Diário de um professor desempregado (parte 2)

roundaboutContinuação de mau tempo

Eu não queria voltar a escrever neste diário. A sério que não queria. A pergunta lógica será: Então porque é que voltaste a escrever? Vi a pensar nisso pelo caminho. Embora escrever me faça relembrar das coisas, a verdade é que quando escrevi o diário para memória futura, a esperança era de que os episódios lá relatados não se voltassem a repetir. Ora então, por isso mesmo, na esperança que não se voltem a repetir e por serem tão inusitados que até parecem mentira, e por parecer mentira até custa a crer que seja verdade, é bom para os mais incrédulos que façam a confusão entre ficção e realidade, então cá vai: apresentação quinzenal no GIP – agora não me lembro como é que aquilo se chama, é a delegação do centro de emprego cá na terra – cumprimentei quem lá estava, só havia duas cadeiras a dividir por quatro pessoas, eu fiquei mesmo de pé, embora tenha levado um livro para ler, como conhecia todos os presentes, e todos os presentes se conheciam entre si, a conversa foi “tenho pena de te ver aqui”; “então também estás aqui” e por aí fora, o registo curioso é que eu que já passei a barreira dos quarenta e era o mais novo. A única pessoa ali empregada é a senhora que nos atende. Eu tenho o prazer de a conhecer pessoalmente e de momento ela tinha ido ao café, lógico se está na hora da pausa, faz muito bem em sair dali, o que nós comentamos foi o facto de nós não irmos ao café porque os preços estão proibitivos para alguém que padeça da nossa condição. Entre nós os cinco não chegamos à conclusão de como é que se paga uma divida se se tem menos dinheiro. Não conseguimos dar pai à criança: tendo menos dinheiro e mais despesa, nenhum de nós descobriu como é que se paga o crédito. Depois de ter sido atendido, voltei a cumprimentar as quatro pessoas que entretanto tinham chegado. Apenas um é mais novo do que eu. Parece uma vantagem morar na província e conhecer quase toda a gente mas, no local onde nós estávamos isso é péssimo, pois as ofertas de emprego aqui são zero. É difícil de escrever isto, preferia dizer que é inacreditável mas não, é mesmo verdade, as ofertas são nulas. Zerinho. O mais novo anda a tirar um curso de espanhol. Perguntou-me porque é que eu não tirava também. Infelizmente não posso porque as minhas habilitações são para ensinar os gajos que dão esses cursos. É que assim sempre se ocupa o tempo: tiram um curso aqui; tiram outro ali, e assim sempre se vai ganhando algum. Não posso. Aliás estou à espera, e esperançado, que o telefone toque a qualquer momento a dizer que fui colocado num lado qualquer, a dar uma qualquer das disciplinas que posso, seja a que ano for. Saí. Olhei para o talho e lembrei-me do almoço. Vou levar duas bifanas. Cozo duas batatas daquelas que comprei na rua, por mais incrível que pareça, comprei mesmo as batatas na rua a um gajo que estava lá parado, ia a passar e ele interpelou-me: Ó amigo, desculpe lá! Mas não quer comprar uma batatas, umas cenouras… e continuou a enumerar o que tinha para venda. Comprei. E àqueles preços comprei também para a vizinha, que também está desempregada e que também é mais velha do que eu. Não lhe pedi a rifa para o sorteio do carro, na verdade tomara eu que as batatas não apodreçam, por isso é que as vou fazer para o almoço, e entretanto já nem sei onde é que deveria ter sido ponto final, nem coisa nenhuma porque quero continuar a dizer que também vou juntar umas cenouras e está o almoço feito. Ao lado das bifanas está o fígado, que é mais barato; ao lado do fígado estão os rins, que ainda são mais baratos que o fígado, conclusão: vou levar rins em vez de bifanas. E agora que escrevo isto reparo que não estava mais cliente nenhum no talho.

