Um ano na vida do Zé Pedro

Quinta-feira, 17 de Julho de 2008.

Chegou a censura.

Já! Ainda mal tinha publicado meia dúzia de textos quando chegou a censura. Ainda esta aventura mal começou e já me começam a dar razão, a qual diga-se de passagem, que neste ano na vida do Zé Pedro, eu não preciso para nada! A lição que o Zé Pedro me está a dar custa um bocadinho a engolir mas, cá vai, os diários a papel e tinta não são comentados, ou se o são, será apenas depois do personagem morto, mas nos blogues o caso muda de figura. Ora visto que chegou a censura em forma de consequências negativas àqueles que me rodeiam é melhor eu começar a limitar essas passagens. Isto é apenas uma merda de um blogue no qual eu tento retratar a realidade actual baseando alguns dos momentos narrados na minha experiência pessoal, mas à aqui muita ficção, nem devia ser preciso eu salvaguardar isso. Evidente que os leitores ao tentarem colar os personagens à realidade apenas serve para tirar piada ao dário do Zé Pedro. Os professores ainda não ensinaram a populaça a ler ficção. Com quantas mais desculpas eu p’rá’qui estiver pior para a minha avaliação de desempenho, é que não é só o Zé Pedro que é professor, eu também sou!

Quinta-feira, 27 de Março

Um dia inteiro à espera para dar uma explicação, sempre são mais 10 euritos que entram, nada, cheguei lá estava deitado no sofá com a família. O rendimento iria ser nulo. Fica para amanhã! Detesto isto! A justiça em Portugal é palavra que apenas existe no dicionário. É incrível como é que os nossos vizinhos foram a tribunal mentir! Fomos ao Jumbo a Torres. Está tudo tão caro, que até parece mentira. Fico assim a olhar para as mamãs, com o umbigo de fora, (vá lá pelo menos essa moda é agradável à vista) como é que elas conseguem ter dinheiro para alimentar uma família de quatro elementos? E andam muitos por lá! A senhora que trabalhava nos correios agora trabalha no Jumbo! Não era melhor estar sentadinha no atendimento do que andar ali em pé, no frio de um lado para o outro? A Sofia bem que queria, e eu também, mas infelizmente não jantamos no shopping, o dinheiro não chega.

Quarta-feira, 2 de Abril

Encontrei um colega pelo percurso da escola ao metro, conversamos. Está a acabar o doutoramento. É extraordinário como é que gente tão culta e tão viajada consegue ser tão humilde. Tento aproveitar sempre para tirar o algodão dos ouvidos e metê-lo na boca. Mas há com cada um com tiques mais esquisitos que eu sei lá!
A propósito de concursos de docentes, algo que me interessa bastante, pois depende disso ter ou não dinheiro para as sardinhas, perguntei ao presidente do executivo, não sabe se vou ser avaliado ou não, mas em relação aos contratos as notícias são boas: podem manter o mesmo professor contratado, óptimo, pensei, desde que tenha o horário completo. Lá se foi o sonho de ter ordenado para o ano, eu não tenho horário completo. Ainda me disse que depois dos concursos logo se vê. Fica sempre bem deixar uma esperançazita nas pessoas.
A Sofia está a fazer o meu IRS. Ainda bem que ela percebe daquelas coisas.

Sexta-feira, 4 de Abril

Violência nas escolas: hoje o país fala de armas; a ministra fala de armas; a polícia fala de armas; e agora também de bullying. Grande novidade. Estas modas de chamar nomes novos às coisas velhas são muito boas. Porquê? Porque os nomes novos são em inglês. Ora isso vai criar nas pessoas a necessidade de falarem inglês, o que por sua vez quer dizer que eu posso espreitar para o fundo do túnel e ver lá uma luzita de emprego para mim. Fixe! Bullying é um termo de origem inglesa utilizado para descrever actos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos, praticados por um indivíduo ou um grupo de indivíduos com o objectivo de intimidar ou agredir o outro incapaz de se defender. Como se pode constar não é novidade. É apenas notícia. Não é um tema muito abordado na sociedade porque as pessoas ocultam esse facto, nunca que os filhos delas fariam tal coisa, pelos vistos só o fazem na escola. Que conclusão é que se pode tirar daqui? Que a culpa do bullying é dos professores, porque lembram os miúdos de fazer essas coisas com nomes estrangeiros. Isso de anorexias, abortos e obesidade é tudo conversa de professores, onde é que isso já se viu?
Sempre a confundir receio e ansiedade, resolvi ir à procura de informação a propósito dos concursos. Direcção Geral dos Recursos Humanos; contactos em escolas por onde passei; colegas também a contrato; sindicato e aqui no Executivo da escola. Assim fiquei mais tranquilo.
Primeiras informações acerca dos concursos: recebi por e-mail da dgrhe. Embora o executivo tenha dito que afixava a informação assim que soubesse de algo, para eu ficar descansado, acabei por ser eu a ir lá bater à porta. Tal como os colegas de outras escolas que disseram que também me avisavam, mas a esses não fui bater à porta, enviei um e-mail.
Ai vem mais uns dias com uma grande pilha de nervos. Vou conseguir concorrer bem? O cerco aperta-se! Cada vez existe menos vagas. O corpo docente não mexe. Não há colocação. Isto vai ser difícil. Quando e onde irei parar? Quanto irei ganhar e que grupo disciplinar vou leccionar. Lá se foi a minha tranquilidade.
Enfim até amanhã.

