioria absoluta é um perigo numa sociedade de direito, tendo o governo já dado provas de despotismo – E como se não bastasse o homem disse ainda que os polítcos querem mandar mais do que a justiça! – gritou abanado a cabeça. E é assim parte do dia de Dinis Santos Trindade, que já vai chamando “muro das lamentações” ao balcão da taberna.

O acesso à Vila do Maranhal é feito pelo norte circulando pela Avenida 25 de Abril. A última paragem situa-se antes do cruzamento com a Avenida 1º de Maio do lado direito e a Rua da Igreja Matriz à esquerda, é ali a última paragem oficial, porque ao retomar marcha rumo a casa, a próxima vez que o autocarro se imobiliza é num apeadeiro em frente à taberna do Dinis. Quando viaja alguém que fique no fim da vila, o Sr. Abílio, eu diria que sem favor até desenrasca o passeiro. Nunca às seis e um quarto! Quer dizer, se o passageiro não se importar de esperar um bocadinho… ou melhor ainda se quiser vir beber um copo? Está à vontade! – Então boa tarde! – saudou Abílio ao entrar na taberna. – Ora viva, é um copinho? – perguntou Dinis Trindade. – Cheio! – respondeu esfregando as mãos. – Então e gajas? Vistes muito decotes hoje pelo espelho? – inquiriu enchendo o copo e servindo. – Opá nem queiras saber! Agora no lugar da frente vinha sentado um casal, deves conhecer, de estudantes universitários…  – Ele vinha a apalpá-la? – interrompeu o taberneiro. – Não me interrompas! Ouve. Eles disseram-me que já foi condenado à prisão, o primeiro português por pirataria musical na Internet!… O Indivíduo poderá passar entre 60 a 90 dias atrás das grades por ter feito o download e partilhado música ilegalmente com outros utilizadores! O que é que me dizes a isto? – agarra no copinho e beberica. – Digo-te que a justiça portuguesa está de Parabéns! Depois de anos e anos a batalhar eis que surgem os primeiros resultados: prender um cachopo que copiou umas músicas na internet, sim senhor! – É assim. – disse Abílio encolhendo os ombros. – Pois é. – respondeu Dinis retirando o copo vazio de cima do balcão. – É o que se pode arranjar.

7

A Maria Alice lá está com os seus fios e brincos de fazer de conta, porque o dinheiro não chega para tudo, tem que acordar cedo para ir ganhar o ordenado mínimo, coisa que faz sempre contrariada, senão ouçamos: – Olá Mari’Álice! Dá-me meia dúzia de bolinhas! – Bom-dia, queres mesmo meia dúzia? – responde dirigindo-se à ponta do balcão, junto da entrada onde se encontra o pão e a cliente – É, chega! Se calhar é melhor não… – Decide-te lá. – diz enquanto enfia a mão direita numa luva plástica própria para o efeito – É melhor oito – Assim seja, duas, quatro seis… – vai contando enquanto enfia as bolinhas no saco que segura com a mão esquerda – ora aqui está! Oito bolinhas! – Quanto é? – Ora oito… são um euro e quatro cêntimos. – Valha-me Deus tão caro! O pão no Modelo custa cinco cêntimos e aqui é mais do dobro! – E eu preocupada! – exclama enquanto pendura as mãos na cintura– Olha sabes, é um e quatro não é? – Sim – aguardando enquanto a cliente chocalha as moedas na carteira – Eles lá é que fazem o próprio pão! – Não é nada, eles compram-no congelado… – e vai abanando a cabeça com um ar impaciente – Ora aqui tens um e dez, porque é que não são as padarias a fornecer-lhes o pão? – recebe as moedas e enquanto se dirige à caixa vai respondendo – Então porque os patrões, estes anos todos foi só abotoarem-se, é só venha a mim, haviam de abrir era falência. – Então mas assim lá se ia o teu emprego! – abre a caixa escolhe o troco, dirige-se à cliente – E eu ralada com isso, agora o primeiro-ministro diz que o subsídio social de desemprego… – O que é isso? – É aquele que se recebe quando acaba o fundo de desemprego, vai ser igual ao ordenado mínimo, vou trabalhar para quê? Tenho lá muito que fazer em casa. – Bem eu tenho que ir andando, deixa-te mas é dessas coisas – e vai saindo – Vá, bom-dia!

Na taberna. Então e na taberna? No meu muro das lamentações? – pergunta Dinis Trindade – Sim. – O mesmo, chegamos à brilhante conclusão de que só faz greve quem tem dinheiro para isso. – Como assim? – Então não viram a greve dos notários e dos registos e de lá daquela gente que só fingem que trabalham? – Sim, o que é que tem? – Então quem é faz uma greve de dois dias, encostada a um feriado que calha numa sexta-feira? É só mesmo quem pode? Só quem ganha muito bem e está armado em doutor é que pode dizer que umas férias de cinco dias se chamam greve! Haviam de ser como eu! Que por aqui me arrasto cheio de dores, já nem posso. Tenho que tratar da criação, tenho que aturar estes bêbados todos, a mim ninguém me deixa fazer greve! Vejam lá os hotéis se não estão cheios de turistas portugueses? Andam todos de roda das brasileiras e das russas… Só a mim é que não me toca nada! – Ó Dinis! Estás-te a passar ou quê? –  Porque é que dizes isso? – o cliente entra, levanta as mãos para o céu e diz – Estás a falar sozinho! – Ah é por isso, não! Estava só aqui a magicar se o jornalista ali da televisão me entrevistasse, era só isso… – Tira-me lá um café, faz favor. Estás com cara de danado. – E Dinis lá vai respondendo enquanto tira dois cafés. – Sabes, é que isto também não está certo, anunciam tanto a crise, mas é só aqui para a gente, aqui estes comerciantes todos é que estão f******. – Então porque? – Os clientes fogem todos para os centros comerciais – cafezinhos prontos e em cima do balcão – e não fica aqui ninguém – pacotes de açúcar a rasgar – vê tu bem que até arranjam a estrada que vai para o Modelo! – colherzinhas a bater – esses Modelos e Continentes parecem cogumelos a nascer, e depois diz que há crise, não percebo! – agarra na chávena e sorve um pouco de café o que por sua vez dá oportunidade ao seu interlocutor espaço para diálogo – não te esqueças dos centros comerciais – e aproveitando que Dinis não diz nada, continua – dão emprego a essa malta nova e quem já estava mais ou menos orientado fica desempregado, essa é que é essa! – Dinis bateu com a chávena no pires e passou-se! – Então olha lá onde é que já se viu meio milhão de desempregados e meio milhão de casa por vender?  Então, estou-me a passar, ou isto está tudo ao contrário? – Epá, sinceramente não está. – Não? – Não, isto sempre foi assim: os ricos é que mandam e a burguesia sempre quis ser nobre, pronto.

