O que os meus olhos veem

Uma das formas de arte mais elevadas é a música. A música consegue expressar sentimentos, o que é algo per si, bastante difícil. Uma outra forma de arte me cativa é a literatura. O século XIX é pródigo em autores que não hesito um segundo em adjetiva-los de génios. Lembro que a invenção da máquina de escrever é posterior a alguns dos grandes talentos literários. Suscita-me a curiosidade a forma como é interpretado o real, a sociedade que nos consome, e isso é algo que estes escritores fizeram de uma forma inigualável até à data e em tão grande número. Lia eu “Adrian Mole na Idade do Cappuccino” quando reparei que está retratado um grande exemplo da sociedade inglesa dos anos 90 e, questionei-me, como é que será um retrato da sociedade de hoje? Fiz uma introspeção e vi que no meio de tanta volta e reviravolta que já deu a minha vida, a “coisa” até poderia ficar engraçada. Juntei uns personagens à vida do Zé Pedro que rapidamente abandonei, porque ao querer representar neles alguns grupos sociais, apercebi-me que me dispersava das ações do personagem central, e assim parti à aventura (ou desventura). O blogue revelou-se um espaço extremamente divertido para poder “mandar umas bocas” acerca do que me rodeia. Aproveito a boleia do Zé Pedro para misturar ficção com realidade e, perdi totalmente o mote inicial de retratar seja lá que época for, mas vou dando o meu tempo por bem empregue com esta brincadeira do diário do Zé Pedro. No caso de “Um domingo c’mós outros” a realidade ultrapassa a ficção: o nosso aquecedor catalítico entupiu, o armário da cozinha caiu e o meu ordenado acabou antes do fim do mês. Mas o que me leva a levantar o véu é a surpresa desta sexta-feira: uma carta das finanças. Tenho que devolver dinheiro que uma das mais extraordinárias escolas por onde passei, já lá vão quatro anos!, deixou saudade, adorei trabalhar no Liceu Passos Manuel; me pagou não sei o quê indevidamente, penso eu que seja isso, pois não faço a mínima ideia do que raio se passa! Tinha na altura um horário incompleto, o que trocando por miúdos, quer dizer que ganhava apenas uns trocos, ou para recorrer a uma das expressões do Zé Pedro: “Não ganhava para os alfinetes”. Curiosamente ainda hoje não ganho dinheiro com a minha profissão, apenas recebo ordenado, e pela foto em anexo, o dinheiro que me pagam, não é garantido que eu fique com ele! Uma das cenas mais espetaculares que me aconteceu, a nível de finanças, foi quando a Caixa Geral de Depósitos me notificou para fazer prova de rendimentos. A senhora que me atendeu, minha amiga, explicou-me que fazia parte dos objetivos deles e que o Banco de Portugal tinha mandado investigar as contas de alguns clientes, eu fui um dos contemplados. Desconhecia como fazer prova da totalidade dos meus rendimentos. Bastou um documento para os devidos efeitos, passado na secretaria da minha escola comprovando o valor do meu único rendimento, o ordenado. Que por acaso é do domínio público, e que, depois de passar o período probatório nunca mais foi aumentado. Situações como esta são tão tristes que acho que se tornam cómicas. O banco sabia que a minha fonte de rendimento era (e ainda é) a escola, mas eu tinha que provar isso. Espero que se divirtam tanto como eu, a ler estas desventuras do Zé Pedro. E o Natal ainda está para vir…

“Motivação”

Sempre os pais avaliaram os professores pelo sucesso dos filhos, até mesmo por aquilo que eles vão dizendo em casa. Agora surge a avaliação de desempenho com quotas, ou seja um número limitado e finito para atribuir as menções de desempenho, que de acordo com as quais o professor pode parar por ali a sua carreira, ou nem sequer a chegar a começar porque, isso de carreira de professor é só para alguns: os titulares. Os outros nem sequer sobem de escalão. As ações de formação são obrigatórias e pagas. A inspeção escolar é constante e permanente pois dali depende a avaliação externa da escola, outra coisa que vai ajudar a deliberar as quotas, ou a quantidade de “notas” que se poderão atribuir aos professores. Avaliação de desempenho; avaliação externa; professores titulares e os outros; contratos precários; condições de trabalho inexistentes; meio ordenado para ir trabalhar e agora, qual cereja em cima do bolo, o palhaço que faz de ministro da educação, exige uma prova de ingresso à carreira docente. Porquê? Pergunto eu com toda a legitimidade: as universidades já não são competentes o suficiente para passar diplomas aos professores? Eu penso que deva de ir ao oftalmologista, porque não quero acreditar que esta seja a realidade que os meus olhos veem. Acontece que com a perda de poder de compra e o baixo ordenado, não tenho dinheiro para alinhar em comprar todos aqueles produtos fruto da corrupção na comunidade farmacêutica. Assim sendo não vou ou médico, tenho que aceitar que “isto” é o que os meus olhos veem.

“Greve, geralmente”

Paguei o passe na íntegra, não me foi descontado dia nenhum por não disponibilizarem o serviço no dia que bem alguém entendeu não o fazer, já o ano letivo passado foram cinco vezes. Isto tudo a propósito de um simples café de manhã na estação do metropolitano, ontem. O segurança comentava que, embora os portões estejam fechados, o patrão dele exige que ele passe o dia dentro da estação, do lado de dentro; a colaboradora do café, coitada emigrante como é, a fazer um sacrifício e um esforço como só os emigrantes sabem compreender, encolhia os ombros à espera que alguém reparasse que ela não tem voto na matéria, embora lhe apetecesse dizer umas palavrinhas, ficando apenas impossibilitada de ir trabalhar. E depois lembrei-me do calendário dos homens, que não tem em linha de conta aqueles que trabalham nos grandes centros comerciais, de dia e de noite, parece que o país todo trabalha de segunda a sexta, das nove às cinco, como se quem trabalha ao fim-de-semana ou por turnos, fosse menos português que os outros. Cambada de burros, os gajos que governam esta m****! Um engarrafamento monstruoso, ridículo até, bastava que não tivessem todos o mesmo horário de trabalho! Ficava assunto arrumado. Porque é que só se adaptam os tempos às vontades das minorias? Se trabalhássemos por turnos diferentes, o congestionamento desapareceria, obviamente. Estou-me a lembrar do gajo que conta a água, mas quem é que está em casa àquela hora? Para que ele possa contar a água?! Então e a avaliação de desempenho dele, porque é que não se adapta esse serviço ao cliente, se as pessoas não estão em casa porque foram trabalhar, que raio de trabalho é que faz o gajo que vai à casa das pessoas quando elas não estão lá? Então, seria melhor adotar o serviço, moldar-se à realidade como ela é, e não como ela foi à 30 anos! As coisas que os meus olhos vêem, valha-me Deus.

“Reminiscências do passado”

Ainda me lembro do ano em que os contratados finalmente poderiam passar a ser reconduzidos para o ano seguinte, ou seja, que tinham emprego logo em Setembro. Era necessário preencher alguns requisitos: a concordância do contratado, o interesse da escola, aí estávamos de acordo, e horário completo, coisa que eu não tinha, nem o ano letivo completo. Lembro-me como se fosse ontem. Mesmo que não tivesse sido ontem, uma carta das finanças lembrou disso mesmo. De regresso a casa telefonei à minha quase-esposa. Notei e estranhei a hesitação dela: “Não sei se te hei de dizer agora ou quando chegares…”- ora obviamente que o melhor era contar já! Caso eu esparvoasse, teria tempo de me acalmar no caminho de volta a casa, evitando assim a descarga de… energia, junto dela. Lá a convenci. Tinha chegado uma carta das finanças. Tenho que devolver o equivalente a ordenado mínimo e meio que me pagaram em… 2007. Não faço a mínima ideia de que raio é que se trata. Para começar trata-se de uma prenda de natal muito estranha. Chegado a casa, e por ser sexta-feira (tudo neste país encerra ao fim de semana) apenas me resta a internet para consultar aqueles números todos lá na carta. Reencaminham para muitos decretos-lei e mais uma catrefada de coisa, os prazos ante daquilo tudo ir parar a tribunal, e tempo de aviso e para pagar, mas nenhum explica porque carga de água é que eu tenho que devolver dinheiro, ou melhor: repor. Dei voltas e voltas, análises e interpretações e, a única conclusão a que cheguei, pelo menos até segunda-feira, é que me pagaram este dinheiro indevidamente. As coisas que os meus olhos vêem, estão a ficar diferentes daquelas que a minha carteira sente.

“Acertar as horas”

Pontas soltas. É assim que lhe chama a minha quase-esposa àquelas coisitas que todos temos de fazer, demoram sempre pouco tempo para ser feitas, aquilo em meia hora está despachado, por esse mesmo fator, vão ficando para amanhã e que depois, de repente, sem saber como, já deveriam ter sido feitas ontem. Pois foi mesmo disso que andei a tratar. Cheguei à oficina um ou dois milímetros depois do ponteiro dos minutos ter assinalado as oito horas, usei a piada do costume com o mecânico, não consigo chegar antes dele porque dorme na oficina, só pode! E o homem acha graça a isso: – Quase! – diz entre risos – quando cheguei a casa ontem já o jantar estava frio e a mulher a ralhar. – também usa sempre a mesma piada.

A seguir tenho que ir aos Correios. Só abrem às nove da manhã, ainda falta mais de meia hora; aproveito e vou já às Finanças; só abrem às nove horas, mau! As minhas aulas começam às 8:15; almoço das 12:30 até às 13:40; estes serviços apenas estão disponíveis quando eu estou trabalhar! Que parvoíce é esta?! Para que é que eles servem, se não servem quem deles se precisa de servir?! Os Correios além de abrirem às nove, tal como as Finanças, depois de eu entrar ao serviço, param para almoçar antes de mim e reabrem de tarde às 14, depois de eu ter começado a trabalhar, ora vou ter que recorrer à internet, que é um serviço privado, pago, mas que me permite tratar das Finanças nas horas que eu tenho disponíveis. Isto é: para ver se eu percebo, recorro aos serviços de um serviço público, no setor privado, assim sendo, os empregados de balcão destas duas instituições não me fazem falta nenhuma. (… mas a carta diz que as guias de pagamento tem de ser levantadas no balcão de residência… que chatice)

À noite, quando finalmente tive tempo, fui ao hospital, particular claro, esses, tal como o mecânico, estão sempre disponíveis quando eu tenho disponibilidade.

Ao fim do dia, depois de ter andando a atar pontas soltas, como é normal, ficaram algumas pontas por atar.

“A educação dos filhos dos outros”

Não é que eu seja à moda antiga, porque não sou, mas um bom par de mamas é sempre um bom par de mamas, e que venha lá o mais pintado dizer o contrário! Em relação à moda antiga, a grande diferença que eu noto, é que hoje, a minha reação ao ver um umbigo à vela è diferente daquela que tinha há uns tempos atrás. Hoje, quando vejo um umbigo à vela e a tatuagem a espreitar, lembro-me dos tempos em que eu também não tinha frio; quando subo o nível de visão e lhes olho para o rosto e vejo mais rugas do que no meu, então a questão é outra, que raio de drogas é que elas tomam para não terem frio… A questão que deixo a pairar no ar é sempre a mesma, e deixo-a a pairar porque ela já lá estava, não fui eu que lá a pus: “Beleza… a quanto obrigas.”

Hoje em dia, e se calhar sempre se foi dizendo isto ao longo dos tempos, os valores levaram uma cacetada valente, noto bem isso na geração do futuro: os meus alunos. A minha função, no que toca ao comportamento dos alunos é: “se – então” o que se chama hipotético-inferencial, ou seja o meu trabalho é ensinar o conteúdo programático de determinada disciplina, se o aluno tiver determinado comportamento, obtêm o resultado consequente, a partir daqui as pessoas encarregues da educação daquele filho, o tal do encarregado de educação, é que tem de se desenrascar. Lá estava o meu dia a começar quando o que me chamou a atenção não foi o decote mais proeminente que por ali se passeava mas um puto a andar de skate no metro. Fiquei preocupado. Cair para a linha do metro, não é o mesmo que cair de uma árvore. Segui o miúdo com o olhar e não consegui resistir a dirigir-me a ele quando pisou a linha amarela de delimitação da segurança. Continuo a olhar para ele e vejo-o ir ter com… a mãe, que bebia tranquilamente café no bar da estação. Deixei de ficar preocupado e passei a rezar a Deus e a todos os santinhos para que aquele miúdo não venha a ser meu aluno! ‘Tou a ficar maluco! Com tanta beleza que há para apreciar, é com isto que eu me preocupo, a educação dos filhos dos outros. Tonto.

“Pagar impostos para quê?”

É muito bonito o que os meus olhos veem, mesmo que eu não acreditasse em tudo, porque certas situações parecem mentira, os meus ouvidos também ajudam à festa, desta vez foi o primeiro-ministro na televisão. O poleiro onde se sentam os políticos é tão alto que, se duvidas houvesse, foram-se todas com estas últimas declarações, embora já tenham sido repetidas anteriormente por alguns papagaios, este voou tão alto, que sou forçado a concluir que as aves que governam esta gaiola, vivem noutro planeta! O primeiro-ministro teve o descaramento, será que ele sabe o que é ser primeiro-ministro, ou de quem é que ele é primeiro-ministro? Não é dos peixes! É da gente! O homem é o “nosso” primeiro-ministro, que, continuando, teve o descaramento de pedir ou de sugerir, não percebi muito bem porque fiquei tão embasbacado de incredulidade que, no momento, duvidei de veracidade da notícia que os meus sentidos teimosamente insistiam em comunicar-me, o homenzinho apela à poupança. Eu sei, eu já sei que é melhor viver “só por hoje”, custa menos a acreditar na realidade mas, temos que pensar no futuro nem que seja só um poucochinho. A ave que está no poleiro de primeiro-ministro, num planeta distante, apela a que os portugueses (acho bem que diga portugueses que é para que fique bem vinculado para quem é a mensagem) façam uns PPR, que façam um plano de poupança para a reforma. Ora isso já existe, por isso é que faço descontos para uma segurança social, para que eu tenha segurança a nível social. E o gajo continua dizendo que daqui a vinte anos, que é quando eu, se tiver o azar de ainda estar vivo, chego à idade da reforma, os valores das reformas sofrerão um corte na ordem de grandeza de 50%! Então vou fazer o plano poupança reforma onde? Num banco privado, daqueles que vai falir? Ou então também posso fazer aplicações no Estado (sugere o homenzinho), para quê? ( o tal que está falido, que vive a crédito do FMI) Para eles afundarem o meu dinheiro numa offshore no meio do mar? É obsceno saber que o governo investe dinheiro estatal em offshores. Bom, mas isto é apenas um desabafo à altura de tamanha alarvidade da marionete que faz de primeiro-ministro porque a realidade, como não podia deixar de ser, é outra! Quando me sobrava vinte ou trinta euros do ordenado, ainda poderia em vez de comprar um livro, poupá-los. Entretanto por roubo indireto da classe dominante, fui forçado a trocar a compra quinzenal no talho, pelos hambúrgueres do hipermercado e a peixaria por douradinhos, passaram a sobrar dois ou três euros. Atualmente, não no futuro, nem no planeta onde vivem as aves da governação, sobra-me dois ou três dias ao ordenado. Faço descontos para quê? Desemprego, para receber subsídio de desemprego, é mentira, a situação de desemprego contínua após o fim do subsídio, só desaparece nas estatísticas. Desconto para quê? Para a reforma, para a minha reforma? Para a saúde? Quem é que tem dinheiro para ir médico? Até a justiça é privada, só serve quem tem dinheiro, muito. Se o Estado Social já acabou, para que é que vou fazer descontos!? E ainda há mais, ora então se toda a gente poupar como é que saímos da crise?

“Zé Pedro no Facebook”

Resistir era o meu mote. Já dedicava tempo suficiente ao blogue, considerava eu que não tinha tempo e se a verdade for escrita, o que eu queria era não abrir uma conta no facebook. Há sempre uma renitência mas… tendo em conta a fama que tal coisa foi tendo, nos filmes televisivos o facebook desempenha um papel importante, qualquer série americana fala disso e a verdade é que aquilo tudo parecia que iria aumentar o meu número de visitantes. Abri uma conta. Até a farmácia cá da terra têm facebook. A farmácia?! Gosto daquilo, é um paraíso. Quando estou triste ou deprimido, visito os meus amigos e pronto, vejo que está tudo a correr bem para toda a gente e fico mais alegre. Comecei a ficar com tantos amigos que deixei de saber onde é que param as notícias deles. É tanta a informação que aquilo de repente transformou gente em números. Foi gira a descoberta. Após umas centenas de amigos o entusiasmo por ter encontrado aquele específico, mais saudoso, que já não via há muito tempo e nem sequer me lembrava dele, passou. O facebook é um excelente espelho social: os adultos mais solitários jogam jogos de criança e convidam outros solitários para companhia; as conversas, então as conversas são tal e qual o quotidiano, cada um que ouve algures uma opinião sobre uma tema aleatório, que acha ser muito interessante, dito por alguém bem vestido, coloca logo no seu facebook e aí começa o diálogo, é vê-los a adicionar um simples “gosto” à falta de se ter tido o trabalho de copiar uma frase inteligente algures na internet. Imbuídos de toda esta falsa capa social, continuamos a querer dar a entender que ter é mais importante que ser. Para os meus alunos aquilo até é bom e recomenda-se: conversam uns com os outros on-line, já que é demasiado perigoso estar na rua; ficam a saber umas palavras em inglês; colocam fotografias suas e dos outros em situações que julgam que ninguém vê, mas se põem na internet, então não é essa a situação? Toda a gente ver, gozar, julgar ou seja, também nos mais novos é um excelente espelho social: o rumor, a má-língua, o escárnio, está lá tudo mas aparentemente parece que são só boas notícias. E são. O mundo capitalista a evoluir, as pessoas ficam felizes por já saberem mexer no computador, cada vez mais a fazerem burrices pensando que estão a fazer alguma coisa de importante, cada vez mais dependentes dos privados, cada vez mais sozinhos numa rede social onde o que mais importa é demonstrar a quem não vê, que aparentam saber alguma coisa, na realidade, apenas pagam mais uma conta, a internet, apenas vão tendo automaticamente a memória do computador cada vez mais cheia, até que fica lento, obsoleto e mais uma nova compra, mais um novo crédito, cada vez mais sozinhos. Até os movimentos sociais reivindicativos, seja lá do que for, até estranho como é que ainda não surgiu um a reivindicar chuva, são reações (em vez de ações). Não aumentou o meu número de visitantes do meu blogue. Porque carga de água é que uma farmácia… bom, valha-me Deus.