Quinta-feira, 8 de Maio

Hoje foi duro… Na minha turma de cursos profissionais de informática, é vê-los sonhar! E então como até sabem alguma coisa daquilo, pensam que chegam longe, que a vida é fácil, que tudo lhes pode vir ter às mãos apenas porque… porque sim. Também um dia fui assim. Hoje um aluno pedia-me para o ajudar a fazer o currículo, mas com o modelo europeu porque um colega já tinha feito um com o modelo europeu. Então no currículo já vigora (…) o grande orgulho, explicava ele, porque assim demonstra que sabe e gosta de trabalhar em equipa. “- O currículo é para ir trabalhar para junto de um colega cá da turma!” -dizia ele todo contente. Esse colega era nada mais, nada menos que o delegado de turma, ainda a semana passada ele me dizia que queria ir trabalhar para a RTP depois de concluída a universidade. Diz que vai conseguir fazer tudo, todas as disciplinas, coisa que não conseguia até agora, mas que de agora em diante vai ser diferente. Pobre jovem sonhador, se dantes não fazias agora ainda menos, mas realidade a quanto obrigas. O tal do currículo lá ficou orgulhoso por ter a oportunidade de ir trabalhar em part-time para uma empresa de telemarkting. “-Sabe stôr” – dizia-me ele – “isto agora ‘tá mau, tenho que ajudar a minha mãe!”- Ainda o mês passado enquanto almoçávamos juntos no refeitório da escola dizia que queria ir treinar com um melhor treinador, queria ser campeão europeu, que durante o próximo verão iria passar o mês de Agosto exclusivamente a ganhar massa muscular e agora vá de concorrer, todo contente, para um part-time em telemarkting, junto a um colega de turma. É bom ver esta amizade na rapaziada nova. Mas custa ver os sonhos todos desfeitos ainda antes do cheiro a realidade….
Fomos jantar fora com a minha irmã e o namorado, em jeito de despedida. O gajo do restaurante lá tentou enganar-nos na conta, mas teve azar, eu fui professor da filha dele de inglês, mas ainda sei português o suficiente para me aperceber que não tínhamos comido creme de cata-qualquer coisa, embora o Erich mesmo assim achasse que não fazia mal e podia deixar uma gorjeta de cinco euros. Por mim tudo bem, com certeza, claro, o dinheiro não é meu, muito obrigado pelo jantar, ainda barato. Dai a eu ir-me embora e o gajo do restaurante pensar que nos enganou é outra conversa, que terá de ficar para uma próxima! Sabem como é: um gajo vai lá e tal, diz que o comer estava muito bom e estava efectivamente, recomenda-se (cuidado com a trafulhice na conta!) ele aproveita pede mil desculpas por causa daquilo, diz que não sabe como é que aconteceu, ah e tal respondo, acontece, pronto.

Sábado, 10 de Maio

Próximo dia 15 vêm aí o Presidente da República inaugurar uma escola que já devia estar a funcionar há dois anos, que não tem refeitório, é cheia de esquinas, degraus e grades, baixinhas por sinal, mas vem cá o Sr. Presidente e eu até gostava de cá estar. Hoje alcatroaram a estrada até à escola. Imaginei-me a trabalhar lá. Ir a pé para o trabalho. Deve ser fantástico. Aliás foi o que experimentei. Acordei às 8, fui a pé até à casa de um explicando, passou-se uma horita, fui a pé até à casa de outro, passou-se duas horitas, fui a pé até casa, almocei, sozinho, a Sofia está a fazer promoções, chegou outro explicando, passou-se mais um par de horas, fui a pé até à casa de outro explicando, passou-se mais um par de horas e vi a pé até casa. Deve ser fantástico ir a pé para o trabalho!
No meio de tanto sonho, não resisti e joguei no totoloto. Há que ter fé! D. Sebastião há-de voltar!