– Então pá? Isto é que são horas? – diz o taberneiro apontando para o relógio – Nem queiras saber – As gajas?! – Pior, um atentado terrorista – passa a mão na testa como que limpando o suor e aproxima-se do balcão – Um atentado? Isto aqui não é lá o Iraque ou a América – retorquiu o taberneiro enquanto punha o copo em cima do balcão – Não, mas a polícia cercou o centro comercial do Campo Grande, ninguém entrava – copo cheio, mão no copo – foi uma confusão, o metro ficou parado na linha verde e na amarela –enquanto levava o copo à boca, Dinis Trindade aproveitou para perguntar – Mas que raio de conversa é essa? – copo vazio a bater no balcão, toc! – encontraram lá um saco ou uma mochila suspeita e evacuaram aquela merda toda! Parecia um filme!

Desta vez Abílio chegou a casa depois dos filhos e na manhã seguinte voltou-se a repetir a rotina, aquela história do every day life!

8

“Valha-me Deus! Já está aquela coisa a tocar!” são os pensamentos que segura com as duas mãos na cabeça. Enquanto o braço direito se estica, lenta e automaticamente, até à mesinha de cabeceira, o corpo inclina-se ligeiramente acompanhando novo pensamento: “ e isto ainda aqui está a dormir.” Desliga os despertadores. “Só mais um bocadinho.” Se bem pensou, se bem que com tanto sono não dá para pensar bem, melhor o fez. Acordou em sobressalto! “Porra! Outra vez atrasada, isto começa bem… tenho que me despachar.” Já a descer a Rua da Igreja Matriz é acompanhada pela resmunguice do costume: “Que desperdício de mulher, um mulherão destes, boa para tanta coisa que eu cá sei, vai para uma padaria aturar aquela gente” e o passo segue apressado.

“Ora aqui está um homem que não me pode levar ao altar porque já um me levou! Se bem que até nesse dia se embebedou.” pensava Maria Alice antes de dar os bons dias ao Abílio do autocarro. – Olá cachopa, bom-dia! – diz entrando na padaria com um grande sorriso e boa disposição. – Olá, queres um cafezinho? – é o que diz, mas o que pensa tem mais o ver com a cama, ou com outro sítio qualquer, porque tanto a cama dela, como a dele, coisa que ela ainda não imaginou, estão ocupadas. – Sim, se fazes favor. – Então como é que correu? – foi o que perguntou mas na cabeça ficou-lhe “Eu depois dizia-te como é corria!” – Tudo bem graças a Deus – cotovelos no balcão e dedos entrelaçados – Conta! – diz enquanto agarra o manipulo – A viagem daqui a Coimbra faz-se bem, é só auto-estrada praticamente. – E os cachopos, portaram-se bem? – Impecável, as professoras são de gancho, não lhes deram muitas abébias… – Ora, um café – … obrigado, mas o mais espectacular foi o Sr. que está lá na biblioteca Joanina – Então? – olha o homem é um poço de sabedoria, explicou aquilo tudinho, até as pinturas no tecto! – É professor de história lá na universidade? – Aí é que está o espectáculo, é um simples porteiro, mas explicou com uma paixão, com um conhecimento, aquilo tudo que só visto. – Então melhorem-lhe a emprego. – Aí é que está a verdadeira humildade, o homem pediu para não dizermos nada a respeito dele… – Porquê? – …porque como não é doutor, não lhe reconhecem o conhecimento e querem que ele apenas faça o trabalho dele… – Que é? – Picar bilhetes. Tenho que ir andando. Mas o mais espectacular foi a entrada na igreja. – diz já a receber o troco – O que é que se passou? – A entrada é paga! – Normal pagar-se entrada num museu, não é? – pergunta Maria Alice acompanhando Abílio até à porta pelo lado de dentro do balcão – Sim, mas aquela igreja não está dessacralizada… – O que quer dizer que se celebra lá missa, dessas coisas percebo eu! – Sim, nunca tinha visto pagar-se entrada numa igreja. – Digam ao reitor da Universidade! – já quase que grita à porta da padaria, Abílio ainda responde enquanto abre a porta do autocarro – Até para ir à casa de banho se paga entrada, tchau! – Ai filho, era aí mesmo no autocarro! Esta já não lhe saiu pela voz, ficou-lhe nos apetites, o único som que se pode depreender terá sido um suspiro, ao ver-se o peito dela, aquele peito volumoso e à vista, a subir e a descer, pois o barulho do motor sobrepõe-se ao suspiro.