“Na mochila de um professor”

Uma pasta preta de cabedal. Muita pinta. Faz parte do traje académico e qualquer finalista que se preze, abraça uma na missa da bênção das pastas. Já lá vão uns anos e lembro-me que a melhorzinha delas todas era a da “Toga”. Eu não era o único que não tinha, nem nunca teve, mas tal como tantos outros, tinha a alma cheia de sonhos. Talvez um dia tenha dinheiro para levantar o meu diploma, mas nos tempos que correm, tenho que estabelecer prioridades, e esse é um luxo que pode esperar. Foi numa “loja dos trezentos” que comprei a minha primeira pasta, logo após ter sido colocado pela primeira vez. Lembro-me de admirar as colegas que via envergarem uma pasta de uma qualquer editora, eu sabia que aquelas pastas não estavam ao alcance de qualquer um. Tinha que se ser escolhido pela editora para selecionar livros, e isso era só para quem sabia os programas escolares de trás para a frente e estava à altura de conseguir escolher o manual que melhor serve o propósito da escola em detrimento do produto de determinada editora, depois ir a uma formação qualquer num hotel, ainda por cima, e, só apenas as mais sábias, sim porque ainda é um universo maioritariamente feminino, é que, pensava (e com razão) não estava mesmo à altura de qualquer um. A segunda pasta, já a comprei na loja do chinês. São mais bonitas e duram quase tanto tempo quanto a colocação. O tempo então passou e pude finalmente comprar uma mochila como deve ser. A colocação durou mais do que um período e já me pude dar ao luxo de comprar uma boa mochila (durou quatro anos! [a mochila]). Lá dentro ia de tudo! Até fita-cola, caso fosse preciso! Sei lá… até pensos rápidos. Depois o tempo passou. Dentro da mochila já vai um computador portátil. Comprado em segunda mão na internet é certo, mas já tenho um computador portátil. Depois, acho que fica bem estar a dizer “depois”, não é por falta de vocabulário, é uma questão musical, depois passou a ir uma “pen”; depois já não ia o portátil mas sim uma simples “pen”. Com o aparecimento do portátil, muitos dossiers e cadernos desapareceram da mochila; com a entrada em cena da “pen” desaparecem a maior parte dos manuais e chegam à frente os “powerpoints”. Entretanto o tempo passou e hoje já seleciono manuais escolares. Eu tinha razão, é mesmo preciso saber o que se está a fazer. Tenho umas poucas de “pastas” oferecidas pelas editoras mas, na minha velha mochila, esta já passou os quatro anos, voltou a ir a velha marmita das obras com o almoço, aquela que me acompanhava quando almoçava dentro do carro; um termo chinês com café; um saquito térmico oferecido nas promoções de iogurtes com uma sandes; a garrafa com água da fonte; fruta e ainda há espaço para um livro requisitado na biblioteca. Na alma? Na tal alma com sonhos? Bom, acho que a alma tal como o homem, também amadurece e a minha, se naquela altura tinha sonhos, agora, hoje em dia, tem tantos sonhos que nem cabem no mundo, as crianças tudo merecem e os alunos, não tem culpa do que vai dentro da minha mochila. Já não almoço no carro, à refeição já tenho a companhia de uma sala cheia de professoras e à noite, quando janto na paragem do autocarro, aparece sempre por lá alguém a jantar também.

“Mais do mesmo”

O que é que os meus olhos veem. O que é que os meus olhos veem? Veem mais do mesmo. Resolvi intitular assim esta versão do meu diário para que eu escrevesse com um único propósito, um único sentido, dar a minha visão, a minha versão do mundo mas vai ter que deixar de ser um diário, porque os meus olhos apenas veem mais do mesmo. Tal como aquela história do bêbado que pergunta ao polícia se é verdade que o mundo anda à roda. “É” – responde o polícia. “Então vou-me sentar aqui à espera que a minha casa passe.”

Tive a oportunidade de falar com um músico que sabia o que é “respiração circular”, além de saber o que é, sabia fazer. Depois de o ouvir tocar alpenhorn, dei-lhe os parabéns porque sei que não é nada fácil tocar um mamarracho daqueles. O gajo além de saber tocar, sabe fazer, construir, sim! Além de músico é artesão ou eu não sei lá que raio de nome é que deve dar a quem faz instrumentos artesanalmente. Falou-me da dificuldade de fazer os instrumentos por falta de matéria-prima; do fato de não ter as devidas ferramentas, nem o espaço próprio, é que o alpenhorn que ele tocava, tinha sido construído por ele com restos de tubos de PVC, fita plástica (daquelas das portas que evitam que as moscas entrem) e betume! Diz que falou com alguém que lhe disse que não sei onde talvez o possam ajudar, convenhamos que não é todos os dias que um talento daqueles anda por aí mas, cá está o mas, cá está mais do mesmo e, no estado em que o gajo estava, teve sorte de algumas pessoas dentro do metropolitano lhe terem dado moedas. Eu não resisti a falar com ele cá fora, mal o percebia. Ele, ideias e sonhos até tem, mas esvanecem-se no fumo da droga.

“De cavalo para burro”

Deve ser hum… deve ser, sei lá… difícil, para quem anda a cavalo passar a andar de burro. Eu, como sempre andei a pé não me faz grande diferença mas aqui a vila… passar de vila a aldeia… não é pera doce. Os bens e serviços como estão, vão fazer parte da história. O centro de saúde, o que tem a mais de utentes, tem a menos de médicos, estamos na moda. Eu moro a duzentos metros do edifício e o meu médico de família, que também não serve para coisa nenhuma, pois nunca está disponível, fica lá do outro lado da serra. A repartição de finanças vai deslocalizar; o tribunal idem idem aspas aspas; a segurança social, mais do mesmo, o pessoal que tem estes empregos, são aqueles que vão almoçar ao restaurante cá do enclave, ou melhor iam, o gajo do restaurante pode juntar-se ao do café, à senhora da peixaria e ao homem do talho, na fila para o centro de emprego mas noutra terra, porque até essa delegação por cá fechou. Portanto que condições é que uma terriola deve ter para atrair habitantes?

Vou mudar o meu nome para “Zé Não”, não tenho dívidas nem créditos, também não tenho casa própria, é normal, um ordenado de professor contratado não dá para ter casa própria; não bebo; não fumo; não vou almoçar fora; não isto e não aquilo; não tenho dinheiro para pagar a obrigatória formação profissional, o meu ordenado que nunca aumentou, diminuiu, ora bem assim sendo, que falta é que os políticos me fazem? Eu sacrifico-me a trabalhar para pagar os créditos e as dívidas deles, porquê? Para quê? Não fui que as fiz, porque é que dizem que as fizeram em meu nome? Não sou eu que me gozo do dinheiro, até a terra onde moro em vez de crescer encolhe! Vou mudar o nome para “Zé Encolhe”.

“Queres apostar?”

“A fome e a sede metem a lebre ao caminho” diz o povo e é bem verdade, só que… quanto mais a lebre caminha, menos mata a fome e mais sede tem. Trabalhar a recibos verdes é o cúmulo da subserviência, fazer horas extras, já nem para aumentar uns pontitos na avaliação de desempenho serve, juntar as duas coisas, rebenta com a saúde e depois o dinheiro não chega para pagar o estrago, além disso fica retido na fonte. Pense o mais iludido que um dia mais tarde, depois dos congelamentos, será devolvido no IRS. Esqueça, nem em cabelos brancos terá o retorno do esforço adicional. A única solução é o jogo. Dez euros de sonhos e esperanças, uma vez por mês. Se um desgraçado tem o azar de ganhar qualquer coisita, nem que seja apenas o suficiente para beber um cafezito, é motivante o suficiente para novo investimento na próxima semana. Engodo, chama-se. De uma vez por mês, passou a apenas e só uma vez por semana, já que há essa alternativa. Grande nicho de mercado que esta malta descobriu, é que quem quiser poupar, e assim se engana o mais sedento de ser trapaceado, pode “só” jogar no sábado. Como todos nós sabemos, só calha a quem joga. Toda a gente conta uma história de alguém que conheceu não sei quem que ganhou não sei quanto, que até os filhos estroinaram aquilo tudo com putedo. Então fica provado que se não for a falta de juízo, é possível o sucesso com o jogo. Dez por cento do ordenado mínimo já é gasto em quatro fins-de-semana por mês, se calhar, só uma vez às quartas-feiras para experimentar, não faz mal nenhum, até pode calhar. Portanto e em jeito de conclusão: só aos sábados e quartas-feiras, não custa nada, é assinalar mais uma cruzinha. Consta que a mãe daquela que deixou a garrafa entalada onde não devia, foi burra, pois no hospital apenas fizeram um buraquinho por causa do vácuo, toda a gente conhece esta história, e mais incrível ainda todos conheçam a pessoa em questão pessoalmente e alguns ainda juram a pés juntos que testemunharam a cena! Pois foi precisamente à mãe dessa que calhou o Joker precisamente no único fim-de-semana em que ela não jogou. Ela registou a chave mas achou que deveria poupar um eurito não jogando no Joker. O número estava lá, não ganhou foi porque não quis. Coitados dos pobres, até são pobres a pedir, ou como se diz por aqui: até são pobres no pedir. Ganhar por ganhar, que se ganhe o euromilhões! Isso é que é dinheiro a sério! E com o troco sempre se pode jogar uma raspadinha. É claro que com tanto frequentar a casa do jogo disfarçada de papelaria de livros escolares, uma pessoa vai-se apercebendo que só joga na sociedade da lotaria, aqueles vizinhos que têm grandes carrões. Afinal, em jeito de elação, já não bastava termos um país de desempregados; de alcoólicos; de ladrões e corruptos, temos também um país de viciados no jogo. As coisas que os meus olhos vêem… Ainda fiz uma aposta com o meu oftalmologista em como via bem, mas ele receitou-me umas gotinhas e uns óculos de descanso, pelo sim, pelo não. Consulta e gotinhas, mais de ¼ do ordenado mínimo; os óculos… tive que ficar a dever porque não são comparticipados. No meio de tanta despesa, se jogar uma vez só no totoloto, não se perde nada com isso… até pode ser que ganhe para os óculos.

“Anda p’rá frente, País!”

A segunda-feira até nem começou mal. Acordei mais tarde, como este mês não tenho passe, fica mais económico ir de carro, pude acordar às seis da manhã. Lá fui para o normal engarrafamento na 2ªcircular, logo ali a seguir à portagem da A1, não falhou mesmo nada. Passar a portagem e parar. Pára e arranca, mais aviso de acidente, dar prioridade ao carro da polícia e depois à ambulância, o normal. O filho da minha irmã mais velha chega hoje a Portugal com a namorada. Não quer que ninguém o vá esperar. Claro que telefonei a perguntar qual o número do voo e a hora de chegada. Ela fez-me jurar a pés juntos em como não a denunciaria ao filho como sendo ela a delatora. Coisa fácil de fazer, visto não estar a precisar dos pés para conduzir. A partida estava prevista para as sete da manhã, verificou-se um atraso de duas horas e, como eu estava perto do aeroporto, resolvi passar por lá. Era o único voo que dizia “Info at 08:30” e já eram 8:43 quando resolvi seguir viagem para a escola e tentar descobrir via internet a que horas chegaria o avião. Claro que nestas alturas estes serviços fazem sempre falta, tal como falta fazem as soluções que eles não apresentam. Fiz umas contas de cabeça, se o avião partiu duas horas mais tarde, o melhor é dar um pulinho até ao aeroporto antes da hora de almoço. As minhas colegas garantiram o serviço por mim (amanhã levo-lhes um bolo) e lá fui. O placard avisava que o avião estava atrasado, veio a calhar para que eu pudesse por a leitura em dia. Como este mês não ando de autocarro, tenho menos tempo para ler. Finalmente foi anunciada a aterragem. Ora dali até os passageiros saírem do avião, esperar pela bagagem, devem ser aproximadamente necessários 30 a 40 minutos. Que passaram. Mais dez. Após mais dez minutos passados comecei a arrepender-me de tentar fazer uma surpresa. Esgotaram-se os quinze minutos finais de minha esperança de nem sei bem o quê, talvez que eles tenham passado e eu não os tivesse reconhecido, sei lá. Ei-los! Não me viram. De mansinho fui ter com o puto… que festa que ele fez! “Das ist mein Onkel!” dizia ele com muito orgulho para a namorada apontando para mim. Ainda pensei: “Ela sabe” – mas não disse nada. Fiquei um pouco e como conheço o aeroporto levei-os até onde estão os guichets para levar os carros alugados. SIXT, rent a car, nunca tinha ouvido falar. Agora já ouvi. Deixei-os tratar do assunto e quando vejo o meu sobrinho a esbracejar, falar alto, falar alto… não será bem o termo, era mais a ameaçar o homem que lhe dava porrada! Resolvi aproximar-me para apaziguar os ânimos e dar uma ajudinha. Não havia carro para eles. Está pago para os próximos dez dias mas, como eles não o levantaram a horas, visto o avião ter atrasado, não tem carro disponível. Até parece mentira! A única alternativa que lhe propunham era… sentem-se: uma carrinha de mercadorias. Nada mais, nada menos. Depois de… de… telefonemas e uma fila enorme de clientes, enorme? Dez! O funcionário pediu para aguardarmos que eles atendessem aquela fila, que já nos arranharia uma solução. O cansaço e a fome fê-los acalmar. Eu sei que ralhar e reclamar por escrito, não lhes arranjaria um carro, o puto já tem 23 anos, não lhes devolveriam o dinheiro e eles continuariam enrascados. Sete. Foram sete os passageiros/ clientes a que eu assisti, ninguém em contou, eu vi e ouvi, e não disse ao gajo do balcão quantas línguas falo, que recusaram o raio da carrinha de mercadorias. De uma fila de aproximadamente dez pessoas, a sete foi enfiado o mesmo barrete que ao meu sobrinho. Parece mentira mas é verdade. Essa tal de SIXT, que é uma empresa low cost de aluguer de automóveis, pelo que eu testemunhei, aceita o pagamento do aluguer de uma viatura pedida pelos clientes que, ao chegarem ao balcão do aeroporto, são confrontados com uma situação destas: ou uma carrinha de mercadorias, ou nada. Lá foram eles em direcção à cidade do Porto numa carrinha de mercadorias, com um depósito de gasóleo pago, dispensados de o deixar cheio e, com a promessa por escrito com fax confirmado vindo do Porto, de que ainda esta noite, no aeroporto do Porto, lhe trocariam o carro. Ainda cheguei à escola a tempo de me despedir das minhas colegas.

Paguei uma fortuna de parque de estacionamento.

Estas situações de previsibilidade tornam a vida monótona. Então p’ra quê escrever um diário? Não vale a pena. Não há novidades! Senão… vejamos: acordei antes do despertador, ora pensei logo que deveria ser um sinal divino. E isto porquê? Porque na noite anterior tinha adormecido a pensar onde deveria comprar o tal bolo. Bom, com qualidade e surpresa. Todas essas características estão reunidas num pão-de-ló que se vende por aqui, mas com uma peculiaridade: creme de ovo como recheio, é uma maravilha. Cá está o sinal de Deus, se eu acordei antes do despertador, foi para ter tempo de fazer um desvio de dez quilómetros para comprar o tal bolo, numa casa da especialidade, que mudou de gerência recentemente e que pelos vistos não se sente muito afetada pela crise pois estava fechada. Ora com a porta fechada os clientes não entram. Devem estar a receber um subsídio qualquer para não fazer nada.

A viagem continuou sem surpresas. Os carros da bófia parados junto aos camiões e os gajos que fazem da estrada uma pista de corridas, a baterem recordes de velocidade livremente.

Antes de chegar à escola, ainda tive tempo, cheguei uma hora antes, portanto tempo era o que não me faltava, não tinha era bolo, bebi um abatanado no café junto à Junta de Freguesia, o café lá é tão bom, que se a dona do café me pagar ainda lhe faço publicidade livremente. Indaguei onde poderia comprar um bolo com aquelas características, ou à falta de melhor um sortido de bolinhos também seria aceitável. Numa das três pastelarias assinaladas foi-me me dito que só se tivesse encomendado de véspera, as outras duas poderiam ter ou não, só saberíamos depois de abrirem. Se mais alguém me diz que a vida está difícil, eu pondero a hipótese de “o” ou “a”, mandar trabalhar! Um cliente, muito simpático por sinal, pois demonstrou ser o mais prestável possível, disse-me que o “Pingo Doce” é que costuma ter dessas coisas.” Que tristeza, pensei de mim para comigo, queria eu ser original e ter qualidade no raio do bolo, agora acabo por ir ao Pingo Doce! Enganei-me. Não fui ao Pingo Doce. Quer dizer, ir? Até fui. Estava era fechado. As assistentes operacionais da escola de certeza que sabem destas coisas. E não falhou mesmo nada. Só que nenhuma solução servia. Ou era o cunhado que fazia bolos; ou a pastelaria tal, situada na freguesia vizinha, ou, para minha surpresa: “O Pingo Doce também costuma ter dessas coisas, eles lá dentro têm uma pastelaria.” Não fazia sentido nenhum, deixar outra vez a minha parte do trabalho a ser feita pelas colegas, para ir comprar uns bolitos ao Pingo Doce. Calei-me. Não disse nada acerca de bolo nenhum.