Quarta-feira, 28 de Maio

5:30 da manhã. Início do dia.
Saí das aulas à pressa. Tinha que dar explicações e ir ao posto médico rapidinho. Cheguei. Zézinho miúdo impecável. Os professores continuam a ignorá-lo e os colegas a fazer chacota dele. É disléxico.
Fui ao posto médico a duas freguesias de distância da minha porque na minha não há vaga e porque me surgiu um altinho na zona púbica. Não há mal que me não venha…
A sra. explicou-me que vagas para consultas só para Julho. Retorqui que no ano passado fui lá 4 ou 5 vezes e em nenhuma delas foi possível ver, se quer, o médico. Este ano quero reclamar. Ao que ela respondeu que para a Doutora ainda é pior! “Se calhar é melhor reclamar dos dois!” – respondi.
“-É muito urgente’” – “Tenho não sei o que na zona púbica!” – “Então é muito urgente! Venha cá amanhã de manhã ás 8:30.” – “Sendo assim já não reclamo.”

Segunda-feira, 9 de Junho

Mais um dia de reuniões, a uma segunda-feira, o que significa que dinheiro de explicações, hoje, não existe. Detesto admitir isto, mas a verdade é que preciso de dar explicações para conseguir ter dinheiro até ao fim do mês. Também significa que o ensino básico chegou ao fim para algumas pessoas. Alguns dos alunos que pensam que vão a algum lado nos estudos ou que os sonhos dos outros que eles viram na internet, se podem vir a tornar realidade na vida deles, devem passar este verão. Um par deles já trabalha. Algumas delas já trabalham na restauração de fastfood nos shoppings, outros tomam conta dos irmãos, outros tomam conta de pais e mães alcoólicos (…)  um cenário nada animador para quem se alimenta apenas de sonhos. Temos alunos a  (…) atingiram uma idade em que o mercado de trabalho já os aguarda para as próximas semanas. …(CENSURADO)… A Sofia passou o dia na praia com a Albertina, o marido deu-lhe um dia de folga, ainda bem. Ligou-me a explicar que ao passar pela segurança social ficou a saber que este mês já tem que pagar. Bom, mas num dia assim, a Albertina apesar de ter uma grande pancada, uma das suas maiores e melhores características é a amizade, é e sabe ser uma verdadeira amiga, ainda bem que estão juntas.
Sentei-me no sofá, descansar um bocadinho, comando da televisão: futebol, maravilha já se começa falar dos novos contratos dos jogadores; das taxas de juros que vão aumentar, mas só se fala disso depois de vinte minutos a falar de bola, e é uma noticiazinha breve; mais uma paralizaçãosita leveda a cabo pelos camionistas, que acham que o negócio está mau, porque o combustível está caro, ora aí esta algo que eu nunca compreendi, se uma empresa não é auto sustentável, porque é que não fecha e vem pedir subsídios ao Estado, que somos todos nós? Quando todas essas empresas tinham lucros e foram comprando uns Mercedes, ou melhor BMWs, que aqui é o que mais se vende, ninguém veio partilhar nada com o estado, e agora querem subsídios?! Quantos serviços feitos pelos camionistas são pagos por fora? Como é que o banco sobe o juro meio cêntimo? Agora isso de meio cêntimo até já existe! Quando o alcance de mercado de uma empresa diminui e a qualidade do cliente não aumenta, é de prever que essa empresa vá ter problemas, não é preciso vir um especialista dizer isso na televisão, ou é?
Tenho que ir continuar a não fazer nada, estava-me a saber bem….

Sexta-feira, 13 de Junho

Obrigadinho Santo António. Feriado.
Fui ao supermercado. Extraordinária arte de enganar o próximo, subtil o que esta gente faz para pagar um pneu para um BMW que custa quase tanto como o ordenado mínimo nacional. Na entrada do hipermercado, que aquilo é um hiper, não é um super, estava uma placa, bem visível que tratava os clientes por estimados e por nossos, o que torna a coisa mais pessoal, informal. Esta linguagem, estimado e nosso, faz uma pessoa sentir-se bem, ainda por cima uma chamada de atenção a pedir desculpa, chama efectivamente a atenção. Dizia, mais ou menos assim: informamos os nossos estimados clientes que por causa da greve dos camionistas, não podemos praticar os preços indicados nos nossos folhetos. Estou espantado. Afinal não é so o nome da cadeia de hiper mercados que tem o nome francês, o estilo de vida também se adequa à grande e à francesa. Mal sabia o general Jean Andoche Junot, que os seus modos se repetiriam. Os franceses invadem por aí, metem-nos a mão nos trocos que o governo lá deixa e conseguem culpar os camionistas. É obra!
Fui convidado pelo Zé Manel para ir fazer umas oficinas de oração, tocar e dinamizar um pouco lá o grupo. Ainda estou a pensar. Estou a pensar se abandono ou não as causas perdidas e se esta proposta faz parte desse escalão. Tenho dificuldades em distinguir. Será que o Santo António tem alguma coisa a ver com isto?
Ainda fiz um zappingzinho pelas comédias, mas até consigo achar piada que meia dúzia de irlandeses façam parar 27 países quando se limitam a discordar do Tratado de Lisboa. Ninguém explica, ninguém explica, depois fazem perguntas, olha! Não.
Daah! E a culpa não é da sexta-feira 13? Já muita cabeça de Templário rolou com essa música.