Depois do Abílio do autocarro se ter ido embora, de muitos papo-secos vendidos e bastante conversa de deitar fora eis se não quando surge cara nova no “pedaço”. Um brasileiro que a galanteou de uma forma que ela só se lembra de ter visto na televisão. Depois de muitos calores e suspiros, a saída do brasileiro deixou mossas. Mas bem disfarçadas. Pela cabeça de Maria Alice passam os filhos, a família, as conversas que por aí andam e dizem que não é preciso ser-se a família tradicional, constituída por pai, mãe e filhos, não é? – questiona-se a própria Alice – mas uma mulher também deveria poder gozar-se do próprio corpo, está para aqui este desperdício de material, que já sei o que me espera esta noite, quando sair deste pequeno inferno, espera-me outro: os miúdos e as coisas da casa tudo por fazer, à noite se não for a internet onde é que vou buscar consolo? Àquela coisa? Meus ricos filhinhos. Quando vocês nasceram foi de uma maneira responsável e com maternidade responsável, que eu não sou qualquer uma. – Bom-dia! – Bom-dia, diga! – São dez bolinhas, se faz favor. – Ora duas, quatro, seis, oito, dez, aqui tem. – Quanto é? – Um e trinta, se faz favor. – Um e trinta trocadinho e tudo. – Faz sempre jeito muito obrigado e bom dia! – Bom-dia. – continuando: também há quem defenda que as chamadas famílias alternativas, mono-parentais ou co-parentais, desenrascam e as crianças também já estão a ficar crescidas, uma mulher também tem direito a aproveitar a vida, ou não será assim? Quer dizer lá por um casal estar estável, a boa educação não está garantida à partida, em bem sei o que me tenho desunhado para educar aqueles dois! – Olá Mari’Alice, bom-dia! – Olá cachopa, bom-dia! – Então? Tudo bem? – Tudo bem graças a Deus, o que é que te trás por cá? – Vi beber um cafezinho contigo. – Fizeste tu muito bem e mais alguma coisa? – Dá-me também um bolinho daqueles. – diz apontando para uma bomba calórica – Este aqui? – Tens de dieta? – Não – Então pode ser esse… Estás com um ar de quem comeu e não gostou, diz lá o que é que tens? – Olha estava para aqui a pensar no que se passa agora com essas famílias todas modernas que alguns dos colegas dos meus filhotes vão tendo. – Nem penses nessa gente! Há alguma coisa que reúna melhor as condições sociológicas e afectivas para a educação de uma criança do que uma família como a nossa ou quê?

Neste pente, os jogadores são outros, que não o IAS. O Zé da América com o Tonho da França contra outros dois que por lá bebericavam o seu copito, sem mais nada para fazer. Baralhar; partir e dar. O trunfo é ouros! – Esteve cá o meu genro, que é americano, fartou-se, passou-se da cabeça com esta história de a gente estar a sempre a dizer que isto está mau! – Começa o Zé da América: ás de espadas; quadra de espadas; rei de espadas; terno de espadas. – Então porquê? – Dizia que se fartou da nossa conversa de sermos pobres… – Zé da América a puxar a vaza: manilha de espadas; duque de trunfo; sena de espadas; manilha de copas. – Afinal o que é que ele disse? – A verdade é diz que não percebe porque que é que não temos aquecimento na casa, só com a desculpa de poupar luz. É que a luz de cá é 80% mais cara do que lá! – E como é que sabes que é exactamente 80%?  – Jogador do duque de ouros puxa com rei de copas; terno de copas; valete de copas; sena de copas. – Porque ele diz que fez as contas e são precisamente os mesmos 80% que as chamadas de telemóvel, por causa desse valor, decorou o número. – Mais baratas cá? – Não, eu explico: cá a luz e as tarifas dos telemóveis são 80% mais caras do que na América, e nós podemos pagar isso tudo. Ora se nós suportamos esses preços é porque não somos pobres. – Jogador do duque de ouros: quadra de trunfo; terno de trunfo; quadra de copas; valete de trunfo. – Joga e cala-te. – Zé da América: duque de copas; quina de trunfo; dama de espadas; quina de copas. – Não te estejas a rir, é que lá também as comissões bancárias por serviços e os cartões de crédito custam três vezes menos. E ainda vos digo mais, ele deu-me um exemplo que explica tudo muito bem explicadinho: um carro que lá custa 12.000 Dólares, nós cá pagamos mais de 20.000 Euros, pelo mesmo carro? Podemos dar mais de 8.000 Euros de presente ao gajos do governo e eles não! – É o Zé da América a puxar: sena de trunfo; ás de trunfo; – E se te calasses e concentrasses no jogo? – diz jogando a  dama de trunfo; ás de copas. – Porquê? Não acreditas, é? – Eu quero concentrar-me, já nem sei o que é que saiu e isso tudo até parece mentira. – Então houve esta: e depois nós é que somos pobres: por exemplo em Nova York o Governo Estatal, tendo em conta a precária situação financeira dos seus habitantes cobra somente 2 % de IVA, mais 4% que é o imposto Federal, isto é 6%, nada comparado com os 20% dos ricos que vivem em Portugal. – É a vez do jogador do ás de trunfo começar: duque de paus; – E contentes com estes 20%, ainda pagamos mais impostos municipais. – Joga! – ás de paus; quina da paus; valete de paus. – Não, diz que a gente cá pagamos mais do triplo do que eles lá, por um litro de gasolina. – A sério? – E ainda por cima temos “ impostos de luxo” como os da gasolina e gás, álcool, cigarros, cerveja, vinhos etc., que faz com que esses produtos cheguem em certos casos até certos a 300 % do valor original, e outros como imposto sobre a renda, impostos nos salários, impostos sobre automóveis novos, sobre bens pessoais, sobre bens das empresas, de circulação automóvel e mais uns poucos que servem para tirar dinheiro a quem o tem, certo? – Zé da França: valete de trunfo; sena de paus; – Porque se os portugueses não tivessem dinheiro para pagar isto tudo não pagavam, certo? – Tu não te calas? Joga! – e ele jogou o duque de espadas; dama de paus, e continuou – Um Banco privado vai à falência e a gente que não temos nada com isso pagamos, outro, uma espécie de casino, o vosso Banco Privado dá o berro, e vocês protegem-no com o dinheiro que enviam que devia ser para o Estado. Mas ainda há mais: pagamos ao Governador do Banco de Portugal, um vencimento anual que é quase 3 vezes mais que o do Governador do Banco Federal dos EUA… E depois o gajo goza com a gente perguntando se somos pobres, estão a ver isto? – A verdade é que não deixa de ter razão. – diz um dos outros dois que por lá bebericavam o seu copito sem mais nada para fazer. – Reparem bem: – continua o Zé da América – um país que é capaz de cobrar o Imposto sobre ganhos por adiantado, aquele do especial por conta, e bens pessoais mediante retenções, necessariamente tem de nadar na abundância, porque considera que os negócios da nação e de todos os seus habitantes sempre terão ganhos, vão ter sempre lucros!  – Zé da França: rei de trunfo; dama de copas; – Então e apesar dos assaltos, do saque fiscal, a corrupção dos seus governantes e autarcas? – A esses gajos a gente pagamos ordenados irreais e ainda lhe damos uma pensão vitalícia… portanto deixem de merdas, somos pobres onde? – Joga! – jogou a quina de espadas; quadra de paus. – e continuou a falar – Mas ele ainda disse mais, finalmente queixou-se, dizia que os pobres são eles, os que vivem nos Estados Unidos e que não pagam impostos sobre a renda se ganharem menos de 3.000 dólares ao mês por pessoa, isto é mais ou menos 2.370 Euros. Que a gente podemos pagar impostos do lixo, sobre o consumo da água, do gás e electricidade. E é verdade que pagamos segurança privada nos Bancos, urbanizações municipais, enquanto que eles lá, como são pobres, conformam-se com a segurança pública. – Vai falando mas vai jogando também… – Zé da França: valete de espadas; rei de paus; manilha de paus; terno de paus. – E que a gente cá enviamos os filhos para colégios privados, enquanto lá nos Estado Unidos as escolas públicas emprestam os livros aos cachopos prevendo que não os podemos comprar. A gente não é pobre, gastamos é muito mal o dinheiro. E salta à vista, as eleições podiam ser todas no mesmo dia, sempre se gastava menos dinheiro, ou não? – Sabem o que é que eu vos digo – aproximou-se Dinis da mesa de jogo, visto ter chegado o final da partida – Os Portugueses são uns estúpidos e uns mansos de merda! Vocês não bebem nada?