Depois de almoço não resisti, certo que não quero estar a incomodar, mas estava preocupado, não aguentei mais e telefonei-lhes. Fiquei sem palavras. Um tio não deve ficar sem palavras, deve sugerir soluções. Era o que eles estavam a tentar fazer já junto de outra empresa de aluguer de automóveis. Cá está! Foi previsível. Perde a piada. Não tinham alternativa à carrinha de mercadorias. Se quisessem teriam que continuar a conduzir aquela coisa que paga uma pipa de massa nas portagens e consome muito mais combustível do que um ligeiro. Entraram em negociações com a HERTZ, ficaram muito satisfeitos com a ajuda e o trabalho prestados, tesos que nem carapaus, por ter surgido esta despesa extra e, a reaverem algum do dinheiro já pago, só quando voltarem ao país de origem e tiverem resposta à respetiva reclamação. Portanto, que além de elemento de ligação frásica, é conclusivo, não vale a pena escrever um diário.

Diário de antigamente. Andava eu na escola e o brinde de final de férias de Verão era vindimar. Ranchos de gente cruzavam o país, nós vínhamos do extremo Este do Ribatejo para o Litoral Oeste vindimar. Era uma festa. Dormíamos em barracões antigos, casas velhas que apenas pareciam contar histórias de outrora mas não contavam nada. Elas assistiam serenas e velhas aos murmúrios noturnos de quem, já não jovem, se queixava das dores nas costas. Os sonhos dos jovens, esses não sabemos se as paredes das casas velhas os ouviam, ficavam-se pelo erotismo imaginário provocado pelas posições em que se faz a vindima, e por mais uns quantos suspiros sobre o que se poderia fazer debaixo daquelas videiras sem ser apanhar uva ou cortar dedos. Se bem que a respiração ofegante que mal se podia ouvir durante a noite naquela espécie de velho quarto coletivo, sobretudo a ritmada, não deveria ser relativa às dores dos mais velhos. Dores podem provocar um suspiro, não uns poucos! Hoje, venho eu da escola e o brinde de final de férias de Verão é, nada mais nada menos, do que não ir vindimar. Venho lá da cidade grande a acelerar o que me deixam naquelas autoestradas cheias de pilotos de rali, para o Litoral Oeste, onde as estradas com o tempo foram sendo estradas, velhos caminhos de terra entre fazendas que com o passar dos políticos, vão sendo arranjadas e alcatroadas e se vão tornando um perigo, cheias de curvas e desníveis, muito parecidos com rampas de lançamento daqueles malucos que tendem a voar com veículos sem asas, quando vejo o rancho da vindima reduzido a três elementos. Parei e fui lá cumprimentá-los. Esqueci-me que sapatilhas brancas não são o calçado adequado para uma vinha tinta acabada de ter sido virada do avesso. O pai e o filho. O pai gritava com o filho que manobrava o trator com aquela geringonça à qual chamam “a máquina” atrelada, para que ele fizesse a manobra de acordo com o que ele achava ser melhor; o filho de lá de dentro, os pais fazem sempre estes sacrifícios, o filho no bem bom do ar condicionado e o pai cá fora ao sol e ao calor a apanhar os cachos que caem para o chão, voltemos ao filho que a frase já vai longa, esbracejava dentro da cabine. Quando consegui falar, pouco para não incomodar quem trabalha, fiquei a perceber que até a vinha tem que ser adaptada “à máquina”. Não é apenas o homem que se tem de adaptar “à máquina”, a natureza também, se não corre o risco de perecer. Antigamente quando o pai era filho, o vinho era vendido fiado, hoje, o filho explica que o vinho tem de ser vendido a crédito, é que dá mais lucro do que ser vendido fiado. O segredo? Está nos juros.

“Hoje fui à missa”

Continuo a não encontrar nada que seja digno de registo para a posteridade. Tudo o que me tem acontecido, já não acontece pela primeira vez. A grande diferença é que tudo o que torna a acontecer, acontece cada vez pior. Os acontecimentos não são novidade, a mossa que fazem é que é maior. Hoje fui à missa e o que por lá aconteceu também não foi novidade. Mentira! Houve uma! Fizemos uma dramatização coletiva e sem ensaio da chegada de Jesus Cristo a Jerusalém. Demos a voltinha à igreja, em procissão e de raminho na mão. Depois, eu tento tirar proveito, o mais que posso da cerimónia e tomei atenção ao que por lá se lê, ao que por lá se ensina, ao que por lá se explica. A primeira leitura deixou-me a pensar em Gandhi, sobretudo no que este preconizava em relação à não-violência. Aquela estória de dar a face e não responder à letra, não pagar na mesma moeda, significa isso mesmo: reagir de forma diametralmente oposta aquela que poderá ser esperada por parte do agressor. Cheguei a casa e fui confirmar, e isto é que é digno de registo: já não é a primeira vez que o faço, é sim a primeira vez que escrevo no meu diário (que isto de diário já vai tendo muito pouco) que o fiz! Então a primeira leitura reza assim: “Segundo Isaías. 50, 4-7 Sofrimento e confiança «O Senhor Deus ensinou-me o que devo dizer, para saber dar palavras de alento aos desanimados. Cada manhã desperta os meus ouvidos, para que eu aprenda como os discípulos. O Senhor Deus abriu-me os ouvidos, e eu não resisti, nem recusei. Aos que me batiam, apresentei as espáduas, e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me ultrajavam e cuspiam. Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio; por isso não sentia os ultrajes. Endureci o meu rosto como uma pedra, pois sabia que não ficaria envergonhado.” – e pronto, a leitura por aqui se ficou. Até tem uma certa lógica ter-me lembrado de Gandhi. Mas, depois, continuei a ler e… : “O meu defensor está junto de mim. Quem ousará levantar-me um processo? Compareceremos juntos diante do juiz! Apresente-se quem tiver qualquer coisa contra mim. O Senhor Deus vem em meu auxílio; quem ousará condenar-me? Cairão todos esfrangalhados, como roupa velha, roída pela traça».”.

“O antigamente nos dias de hoje”

Diário de antigamente. Andava eu na escola e o brinde de final de férias de Verão era vindimar. Ranchos de gente cruzavam o país, nós vínhamos do extremo Este do Ribatejo para o Litoral Oeste vindimar. Era uma festa. Dormíamos em barracões antigos, casas velhas que apenas pareciam contar histórias de outrora mas não contavam nada. Elas assistiam serenas e velhas aos murmúrios noturnos de quem, já não jovem, se queixava das dores nas costas. Os sonhos dos jovens, esses não sabemos se as paredes das casas velhas os ouviam, ficavam-se pelo erotismo imaginário provocado pelas posições em que se faz a vindima, e por mais uns quantos suspiros sobre o que se poderia fazer debaixo daquelas videiras sem ser apanhar uva ou cortar dedos. Se bem que a respiração ofegante que mal se podia ouvir durante a noite naquela espécie de velho quarto coletivo, sobretudo a ritmada, não deveria ser relativa às dores dos mais velhos. Dores podem provocar um suspiro, não uns poucos! Hoje, venho eu da escola e o brinde de final de férias de Verão é, nada mais nada menos, do que não ir vindimar. Venho lá da cidade grande a acelerar o que me deixam naquelas autoestradas cheias de pilotos de rali, para o Litoral Oeste, onde as estradas com o tempo foram sendo estradas, velhos caminhos de terra entre fazendas que com o passar dos políticos, vão sendo arranjadas e alcatroadas e se vão tornando um perigo, cheias de curvas e desníveis, muito parecidos com rampas de lançamento daqueles malucos que tendem a voar com veículos sem asas, quando vejo o rancho da vindima reduzido a três elementos. Parei e fui lá cumprimentá-los. Esqueci-me que sapatilhas brancas não são o calçado adequado para uma vinha tinta acabada de ter sido virada do avesso. O pai e o filho. O pai gritava com o filho que manobrava o trator com aquela geringonça à qual chamam “a máquina” atrelada, para que ele fizesse a manobra de acordo com o que ele achava ser melhor; o filho de lá de dentro, os pais fazem sempre estes sacrifícios, o filho no bem bom do ar condicionado e o pai cá fora ao sol e ao calor a apanhar os cachos que caem para o chão, voltemos ao filho que a frase já vai longa, esbracejava dentro da cabine. Quando consegui falar, pouco para não incomodar quem trabalha, fiquei a perceber que até a vinha tem que ser adaptada “à máquina”. Não é apenas o homem que se tem de adaptar “à máquina”, a natureza também, se não corre o risco de perecer. Antigamente quando o pai era filho, o vinho era vendido fiado, hoje, o filho explica que o vinho tem de ser vendido a crédito, é que dá mais lucro do que ser vendido fiado. O segredo? Está nos juros.

“Nã’ tenho sorte nenhuma!”

De vez em quando lá vou sonhando com um carro novo. Não resisto e jogo no totoloto. São tão caros que só mesmo desta forma é que poderei sonhar com um carro novo. Já me apercebi carro novo não será fruto do trabalho, só mesmo do acaso. Portanto jogo pelo menos uma vez por mês. Sonhar? Sonho em maior número de vezes. Sábado de manhã lá vou eu todo lampeiro jogar oito cruzinhas, vinte e oito apostas, nada mais, nada menos, são dez euros e umas borras. Este mês, com um pouco de sorte, mesmo que não saía o bolo todo, pode sempre haver uma promoção nos carros. Final de verão, início do ano lectivo, roupas mais curtas para os petizes a precisarem de ser renovadas, portanto gastar o dinheiro em carros não será uma das prioridades da malta, assim sendo pode ser que surja por aí uma promoção de automóveis. Nunca se sabe. Ouvi, mais uma vez a comunicação Social apregoar que o valor dos prémios tinha aumentado. Ao pagar as oito cruzinhas desembolsei quinze euros e tal. Quinze euros e tal? Ah! Já percebi. Até o totoloto aumenta, fica mais caro e nós convencidos que nos estão a fazer um grande favor, a dar-nos uma grande oportunidade de ficarmos ricos, muito ricos, com o aumento do valor dos prémios quando na verdade o que acontece é que caímos no engodo, mordemos o isco e na esperança vã, lá gastamos nós mais dinheiro ainda a apostar no jogo. Fiz contas. Vejamos: (contas à Zé Pedro) 1 semana por mês, 15€; 10 meses a multiplicar por 15€ dá 150€, mais 2 meses que é para somar um ano, equivale a 150 + 30, 5 e 3, 8 dá 180 euros. Mais uma vez ou duas que é por causa de coiso (que isto dos carros está muito caro!) dá duzentos e tal euros. Ora se eu conseguir guardar quinze euros por mês na gaveta das meias de Verão, na próxima volta ao calendário estarão lá duzentos e tal euros. O que é muito bom e quer dizer que eu de agora em diante passarei a ter uma gaveta só para meias de Verão, que é como os ricos, ainda por cima com dinheiro, que é como os pobres. Se eu disser ou pensar que me saíram duzentos e tal euros no Totoloto, fico todo contente, nem que seja apenas uma vez no ano. Depois então é que “venho” com aquela conversa de que é melhor do que nada. Dou razão a quem diz que “o dinheiro não é de quem o ganha, mas sim de quem o poupa.”

Acho que me vou deitar para sonhar mais um pouco…

“Sentir a pressão”

Semanário. Sim, semanário porque seria inapropriado chamar diário a um texto escrito quando o rei faz anos. Diário pressupõe em registo escrito diário, ou quase, que era o que eu me tinha proposto fazer. Não tenho conseguido, é bom sinal. Significa que tenho andado muito ocupado. O que para mim é ótimo porque não deixo muito tempo livre para que o meu cérebro se dedique a essa perigosa atividade que é pensar. Uma das minhas ocupações consiste em adaptar o meu relógio biológico a um novo horário. Acordo todos os dias às cinco e um quarto da manhã e tento já estar a dormir por volta das dez da noite. Ao fim-de-semana a coisa fica entregue ao acaso, o que é um… ainda não arranjei adjetivo que sirva a ocasião mas a verdade é que sabe bem ser o único a fazer barulho ao domingo de manhã. Só se ouvem as teclas do computador e o Banzé a arranhar os sofás. Na rua lá vai piando um passarinho ou outro, nem o camião do lixo passa. Mesmo assim o meu cérebro continua a fazer das dele e algumas são dignas de registo no meu diário, ou melhor semanário, ou seja lá o que for que fique para a posteridade. De alguma forma é sempre um registo de um ponto de vista da nossa realidade social. Aqui fica, registo um: recebi um e-mail que anuncia o fim dos atestados médicos para comprovar a robustez física e o perfil psíquico dos contratados (e demais trabalhadores) bastando apenas fazerem uma declaração. E onde é que uma coisa destas é digna de registo? Ora bem, uma verdade destas, terá consequências agradáveis, muito, na minha vida, daí o respetivo registo. Posso ir jantar fora umas poucas de vezes com o dinheiro do atestado médico. Uma vez pedi um ao médico de família. Mandou-me fazer uns exames, daqueles solicitados pelo médico de família, pago pelo Estado, mas a serem realizados em clínicas privadas, pagos com o dinheiro dos impostos, o que poderia demorar dois meses.

Algo que me impede de dormir cedo é o telefone. Estas modernices de telefonarem para a casa das pessoas são um teste sistemático à minha capacidade de tolerância, paciência e respeito pelo trabalho dos outros. Toca o telefone: por mais dois euros e tal por mês ficará com não-sei-quantos canais televisivos – não quero – tem que aproveitar a oportunidade e tal; toca o telefone, desta vez é da DECO, até esses desgraçados que deveriam ser considerados uma instituição de utilidade pública, tem de pedinchar dois euros e tal por mês às pessoas para sobreviverem; toca o telefone: estes só admitem falar com o dono da casa, antes mesmo de se identificarem. Queriam-me vender filtros para a água da rede pública. As autarquias deviam processar esta malta que tanto os difama. O que me chateou foi o facto da gaja do lado de lá insistir que eu não sabia do que estava a falar. Nunca tinha visto uma coisa assim, eu a dizer-lhe que sabia como é que funciona isso dos testes à água, e ela insistia “Ah, não sabe não!” já vi muita parvoíce mas ligarem-me para me descompor e me chamarem de burro, na tentativa de vender alguma coisa, para mim é inédito. A vantagem do telefone é que ainda não podemos bater nas pessoas. Para nosso bem. Porque a justiça em Portugal… coitado daquele que lhe cair nas malhas… Como é o caso, e este é um país de casos, do juiz que não sobe de escalão enquanto o caso de pedofilia, de violação dos rapazinhos pobres que não têm família, não estiverem esclarecidos. Este juiz teve a ousadia de ir à colmeia espevitar as abelhas. Provavelmente pensou que seria um urso, que metia lá a pata e já está. Enganou-se. Foi o único juiz a ir à Assembleia da República levantar a imunidade parlamentar a um deputado. Este juiz está a precisar de apresentar um atestado de robustez psíquica para o exercício das suas funções (tem é que esperar dois meses pelo resultado das análises). Agora atribuíram-lhe a classificação de muito bom, mas três gajos da comissão que autoriza a avaliação do “juiz armado em urso do mel” são do Partido do Governo! Foram contra a avaliação atribuída. Afinal quem é que manda? O Presidente da República, o Primeiro-ministro, o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, o Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas ou um par de Deputados à Assembleia da República? Existe ou não existe uma máfia no governo? Ainda por cima ganham outra vez! Ah gente valente! Quem manda mais? A justiça ou um partido político? As opiniões valem o que valem e no meu diário despromovido a semanário quero deixar a minha! Então aqui vai: (é o que se pode chamar de cagar a sentença) quem deveria estar à frente disto, oficialmente, deveriam ser os membros dos conselhos das ordens honoríficas portuguesas. Por exemplo os da Rotary International ou então “quiçá”, os ciganos.

“Retrato do país após o 25 de abril”

Nem abril se escreve com letra maiúscula. O patrão acha que ela é boa como o milho. E até é, vestida. Porque o que ela é na realidade, é magra. Só que vestida não se nota. Ela e as outras catorze que trabalham na fábrica das camisas, uns barracões na casa do patrão, ganham seis ou sete euros a mais que o ordenado mínimo. Ainda ninguém percebeu porquê. O patrão chamou-a ao escritório e apalpou-a. Apesar de envergonhada, mulher honrada, ficou abalada, nervosa, a agarrar os cotovelos e a coçar o queixo. O marido, boa gente, depois dos putos se terem ido deitar, lá lhe segurou os ombros, sentou-a no sofá e ela contou-lhe. Contou-lhe implorando que ignorasse aquele desabafo, dizia que aquilo foi só para ele não ficar preocupado e para ela se acalmar um bocadinho. Um gajo estar desempregado tem as suas desvantagens, este, como não tinha mais nada para fazer, passou pela esquadra da vila pediu e aguardou, para falar com o comandante. “Eu vou lá e parto-lhe os cornos!”. O comandante foi sensato “Ó homem, você acalme-se, não desgrace a sua vida. Elas todas juntas, são amigas umas das outras, sabem bem lidar com o velho baboso, vá lá, tenha calma.” No café da praça já corria o boato dela ter sido chamada ao escritório do patrão e, não se sabe quanto tempo depois, ter saído de lá toda cabisbaixa, muito apressada, com o cabelo todo desgrenhado e sem falar nada a ninguém. Ali ficou a costurar as camisas, a olhar para o chão, ela, uma mulher toda conversadora e bem-disposta. O marido passou-se. Foi lá travar-se de razões com o homem. Entre gritos e ameaças, foram as mulheres das camisas que o conseguiram agarrar e tirar de lá para fora, através das lágrimas e desespero a mulher assistia a tudo isto. Nenhuma das mulheres alguma vez tinha visto aquele sujeito, aquele fulano, aquele drogado de mau aspeto que no dia seguinte logo de manhãzinha esteve lá com o patrão no escritório. A verdade é que aquilo ficou tudo virado de pantanas. No relatório das autoridades que foi apresentado ao juiz, estava lá escrito e testemunhado pelo próprio comandante da esquadra, que ele efetivamente tinha ameaçado o patrão da mulher. Acusado de tentativa de homicídio quando roubava o escritório e injúrias a três funcionárias, que testemunharam tudo isto, curiosamente nenhum dos cinco advogado oficiosos que lhe foram sendo atribuídos, pois todos eles tinham uma razão qualquer para não poder prosseguir com o caso, um porque era filho do advogado do patrão, outro porque era primo, outro porque não sei o quê, lhe disseram a mesma coisa “Você não diga ao juiz que foi lá ameaçar o homem porque ele tentou violar a sua mulher! Não faça uma coisa dessas! O juiz nunca acreditaria na verdade! Ó homem você negue!”, era o que lhe diziam. E, curiosamente, parece que ninguém se apercebeu que a data da urgência hospitalar era do dia seguinte às alegadas agressões. Agora sim, com o marido preso ela lá continua a ir trabalhar cada vez mais cabisbaixa e cada vez mais magra, as colegas de trabalho não dão confiança a gente dessa, o patrão finalmente violou-a e os putos lá fazem a vidinha deles, normal, a levar porrada na escola por terem o pai preso. As crianças conseguem ser muito bons alunos, aprendem tudo aquilo que veem e ouvem em casa.