Sexta-feira, 27 de Junho

Fui lavar o carro. Aplicava eu daqueles sprays que servem de bronzeador aos plásticos do carro quando aparece assim de repente, surgido do nada o Almeida! Dizia, pondo as mãos na cabeça: “- Aaaaí, que eu portei-me mal, aaaaí que eu fiz asneira!”- muito aflito andava de um lado para o outro do meu carro. Almeida de nome e de profissão. Vendo-o naquele estado disse-lhe para ficar ali ao pé de mim, na esperança que se acalmasse, ou pelo menos se agarrasse um pano secava o carro num instante e caso tivesse acontecido algo de efectivamente grave, eu o pudesse auxiliar. De frente ao meu apartamento, no outro lado da estrada, qual ilha, estão duas casas geminadas, já velhas. A paisagem consistia apenas nessas duas casitas e muitas árvores, agora são essas duas casitas e muitas janelas. A proprietária, uma senhora que não conheço, já velha, vive lá para as bandas da Lisboa, pelo menos é o que consta, incumbiu o Almeida de lhe tomar conta da casa e ir regando o jardim ou aquela coisa que se pareçe muito com um jardim. Posso testemunhar que o faz com muito aprumo. Afinal ele estava nas traseiras da casa da senhora a regar o jardim, quando saiu lá de dentro um meliante ao qual o Almeida chamou de gatuno: “-O que é que estás aí a fazer nisso que não é teu?” – e não vai de modas, fez aquilo que muita gente gostaria de fazer aos gatunos e não faz, nem mesmo a polícia, atirou-lhe com o balde da água! Eh! Eh! Eh! – a meio do relato do sucedido eis que toca o telefone, era minha mãe. Em simultaneo eis que aparece lá do meio das casas um gajo todo molhado a gritar: “- Eu não preciso de correr para te apanhar!” – coitado do Almeida, assustado que ele ficou, mas queria lá ir –“Almeida deixa-te estar aqui ao pé de mim!”– o gajo viu-me ao telefone, viu o Almeida junto a mim e basou!
Comentamos acerca da série de assaltos ocorridos aqui na zona, mais um par de carros roubados e tal e foi-se embora. Fiquei, finalmente… sozinho. Acabei a limpeza, subo as escadas, sento-me no sofá, dou a volta aos canais todos, zapping chama-se, altamente quando um gajo sabe mas não admite que não quer fazer nada e a televisão também não ajuda, faz zapping! G’anda modernice. Alguém anda aos tiros ao primeiro-ministro. É o que faz não haver baldes de água à mão de semear. Vai de pistola!