Seis e um quarto. Ora então se são seis e um quarto isso quer dizer que o autocarro está parado em frente da taberna e se o autocarro está ali, o Abílio estará lá dentro. Não falha nada! E, se o Abílio está na taberna o Dinis está-lhe a perguntar pelas gajas: – Então e as gajas? – pergunta (lá está!) Dinis Trindade. – Opá – resposta do respectivo – a meio do dia vinha lá uma… – E era boa? – interrompe Dinis. – Deixa-me lá falar! – foi a resposta do condutor do autocarro fazendo “stop” com as duas mãos – Era uma daquelas professoras que no verão vão para o fundo de desemprego e então… – Vão porque querem! – reclama Dinis Trindade – Deixas-me falar? Porque querem não! – Então e não podem arranjar outro emprego qualquer? – volta Dinis a interromper – E depois – ignorando a interrupção continua o condutor do autocarro – quando começar a escola como é que fazem para deixar o emprego que tiverem arranjado, hum, diz-me lá? – Isso… em havendo vontade tudo se resolve… – Bom, mas deixa-me continuar: ela comentou que faz horas extras na escola… – E ainda se queixa? Porquê? Não há professores? – Não, na escola dela já se verifica uma grande falta de professores e então ela faz horas extra. Mas o engraçado é que já recebeu! – E então? – Repara: ganhou cento e sessenta e sete euros e umas borras; descontou para a Segurança Social dezoito euros e umas borras; ficaram lá para o IRS cinquenta e um euros e umas borras; recebeu noventa e oito euros e umas borras, os quais para os ganhar tem de se levantar às cinco da manhã todos os dias porque lhe mudaram o horário… – Assim nem vale a pena… – Espera que ainda há mais: ela estava a chegar lá do Registo Automóvel do raio que a parta, – e dito isto recorre a um gesto com a mão, como quem enxota moscas, que, seja dito em abono da verdade, como explicação, não serve efectivamente para nada – daquele que fica ali ao pé da Rotunda do Marquês e antes da casa do teu primo Sócrates… – Eh lá! Ofender não vale! Se continuas assim já não bebes mais! Eu sei lá onde é que é isso… é lá para Lisboa. – Pois, e então ela acabou de pagar o carro, vê bem um carro com dez anos, e foi lá para tratar da hipoteca… – Para passar o carro para o nome dela? – Sim, adivinha lá quanto é que custou? – Sessenta ou setenta euros foi o que eu ouvi dizer por aí. – Noventa e oito euros e umas borras! – Então o teu primo que não venha para aí dizer que somos um país pobre, porque dinheiro, eles recebem com fartura, agora vamos lá a saber é o que é que fazem com ele! E pelo menos a gaja era boa?