“Discursos de 25 de Abril”

Quem discursar hoje, se não mentir, perde o emprego.

Quem discursou hoje e não mentiu, não perdeu o emprego.

Amanhã, os jornalistas vão fazer a mesma coisa.

“Sábado à noite no facebook”

“Um homem, quando não tem sorte, até os pombos lhe cagam em cima.” – diz o povo e com razão. O que poderiam alterar eram os pombos por gaivotas! “Não há mal que me não venha”, “nem há fome que não dê em fartura!” – a mim as gaivotas já me presentearam duas vezes. Mesmo assim tenho saudades delas. Isto de um gajo ter atingido o estatuto de “cota” não quer dizer que se fique em casa ao sábado à noite. É claro que quem fala assim não é gago, mas também não é menos verdade de que só pode falar assim quem tem a barriga cheia. É verdade! Oitenta e um euros. Foi quanto recebi de IRS na sexta-feira passada. Ora é uma questão de fazer contas, nem é preciso ser-se professor de matemática, basta ser-se professor de qualquer coisa, tal como eu, e estar contratado: se desde o início do ano civil que a fatura da Cabovisão é a bitola das contas, em fevereiro faltaram dez euros para a poder pagar; em março vinte; abril trinta (a conta é de cinquenta!) em maio… é o mês de ir à inspeção com o carro. Trinta euros. Mais o selo da câmara, que é aquele imposto para ter direito a estacionamento e a usar as estradas municipais. Pensavam que era só as portagens que se pagavam? Estacionamento ao pé de casa nunca tenho (ainda me lembro da última vez que me roubaram o carro, de o GNR me sugerir que procurasse melhor, talvez tivesse estacionado num local que não me lembrava, em bem que queria que ele tivesse tido razão) e as estradas municipais estão sempre em obras. Voltando às contas: trinta euros para a inspeção; trinta ou trinta e cinco para o selo ainda sobra dinheiro suficiente para ir beber um copo à praia. Matar saudades dos tempos de juventude. Dez quilómetros no meio dos pomares e vinha; mais dez na A8, nem chega a dez, é aquela parte que ainda não se paga e os últimos dez no IP6 direitinhos a Peniche. Já estávamos aí quando me fizeram sinal de luzes… excesso de velocidade não era, porque como fui multado no início do ano, não posso fazer conduzir descontraidamente nos próximos meses, aliás excesso de velocidade é um luxo que está apenas ao alcance dos políticos, embora alguns não políticos também acelerem bastante, esses, como estão bêbados, não contam, e eu… bem, eu pensei isto tudo depois, porque apercebi-me imediatamente que tinha ficado sem médios. Tenho mínimos. Também tenho máximos mas a manipulo não segura. Preferia estar na praia e que uma gaivota me cagasse me cima… duas vezes! A minha quase-esposa, como passou o dia a trabalhar e amanhã novamente lá vai, já se foi deitar. Era tarde o bastante quando chegamos e os meus nervos não fazem de mim a melhor companhia para a cama de ninguém, em vez de lá estar a… a não fazer nada, a não dormir nem deixar dormir, vou fazer como os outros: vou para o facebook.

“Isto está tudo f*****!”

Preparei-me psicologicamente antes de entrar à porta das finanças para dentro, não basta um Pai-Nosso ao acordar, nos tempos que me correm e escorrem, preciso de carregar a bateira várias vezes ao dia. Então dei por mim a meter conversa com o Sr. da tesouraria, como ele reclamou tanto, eu contei-lhe que, antes de entrar no portão da escola me concentro; penso um pouquinho como quero ser; como gostaria que os outros me vissem e no que estou disposto a dar de mim àquelas crianças, elas não tem culpa de passar fome de, existem palavras mais bonitas que parecem que atenuam a verdade, elas não tem culpa de serem socialmente desfavorecidas, e muito menos dos meus problemas. O homem abriu a boca, suspirou, baixou o olhar, passou a mão pela testa esfregando-a e “Acabou agora de sair daqui um senhor, um velhote com 79 anos de idade, daqueles com as mãos cheias de calos, a chorar, porque por ter pago 39€ de selo, ficou sem dinheiro para comer até ao fim do mês…” eu tentei logo levantar o astral e ele nem me deixou continuar, nem pareceu que me ouvia, e levantando o olhar disse: “Agora imagine o que são mais de trinta anos disto!”. Conversamos mais um pouco, não vale a pena fingir que os problemas não existem, concordei, tal como ele dizia que aqueles que reclamam sem motivo aparente, não importam, mas os que se nota que são pobres e esforçados, isso sim é triste, uma vida inteira a trabalhar para passar fome. E eu, daqui a umas horas vou tentar ensinar crianças com a barriga vazia. Eu costumava tentar motivar para os estudos dizendo que estudando, não se enriquecia, mas pelo menos garantia o congelador cheio. Não sou capaz de usar mais estas palavras, hoje, lembrei-me muito da banda de rock “Xutos & Pontapés” com aquela música “… e o fim do mês já cá está outra vez, e nós sempre a esticar!”, pois estão desatualizados: e o meio do mês já cá está outra vez, e eu, um professor com trabalho, ‘tá bem que sou contratado, que sou o mais baixo da escala salarial, ‘tá bem que nunca fui aumentado, ‘tá bem que vou fazer quarenta anos mas o que não está bem, é que o meu ordenado acabe duas semanas antes do fim do mês. Portanto, o que é que eu deixo escrito para memória futura? As crianças, os velhos e a geração que lá fica pelo meio, está tudo f*****.

“Afinal o tamanho importa”

Isto dos três é algo importante. Desde criança que os meus pais referiam isso; a minha mãe referia-se à Santíssima Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo e o meu pai aos 3M: Marcos; Mercedes e Mulheres. Realmente os tempos já não são aquilo que eram. Aqui há uns três anos, ainda dava para quatro, houve mesmo uma boa ocasião em que cheguei a fazer uma compra de luxo à custa disso! Os tempos foram passando e amassando, o que dantes dava até para quatro, passou a dar para três – como já referi – e depois de um par de natais e dois verões, uma mudança nas moscas e passou a dar para duas, não se ficou por aí, são os tempos e as vontades, agora encolheu e mal dá para duas. Se isto continuar a encolher e, no presente, baseado no passado, perspetivo o futuro – a isso chama-se diacronismo –  vai encolher de certeza, nem que seja por causa dos aumentos, o meu ordenado irá dar para uma semana? Tinha razão o meu pai e a minha mãe. O meu pai, o dinheiro é importante; a minha mãe; que Deus nos valha. Por acaso são três que nunca, ou que normalmente ninguém – penso eu – imagina: o Papa, e/ou a Angelina Jolie e até mesmo o Primeiro-Ministro, podemos imaginá-los a fazer muita coisa mas… a peidarem-se, que é coisa que toca a toda a gente, uns mais outros menos, é… um bocado difícil. Agora imaginar o Primeiro-Ministro a borrar-se todo, até que era um quadro engraçado, porque nós, se não sentimos o cheiro, pelo menos sabemos que manda muita porcaria cá para fora. Enfim, afinal o tamanho conta, tanto o das coisas boas, como o das coisas más.

“Isto dantes é que era bom”

A história permite ler como fomos, o que nos aconteceu e como somos agora. Dantes era assim e era assado e dantes é que era bom. Dizemos isto agora; só quando comparamos o agora com o dantes é que nos apercebemos que no decorrer do dantes, precisamente nessa altura estava a acontecer o agora; ou seja nunca o aproveitamos, só damos o devido valor ao agora quando ele se transforma em dantes. Assim sendo somos a mesma merda que fomos dantes; uns parvos que nunca aproveitaram o agora! E agora é que estamos a ver isso. É sempre bom falar no plural porque evita culpas individuais, certo? Mas agora não é bom porque dantes é que era assim e assado, ora um gajo para estar com estas conversas, isto só pode ser da idade: estou maduro! Que chatice, vou-me já começar a preocupar, com um bocadinho de antecedência porque, senão vejamos: se já estou maduro, isso quer dizer que o que me espera é cair de maduro, ora dantes é que era bom, quando eu ainda não me preocupava que iria cair de maduro. A única conclusão a que eu chego quando tento analisar esta situação grave, é que estou a ficar velho. Eu?! Não! Recuso-me a envelhecer na idade madura. Vou calçar umas sapatilhas e vou correr para o meio da natureza. Vou aproveitar o agora.

Cheguei e estou de volta. Quando resolvi voltar a escrever o meu diário, quer dizer: não resolvi voltar a escrever um diário, porque um diário permite-me ver como eu era no passado e comparar com o que sou hoje e então não escrevo um diário, resolvi sim tomar alguns apontamentos, deixar algumas notas escritas porque vejo cada coisa acontecer que até parece mentira! É digno de um registo escrito. Como por exemplo o meu sábado de manhã! (esse sim, digno de um diário) Sol, véspera de feriado, os passarinhos já voaram da varanda, o que quer dizer que o gato já pode lá ir fora em vez de estar aqui a estragar os sofás, a Primavera com toda a sua força, sento-me ao computador a escrever sobre a ausência do presente e apercebo-me de que estou errado. O melhor é zelar pela minha saúde e ir lá fora aproveitar e estar uno com o mundo, viver na natureza, ser parte do meio ambiente! Ah homem valente!

As sapatilhas, digamos que deveriam ter estado a apanhar sol antes de eu as ter calçado, calções com bolsos de lado não são propriamente os mais adequados para ir correr mas serviram, ainda bem que não foi preciso passar a ferro a t-shirt. Não descobri o boné, ainda, mas sei que tenho um par deles. Cinco minutos a andar até chegar aos pomares, visto que não pode ser logo a correr porque é preciso fazer o aquecimento – é uma palavra que deve ter a ver com cimento pois fiquei com as pernas todas duras – cinco minutos a correr, descansar um bocadinho porque é preciso reaprender a controlar a respiração, quinze a correr, andar um bocadinho e matar as saudades da “dor do burro”. Dantes chamava-se assim a uma dor aqui de lado por causa do cansaço, sim por causa do cansaço e não da falta de preparação física. Verdade seja dita que dantes se dizia que as intenções contam. Um entusiasmo levou-me a descer um monte que demorei pouco mais de meia hora para o subir, devagarinho, no caminho de volta. Sede, a boca mesmo seca, como se tivesse uma espinha na garganta, sol que agora bate direto na careca, dantes eu tinha cabelo não havia esse problema, e dores nos joelhos. Chegar. Sentar-me no sofá e ter de me levantar para ir beber água foi uma tarefa parva, estúpida, deveria ter bebido água antes de me sentar. Bebi água voltei ao sofá, nova parvoíce. O suor tentou sujar o sofá. A custo levantei-me novamente. Preparar a roupa para depois do banho, pôr a que tinha vestido a lavar, enfim toda essa trabalheira desgraçada que se torna numa luta quando o corpo quer é descanso. Quando finalmente me sentei no sofá (descobri que o meu coração bate em mais do que um sítio) e agarrei o comando da televisão, toca a campainha. Era a minha esposa. Chegou do trabalho para almoçar e eu ainda não tinha feito o almoço. “Então estiveste em casa uma manhã inteira a não fizeste nada?”

Isto dantes é que era bom.

A infantilidade grassa no metropolitano de Lisboa

“O que é que os meus olhos vêm?” Nem sei, nem sei bem o que é que os meus olhos vêm. Pelo menos, que eles não me enganassem, já era bom. Deus não pode fazer tudo, eu já sei, gostaria de permanecer na ignorância mas sei que tenho de fazer a minha parte, não há lá diabo nenhum que venha carregar a minha cruz, portanto resta-me minimizar os estragos. Crise politica; crise social e depois, de acordo com as regras, crise financeira, independentemente da ordem a coisa funciona (ou disfunciona) mais ou menos assim. Pois bem, amanhã é dia de festa na escola, festa até às tantas, aberta à comunidade, vai ser “muita fixe!”. O que implica que vá de carro, pois quando chegar o fim da festa, já passou o último expresso. O meio do mês já passou, nem vou sequer referir o fim do mês porque seria enganar-me, a verdade é que a coisa está controlada, tenho meio depósito de gasóleo; comida no congelador; café e tal, tá… remediado. Hoje cheguei à paragem do expresso, eram 6:15 da manhã “Então ó Zé Pedro, o que é que dizes a mais esta greve do metro?”. Fiquei parvo. Fiquei para morrer, fiquei assustadíssimo, surpreendido “Que raio de conversa é essa? Greve no metro? Outra vez?!”. Da última vez que “o metro” fez greve, nem escrevi nada a esse respeito porque já é tão vulgar que nem vale a pena ressalvar esse fato. Eu pensei, sinceramente pensei que aquela gente já tivesse dado por ela e apercebido que não tem estado a resultar, fazer umas poucas de greves ainda não tirou o país da crise e que o gajo que faz de primeiro-ministro e o outro cachopo da oposição, não são afetados por esta infantilidade que, não é o metro, mas sim as gentes do metro fazem este instigar de guerra civil, porque só os pobre é que, mais uma vez, vão sentir na carteira esta… infantilidade, acho que é um bom adjetivo porque creio sinceramente que esta gente deixou de ter noção do que está a fazer, como aquilo é o Estado que paga, que se lixe, mais uma greve, banalizaram o poder da greve, tirando-lhe força, e eu? Bom eu não sei como é que hei de fazer para meter gasóleo que chegue até ao fim do mês. No Continente ainda se pode usar aquele cartão de ficar a dever, agora na bomba de combustível não! É isto que as pessoas do metro ganham com a greve: rancor por parte dos outros. Porque… se a mim me custa, não ter dinheiro para o gasóleo até ao fim do mês, nem quero, nem consigo imaginar, como é que fará quem tem filhos.

“Desta eu não estava à espera”

Prever o imprevisto ou esperar o inesperado? Ainda não percebi qual das duas é que a vida me anda a tentar ensinar. Goste de agendar os dias. Gosto de ter as coisas programadas para saber às quantas ando, para ter as coisas certinhas, chamem-lhe maluquice ou lá o que quiserem, eu para calar os outros, chamo-lhe qualidade profissional antes que lhe chamem defeito. Claro que também tive que acabar com isso e dar espaço ao improviso, deixei agendado um espaço para acontecer o que tiver que acontecer. Em relação ao que não estou à espera, não se pode colocar a questão dessa forma, porque eu já estou à espera de que me aconteça tudo e mais alguma coisa. Que depois do meu ordenado acabar, venha a precisar de dinheiro, já estou à espera; que o meu dia de acordar mais tarde, o domingo, corra mal já estou à espera, mas este foi correndo mal devagarinho… Começou bem! Acordei eram oito e pouco da manhã, coisa rara, mas ligeiramente indisposto, sem apetite, chocho e fui piorando durante o dia até ao final da tarde estar com diarreia, vómitos, o que é uma coisa… ah… desgraçada. Um gajo estar sentado na sanita, a tratar do assunto mais baixo, como dizia o meu pai “a escrever uma carta ao Salazar”, neste caso seria mais “borrar” uma carta e, com vontade de devolver à procedência o que não entrou é, ou melhor não é, ou ainda mantendo a linha: já estou à espera. Por acaso, ter febre, não estava à espera. Que o centro de saúde esteja fechado por falta de médico; que não haja dinheiro para a despesa na farmácia (que os farmacêuticos se queixem que “isto está mau”, dessa não estava à espera! Não que eles dissessem que estavam à rasca mas sim que tenham a ousadia de o dizer); que eu tenha uma virose atípica, e que no dia seguinte tenha de ir ao médico de família para ver se não estaria pior, o que implica faltar ao trabalho, dessa não estava muito à espera mas convenhamos que não estava nas melhores condições para ir trabalhar com crianças, ninguém quererá um professor doente com os filhos e há sempre uma primeira vez para tudo na vida. O tacho onde estava o arroz, até o tacho onde a minha quase-esposa estava a cozinhar o arroz aqui para o desgraçado, até o raio do tacho estava roto! Que não passe nenhum desses profissionais liberais de bicicleta à mão, com aspeto maltrapilho, que tal como todos os outros em Portugal, à noite se pavoneia de Mercedes porque se abotoou na altura das vacas gordas e agora não precisando de dinheiro, tem a ousadia de pedir pelo serviço que disponibiliza, ou pelo produto que comercializa, mais do que o seu valor real, pois, um amola tesouras também não passou. Já estava à espera. Agora por mais voltas que dê, por mais anos que viva, por mais imprevistos que agende, por tretas que sejam que me passem pela cabeça, desta eu não estava à espera, e desafio o maior mentiroso a afirmar que conseguia prever uma destas, que, estando um gajo de caganeira, de soltura, de diarreia ou seja lá de que merda for, que falte a água.