Enclave de Montejunto,  – já não me lembro em que dia é que foi – de 2014

deja vuEpisódio repetido

Em meados do mês passado fui marcar uma consulta para o médico de família. Não! É melhor escrever isto de outra forma porque já uma vez levei uma boca do médico quando lhe disse “aqui estão os exames que o senhor doutor pediu” e ele respondeu muito rapidamente “Eu não! Tu é que vieste aqui ter comigo voluntariamente!” Portanto fui marcar uma consulta para mim ao posto médico da minha área de residência na qual não tenho médico de família. Tinha médico de família aqui na freguesia ao lado, mas depois de durante um ano ir lá cinco vezes e o médico não estar disponível vez nenhuma, embora o papel afixado com o horário dele fosse de segunda a sexta no período da manhã, o senhor doutor apenas estava presente às terças e quintas depois das dez e trinta, mais ou menos, embora eu nunca tenha visto. Por conseguinte optei por não ter médico de família mas pelo menos estar inscrito no posto médico aqui ao pé da porta. E, como preciso de renovar a medicação lá para meio do mês de Abril, é melhor ir marcando já uma consulta com um mês de antecedência. Não pode! Foi a resposta que me deram. Só a partir do dia um de Abril é que se pode marcar consultas para Abril. Então porquê? Foi logo a pergunta que fiz. Porque nós não sabemos que médico é que a empresa disponibiliza para cada mês, por isso logo se vê quando iniciar o mês, como é que é! Para mim só era novidade não se poder marcar a consulta. Eu já sabia que o posto médico paga a uma empresa para todos os meses lhe fornecer um médico. Apesar da necessidade permanente, a administração do dinheiro dos nossos impostos considera que deve de haver mais uma empresa a enriquecer às custas do trabalho que não tem. Empresa essa que fornece um serviço, que já era fornecido antes da empresa existir, só que mais barato porque pagava a menos gente. É o tal do “outsourcing”. Chegado o dia um, fui lá marcar a tal consulta. Para quando? O mais rápido possível! (antes que corra alguma coisa mal e…) Pode ser para hoje? Claro! Então és já a seguir ao (e agora o nome do gajo que estava à minha frente, é que a gente aqui na terra conhecemo-nos todos) fulano tal. Se vou dizer que ele se chama Milton vai toda a gente confundir com o Nilton da televisão, por isso vou batizá-lo de fulano tal. Ficamos um pouco na conversa, ele entrou, saiu uma hora depois e a seguir esperei mais um pouquinho. Mais outro pouquinho. Mais uma hora… duas… até que chegou a minha quase-esposa: Então? Porque é que não vais lá perguntar? Fui. Ah! É já a seguir. Gostei do já. E fui. Duas horas e meia depois do utente anterior ter saído. Conversei um pouquinho com a médica fornecida para este mês, afinal vai-se já embora daqui a duas semanas, depois segue-se uma italiana, e mais uma vez, cá um episódio repetido, afinal o meu diário para recordar na posteridade momentos únicos por mim vividos, está a ser um fracasso, já não é a primeira, nem a segunda vez que um profissional de saúde me preenche uma receita para medicação para a tensão arterial, sem sequer, sei lá, medir-me a tensão pelo menos, digo eu que não sou médico. Até parece mentira.

Enclave de Montejunto, terça-feira, 1 de Abril de 2014

nadarcontraNadar sem sair do sítio

Concursos de professores ou para professores? Seja lá como for, isto não está nada fácil… tentei para o norte, sei lá… desde Ponte de Lima a Miranda do Douro; tentei para o sul, Loulé, Faro, Tavira… subindo por ai a cima Moura, Castelo Branco, Belmonte, virando para o centro, Castro de Aire, Vouzela, indo até à praia: Aveiro! Horários diurnos, noturnos, 1º; 2º; 3º ciclo e até adultos, concorri para tanto lado que até concorri para o etc! Concorri para aqui ao pé da porta, um homem podem sempre sonhar, ou não?! Mas a chatice, uma das chatices e dificuldades consiste em saber os resultados, embora seja obrigatório, algumas escolas não os publicam… quer dizer se calhar até publicam mas não é fácil e nem sempre possível, dar com a lista. A escola contrata quem entende e eu não quero ir trabalhar para o local onde preferem outra pessoa, apenas quero saber o lugar que ocupo na lista, mai’ nada! É uma espécie de motivação. E tudo isto… cá está a fé, a esperança a falar mais alto, que seja apenas para memória futura e não para se voltar a repetir. Tudo isto afinal é apenas para um mês de contrato.