9

Isto custa. – Pensa ainda de olhos fechados – valha-me Deus que bem pode – se estivesse mais alguém acordado naquele quarto, por certo teria escutado esta voz – ainda por cima esta coisa ressona – mas agora são apenas os pensamentos ao olhar para o marido – sabe andar lá até às quinhentas nos bailes, ou nas festas, ou lá no raio que os parta que eles organizam, mas convidar-me já não sabe. Após a tortura que é acordar de contra vontade e alguns cuidados com a beleza, pelo menos o decote servirá para que ela própria se motive ao olhar-se ao espelho e apertando aquelas mamas enormes, um sorriso sobe-lhe sempre à cara “Que desperdício…” esse pensamento que a acompanha é que não ajuda nada. Chegada à padaria, depois de passo acelerado para chegar a horas, eis uma lufada de ar fresco, o Abílio do autocarro! – Olá cachopa! Hoje vens toda jeitosa! – Ai! – ficou logo desarmada – um elogio! – dito isto agarrou-se aos próprios braços cruzando-os, o que fez com que as mamas ficassem mais apertadas e pareçam ainda mais volumosas – isso nem parece teu! – até um rubor lhe chegou à cara. – Há dias em que um homem acorda mais bem disposto – vai entrando e sorrindo, todo alegre – e então a ver assim as flores logo de manhã… – Queres café? – Sim, se faz favor, não vi cá só para te ver. – Ai não? – respondeu já a brincar, enquanto tirava o cafezinho, sem estar corada – pensei que sim. – Quer dizer – retorquiu Abílio já com os cotovelos em cima do balcão e esfregando as mãos – não foi só, mas também. – Ah bom – diz na brincadeira – estava a ver que me desprezavas. – Quem eu? Nunca! – e nisto é servido o cafezinho – A noite correu-me bem… – dito isto sorri, agarra no café e beberica. “Já eu não posso dizer o mesmo” pensa Maria Alice enquanto finge que limpa umas migalhas do balcão baixando o olhar para não se notar a tristeza. Lá ficou, cabisbaixa, até mesmo triste envolta num semblante nostálgico pensando na alegria e calor que as mulheres como ela, da idade dela, devem sentir numa bela noite de sexo. “As raparigas novas tinham muito que aprender comigo”.

A meio da tarde estava ela e limpar a bancada onde está a máquina de cortar o fiambre, de costas para a porta, sozinha, sem clientes, quando de repente ouve com um sotaque brasileiro – Oi boneca! – Virou-se muito rapidamente e respondeu de imediato, quase sem pensar – Boneca não, que há aqui muita carne! – o brasileiro que ia a entrar parou, juntou as mãos, esbugalhou os olhos em admiração, gesticulou com a boca um “uauh!” que saiu sem som, só se notou que era um “uauh” pelo gesto que fez e não perdeu mais tempo, nem a oportunidade para responder – Graças a Deus! Já somos dois a pensar o mesmo. – e agora sim, agora é que Alice se apercebeu do que tinha dito. Corou. – Você está corando? – e ele desferiu um ataque de elogios que a deixaram sem resposta, tentando baixar um pouco o queixo para não se notar os sorrisos que não conseguia conter. Foi salva por uma cliente. “Raios partam a velha tinha que aparecer logo agora.”

“Menos um dia!” pensa Dinis Trindade – “ainda há um bocado estava a fazer a barba, cheio de dores aqui nas cruzes e já está aí o autocarro.” – Ó da taberna dá licença? – e bate com as solas dos sapatos uma na outra, fazendo continência como numa parada militar e continua – estás cá com uma cara, é por me veres? – ao que o taberneiro respondeu – Ainda se fosses uma gaja boa! – Tens bom remédio, contrata uma daquelas  russas todas boazonas para trabalhar contigo, pode ser que fiques mais bem disposto. – Ah! Para depois eu não a perceber e vocês é que andavam lá de roda? Não querias mais nada! – dito isto o sorriso invadiu-lhe a cara e o dedo no ar apontava ameaçador qual mestre escola dos tempos antigos – Aquilo não tem muito por onde se perceber, está tudo à vista! – Com a roupa que elas usam nem deixam espaço à imaginação, vê-se tudo. – Então e o que é que querias melhor? – Ainda me morriam os clientes todos de ataque de coração. – Dá-me lá um copinho, faz favor. – Elas usam pouca roupa é por causa da crise. – Nem penses numa coisa dessas! – Então é porquê? – Por falta de dinheiro não é? – Então achas que elas se andam a meter aí debaixo dos gajos para quê? – Já te disse que por falta de dinheiro não é. É a moda. Andam todas de umbigo à vela e de mamas de fora porque está na moda. – Só falta andarem despidas porque aquilo que elas trazem à volta da cintura não é uma saia, é um cinto. – Sabes porque é que eu digo que não é da crise? – Então? – Vinha a ouvir as notícias no rádio e eles dizem que cada português gasta por ano 780 e tal euros em roupa… – Não pode ser! – Pode, pode! E nos grandes centros urbanos a malta gasta mais!

Aquela conversa ficou-lhe “a moer na ideia”. Com tanta gaja boa que por aí há, a querer já assim homens maduros, ainda arranjo uma para trabalhar aqui, aumentava a clientela.