“O rei vai nu”

Gosto de falar com os velhotes. Gente com muita sabedoria, já viveram muitos anos, passaram por muita coisa, sofreram muita coisa, têm a experiência da vida a seu lado. E lá estava eu na taberna a matar saudades de beber um cafezito, luxo que outrora me podia dar, eis senão quando o taberneiro me pergunta pelas coisas da escola. Conversa puxa conversa, uns desabafos pelo meio porque os coitados dos meus alunos são socialmente desfavorecidos e não podemos exigir aos pais, ou à mãe, que deem aquilo que não têm e o senhor ao meu lado entra pela nossa conversa a dentro, é a vantagem dos meios rurais e das tabernas, conhecemo-nos todos, estamos todos à vontade uns com os outros para perguntar e conversar e, com um certo orgulho, ficamos a saber que é ele que custeia os estudos universitários de dois netos. Cheguei à brilhante conclusão que não vale efetivamente a pena ver ou ler as notícias, uns minutos de conversa e fiquei atualizado: somos o sexto país da Europa com o combustível mais caro, sinceramente preferia ter ficado na ignorância, isto dizia o senhor a justificar os gastos com os estudantes, quem preferia ter ficado na ignorância era eu. As novidades continuaram culpando sempre eles lá, como se isso fosse novidade, desta feita “eles lá” são os gestores públicos, os mais bem pagos da Europa. Para mim, isso não é novidade, só justifica que nós não somos pobres e que continuamos a suportar todas essas despesas, não são os espanhóis que as pagam, somos nós. Bom, o que realmente me deixa sem adjetivos é a constatação de que somos o primeiro país da Europa, o número um, aquele onde os estudantes universitários vão para as aulas de viatura própria, nisso os restantes europeus não nos batem. O velhote bem que se ressentiu, porque também ajuda a pagar as prestações dos carros dos netos, explicou que o filho não pode suportar tudo: “O grande problema são – dizia – esses malandros que me têm vindo a cortar na reforma…” – Agora só já recebe, e repito “só” recebe o equivalente a seis ordenados mínimos nacionais. Era funcionário da TAP, curiosamente uma empresa pública, uma daquelas que paga subsídio de férias e de natal, tal como a caixa geral de depósitos, ou os CTT, ou os políticos… enfim, os que ganham bem.

Eu sei e senti que o café é efetivamente viciante mas, mesmo assim ainda consegui beber um abatanado, como nos velhos tempos, só que descafeinado que é para não ir tirar à carteira o que lá não há: o vício do café.

“Escada com os degraus partidos”

Chegou o fim da minha vida tal como eu a concebo. De agora em diante as coisas vão mudar, a minha vida vai mudar para pior e, quem está de braço dado comigo, vai afundar também. Foram anos a escalar até ao topo. Sem luvas, sem rede, sem nada. Incrivelmente um ano repetiu-se e respirei fundo… até que enfim, a rotina. É sinal de que finalmente a vida dava sinais evidentes de estabilizar. A continuar assim, a minha namorada perderá o estatuto de quase-esposa e vou passar a usar uma aliança mais grossa. Num sonho tentámos comprar uma casa, brincadeira que saiu cara. No episódio seguinte ainda vi os preços das guitarras mas, convenhamos que não se trata de algo prioritário, vamos encarar a realidade como ela se nos apresenta para que não tenhamos que sofrer por antecipação. Quando chegar a hora “h”, quero estar com a mente o mais limpa possível para que possa ter capacidade de resposta para o embate. Não com tretas e com e-mails a falar de Deus mas com muita serenidade para que possa aceitar o que não posso modificar. A minha vida vai ser muito mais difícil do embate em diante, vou descer uns quantos degraus subidos com muito esforço e tortellinis comprados no LIDL, guardados dentro de um tupperware e comidos frios dentro de um carro velho, sozinho. O que só por si já foi um grande passo, porque nos primeiros degraus não havia tortellinis mas sandes na paragem do autocarro. Aquelas latas de feijoada também são muito boas!

Pela segunda vez consecutiva meto gasóleo e não atesto o depósito. Desde o início do ano que tenho outro diário. Não é bem um diário, é mais um mensário, coisa que eu nunca tinha tido mas que passei a ter, infelizmente é com tristeza que registo na minha espécie de diário a existência deste cadernito em cima da mesa da sala. O primeiro registo denomina-se água; o segundo, TMN; o terceiro, Cabovisão; o quarto, renda da casa; quinto, passe do Expresso; sexto, passe do metro; sétimo, luz; oitavo, gás e chega, não pode haver mais alíneas. Paciência. Qual destas é que irá ser eliminada? Tenho que começar numa ponta. Com o fato de o país viver com cartão de crédito, os financiadores do cartão chegaram para cortar nas despesas, não no dinheiro gasto com putas e chulos mas sim na segurança social, na saúde e no ensino, não nos que roubam mais mas nos que honestamente ganham menos. Eu sou contratado e a minha quase-esposa também, os dois na função pública.

“Trabalhar ao domingo”

Hoje fomos almoçar à casa dos meus sogros, sardinha assada, uma maravilha. Por… porque que sim, a televisão estava ligada e a primeira meia hora de notícias foi dedicada ao futebol. Até a opinião de uns senhores de Trancoso, que jogavam às cartas, ficamos a saber. Na segunda parte do noticiário assopraram por lá umas palavras quaisquer acerca da nova forma de criminalidade: a política. Ali à mesa ainda se constatou que apesar da excelente e única oportunidade para dar o exemplo e legitimar o corte dos meus subsídios de natal e férias, ganhos honestamente, reduzindo o número de deputados culpando a crise e a troika, tal ainda não se verificou. O que se vai por aí alvitrando é a hipótese de reduzir freguesias e concelhos, onde reside efetivamente a oposição ao poder central.

Era para começar a trabalhar de manhã cedo, a fazer os relatórios que me faltam para as duas reuniões de amanhã, mas como tivemos de ir aos sogros não pude. Esta tarde estou a fingir que trabalho porque, na realidade ando para aqui a gastar o tempo entre blogue e facebook para depois me queixar que não tenho tempo para nada. A verdade que é a minha chefe também por aqui anda, pois acabei de receber um e-mail com os tópicos orientadores do exame oral que terei de realizar aos alunos que solicitarem exame de equivalência. Agora que eu ia começar realmente a trabalhar, tenho que atualizar o “e-mail”.

Estavam boas, as sardinhas.

“O que eu der ao mundo, o mundo me devolverá”

Contar uma boa ação, não conta. Fazer uma boa ação, sim senhor, é bom, por isso é que se chama boa, mas… não resisto. Não para me armar em santo, parecido com “santo” já basta a minha careca, mas para que possa contextualizar a ação. Estava eu na taberna, à conversa com o taberneiro, eis senão quando uma sombra invade todo o estabelecimento em simultâneo com um ruído de estilhaços, barulho de travões e ainda o cenário não estava completo, já estávamos todos a olhar para o camião que tapava as duas portas da tasca. Um camião tinha partido o reclame luminoso. Nestas situações até os velhotes ficam mais ligeiros, pois parecem que chegaram todos à rua primeiro do que eu. Conversas e opiniões; ideias e sentenças; braços no ar e lamentos, a verdade é que quando um dos velhotes chama o taberneiro ao balcão, ele e o camionista, interromperam a troca de razões, os velhos atenderam ao chamado de “só mais um copinho” e naquela avalanche de vontade de beber, porque sede não será com certeza, o camionista bazou. Estava tudo de copo na mão, alguns acabaram de beber o que tinham para depois poder bater com o fundo do copo ruidosamente no balcão, é preciso treinar para fazer aquilo! É que não partem o copo! Eu fiquei calmamente a olhar para o fundo da minha chávena de abatanado, é verdade uma taberna que serve abatanados, pois após os ruídos iniciais, ao chegar à rua tive uma… epifania. Aprendi o termo na missa e acho que fica giro: epifania. Saquei do bloco que trago sempre no bolso do casaco e da caneta que risca sempre o respectivo bolso, anotei a matrícula do camião e o nome da empresa. Sinceramente como vi ali o camionista na conversa, tudo na boa, até pensei que ele entrasse para tomar um copo, senti-me quase envergonhado pois parecia que estava a fazer mais uma das minhas teorias de conspiração na minha cabeça ao anotar os dados. Uns dias depois, foi o patrão da empresa que telefonou ao taberneiro pedindo desculpas e assegurando que o perito da companhia de seguros iria lá, o mais breve possível, avaliar o estrago. A GNR tinha cumprido a sua função.

Ao chegar a casa, ao fim da tarde, estaciono ao lado do carro da minha quase-esposa. Fiquei estupefacto! Bateram-lhe no carro! Duas vezes. Na porta, na parte de trás debaixo do vidro onde seria a porta de trás, caso houvesse. A mesma cor de riscos, igual altura, profundidade do amachucado, tanto na primeira cacetada como na segunda. Estranho, muito estranho, pensei. A senhora da lavandaria e a irmã explicaram-me muito bem explicadinho, que avisaram o senhor do jipe que estava a bater no carro ao tentar estacionar. Ele não concordou, ralhou com elas, afirmou que aquilo já estava e tentou estacionar segunda vez. Voltou a bater. “Ó homem não faça isso ao carro!” – gritou uma delas. Ao que ele perguntou: – O carro é seu? – mas isso agora não interessa para aqui, não vale a pena desenvolver, o importante é que a senhora da lavandaria e a irmã, anotaram a matrícula do jipe, aceitaram testemunhar e foi com esses dados que a GNR, no próprio dia, descobriu o homem. Tenho que aceitar como verdade que “(…) aquilo que eu der ao mundo, o mundo me devolverá.” Eu pensava que se eu desse ao mundo bons-dias, o mundo devolver-me-ia bons-dias, um pouco como aquela história do fazer perguntas ao eco. Mas afinal… é uma expressão com muito mais profundidade do que eu pensava.

“As crianças deviam votar!”

Mãe, pai não gosto daquele.

Não, não dou beijinho e amuam, fazem birra e não dão mesmo beijinho.

Mãe, pai, aquele homem não presta.

Amuam, fazem birra, refilam, é um castigo para se levantarem mas vão trabalhar todos os dias. Também querem ficar na internet até às quinhentas mas lá se vão deitar a horas saudáveis.

Fazem reciclagem, gostam dos animais, perdoam os amigos, são humildes e sinceras e sobretudo, uma das características mais importantes: entendem-se umas com as outras, aquilo passado um bocadinho já não é nada, mas não é para voltar a acontecer! E então as coisas más? As coisas más, é para ficar alerta e se for preciso, se isso voltar a acontecer, é para se contar aos pais que eles resolvem. Pelo sim, pelo não conta-se na mesma, na via das dúvidas, é melhor ficar sem duvidas, é melhor ficar tudo esclarecido para se aproveitar o resto do dia em paz, para poder brincar tranquilo. Depois cumprem as tarefas domésticas a refilar é certo, ah e tal eu faço e ele não faz porquê? Cala-te que ele é teu pai! Ah mas ele também tem que fazer? Porque é que eu faço e ele não faz? Não é justo.

E tem sucesso na vida. Porque é que estás a fugir? Porque aquele fez-me mal! Porque é que vais a correr? Porque aquele é meu amigo. Se tiver um amigo diferente, ele conta, mãe tenho um amigo de uma cor esquisita! É verde! Sim, verde! Andávamos a brincar com uma lata de tinta e ele caiu lá para dentro.

Aaah! Mãe, pai! Aquele homem não parou no sinal vermelho. Mãe, pai! Aquela velhota caiu, vou lá ajudar.

E crescem saudáveis e sãs de mente. E são felizes. E cumprem as suas tarefas. Brincam, trabalham, arreliam a gente, são justas, não gostam de crianças falsas, mentirosas, ladrões, enfim não gostam de gente que lhes faz mal. E não brincam com eles.

“Acresce o IVA”

Por mais mal que se diga dos professores, por mais que se lhes aponte o dedo como culpados de todos os males do mundo, por mais que toda a gente tenha uma opinião a dizer mal porque ouviu dizer na televisão, a verdade é que “Marketing & Publicidade” é um curso superior. Uma das expressões mais vulgares nos diálogos dos tempos de hoje, já não são os bons dias, muito menos o “se faz favor” mas sim o “acresce o IVA”. É fruto das mudanças sociais, dos relacionamentos que as pessoas têm umas com as outras, dantes ainda tinham algum relacionamento, agora, quando comunicam é só para tirar proveito do outro. Existem dois tipos de relacionamento entre as pessoas, o oficial e o paralelo. No paralelo tudo se passa por debaixo do pano, por fora; não é por debaixo dos lençóis, é numa relação económica ilegal. É assim e pronto. Há uns que até têm ganância o suficiente, ou vamos arranjar um sinónimo mais doce: ambição suficiente para serem políticos e, como não poderia deixar de ser, são fruto da sociedade onde vivem, são um espelho dos outros. E é comum a todo o mundo. Onde ainda não é, ressalvo o termo “ainda”. Seja como for, seja lá a desculpa que se dê, é um facto que ninguém quer saber da causa pública para coisa nenhuma, os únicos que ainda resistem aos invasores são o Ásterix e o Óbelix, que não fiquem dúvidas, não são belgas, são personagens de ficção, e de banda desenhada ainda por cima. Quem quiser prevaricar e deixar a ilegalidade, na relação que tem com os outros, ouvirá religiosamente a expressão, a tal que substituiu os bons-dias, “acresce o IVA”. Mas é dito de uma forma que parece que foram os espanhóis que conspurcaram os preços, como se fosse uma doença, ou uma borbulha cheia de pus, à qual se pode escapar, que ninguém quer que rebente, que toda a gente descarta a possibilidade de lhe ser atribuída a culpa de “aquilo” estar ali! Avisam antes da pergunta, olhe está aí essa coisa, mas a culpa não é minha, não fui eu que pus isso aí! Quanto é que é? É tanto, …mais IVA. OK mas quanto é que é? É tanto mais o IVA. Quanto é que eu pago pelo produto que me disponibiliza? O produto é tanto, depois tem o IVA. E lá está o raio daquela coisa extraterrestre a incomodar, a impedir o sucesso do bom relacionamento entre as pessoas. Quanto é que é o produto final porra?! É tanto mais o IVA. Mas se achar que é muito… – não é se pode ou não pagar; é mais ou menos se tem ou não opinião sobre a quantia pedida, não acerca do valor do produto e não se tem capacidade financeira para o adquirir, muito menos se o produto é caro, isso está fora de questão, isso não interessa e margem de lucro, era algo que eles até poderiam ter se não fosse o governo, o governo é que é o culpado deles não terem lucro, porque se não fosse o governo, isto não era a selvageria que é, e todos andávamos ricos e contentes e vamos lá voltar à hipótese de continuar a conversar: – …se achar que é muito pode sempre pagar a prestações. Quanto é que é? Depende… é uma questão de se fazer as contas. OK, quanto é que é? Se for por seis é uma coisa, se for por doze já é diferente, os juros já são outros. OK e quanto é que eu tenho de pagar por mês, qual é o total? Pois… isso depende, depois de feitas as contas ainda tem que se lhe juntar o IVA. Não é um rótulo, é uma espécie de alarme da peste. Alerta para que esta coisa tem peste. É de evitar e fugir a sete pés. A peste, a grande peste que foi a culpada por todos os males da Europa e quiçá do mundo, agora invade as relações com as pessoas e há que fugir dela a sete pés. É uma coisa que não tem cura e muita antiga, já fez muito mal a muita gente. Só que estamos a falar do IVA e não da peste. Não é nada complicado: a coisa custa tanto. Ou então, custa tanto mais IVA. E ainda dizem que já não vale de nada estudar.

“A vida é um ciclo, infelizmente”

Quando os pais dos meus alunos me perguntavam porque é que os filhos haveriam de estudar, eu lá ia explicando que a única maneira de ter alguma coisa no congelador é estudando, com alguns estudos no bolso, não se fica rico, mas sempre se consegue um emprego melhorzinho. São tempos pretéritos, como diria um gajo que foi primeiro-ministro não eleito, para parecer que estava a falar muito caro, mas tinha razão, são tempos que já lá vão, eu, para combater o espaço vazio no congelador, lá fui estudando e adaptando o meu currículo, o meu currículo e a minha pessoa, às necessidades de mercado. Eu gosto disto: aprender, ensinar, evoluir, tornar a aprender e tornar a ensinar a evoluir, e assim sucessivamente. E depois, depois lidar com a geração do futuro permanentemente é uma relação privilegiada e, quando os pais nos pedem ajuda, humildemente, é, nem sei como dizer, parece que o coração se enche de esperança e vontade de contribuir, o mais humildemente possível para o sucesso daquela família. Ser professor é mais do que ser agente de ação social, é ser parte integrante do progresso individual e familiar da gente da nossa sociedade, dos nossos vizinhos, das pessoas que nos olham e vão olhar a vida toda e sorrir. E isso motiva. Saudade, é um termo muito português para recordar o passado com um sorriso, para recordar as memórias com esperança de um futuro melhorzinho. Então e agora Senhor Professor? O seu congelador está vazio, estudar pra quê?

“Afinal moro na Índia!”