Enclave de Montejunto, quarta-feira, 2 de Abril de 2014   

paz_atardecerAlteração à definição de “tranquila”

Resolvi ter uma tarde tranquila. Quer queira, quer não e nunca quero, passar a manhã de roda dos concursos enerva. Não consigo evitar, um gajo fica uma pilha de nervos. Resolvi ter uma tarde tranquila. Pus uma máquina a lavar roupa, fui acompanhar a minha quase-esposa ao trabalho e, de volta a casa, de volta à tal tarde tranquila, de volta aquele espaço que iria ser o “dolce fare niente” – que eu nem sei como é que isso se escreve, nem vou ver à Internet, não sei e pronto! –  eis que os gatitos me presentearam com algo novo. Tirei logo uma foto! Uma coisa destas merece ficar registada para a posteridade e para esclarecer eventuais dúvidas sobre o acontecimento à minha quase-esposa, quando ela chegar a casa. A grande questão, não será bem assim “grande questão” mas confesso que me preocupa um pouquinho ela questionar a autoria da modificação do pedestal do vaso que está na sala junto à varanda, num conjunto, num aglomerado não artístico de vários pedacinhos de cerâmica, um monte de terra e umas plantas à volta, daquele que foi outrora o vaso, uma só peça que ornamentava o que resta da flor… nisto que agora se apresentava no chão da sala. É que eu manifestei por várias vezes o meu desagrado em relação à posição que “aquilo” ocupava. Não obstante, é para limpar. E primeiro vou arrumar esta bagunça, a segunda consistirá em devolver ao lugar original todos aqueles lápis, canetas, clips e o outro material que estava dentro da “latinha”,  e cima da mesa, ao lado do computador. Andava eu entretido nestas andanças quando de repente ouço um ruído, um barulho que não é nada comum nos apartamentos. Pelo menos foi o que me passou pela cabeça: que raio de barulho é este? Questionei. Isto só se ouve na televisão quando dá aqueles programas com rios e inundações e quedas de ág… é a máquina de lavar! Corri para a cozinha. A mangueira para escoar a água desencaixou.

Enclave de Montejunto, quinta-feira, 3 de Abril de 2014  

debandadaDebandada

Bom, vou começar por mim: a minha irmã mais nova, que é mais velha do que eu, foi a última a emigrar; pai e a irmã mais velha já vivem em países diferentes há muitos anos; na outra rua onde outrora morava, (a renda era mais cara) todos, todos os vizinhos voltaram ao país de origem; familiares da minha quase-esposa; os vizinhos da frente, os do lado, agora dividem-se entre os Estados Unidos, aqui a Europa e até no Canadá portanto, não é notícia, não é novidade, até que uma das vizinhas que ainda restava, lá ia resistindo conforme podia, nos surpreendeu a carregar uma camioneta com mobílias. Conversa puxa conversa e realmente ela tem razão, fulano e beltrano também já se mudaram, mas não foram para fora, tal como ela, mudaram para ficar no país. Vizinhos e emigrar era no diário anterior, neste é a migrar, estão a debandar daqui do enclave de Montejunto.