10

Para a Maria Alice é mais um dia com mais do mesmo, acordar cedo e de contra vontade, abrir a padaria, olhar-se ao espelho, ficar contente com o que vê e ao mesmo tempo com pena “que desperdício” e lá fica perdida nestes pensamentos até chegarem os primeiros clientes. Logo após a visita do Abílio do autocarro, o sorriso fica mais composto, o rosto mais coradinho e os pensamentos mais malandrecos. Lá pelo meio da manhã, já quase toda a gente comprou o pão que tinha a comprar. Lá aparece uma ou outra cliente para conversar um bocadito, beber um cafezinho, fumar um cigarrito e até mesmo para comprar meia dúzia de “bolinhas”. Foi o caso: depois de comido o bolo, bebido um café, a cliente veio até à porta fumar um cigarrito, a seguir a ter limpo a dedada na montra onde a cliente deixou a impressão digital após ter apontado para o bolo que queria, Maria Alice fez-lhe um pouco de companhia. Então o que contas? Que tal o fim-de-semana? – Olha nada de especial. – diz Maria Alice – ainda se falou lá em casa em ir para a praia, aproveitar e passar lá o dia mas depois é sempre a mesma coisa – O quê? – Para acordar cedo, só aqui a desgraçada, porque está habituada a levantar-se cedinho todos os dias. – Então mas a tua gente nem para ir para a praia se levantam cedo? – Olha ele ficou lá no bar até às tantas, deitou-se tardíssimo, o cachopo ficou a ver televisão até lhe apetecer e a minha mais velha não largou a internet, e eu tinha que passar música lá numa sala de chat, no messenger onde sou a responsável, nem lá fui. – Mas foram ou não foram para a praia. – Fomos, eu preparei um almoço para a gente e tudo. Mas só fomos depois da missa, já que estava a chegar a hora e eles ainda nem se tinha levantado, fui à missa cumprir com a minha obrigação e quando cheguei já estavam todos à minha espera, foi bem feita! – Muita gente na praia? – Resmas deles! – e a dizer isto com os dedinhos a bater no polegar – apanhámos um dia tão bom que ficamos lá até quase de noite. Depois na volta para cá tivemos que ir jantar ao shopping… – Sim? – dizia a outra enquanto fumava – Estava à pinha! – E depois dizem que há crise. – Estou-te a dizer! Não havia um lugar para a gente se sentar. Então e tu? O que contas? – Olha recebi uma carta do banco a dar-me os parabéns… – Fizestes anos? – Sim fiz… – Ai desculpa lá, então parabéns atrasados. – Obrigadinha, mas ouve: mandaram-me uma carta, a dar-me os parabéns, dizendo para não dizer nada a ninguém e pensar num desejo… – Sim, e depois? – Que este mês eu era muito especial e que decerto que tinha desejos, planos, objectivos, que queria fazer coisas, está a ver? – Sim, continua! – Que eu tinha direito a um crédito especial de 1000 euros por fazer anos, vê lá tu bem! – Espectáculo, e o que é que fizeste? – Nada, estou-te a contar. – E então esse crédito é só para quem faz anos? – Não sei lá diz também que se tivermos outras necessidades para falar com eles e que garantem sigilo. – O que é que eles querem dizer com isso do sigilo? – Ai, então quer dizer que tratam do negócio do crédito só contigo, sem dizer nada a ninguém. – Hás-de me mostrar essa carta. – Está bem, mas olha que também recebi outra doutro banco qualquer a dizer que davam crédito para ir de férias, tu não recebeste? – Isso é só para ti que és rica! – Para mim não! Então eu estou desempregada!

Para o Dinis é sempre a mesma coisa também: menos um dia! Acordar cedo e bem disposto, na taberna verifica-se o costume, falar de gajas, dizer que a da padaria é uma “alevantada”, muita parra e pouca uva. Da última vez que o Abílio do autocarro por aí passou, depois de ele se ir embora ficaram-lhe a “morder na casaca” por causa do homem ter feito continência à civil. Diz que nem foi à guerra, o que é que ele sabe daquilo? É como o outro que foi ministro! E a conversa lá continua entre tintos e cartas, amendoins e branquinhos traçados, cotovelos no muro das lamentações e como ficou no ar a conversa da guerra agora é a vez de Angola. Terra pela qual todos se dizem muito interessados na paz, mas parece e ao que por aqui se conversa, convenhamos que “isto” não é nenhum centro de decisão, é apenas o balcão de uma taberna, por lá existem mais armas do que nunca… e questionam-se: -De onde vem todo esse armamento? Há responsabilidades indirectas gravíssimas! Não são os pobres que enviam para lá as armas, eles fábricas também não têm, que eu estive lá e vi! Então esses malandros que dizem que não estão a matar ninguém, mas ao mesmo tempo vendem para lá as armas, será que são inocentes? Nada de grandes pânicos, que “isto” são apenas conversas de clientes que andaram por terras de África a deixar o vinho falar mais alto. Estão aqui, estão a falar de stress de guerra, portanto, “Calma minha gente!” pede Dinis Trindade. Ainda há quem alvitre ser a favor da pena de morte para esses malandros que vendem as armas lá para os desgraçados. Não se fica sem resposta, logo outro diz que um castigo legal para um criminoso só pode ser justificado por três razões: uma razão dissuasiva que seja um castigo exemplar, uma razão de correcção do individuo e uma razão de defesa da comunidade. Ora bem: no caso da pena de morte nenhuma se verifica; efeito dissuasor não tem, faz dos condenados heróis; não intimida, pelo contrário parece que estimula e a ausência de efeito dissuasor está comprovada,  “e para me calar” não é correctiva porque o indivíduo não vai ser corrigido, vai ser eliminado. Concluindo o dia do Dinis Trindade: “Isto não tem jeito nenhum.” diz quem já passou pela vila do Maranhal, “que isso de uns velhos a jogar às cartas na taberna não tem grande impacto.” Pois não… É apenas mais um dia Na Vila do Maranhal.