Informação e conhecimento, são conceitos que a opinião publicada e a opinião pública banalizaram desprovendo-os de significância. Já toda a gente acha que ter ou saber umas informações soltas, aleatórias, o suficiente para dizer umas larachas lá em casa, enquanto passa um programa qualquer na televisão, é ter conhecimento. Pois eu não sou exceção e, como nunca fui à India, também tenho a minha opinião de acordo com todos aqueles e-mails que me vão enchendo a caixa de entrada. Consta que aquilo por lá é uma sociedade de castas. Cá também. Há uns que são os intocáveis, pois mais que se queira há uns que não se lhes pode tocar. Cá também. A miséria é grande, há tantos que se contentam com tão pouco, não porque queiram, mas porque não tem alternativa. Cá também. As imagens dos comboios lá, retratam tanta gente que chegam a ir no tejadilho. Se arranjarem uma escadita, acredito que o metropolitano, agora mais lento e com metade do número de carruagens, tenha lá um espacito… A roupa é artesanal. Cá vai passar a ser. Os produtos exportados são à custa de mão-de-obra escrava, cá também. Afinal moro na Índia! O que temos em comum, é o mesmo que temos de diferente: eles lá têm o Taj Mahal, que é um monumento fúnebre, nós cá matamos o amor.

“Tudo nos é Imposto”

A vantagem de acordar muito cedo durante semana, é que, durante o fim-de-semana também se acorda cedo. Pelo menos eu. A verdade é que gostaria de acordar tarde. Bem, mas já que acordei cedo e tenho que ir à inspeção com o carro, o prazo aproxima-se a uma velocidade quase próxima da multa, mais um par de dias e não escapa, lá fui eu. Consegui chegar antes da hora de abertura, “vou ser dos primeiros”, pensava. As quarenta e três pessoas que estavam à minha frente devem ter pensado algo parecido. Nas últimas duas semanas a minha viatura andou três vezes de reboque, aquele da assistência em viagem. O que faz com que esta visita ao centro de inspeções não me deixe nada preocupado. Depois destes estágios na oficina, o carro de certeza que passa. Na fila, agora não se pode dizer bicha porque soa a paneleirice, é uma das modernices do acordo ortográfico, sempre se disse bicha em português e agora não se pode porque pode ser interpretado como erro de linguagem, tretas! Não é erro de linguagem, é opção sexual. Mas isso é outra conversa, a da fila era sobre a mina de ouro que é o centro de inspeções. Não deixa de ser curioso o fato de a inspeção ser obrigatória e paga, tornando-se esta mais uma fonte de receita de impostos. Imposto puxa imposto, conversa puxa conversa, então vamos lá a ver: imposto automóvel aquando da compra da viatura; imposto municipal que é mais um daqueles autocolantes que está lá no vidro mas que agora nem isso; seguro automóvel, imposto; gasóleo, imposto; portagens, imposto; parque de estacionamento e aqui surgiu a dúvida, é pago mas não dedutível nos impostos e não faz sentido nenhum se já tendo sido pago o imposto municipal, ainda tenha que se pagar imposto de estacionamento, bom, seja como for tudo nos é imposto. Chegou a minha vez: “Tem de apresentar documentos válidos.” Até fiquei parvo, ainda mais do que aquilo que já sou. Eu aguardo que me seja enviado o Documento Único Automóvel, o documento que tenho em minha posse a comprovar provisoriamente que a viatura é minha apresenta um prazo caducado. A senhora explicou-me que tenho de ir a Lisboa renovar o selo, visto que o documento ainda não chegou. O único dia em que tal tarefa é possível, questionei-me, só mesmo quando vier cá o Papa, mas nesse dia os funcionários estão todos na missa, não trabalham. Não deixa de ser curioso o fato de a autarquia daqui, apenas dar meio-dia de tolerância de ponto, será que dá para assistir a meia missa? Não obstante, isto não é maneira de começar o Sábado. Pensei que para relaxar o melhor é descarregar nos amigos, à falta dos mesmos a família também serve. Passo pelo Mini Preço, compro marisco para fazer um almoço para a família, convido a minha irmã, cunhado e sobrinhos, a minha quase-esposa está a trabalhar, quando chegar a hora de almoço, estará tudo prontinho. Se bem o pensei, melhor o fiz. Quando cheguei ao Mini Preço, constatei que agora o termo falência diz-se encerrado para obras (deve ter a ver com o acordo ortográfico). Como estava perto da Caixa Geral de Depósitos, resolvi atualizar a caderneta e por conseguinte adiar o almoço, tendo em conta a nova informação que me foi fornecida. Até parece mentira, ainda nem o sino da Igreja bateu as dez da manhã. O que é que me irá acontecer mais no meu dia de descanso? Já sei! Com a intensidade com que está a chover, o melhor é ir apanhar a roupa.

“Grátis, se…”

A minha vida tem altos e baixos. Diz o povo e queira Deus que tenha razão. Isso significa que a qualquer momento vou ter um “alto” pois tem sido só “baixos”. Por vezes tenho momentos nos quais faço uma análise, uma espécie de inventário à minha vida para ver como a coisa anda. Em algumas das situações, a análise requer a colaboração da minha quase-esposa. Desta vez, e em relação aos “altos e baixos”, a única coisa que está ao meu alcance, é evitar que os “baixos” fiquem mais baixos ainda, analisamos o rol de faturas que pagamos mensalmente. Depois de uma investigação minuciosa a cada caso descobrimos que era possível baixar a fatura da Cabovisão, uma das três promoções ou alternativas ou lá que raio é que a voz do telefone dá como título à opção contratual, permitir-nos-ia ficar a pagar quarenta e um euros e uns cêntimos, em vez dos actuais (ou será atuais? Já nem sei como é que se escreve) cinquenta e três e tal, no mínimo. Tal como estava pagávamos meia-hora de chamadas em telefone, quer usássemos ou não. Como não há contador, não há hipótese, não há solução, eles lá não permitem que nós saibamos quanto desse crédito já está gasto, normalmente excedíamos a tal meia hora e, como é óbvio tínhamos que suportar os custos de tais chamadas. A internet é muito bonita mas quando se tem família espalhada pela Europa, pelo menos um telefonemazinho de vez em quando, sempre ajuda a matar as saudades e não é a mesma coisa que um e-mail. É essa a grande perca neste novo tarifário, passamos a dispor de chamadas grátis apenas para a rede fixa. Não compreendo. Por mais que me expliquem e eu sou especialista em explicar as coisas, é uma qualidade profissional, não compreendo como é que pagando uma fatura, eu pago efetivamente o serviço, (será efetivamente? é que o dedo escorrega para a tecla) me informam que as chamadas são grátis! Tenho que começar a chumbar alunos que não percebam que quando se paga alguma coisa, isso não quer dizer que a coisa – seja ela um bem ou um serviço – é grátis, nem que se ofereça um pacote de batatas-fritas! Se não pagarmos a conta, não há cá batatas-fritas grátis para ninguém! Bom, voltando ao mundo real, continuamos a dispor de internet, acabou-se “ver” alguma coisa na televisão, agora temos tantos canais que o que mais vejo é um tal de “zapping”, primeiro que descubra onde é que está a dar alguma coisa de jeito… torna-se ainda mais aborrecido. Chegou a fatura para pagar: Pacote = 73,92€; Promoções = -44,17€; Total = 41,82. Grande vantagem esta do serviço ser feito ao telefone, porque se fosse ao balcão, personalizado como era antigamente, não haveriam seguranças desempregados, porque só assim é que estes ladrões evitavam levar uns murros valentes por mentirem às pessoas! A minha quase-esposa salvou-me de um ataque de fúria e conseguiu explicar à voz do telefone que não foi nada disto que nos tinham dito! Ele também esclareceu que é “só” durante um ano que vigora a promoção.

“O insucesso do choque tecnológico”

Lei de Murphy – tradução para português: “Quando um homem não tem sorte, até os pombos lhe cagam em cima”.

Um dia normal para mim é cheio de surpresas. Por mais que agende muito bem todas as tarefas a realizar, o espaço que não deixo para o imprevisto, domina sempre. Quer eu queira, quer não, e nunca quero, a lei de Murphy irrompe no meu dia, por mais indesejável que seja. Para hoje estava agendado no período da tarde deslocar-me ao campus de justiça na Expo 98, eu não sei muito bem como é que aquilo lá se chama, mas o que tenho a fazer é ir pagar o imposto de circulação de um carro que não tenho há mais de… sei lá, nem sei, cerca de oito anos, mais coisa menos coisa. Recebi o e-mail das finanças para pagar e reservei a tarde do dia de hoje para tratar disso. Como estas coisas correm sempre mal, não almocei e fui da ponta de uma linha de metro até à outra, a gare do Oriente, munido de uma cópia do e-mail do “Novo Pedido de Apreensão Automóvel” porque, claro está, já tinha tentado tratar deste assunto por umas das vias disponíveis para o efeito: a internet. A prova está à vista, não resultou. O senhor explicou que “pela internet isso não está a dar”. Perguntou-me também porque é que me estava a rir – Porque é que se está a rir, é por ter de pagar? – e eu respondi muito sinceramente – Naão! – eu já sei que não se pode dizer a verdade a esta gente, dependo das boas graças deles para ter sucesso na minha demanda e disse – Acho piada porque a minha morada já não é essa há mais de dez anos e eu fiz a alteração. – Já me faltam dentes, mesmo assim menti com os que tinha. Quando foi para tratar da alteração de morada na carta de condução, perguntei a um representante das forças da autoridade onde é que isso se fazia (já estou tão escaldado que não digo se foi à PSP ou à GNR). Em Lisboa na DGV ou então ali na escola de condução eles tratam disso – foi a resposta. Na escola de condução cobravam 35€. Fui à loja do cidadão aqui no enclave de Montejunto e tratei da coisa por 49 cêntimos e duas fotografias. E também me estava rir pelo fato do senhor me estar a dizer na minha cara que pela internet não funciona, então por que carga-de-água é que disponibilizam o serviço? Como a verdade normalmente me trás dissabores, resolvi adocicá-la. Vendeu-me o papelinho com o qual me deveria deslocar ao IMTT sito na Av. Elias Garcia. Nem perguntei o que é isso do IMTT, limitei-me apenas a perguntar por um ponto de referência. O Campo Pequeno. Fixe, tem Metro, foi o que pensei, ainda chego antes das quatro, é que em Portugal os serviços públicos, aqueles que prestam um serviço ao público, encerram às quatro da tarde, e já sei que pela internet não dá. A senhora perguntou-me pelos impressos e eu a única coisa que sabia é que, quando voltei ao ferro-velho onde o carro tinha ficado com documentos e tudo, estava lá o sítio, mais nada, nem um pneu. Aquele lixo todo deve ter dado cabo do solo, é que nem um arbusto por ali se via.

Ao sair do Expresso, antes de ir para casa, fiz umas compritas. Valha-me Deus que bem pode. Larguei o carrinho das compras para abrir o porta-bagagem, meti a mão na fechadura e… ao abrir a porta, o carrinho das compras bateu no farolim traseiro do lado esquerdo partindo-o. Isto parece mentira! Um farolim partido por um carrinho das compras empurrado por mim! Quando eu morrer vou ajustar contas com o Edward Murphy!

Como já passou o Dia de S. Receber, antes de ir para casa, passei pelo multibanco para pagar umas faturas que já trazia comigo. Fizeram obras na Caixa Geral de Depósitos mas o problema anterior mantêm-se, as operações com caderneta não funcionam. Pedi o recibo com uma consulta de movimentos e a “Compra DRMT Lisboa E” aparece duas vezes. É verdade, realmente quando paguei lá no IMTT, o terminal não funcionou e a senhora usou o da colega (é um piso onde só trabalham mulheres, curioso, até a segurança é do sexo feminino). O que acontece nestas situações, nas quais já estou experiente, é que quando não funciona um pagamento à primeira, o que aparece registado no recibo do multibanco, é uma operação repetida com a letra “E”, seguida do valor em questão com o sinal de mais, e depois a mesma indicação com o sinal de menos. A primeira indica o erro e a respetiva reposição da quantia, a segunda com o sinal de menos indica efetivamente que o dinheiro foi retirado. Os meus registos apresentam ambos o sinal de subtração, o que quer dizer na realidade que paguei o serviço duas vezes, mas só tenho um recibo.

Fim do dia, um farolim partido, menos dez euros e um problema por resolver pois a senhora disse que “Depois, eles lá, logo se vê o que é que resolvem”. Tinha finalmente adormecido quando a minha quase-esposa chegou e justificou porque é que chegou tão tarde, tinha estado a salvar mais um cãozinho que encontrou na beira da estrada abandonado e com uma pata partida. Ainda bem para ela e melhor para o bicho, assim fez uma boa ação e eu não descarreguei nela a pressão que vou descarregar no Murphy quando o encontrar lá do outro lado, que lei mais parva.

“Assentar a economia (de preferência a dormir a sesta)”

Não é apenas no mês de Maria que se podem ver peregrinos na estrada. Eu pessoalmente, e cá está a ressalva: pessoalmente… ou seja no meu caso, no que me diz respeito, não estabeleço relações comerciais com entidade divinas. Embora das milhentas ideias, opiniões e sugestões (um pouco quase como os treinadores de bancada, todos opinam em relação ao que os outros fazem) que por aí se vão dizendo, a que ouvi mais espetacular foi a de um frei, às seis da tarde de uma sexta-feira no canal dois (frei esse que tive a oportunidade de cumprimentar pessoalmente no santuário de Fátima), dizia que a peregrinação independentemente das opiniões a favor ou contra, do que as pessoas possam ou não fazer durante o resto do ano, é sempre um ato de fé, a peregrinação é uma demonstração de fé, pelo menos para quem a faz. Tanto os peregrinos como a malta que anda a apanhar as peras, têm em comum o fato de serem alvo das buzinas automóveis. Não resisto a uma buzinadela e uma mão de fora da janela dizendo adeus a um peregrino, fazem uma festa! Respondem com um sorriso, com um cajado, mas respondem sempre com um rosto alegre apesar do cansaço evidente. A malta que está a apanhar pera, responde aos gritos. A buzinadela, verdade seja dita, não significa “Camaradas compreendo a vossa luta, força aí que estão quase a acabar a colheita” mas sim “Olhem aqui para mim, que vou sentadinho, já acabei a apanha e vocês ainda estão aí a torrar ao sol e a arranhar os braços que nem condenados.” mas não obstante a malta responde sempre com uma valente gritaria, talvez um pouco indefinida, pelo menos é o que eu faço quando sou o alvo das buzinadelas. Buzinas à parte, é giro ver ali o acampamento de ciganos na zona do mercado anual, não será bem anual que deva dizer, porque aquilo acontece duas ou três vezes por ano, com um “valente” acampamento de ciganos. Há muita gente por aqui a apanhar pera. De Este a Oeste, de Norte a Sul, no meio das árvores, vê-se gente de todas as cores e de todas as idades a trabalhar, uns mais outros menos mas a trabalhar. “Ah pera valente!” – é uma expressão cá do Oeste. Quem quiser ver um valente engarrafamento de tratores, deve dirigir-se à cooperativa, dez, vinte tratores paradinhos em fila, todos uns atrás dos outros, os condutores juntos em amena cavaqueira abrigados na sombra mais próxima, aguardam a vez de descarregar. Dentro da fruteira a situação muda radicalmente, ali a GNR não deveria de entrar, as mulheres que aceleram os empilhadores por aqueles corredores adentro, regem-se por leis próprias que, pelos vistos só elas conhecem. Umas aceleram do lado direito, outras do lado esquerdo, aquilo o que importa é descarregar os tratores e não derrubar o gajo que anda lá de bata branca de bicicleta! Ah homem corajoso! Tenho pena de não ter filmado a cena: elas a acelerar por tudo o quanto é espaço, desviando-se apenas do ciclista, sem baterem umas nas outras, são como as formigas. É engraçado ver na linha de montagem (nem sei se se chamará assim) a transformação dos milhares de toneladas de peras em caixinhas airosas que são carregadas diretamente para camiões frigoríficos gigantes, daqueles difíceis de ultrapassar, que descarregam diretamente nos cais de embarque de mercadorias. Os clientes americanos, ingleses e russos, agradecem. Quer dizer, agradecer, agradecer, não agradecem, pagam. No inverno russo, um quilo de pera rocha do Oeste, chega a custar seis a sete dólares, eu não vi, mas os russos viram. E é assim que o mundo anda para a frente. Depois da pera vêm a vindima. E depois da vindima vêm o desemprego. O mês da pera, um: o mês da vindima, outro; os restantes dez, desemprego, ora não é sustentável, tirando quem aluga as casas de praia, mais ninguém ganha o suficiente, a trabalhar subentende-se, não a roubar, que dê para o ano inteiro. Estranho país este, que assenta a sua economia em bens e serviços, que não produzem riqueza nenhuma e em turismo, não pode haver coisa mais incerta. Eu bem que os vejo chegar aqui ao Budda’s Eden, autocarros e autocarros carregadinhos deles, todos com o farnel embrulhadinho para comer debaixo de uma valente sombra.

“Wild, wild west again”

Já mataram o gajo da líbia, já mataram o gajo do Iraque, até o tal terrorista que trabalhava a soldo dos americanos fazendo atentados em casa alheia, faz lembrar um bocado o século passado, aquele onde esteve na moda derrubar os ditadores, e o preço do gasóleo está cada vez mais alto? Então aquela mortandade toda foi para quê? Eu não enriqueci. Então e a barreira psicológica de um euro? Tanta coisa, tanta notícia com a barreira psicológica de 1€ e agora ninguém diz nada? Vamos aguardar pela barreira psicológica dos 2€? Ninguém reparou que o canibalismo na Europa já começou, está na moda, ou continua. Faz lembrar um bocado o século passado, derrubou-se por todo o lado as ditaduras para se instalar umas democracias nos vários governos e com passas e com bolos, ou futebol e cerveja, parece que ninguém viu que as democracias também já foram derrubadas e agora vigora o que retratam os filmes americanos de cowboys de há dois séculos atrás. Os desgraçados matavam-se a trabalhar na linha do comboio para ter dinheiro para um bilhete, e quem mandava era o gajo mais gordo e mais rico, o xerife apenas empunhava pistolas trabalhando a soldo do gajo gordo e os deputados mal apareciam no filme, eram assim uma espécie de miragem. Isto era dantes, que a ficção se baseava na realidade, e agora, agora também! Por mais que me esforce, não consigo perceber como é que eu vos vou comprar os vossos produtos, se são vocês que me estão a “dispensar” o dinheiro a crédito? Não percebo como é que vocês ainda não perceberam isso? Os pobres, quando não tiverem nada para comer, vão comer os ricos.