Enclave de Montejunto, domingo, 6 de Abril de 2014  

desigualdadeOportunidades mas não para todos

Esta é que custa. Férias da Páscoa, final do segundo período. Estive a fazer contas, suposições, e eu sou um homem de fé, no sentido divino da coisa, sendo também, no meu conceito, fé sinónimo de esperança mas, a verdade é que por este andar já não vou ser colocado este ano letivo. Assim sendo, a questão que se impõe é o que é que eu hei de fazer? Fácil: formação. Aproveitar para tirar formação profissional. Não sei qual a disciplina que vou lecionar num futuro próximo mas, formação faz sempre falta. Fui à procura. Encontrei aqui na cidade mais próxima. São vinte e cinco quilómetros. Formação gratuita, com direito a almoço, durante dois meses, uma coisa intensiva. Foi a que me agradou. Passei pelos transportes públicos e… agora vou fazer aqui um pouquinho de suspense… a formação começa a meio de um mês, decorre no outro e finaliza a meio do seguinte. O que quer dizer que para comprar passe, só é possível no mês do meio. Nos outros dias a única alternativa é comprar o bilhete diário de autocarro, que custa 1,5% do ordenado mínimo, ida e volta. O passe custa ¼ do ordenado mínimo. A formação acaba às cinco da tarde e o único horário que permite vir dormir a casa, tem chegada prevista para as oito e meia da noite. Como é que as pessoas pobres que moram nas aldeias, tem acesso a formação? Perguntei eu à minha quase-esposa durante o jantar. “Não têm!” – foi a resposta que me deu.

Enclave de Montejunto, segunda-feira, 7 de Abril de 2014  

CorruptionMina de ouro

Hoje estive a fazer contas à vida e resolvi fazer uma mudança. Vou-me dedicar à política. Estou farto de ser pobre. Se eles lá não me aceitarem, dedico-me à corrupção, que depois eles… convidam-me.

Enclave de Montejunto, sexta-feira, 11 de Abril de 2014  

Congo-tin-minersTirar aos pobres para dar aos ricos

É engraçado, e “engraçado” acho que é o adjetivo mais engraçado para definir esta situação: então não é que o centro de emprego informa as pessoas desempregadas que devem comparecer no centro formativo tal, para tirar formação, senão… e pronto, a malta lá vai. O centro de formação teve de se candidatar às verbas, claro evidentemente, tem que haver dinheiro para estas coisas e depois, bem depois contrata formadores que têm emprego. Isto é engraçado. Então os formandos são desempregados e já sabem que não vão encontrar emprego naquela área de formação, senão já lá estavam, e vão tirando uns cursinhos, porque também não lhes é dada a hipótese de não o fazer, então e os formadores desempregados? Porque carga de água é que se vai dar dinheiro a ganhar, com dinheiro do Estado, a malta que já tem emprego, quando há tanto formador desempregado. E o recibo verde? Porque que raio é que não é estabelecido um contrato de trabalho que especifique os detalhes do serviço a prestar? Então o Estado paga ao formador que já tem emprego, ao formador desempregado, ao centro que dá a formação, aos formandos e depois, depois nada… A sério que isto é engraçado.

Enclave de Montejunto, segunda-feira, 14 de Abril de 2014  

grave_diggingSempre a cavar para baixo

E o tempo passa… Já recebi. Paguei o que por ai havia para pagar: renda da casa; telefone; até fui comprar um botija de gás, não vá lá ele faltar, o preço desceu, não sei quem é que faz mais milagres, se a Santa Madre Igreja ou o aproximar das eleições europeias, paguei o normal de quem por ai vive. As compras no Modelo ficam a cargo do ordenado mínimo da minha quase-esposa. Bom, estão as faturas quase pagas, falta cair a luz, fiz as continhas e este mês de Maio tenho que ir à inspeção com o carro, não tenho dinheiro para isso. Não chega. Pagar a inspeção e o selo, ou o respetivo imposto, nem estou certo do nome, é aquele procedimento que se faz quando se vai às finanças depois da inspeção, não tenho dinheiro para nada disso. Ainda me pus a pensar: então e se for colocado, como é que hei de fazer para ir trabalhar? Mais vale nem pensar nisso, afinal o mês de Maio está apenas a começar… atrás de tempo, tempo vêm.

Enclave de Montejunto, quarta-feira, 30 de Abril de 2014 

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