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Segunda-feira. Venda de pão e cafés, o normal entra e sai de gente, sem esquecer o sorriso que fica no rosto de Maria Alice após a saída do Abílio do Autocarro “ai se eu pudesse” e suspira pondo a mão no peito, rindo, já se vai conformando porque se foi apercebendo ao longo do tempo que uma aventura sexual, mesmo que fosse ali na casa de banho uma rapidinha, é tudo fruto da sua imaginação, nem ele, nem ela seriam capaz de tal coisa. “Bom – pensa para consigo ainda com a mão no peito – é esta uma das vantagens da imaginação, a gente pode sorrir…”. A manhã continua entre bons-dias e boa disposição. Dez e tal da manhã chega a cliente do cigarrinho e, como não havia movimento, dois dedos de conversa à porta: – Então o que contas de novo? – pergunta a cliente fumadora – Novidades? – e acende o cigarro. – Mais do mesmo, – responde Maria Alice encolhendo os ombros – mais um dia a acordar cedo, de contra vontade, é sempre a mesma coisa. E já sei que o final do dia vai ser do mais previsível possível. – Então? – Aquela cachopa que só é grande para o que lhe convêm, para ajudar a mãe em casa já não, sobra tudo para mim. – Tens que arranjar qualquer coisa para te descontrair. – E é o que eu faço na internet! Ligo-me ao Messenger. – Não era bem a esse tipo de relaxe que eu me referia… – Vou-te contar quem é que por lá encontrei, acidentalmente claro,  o Gelson! – Qual Gelson? – O tal brasileiro que já te tinha falado dele! – Seja lá quem fora provoca-te um grande sorriso… – Ainda te conto mais: adivinha quem foi que nós encontramos lá em Lisboa? – Vocês foram a Lisboa? – Então para não ser sempre a mesma coisa, só praia e até estava mau tempo e não pode ser só trabalhar, não é verdade? – Vocês é que sabem. – Fomos à FIA – Onde? – Feira Internacional de Artesanato, cinco euros para entrar, caríssimo! Mas assim impede a escumalha de lá entrar – Onde é que isso fica? – No Parque das Nações, adivinha lá então quem é que encontramos por lá? – Não faço a menor ideia… – Tenta! – O Primeiro-Ministro. – Achas mesmo que esse ia para o meio do povo numa altura destas? Aquele brasileiro todo bonzão que agora apareceu por aí! – Quem? – Mesmo agora te falei dele: o Gelson! – Não sei quem é. Mas já o andas a encontrar muitas vezes. Então e como é que estava lá a feira? – Cheiinha de gente! Não percebo como é que é essa história de que “isto está uma grande crise”! – Então, o que é que tu queres, está uma crise mas não é para todos. Há muita gente que se desenrasca bem com os créditos. – Por falares nisso, hás-de me explicar melhor essa coisa do crédito do aniversário que me falaste – O que é que queres saber? – Disseste que havia outras opções, quais? – e depois da explicação e de fumado o cigarrinho, foi-se embora deixando a padeirinha absorta em pensamentos…

– Bons-dias! – Ai senhor professor! Deve estar tempestade no mar! – diz a senhora enquanto bate as palmas – é que quando as gaivotas andam na terra é porque está tempestade no mar! – e com as mãos postas vira a cabeça para Maria Alice aguardando aprovação.  – Pois é Zé Pedro! Por onde é que tens andando que tão pouco cabelo tens criado, pá? – perguntou Mari’Alice colocando as palmas das mãos no balcão, esticando-se para a frente fazendo sobressair aquele espectáculo de peito. – Estive colocado longe… – A gente sentiu tanto a sua falta lá na missa, já não se ouve a guitarra. – interveio uma avó que estava sentada com a netinha a comer bolos. – Estive em Barrancos e é muito longe daqui… – A minha netinha até já tinha perguntado quando é que o Sr. Professor voltava a dar catequese! – os dois gajos das obras que estavam ao balcão a beber uma cervejita, pararam e olhavam fixamente para este, pelos vistos, famoso personagem que tinha por ali entrado. Sem saber muito bem o que fazer, Zé Pedro pensou: “Se continuo a olhar para o peito da Mari’Alice, as pessoas ainda reparam; se respondo à avó sentada a comer bolos com a neta, assumo já uma responsabilidade que não quero, os dois gajos não os conheço de lado nenhum, aquela que está ali à porta a fumar não perguntou nada, resta-me a senhora da limpeza das escadas: – Olhe eu de gaivotas não percebo nada, tempestade está a do costume, ou seja chegou o verão, chegou o meu desemprego, e a senhora como é que tem passado? – perguntou agarrando-a com a mão direita no ombro esquerdo, puxando-a para si e dando-lhe dois beijos. – Olhe eu ando muito mal – disse com um ar de cão abandonado – não tenho sorte nenhuma na vida – e ainda antes dela começar a contar a ladainha, alguém carregou no botão do Play, a Alice perguntou ao Zé Pedro queria pão, os dois gajos continuaram a beber a cervejita, parece que treinaram aquilo: os dois ao mesmo tempo, e a velha lá ralhou com a neta por estar a lamber os dedos e a gaja que estava a fumar à porta foi-se embora com um “ciao” – thcau! Adapatação aportuguesada do italiano.

– Eh! Quem está vivo sempre aparece! – grita o taberneiro do lado de dentro do balcão levantando uma mão ao ar em jeito de saudação. – E tinha que vir cá ver se tu ainda tens vinho para cabrões! – diz o cliente parado à porta. – E fresquinho! – disse soltando uma gargalhada. – Então dê-me uma cerveja e beba-o você – respondeu e entrou – Estás bom Dinis? – perguntou sorrindo e esticando a mão. Dinis sai de trás do balcão e dá um valente abraço a Zé Pedro. – Então já estás cá? Já foste colocado aqui ou ainda não? – Fui colocado aqui mas no centro de emprego! Outra vez desempregado. – É sempre a mesma merda. – Então e tu que contas? – O mesmo de sempre, menos um dia, queria ver se arranjava aí uma brasileira para trabalhar aqui… – Olha que normalmente as pessoas querem ordenado! – Encostou-se ao muro das lamentações e lá continuaram… – Então e novidades? O que é que feito do Abílio do Autocarro? – Foi convidado para motorista do presidente da câmara, mas como é um homem íntegro diz que prefere ficar-se pelas calhandrisses dos passageiros do autocarro, ao menos essas não fazem mal a ninguém – risos – Então e aqui a Vila do Maranhal?  – Querem tanto passar a ser cidade que só já falta mandarem construir um Cristo-Rei aqui também, agora até já o Centro de Saúde deixou de ter serviço de urgência nocturnas, é assim e ainda querem que isto ande para a frente. – Só a mania das grandezas não chega…