“Super Guarda-chuva”

Comprei uma sombrinha numa loja de material agrícola na secção de caçadores. Como vive no carro, o guarda-chuva tem conseguido sobreviver desde há quatro anos a esta parte, também o facto de ter custado dezasseis euros serve para que eu acredite que resistirá mais tempo do que um comprado no chinês, que não compro, ou do que aqueles vendidos à porta do metro. É enorme, em alguns lugares da Baixa não cabe entre a parede e os sinais de trânsito, chegando mesmo a ser mais largo do que o próprio passeio (nota-se que quem administra os passeios não usa cadeira de rodas). Por dezasseis euros devo ter ficado bem servido, para me convencer disso a prova está à vista, o guarda-chuva resiste ano após ano, lá atrás dos bancos do carro. E tem outro detalhe que eu gosto: não é preto! Hoje vi-lhe a etiqueta: “Hecho in China”.

“Quer perder peso? Pergunte-me como”

Nos primeiros tempos é carta fora do baralho; nos vinte não conta, aquilo derrete tudo; os trinta, como são uma dezena de anitos de trabalho, de trabalho? de trabalhos! Bom, como ia dizendo são uma década de dois ou três trabalhos por ano em dois ou três locais diferentes, por tempo determinado e incerto, sempre com o fim à vista, horário e ordenado incompletos e outras tantas visitas ao centro de emprego portanto não há problema. A chatice começa quando a coisa estabiliza… no primeiro ano vemos que a conversa das mulheres, principalmente das mais velhas, não é só conversa e isso nota-se a olhos vistos. Até os homens. “Chegar ao quarenta e não ter barriga é mariquice” é uma expressão tão fora de moda como as máquinas de escrever. É que eles também vão à natação e ao ginásio. Duas a três vezes por semana! Não há nada como o exemplo. A internet e a televisão passam a ter razão: é muito importante isso do ginásio e da educação física e tal, e então os ganhos para a saúde?! No segundo ano de estabilidade pronto! “Falar é da boca, cagar é do cú” não diz o povo mas devia porque não há nada como ação, meter as sapatilhas e as barbatanas ao caminho. Um ano em beleza, toda a gente tinha razão. Ao terceiro ano de horário e ordenado completo começa o prenúncio da crise, o ginásio faliu. Progride a natação para três vezes semanais. No ano seguinte os governantes fecham a torneira e como aquilo está tudo estragado ainda vão caindo alguns pingos, então aumentam o diâmetro do ralo de fundo e a natação que passou a custar o dobro, é a primeira despesa a ser eliminada. O prenúncio da crise é superado pelo espectro do desemprego; a senha de almoço é trocada pela comida levada de casa. A refeição passa a ser massa com feijão que é para dar força, tal como os pastores na serra antigamente, a sopa do jantar é acompanhada por pão, pão e mais pão, ou seja açorda, os nervos atraem o pacote das bolachas para ao pé do teclado do computador e o resultado sente-se: a balança não avariou e apesar do ordenado ter encolhido a cintura aumentou. Nisto chegam as férias, palavras completamente vazias, ocas de significado, chegou uma boa altura para mudar de casa para uma renda mais baratinha. Só acartar livros e manuais escolares acumulados ao longo dos anos, de um segundo andar sem elevador, para um terceiro piso sem elevador, algures tinha que estar a diferença para a renda ser mais barata, rebenta com qualquer um. Quinze dias, duas semanas nisto! Desmontar, arrumar, acartar, tornar a montar, fingir que está arrumando, subir e descer, subir e descer, claro está que se fosse para comer toda a gente aparecia e estão as férias a meio. Na outra metade das férias, tem que se aproveitar a oportunidade! Apanha da fruta. “Aquilo é só apanhar fruta!” diz quem não faz a mínima ideia do que é andar a subir e descer escadotes (subir à árvore é para fingir que se trabalha e impressionar as miúdas) com baldes carregadinhos de peras, um sol abrasador que explica a qualquer um a importância da sesta e uma velocidade de trabalho que permite não só não ser dispensado amanhã, mas também para manter a porta aberta para a próxima campanha. Pois é! São muitos cães a um osso. Passaram as férias. A seguir às férias? Desemprego e vindima. Feitas as contas, são menos dez quilos. Remédio santo. Menos dez quilos num mês! E poupa-se no ginásio…

“Casei com um Anjo Canino”

Olha querida, vou então à reunião, daqui a hora e meia duas horas, estou de volta. Vou ficar aqui descansadinha a ver um filme! – disse a minha quase-esposa. Quando voltei da associação onde faço voluntariado, exclamou e disse: Ah! Adivinha lá? Se fores capaz! Fácil – respondi – foste salvar um gato… Como é que adivinhas-te? Achas isto normal!? Acho, vindo de ti, é a coisa mais normal deste mundo. Ficares em casa a ver um filme e acabares na rua a salvar um gato de uma morte lenta e agoniante. Foi então que me apercebi que esta normalidade ainda não estava registada no meu arquivo de coisas para memória futura, precisamente por ser uma situação perfeitamente normal. Uma bela sexta-feira, chego do Expresso e no parque do jardim onde deixei o carro estacionado vi uma rosa cor-de-laranja. Tenho que trazer cá a minha quase-esposa para ela ver isto! Jantei sozinho nesse dia porque ela ficou a salvar um gato não-sei-onde até às quinhentas. No dia seguinte fomos lá ver a rosa cor-de-laranja. ‘Tás a ouvir? Não estás a ouvir? Olha! Ouve… ai Zé, é um miar tão aflitivo… e começou mais uma demanda na mata municipal à procura do gatito recém-abandonado. Segue-se a ida ao chinês mais próximo comprar comida, mais umas tentativas para apanhar o bicho e a minha paciência lá se vai esgotando. Isto no Sábado. No Domingo fomos ao shopping, fomos ao shopping ou quase! Nas traseiras, onde estacionamos, lá estava mais um cão abandonado, magrinho e cheio de fome. Não deixa de ser revelador da mentalidade desta escumalha que nos rodeia: dentro do shopping, cães à venda por mais de dois ordenados mínimos; lá fora, grátis. Quarta-feira à tarde. Desta vez vou p’ró deserto! E fomos. Pai Mogo, é ali algures no fim do mundo entre a Praia da Areia Branca e Peniche. É tão deserto que por ali até as águias, fugidas da Serra de Montejunto, poisam no chão. Depois das rochas que aluíram encosta abaixo, escondendo o que resta da praia, meia barraca cujos destroços revelam indícios do que outrora poderá ter sido um bar; um farol meio abandonado com um guarda a cumprir pena, de certeza, porque estar de serviço naquele fim de mundo, só pode ser castigo, e um cão que está lá dentro da vedação; mais restos mortais do que poderá ter sido um forte, curioso, nós, os portugueses, de um monumento fazemos um monte de pedras e ali os nuestros hermanos, duma pedra fazem um monumento, não obstante a realidade é que… olha, olha! Viste? O que foi? Ai Zé Pedro ainda são cachorrinhos… Lá do meio daquele desterro trouxemos três! Fim-de-semana seguinte praia? Não vale a pena, a cada duas horas o telefone dela toca e lá começam a chover os pedidos de ajuda. Chamem-lhe karma, ou está-lhe no sangue, seja lá o que for, farto, fartinho de lhe dizer que ela não é responsável pela irresponsabilidade dos outros, ao que ela me responde sempre o mesmo: “Mas os bichinhos não têm culpa… e eles é que sofrem!”. Estou tão farto que, se não os podes vencer, junta-te a eles, portanto: dizeres-me que ficas em casa a ver um filme e acabares na rua a salvar um desgraçado de um animal que alguém se fartou de ter em casa, é normal.

“A cigarra e a formiga”

As parábolas parecem coisas velhas e antigas, histórias que já ninguém conta, de livros que já ninguém lê, de rumores que outrora existiram – agora vêm a parte que está muito na moda: – mas – cá está! É o “mas” por alguma coisa elas são parábolas, pelo saber da experiência, não nasceram do nada e isto tudo, lá dos bichos e das formigas, é o que faz andar a mudar de casa no verão! Temos que aproveitar as férias para arranjar o ninho para o inverno. Tese e antítese. A cigarra… bom essa gaja é uma espécie em vias de evolução para a internet: curte bué e safa-se sempre e toda a gente pensa como é que será papá-la. Eu bem que me lembro dela quando olho para a minha guitarra, um dia destes ainda lhe vou tirar o pó, é amanhã! Seja como for, andamos os dois cansadíssimos. Escada acima, escada abaixo, com a tralha às costas e cada vez parece que há mais coisas por fazer. Isto cansa, até já descobri uma palavra nova, que é o síndrome de exaustão, não têm a ver mas parece assim uma coisa cara. Então, amanhã é dia de ir à praia, foi o que nós combinamos, amanhã, que é hoje. Desde há uns anos a esta parte a treinar a acordar cedíssimo, continuo a fazê-lo mesmo não sendo necessário, a minha quase-esposa consegue ficar a dormir até mais tarde. Ainda bem. Assim tenho a desculpa de que não posso fazer nada, pois iria fazer muito barulho, e eu não quero acordá-la, o que é excelente para que eu me ocupe a calhandrar no facebook, a atualizar o blogue e a eliminar aqueles e-mails todos de gajas nuas e de notícias acerca dos gajos muito ricos, os super-ricos. Eu ainda acho que esta cambada de otários continua a enaltecer os ladrões. É que a notícia mais badalada é o Top 10 dos mais ricos do país, sendo liderada pelo dono do Continente. Perguntem lá aos funcionários do Continente como é que é viver com o ordenado mínimo, fazer turnos, trabalhar fins-de-semana e imitar aqui o desgraçado do Zé Pedro na precariedade? Voltando ao meu dia de praia, como já era quase hora de almoço, mentira, nós esperamos de propósito porque não temos que chegue para ir almoçar fora, ainda pus uma máquina a lavar. Enquanto tratei da roupa a Sofia fez o almoço. Aí vão eles para a praia! Meio do mês de Agosto. Hum… a estrada cheia de trânsito ainda vá que não vá. Este vento… pode ser que passe e leve as nuvens. Quando chegamos ao local de descanso não conseguimos perceber o que é que meia dúzia de teimosos estava lá a fazer. A areia que brincava com o vento era tanta que nem dava para ter os olhos abertos, parecia um filme! Demos uma voltita e ficámos no carro a tentar olhar para o mar, só se via nuvens e franceses. Ainda comemos o lanche no carro, tal como se faz no inverno e, de volta a casa, quase a chegar, a cerca de dez quilómetros, começa a chover. Depois de apanhar a roupa que está toda molhada, sentei-me a ver televisão, a empresa a quem pagamos a mensalidade, não paga as contas ao meu canal de eleição e então, sentei-me em frente ao computador a escrever no meu arquivo para memória futura. O meu desejo sincero é que daqui a uns anos, podem ser poucos, eu volte a ler isto e ache piada, é que agora não tem graça nenhuma. Fábulas, é para a bicharada, mas parábolas toca-me no cabedal.

“Armadilhas para ratos”

Até as férias de verão são preenchidas com rotinas. Confesso que o dia começa bem, basta não ter despertador que já é bom. Oração da manhã; lavar os olhos; ligar o computador; por o café a fazer; entretanto o computador já pede a password, é normal que seja lento, já nem sei há quantos anos não tem bateria, e sempre a carregar atualizações… café novamente; comer uma fruta e ver o correio eletrónico; blogue; facebook; e antes de suspender o computador há a visita obrigatória e muito atenta ao site da Direção Regional dos Recursos Humanos da Educação, é lá que saem as regras, autorizações e datas dos concursos, como estamos a meio do verão, convém estar muito, muito atento. Na terça-feira saiu o manual de instruções para as ofertas de escola. Li, reli e percebi que as direções das escolas tinham algum trabalho a fazer. Quarta-feira, despedida do feriado do dia santo que celebra a Assunção de Nossa Senhora, acho muito bem, se é dia santo porque carga de água é que há de ser feriado civil num estado laico? Quando os praticantes de determinada religião pagarem impostos para a mesma, justifica-se que tenham direito ao dia aqueles que tiverem pago para isso e o anúncio do fim da rotina, amanhã já toca o despertador para a apanha da pera. Quinta, dito e certo, despertador e um dia de calor a apanhar peras de preferência do lado da sombra, mas a chatice é que todos pensam o mesmo. Depois do duche, ainda olhámos para as coisas que é preciso acartar mas, não acho tenho a certeza que nenhum de nós dois conseguiria puxar um dos gatos pelo rabo. A alteração à rotina consiste em ligar o computador; ver o e-mail; facebook; blogue e site da DGRHE à noite. Chegou uma mensagem ao meu “96”: é preciso fazer as atualizações das habilitações, para poder ir a concurso às ofertas de escola, até hoje à noite – a mensagem não era bem assim, mas o conteúdo era esse – igual à que chegou ao “91”! Estranho, pensei e liguei para o colega: Olha lá pá?! Eu li aquele treta toda mas a impressão com que fiquei é que era dirigido às direções das escola – Eu também percebi isso – foi a resposta. Liguei para o outro e a continuação foi que não havia lá nada de novo na aplicação no site na terça de manhã, mas passou a haver mais tarde! Lá fiz a atualização que consiste basicamente em repetir a informação contida no verbete que já está explicita em todo o processo de concurso que decorreu durante o ano letivo. Mas… o que chamou a minha atenção, para que registasse aqui nos meus arquivos para memória futura, foi o fato de ter recebido a mensagem no 96, reenviei 7; recebi no 91, reenviei 7; enquanto concorria abri o Facebook e enviei 7 mensagens, não tenho o contato de todos quantos poderiam precisar desta informação, foi o que se pode arranjar. Entretanto começamos a responder uns aos outros e constatei que todos, estamos a falar de um grupo etário que varia entre os 35 e os 45 anos de idade, professores e professoras, no pico do verão, nas férias, estão a um palmo de distância do computador em casa, alguns nem isso, estão mesmo on-line no facebook e, apenas uma perdeu a oportunidade de estar calada, respondeu que já sabia e que já tinha tudo feito, mas voltando ao que me apercebi, senti que deva deixar registado um novo termo inglês que se adapta muito bem aos dias de hoje: “staycation”. É uma mistura entre “vacation” e “stay at home”, conforme o próprio nome indica. Também me lembrei, mas isso já é mais hardcore, do sorriso que antecede a morte, estamos todos de férias antes do desemprego.

“SCUT Rir é o melhor remédio”

Fui visitar a mamã. 50km de A1, 3.75€; 50km de A23, a antiga SCUT IP6, Sem Custos para o Utilizador, 4.40€. Ao p´ra cá vi por fora, pela alternativa, demorei mais do dobro do tempo, quase três horas para fazer uns míseros 130km. Mais de 1.5€ por cada litro de gasóleo, Mamã, já tenho uma desculpa para te visitar menos vezes!

“Rir NÃO é o melhor remédio, porque isto não tem graça nenhuma”

Bom e é assim que o dinheiro circula: vou visitar a Mamã, digamos… hum… uma vez por mês: 130km x 2 = 1/3 do depósito; portagens na A1 x 2 = não é significativo; uma paragem para beber café, num sítio qualquer que faça lembrar os tempos de estudante universitário, mais comprar melancia ou melão numa das paragens que fazíamos nos tempos em que o Papá vinha a Portugal; almoçar fora com a Mamã; ir beber café ao clube da terra onde nasci, que não é a mesma onde a Mamã mora; visitar velhos e velhos amigos; voltar à terra onde mora a Mamã; beber um copo com um amigo ou dois; mais dois dedos de conversa; na viagem de volta paragem obrigatória no mirante do Castelo de Almourol e com um bocado de sorte e romantismo, uma queca ao ar livre a ver passar o comboio. Claro que não nos poderíamos vir embora da terra da palha, sem comprar alguma para os amigos cá da terra. Eu já estou farto de comer daquilo, mas como é um doce conventual com um nome tão engraçado e dado à paródia, lá tem que ser. Isso era dantes. Agora o dinheiro não circula, porque… : “SCUT Rir é o melhor remédio” – Fui visitar a mamã. 50km de A1, 3.75€; 50km de A23, a antiga SCUT IP6, Sem Custos para o Utilizador, 4.40€. Ao p´ra cá vi por fora, pela alternativa, demorei mais do dobro do tempo, quase três horas para fazer uns míseros 130km. Mais de 1.5€ por cada litro de gasóleo, Mamã, já tenho uma desculpa para te visitar menos vezes!” – infelizmente a falta de dinheiro não é uma desculpa, é um argumento. Melancias, café e palha? É coisa do passado. Visitar a Mamã faz bem por todos os motivos e mais alguns, incluindo o passeio, o Ribatejo é lindo, o relaxe, o sair da vida agitada do quotidiano e aproveitar enquanto ela está viva, porque escrever no facebook que se tem saudades da família, estando eles presentes, é um desperdício de tempo. Os fins-de-semana passados a pensar no que se poderia fazer se os ladrões não tivessem enriquecido com o dinheiro dos meus impostos, não dá saúde nenhuma, mas é o que se pode arranjar. “Bom e é assim que o dinheiro circula” e a saúde, e o equilíbrio mental, e… não percebo como é que contraindo as finanças, elas expandem.

“A música da Cabovisão é melhor do que a da EDP”

Isto não é só subir e descer escadas com a tralha às costas! Falta a parte que depende dos outros para que fique concluída a tarefa. Pelo menos a mudança, porque isso de arrumar tudo… leva o seu tempo, muito tempo.

Na Cabovisão, embora seja a companhia que tutela a internet cá em casa, o melhor é fazer o pedido de transferência ao balcão. Sim senhora, nas próximas quarenta e oito horas a coisa está feita. Telefone-nos caso surja um imprevisto. A equipa de exteriores fica com o vosso contato e qualquer coisa ligam.

EDP. Nas próximas quarenta e oito horas, alguém vos ligará a combinar a hora e a data a que vão lá a casa.

Água. Pagamos logo o serviço, trinta e nove euros. E depois algo familiar: nas próximas quarenta e oito horas, alguém lhes ligará a combinar a coisa. Até hoje estou à espera do telefonema do gajo das águas. Andávamos nós escadas abaixo, escadas acima, quando uma das almas caridosas que se apiedou de nós e levou um caixa para cima, se lembrou de abrir uma torneira. Fomos aos serviços de manhã, no final do dia já tínhamos água em casa.

Nas vinte e horas seguintes, liga a Cabovisão. Ainda não tínhamos informação da EDP mas marcamos uma data. Por falar em EDP: vinte e quatro horas, mais vinte e quatro são quarenta e oito, mais vinte e quatro é hora de ir lá reclamar. Ah e tal a senhora do balcão telefonou para o outro balcão que diz que nos telefonou mas que se calhar se enganou no número. Telefonam nas próximas quarenta e oito horas. Ligámos para a Cabovisão para informar da necessidade de adiar a data marcada. Ficámos em linha à espera mas, não foi grande problema, eles até passam umas músicas fixes. Ora bem EDP! Já íamos nas vinte e quatro vezes três, que foi o dia em que acrescentaram mais quarente e oito dá: setenta e duas mais vinte e quatro dá quatro dias, mais vinte e quatro cinco dias, entretanto é preciso remarcar com a Cabovisão e tudo isto está a acontecer na semana em que vão a concurso alguns horários de escola, que sai a lista de colocações e urgentemente, se calhar nas próximas vinte e quatro horas, o resultado do último exame que pode dar a licenciatura à minha quase-esposa. E nós sem internet, neste reme-reme (nem sei se será assim que se escreve?). A Sofia foi trabalhar, estava eu na sanita – dantes dizia-se que era a escrever uma carta ao Salazar, agora estava e enviar uma ao sucessor, seja lá ele quem foi, pois a diferença está na cor da imagem) – batem à porta. Era a luz. No dia seguinte, isto parece mentira, estava eu na casa de banho, é o que faz ter um relógio biológico afinadinho! Não é para qualquer um! Batem à porta, era a Cabovisão. Andaram para trás e para a frente e pronto assine aqui. Não! Eu ainda não vi nada disso a funcionar, não assino. Até eu próprio fiquei surpreendido comigo. Eu? Que não sou nada destas coisas… não foi preciso explicar muito para me enrolar e lá se ir embora sem a coisa a funcionar. Depois elas lá ligam-lhe isso tudo. Quando vir as luzinhas todas a piscar é porque o serviço já está ativado. E mudar de morada?! Afinal este país não pára só no mês de Natal. Pára também em Agosto e em Julho! Porque a desculpa para a falha dos serviços, estão de férias, leva-me a concluir que estão de férias em Julho e Agosto, ou seja os serviços funcionam dois meses por ano com metade do número de funcionários. Então o que é que eles estão lá a fazer os outros nove, se basta um? (dois mais nove, onze, o outro é o mês de natal que não funciona, de todo). Durante os dois meses de Verão, a marioneta que lá fica pendurada, serve para dizer que o outro boneco está de férias.

“Por a mão na fruta”

A apanha da pera, da maçã ou de outro fruto qualquer, é uma boa analogia para o país, isto é: todos começam a trabalhar com entusiasmo, com a ideia no dinheiro, depois, quando verificam que é preciso trabalhar efetivamente, dar ao cabedal, fazer qualquer coisa, chegam-se atrás. Os exploradores andam todos contentes porque conseguem uma excelente relação preço/custo. Os explorados, todos dizem que não precisam de lá andar, todos mentem visto que a verdade é que todos aproveitam. Podia-me lembrar dos mineiros, são os desgraçados que andam à martelada à rocha, dentro de uma gruta, para que o dono use um relógio de ouro que custa mais que um carro novo. Um carro novo dos bons! Mas não percebo nada disso. Podia usar o exemplo dos grandes latifundiários mas iria parecer ficção quando dissesse que os milhares de romenos e tailandeses que por ai trabalham ilegalmente, recebem quase um por cento do ordenado mínimo, uns míseros cinco euros por dia. Portanto a colheita sazonal é um aceitável exemplo para comparar com ao país: uns poucos com o trabalho de muitos, governam-me para o ano inteiro, enquanto que os muitos… continuam a aumentar o número de “muitos”.

Há mais quem ponha a mão na fruta. Isto assim vai continuar porque, onde há fumo, há fogo, e ainda não se fala pelos corredores das universidade de gestão, uma onde lecionam o Dr. Santana Lopes e o Dr. Diogo Freitas do Amaral; um que foi primeiro-ministro (não eleito); outro foi presidente das Nações Unidas, em alguém responder criminalmente por gestão danosa dos dinheiros públicos. Fala-se apenas disso na apanha da pera com os estudantes universitários. Ou seja: não há fumo, nem fogo. Mas queima. Pior ainda! Até temos tido políticos reformados. Se são reformados não deviam trabalhar. Se tão bons para serem ministros, deveriam estar no ativo. O que é que têm a perder caso governem mal? Até o presidente, se presidir mal, ganha reforma à mesma! E são uns poucos! Anda bicho na fruta…

“País em estágio”

Não me considero daquela geração que ainda faz, porque é a lei, são as regras. Há por aí muito disso, dessa expressão “eu ainda sou da geração”, como se essa gente, dessa geração, já cá não estivesse com o valor que ainda e cada vez mais tem. Parece-me que há uma excessiva preocupação com a geração do futuro, com os homens e mulheres de amanhã, esquecendo os de hoje que ainda aí estão a dar cartas. Bom, mas voltando ao “Ainda sou daqueles que faz pisca nas rotundas; que paro no semáforo as 6:05 da manhã” – só eu! Aprendi contra a minha vontade que “a lei é igual para todos”, prova porque é que os portugueses não percebem nada de matemática. Nem com um ministro da educação da área! Multas no valor de 1/9 do ordenado, são diferentes de 1/4 ou de 1/20, é igual onde? Lembrei-me de tudo isto porque, como se poderá depreender já fui multado e, hoje de manhã, ao ir buscar os papéis para o desemprego, vi alguém a fazer marcha atrás na via verde. As ideias começaram-se a encadear e fizeram uma breve paragem pelas escolas de condução. Quem quiser tirar um curso de instrutor de condução, tem de o pagar. Até aqui tudo certo. Assim sendo não irá chumbar porque o dinheiro custa a sair do bolso. O estágio consiste em dar aulas de condução. A escola de condução prescinde dos funcionários porque passou a ter estagiários à disposição. O dinheiro dos ordenados passa a servir para os carros de luxo. As ideias e as cerejas… Estagiários a conduzir o Expresso! Aprendi esta quando um deles me contou que, comentado entre os motoristas, um estagiário que passe dois anos a conduzir o expresso entre Lisboa e o ponto de partida, sem um toque, ou seja sem ter uma nesguinha de acidente, deve ser elevado à categoria de santo. Eu não me interessa cá nada disso das estatísticas dos acidentes rodoviários. Da maneira que os portugueses conduzem, acho espetacular não haver mais mortos. O que me deixou preocupado é o fato de um condutor supostamente profissional, de um autocarro cheio de gente, ser estagiário! E durante dois anos! Bom, não me deveria surpreender, tendo em conta que os instrutores de condução também são estagiários…

Atrás de umas, vêm outras… Estagiária no dentista. Estagiário no Station Marche, estava de cá com umas trombas e com uns maus modos… mas que gostou da gorjeta, lá isso gostou.

Não sei se é atrás de umas, ou entrelaçadas numas vêm… é por aí. As miúdas estagiárias mais espetaculares que vi são passageiras no Expresso, cada uma estaciona o seu Mercedes, um de cada lado do meu velhinho comercial. Aliás o país está tão em estágio que até é governado com subsídio! Perdão, a crédito. É uma moda mais Americana: os alunos pagam o próprio estágio recorrendo a crédito bancário.

“Se a mamã dá dinheiro, vou trabalhar para quê?

Isto de mudar de casa no verão, para aproveitar a oportunidade, tem que se lhe diga. É claro que toda esta baixa de preços nos alertou para sondarmos o mercado. Surgiu um T2 tentador. Pensei em registar para memória futura as percentagens e fazer assim uns cálculos a modos que técnicos, para que ficasse com um aspeto intemporal e tal, mas isso apenas serviria para que quando no futuro voltasse a ler esta minha espécie de diário, não percebesse nada, ou apenas constatasse que na altura estava-me a armar. Então é assim: um T2 com sótão; um lugar de garagem; duas frentes, uma para o sol de manhã, a da sala; outra para o sol de tarde, a da cozinha e com varanda! Como eu gostaria de uma cozinha com varanda! Sessenta mil euros. Já com alguns anitos. Poucos. Usado. Já tinha ido a leilão por cinquenta e cinco mil e não tinha sido vendido. É que o apartamento é propriedade da caixa Geral de Depósitos, ou seja do banco do Estado. Curiosamente, ou melhor ainda, muito melhor ainda, arduamente, nós somos ambos funcionários do Estado, portanto a coisa promete. À partida o negócio do banco é dinheiro, não devem querer tijolos em forma da casa para nada?!Penso eu. “Ah, não pode fazer as contas assim!” – dizia-me a senhora. Isto para os 60 mil. “Não posso? Então mas quem é que vai pagar a casa? Sou eu ou são vocês?” – depois veio um senhor explicar-me que “não se pode fazer as contas assim”; “que estes valores são os mais baixos de sempre; que é uma excelente oportunidade de negócio” e mais umas palavras que não me entravam no cérebro porque estava a fazer as tais contas que não se podem fazer. É que aquilo não me entrava na cabeça! Como é que eu lhes vou pedir para me venderem 60 mil euros, e eles dizem que sim senhor, que me emprestam o dinheiro, que é muito bom negócio, que temos de aproveitar a oportunidade e esse reme-reme todo, quando nas minhas contas eu teria que pagar pelos 60 mil euros, cento e cinquenta e oito mil e umas borras! É esta a melhor oportunidade do mercado? É esta a oportunidade de negócio?! Devem estar a gozar comigo?! Aí a minha quase-esposa entrou em cena. Negociou a coisa, lançou o valor dos cinquenta e cinco mil que ela sabia que tinham sido pedidos em leilão. Os dias passaram, os telefonemas também, percebi! É o que faz muitos anos a regatear roupa: as mulheres ficam boas nestas coisas. Vou chumbar todos os alunos que me aparecerem pela frente e confundirem o significado do verbo “emprestar” com “vender”. Episódio seguinte, mais negócios frente e frente: “Ah sabe, não pode fazer as contas assim.” – confesso que já estava farto daquela conversa – “Então como é que se faz as contas? Sou eu que vou pagar, não sou? – dizia eu meio exaltado. A senhora calma e simpaticamente, explicou muito bem explicadinho, que esta simulação, estes valores, estas prestações mensais, estes juros, só são válidos nos próximos dois anos, por isso é que agora, neste preciso momento, em que os juros sofreram uma baixa histórica (aqui comecei outra vez a ouvir mal, coitadinhos dos juros, se calhar precisam de ir ao médico!) e que depois isto é tudo revisto. Valeu-me a Sofia que entrou a cena para que finalmente nos dissessem e resposta em relação à proposta que ela copiou dos valores a leilão, não. Ora bem, sou forçado a concluir que se a casa já tinha ido a leilão por 55 mil e ninguém comprou, é porque não querem vender! Aqui a senhora descoseu-se e deixou escapar que havia outra proposta a concurso. Não quero saber quem, quero saber quanto? Não podemos, é sigiloso. Pausa. A senhora lá disse que iria falar com não-sei-quem, para que reanalisasse a nossa proposta. Saímos dali, perguntamos ao taberneiro, a outra proposta é de quarenta mil. Não vendem porque não precisam. Está sempre a chegar dinheiro do FMI! Dinheiro esse, que sou eu que pago. Optamos por um aluguer mais barato e uma casa maior.

“Os passarinhos na janela”

Debaixo de uma árvore qualquer se fazia ninho. Até que a geração seguinte se apercebeu que seria mais seguro fazer o ninho dentro da copa. Depois veio o cimento. E, tal como o homem, também os passarinhos migraram do campo para a cidade. Um pouco ao contrário: a cidade é que invadiu o campo. Que o digam o primeiro casal de pintassilgos que nidificaram na nossa dracaena. Retirada do lixo pela minha quase-esposa, é agora um cato enorme na varanda que vai albergando pintassilgos selvagens. A primeira geração nidificou junto ao vidro, apesar das investidas do gato Banzé, cedo os passaritos se aperceberam que gato doméstico (sobretudo quando está atrás de um vidro) não é grande ameaça. A segunda e a terceira geração esconderam o ninho dentro da copa do cato. A quarta geração foi a que se escondeu melhor. A quinta e última, esconderam-se de nós. Fizeram o ninho num vaso, na terra, para que ficasse debaixo de uma folha, escondidos de nós mas exposto à estrada, a potenciais predadores e às adversidades climatéricas. Nós não os conseguíamos ver. Engraçado como as coisas mudaram: a primeira geração, a mais rural delas todas, resistia a tudo e a todos, não demonstrava medo nenhum quer dos humanos, pois nós ficávamos sentadinhos no sofá a assistir ao espetáculo em direto, quer dos miaumiferos. O passarito alimentava a mãe e os filhotes. As coisas modernizaram-se de tal forma, que este último pai foi uma vergonha. Cedo abandonou a pintassilga à sua sorte e era ver a coitada da passarinha a alimentar os quatro filhotes sozinha. Inventamos uma espécie de guarda-sol, pois o calor quando aperta é a sério, e para evitar que a chuva (e choveu mesmo) molhasse a terra, enfim, o oposto dos pássaros de primeira geração. Construíram no pior sítio, defenderam-se de quem não era inimigo, expuseram-se a maiores riscos e rapidamente, com o número de filhos a aumentar, a família se desfez. Não sobreviveram todos.

“Classe política, escumalha do piorio. Basta! Já chega disto, vou tocar guitarra…”

A promiscuidade que grassa na tutela do dinheiro do povo é atroz. É inaceitável que tal situação se perpetue impunemente. Arder nas chamas do fogo eterno não é argumento que compense a espera pelo desfecho de ações criminosas. Roubar o dinheiro do povo devia ser crime. O fato do ensino gratuito ser uma mentira, já é só por si, elucidativo da farsa que por aí devassa. Nervos, preocupações, chatices e no fim, no fim faz lembrar aquelas operações enormes que fazíamos no quadro na disciplina de matemática cujo resto era zero. A política da atualidade consiste em manobras de diversão para encapotar o roubo do dinheiro do povo. A desculpa da igualdade, quer seja de direitos ou de oportunidades, não passa disso mesmo. Chega, basta de iludir os pobres colocando-lhes uma cenoura à frente do nariz, que tal como os burros, vão andando para a frente em troca da esperança de ter uma melhor refeição. Para meu melhor exemplo, recorro àquilo que percebo, uso a minha outrora nobre profissão, hoje arrastada pela lama na boca da classe política, de professor. No ensino encena-se uma das melhores peças de injustiça social atrás do título da causa comum e do bem-estar social. A referência às médias e às estatísticas nada mais é do que uma farsa. Na realidade os estudantes não estudam, não se interessam pelo conhecimento, o que pretendem na realidade é ter um diploma que lhes permita ver o ordenado engordar mais do que o do vizinho e o Estado compactua com isso. Em desespero de causa, até mesmo como fuga à pobreza, há quem tente estudar e caia no engodo do subsídio para ser apanhado nesta teia do direito à educação e formação superior. Um curso superior não é para quem quer, é para quem pode. Escusado seria o governo de se vangloriar dos louros daquilo que não faz. Na realidade, efetivamente, quem é ajudado financeiramente pelo governo a pagar os estudos, não são os mais necessitados, não são os pobres que tentam desalmadamente manter o nariz à tona, são sim aqueles que frequentam as universidades particulares. Universidades particulares, essas que cobram prestação mensal ao governo sob a forma de alunos subsidiados e ainda recebem avultadas quantias de parceria com o Estado. Aliás é esse o objetivo de uma empresa: gerar lucro e burlar o Estado com o conluio dos governantes. A mui nobilíssima profissão docente ainda existe, estudantes com fome também e gente que vê vedada uma oportunidade por falta de dinheiro é o que não falta por aí. Para os ricos, os pobres são escória, restos de gente que tem de ser mantida assim, que por mais que se digladiem com as dificuldades da vida, nunca hão de sair da linha de água porque a mão que se estende, ao ser agarrada, apenas empurra para baixo, para que quem aspire ao desafogo apenas meta mais água nos pulmões. O Sol quando nasce é para todos mas o ar puro não. Quem pense que por ser pobre pode ser subsidiado para estudar na universidade pública, desengane-se, esse ar é para ser respirado pelos usurpadores. Mais uma voz que se cala para que não seja conspurcada ao fazer referência a quem tem valores morais e sociais doentios, a minha.

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