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Autocarro parado na Avenida 25 de Abril, mesmo à porta da taberna, o que significa que já passa das seis e um quarto. – Ó da taberna dá licença? – pergunta em voz alta Abílio do Autocarro. – Quem vier por bem, que venha também! – responde o Dinis fazendo-lhe sinal com a mão para entrar e continua – Adivinha lá quem é que ontem perguntou por ti? – Se calhar foi a Alice da Padaria… – Não, porque é que dizes isso? O que é que bebes? – É um copinho se faz favor. – Foi o Zé Pedro! – diz em voz alta agarrando um copo vazio. – Ah! Mas esse gajo não estava cá, pois não? – Não, já está desempregado outra vez. – enche o copinho e serve. – Também não tem sorte nenhuma, mas olha lá, aconteceu alguma coisa à Mari’Alice da Padaria? – perguntou fitando o taberneiro. – Epá não sei… – respondeu furtivamente. – É que hoje de manhã cedo quando parei lá para beber um cafézinho, estava fechado e eu nunca tinha visto a padaria fechada! – Epá… olha, eu saber não sei, mas o que por aí se fala, não é que eu ande por aí a falar, as pessoas é que vêm aqui para o muro das lamentações contar as coisas – e levanta as duas mãos para o ar como que a parar o trânsito, neste caso de conversas e emudece. – Diz-me só uma coisa – e nisto estica os dois indicadores um apontando para o outro e roda-os em círculos como que a perguntar se a conversa iria ser desenrolada – eu posso ouvir a introdução toda, mas vais acabar por contar o que é que aconteceu? – Bom, diz que ela desapareceu. – Só porque a mulher não abriu a padaria? – faz uma cara muito admirada – só por isso já se diz que uma mulher desaparece? – Epá, é o que se fala por aí… – Pode-lhe ter acontecido alguma coisa, ou não? – Olha, eu o que sei é que os miúdos dela foram à escola, que o gajo foi trabalhar mas dispensaram-no, disseram-lhe para voltar para casa e tirar o dia… – Então mas deram com ela nalgum lado? – Deixa-me acabar! E não foi a única que desapareceu… – Então desapareceu mais alguma? – pergunta ansioso. – Olha lá porque que é que estás assim tão ansioso? – Estou preocupado, então a gente conhecesse há anos, pá! E tu ainda não me disseste se lhe aconteceu alguma coisa ou não?! – Se os nervos não a atacarem está bem melhor do que a gente! É que também consta que desapareceu um brasileiro que se via por aí todos os dias. – Más-línguas! As pessoas são umas más-línguas! – Tens razão sim senhor, isso é o povo a falar. Não quer dizer pescoço. Então e tu, que tal? – Sempre a mesma coisa, hoje houve mais um toque na Calçada da Carriche e aquela gente para resolver toquezinhos de nada param logo o trânsito todo, vão ali para a faixa do bus, dão aquelas porraditas de nada por trás, e ficam ali a ralhar e a esbracejar como se tivesse morrido alguém, saíam da estrada pá, deixem passar quem trabalha, mas ainda estou cá a pensar na coitada da Maria Alice.

13

Passava um minutinho das seis e um quarto quando o Abílio Lopes Graça parou o expresso em frente à porta fechada da taberna da Vila do Maranhal. Parou o autocarro mas deixou o motor a trabalhar porque reparou que a porta da taberna estava fechada. Aproximou-se e reparou num papel colado na mesma onde se podia ver uma fotografia do taberneiro ao lado de um crucifixo,  centrada e em dimensão “tipo passe”. Abílio esfregou os olhos e começou a ler com alguma dificuldade e emoção que Dinis Santos Trindade de 64 anos, se encontrava em câmara ardente na casa mortuária da Igreja Matriz. Parou a leitura, colocou as duas mãos nos joelhos, dobrando as costas, expirou, ficou parado por um instante, expirou novamente e ao inspirar endireitou-se e leu que a família informava que o funeral se realizava amanhã. A dois velhotes que limpavam o pó a uma das montras com o cu das calças, Abílio perguntou o que é que se tinha passado com o Dinis. Ao que eles responderam que não foi “o quê”, foi sim uma carrinha que lhe passou por cima. Dinis Trindade fora atropelado mortalmente.

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– Muito bom dia! – diz o condutor do autocarro entrando no primeiro café a abrir portas na Vila do Maranhal. – Bom dia – respondeu nervosa a nova “colaboradora” da padaria, facto que não passou despercebido aos olhos de Abílio Lopes Graça – diga se faz favor? – Um cafézinho – respondeu enquanto esfregava as mãos e pensou que devia meter conversa pois a rapariga parecia um pouco atrapalhada. – Então, é nova cá na casa? – É verdade – respondeu de costas viradas enquanto tentava apertar o manípulo do café antes de carregar no botão da água – estava à espera que o Centro de Emprego me chamasse, e aqui estou. – Coisa rara – respondeu Abílio fazendo uma cara muito surpreendida – normalmente eles não chamam ninguém. – Ah, pois… – e calou-se enquanto colocava a chávena em cima do balcão com muito jeitinho – a mim também não me chamaram, eu é que soube que estavam a precisar de gente para aqui. – Desejo-lhe boa sorte! – e dito isto sorriu. – Obrigado, é mais um dia…

Lisboa vai, Lisboa vem e na última volta, logo após a última paragem, em vez de rumar como habitualmente para o próximo apeadeiro na Avenida 25 de Abril, desta vez e nas próximas, Abílio vira à direita e sobe pela Avenida 1º de Maio, parando no cafezinho em frente ao quartel dos bombeiros. – Ora boas tardes! – retrucou Abílio ao colocar as mãos no balcão. – Viva! – foi a resposta de quem estava do lado de lá – diga lá Sr. Abílio, o que é que vai ser? – Para variar quero um Favaios, se faz favor. – ouve-se a porta do balcão frigorífico a abrir – Quer copo? – Sim, se faz favor. – num gesto rápido um copo é posto em cima do balcão junto com uma pequena garrafinha acabada de abrir junto com uma pergunta – Então Sr. Abílio e que tal? – Ai, então tudo na mesma! Uma vila que quer ser vila, uma gente que quer ser gente, um sol que sucede a lua, um desejo que precede uma vontade, e depois, depois mais nada, ou não fosse este sítio a Vila do Maranhal. E por aqui? – É menos um dia…

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