Segunda-feira, 30 de Junho

Vi nascer o Sol. 6:14. LINDO!
Na viagem do Cadaval ao Bombarral, onde vou apanhar o expresso, distam 10 quilómetros, pomares e vinha com fartura, sete casas no morro e uma povoação lá no meio do caminho construída à volta de um palacete, umas casitas que se estendem até à Igreja para sudeste e até a uma Quinta onde entre vinho, turistas e convivas, também se gravam novelas.
Com o rádio ligado e a janela aberta, ouve-se o chilrear dos passarinhos e sente-se o cheiro a verde. Não fiz a viagem completamente sozinho porque no sentido oposto passaram duas carrinhas: a da distribuição do pão e a da distribuição do peixe.
Na viagem do autocarro falava-se de pequenos-almoços em Paris. Os passageiros do expresso das 6:30 fazem entre si e o condutor uma sociedade que joga no euro milhões. Agora que eu já ia tendo alguma confiança com os passageiros para poder entrar na sociedade, o ano lectivo está a acabar.
Metro. Gente. Saída do Metro. Gente. Jornais à borla. Escola. Aula. Gente. Calor. De volta à entrada do Metro. Gente. Saída do Metro. Sinkueros! Sinkueros!. Expresso. Mais gente.
Estou a escrever no autocarro. Provavelmente será a última vez neste ano lectivo. Os Cursos Técnico Profissionais terminam a 15 de Julho. Não tenho aulas todos os dias, reuniões sim, que fartura! Até tenho reuniões marcadas para os dias em que tenho aulas é uma festa! Reuniões para, inclusive, preparar o próximo ano lectivo, acho muito bem, aliás nem tenho nada que achar, é assim é que é e pronto. Pronto é conclusivo. Acontece que eu além de não saber para onde vou dar aulas, além de não saber a partir de quando, além de não saber qual a disciplina que vou leccionar, tenho aulas! Os tais Técnico Profissionais. Pois. Mas o que me leva a escrever no autocarro é o facto de as pessoas não respeitarem a fila (para não dizer bicha, culpando assim a língua de ser traiçoeira, quando todos nós sabemos que traiçoeira é a mente) que só para não sei o quê, será impressionar os umbiginhos à vela?, será para parecer bem? Gesticulam convidando as pessoas que chegam com um ar muito esbaforido à paragem do autocarro, olhando engelhando os olhos, para a placa informativa do destino, olhando de seguida com um ponto de interrogação a pairar no aspecto para o fim da fila levantando o queixo como quem faz uma pergunta, que não é a mesma coisa, e os cromos, sem meterem conversa, apenas gesticulando com a mão ensaiando uma palmadinha, lá vão autorizando as pessoas a entrarem à frente de quem está na fila, ao sol, estamos em Junho, está efectivamente muito calor. Mas depois… é bem feita! Essas mesmas pessoas são aquelas que se sentam no banco, carregam na alavancazinha, depois de totalmente inclinado para trás recostam-se, ajeitam-se muito bem ajeitadinhas, movendo os ombros, desnudados, alternadamente e, após encostarem a cabeça lembram-se de, com um olhar muito simpático, de gata laqueada com cio, olhar ligeiramente por cima do ombro esquerdo, para trás, baixando um pouco os óculos de sol chineses, perguntando: “- Eu não incomodo assim? Pois não?” – “Claro que incomoda, assim não consigo abrir o meu livro.” – esboçam um espasmo muscular parecido com um sorriso, mudam de olhar, para um de desdém, ignoram a resposta e mantêm-se na mesma, aninhando-se à cama já feita. Por isso é que eu vou no banco de trás, mesmo no lugar central, à minha frente só o corredor com carpete cinzenta a condizer, uns quantos cotovelos direitos do lado esquerdo do corredor e uns quantos esquerdos do lado direito, muitas cabeças algumas carecas, já paguei a jóia para entrar nesse clube, outras de e com cabelo liso, quase todos os cabelos são escuros, e lá mais ao fundo a cara reflectida no espelho do condutor do autocarro. Leva cinto. Meu rico carrinho!

Terça-feira, 1 de Julho

Fui de carro para a escola. 82,4Km. O dinheiro gasto em transportes públicos: expresso e metro, mais a viagem até ao expresso e a opção de levar o carro, fica um ou dois euros mais caro levar o carro, não contando com desgaste da viatura, de pneus, se tivesse isso em conta o melhor seria viajar até ao hospital psiquiátrico e ficar mesmo por lá. Transformei a ida para o trabalho em passeio turístico, levei a Sofia comigo, assim já compensa!
Passeava eu com a minha namorada pela Baixa-Chiado, coisa que ainda é possível para quem apenas está de passagem por tal sitio, quando a páginas tantas nos detemos! Eis alguém muito magrinho com um cabelo comprido mas não muito, a tocar pelos ombros, castanho e seboso. Sentado no chão com as pernas cruzadas qual indiano na tortura do trabalho artesanal, calças de ganga mais ou menos azuis, lavadas mas rotas, t-shirt muito lavada pois o rosa deixa pistas de ter sido a sua cor original. Guitarra acústica daquelas baratinhas (disso percebo eu! eh, eh) e um vozeirão qual Eddie Vedder a cantar Black. Fui umas mãos largas. Dei-lhe um euro! Paramos um pouco para o ouvir. Antes do final da música já meia dúzia de pessoas, todas na casa dos vinte e muitos, trinta e poucos, lhe tinham dado várias moedas. Aplaudimo-lo. Por detrás de uns óculos pretos, ia acenando com a cabeça, sorrindo sem parar de cantar e tocar, naquela rua entre o centro comercial e a carrinha que vende CD’s de fados. Seguimos passeio com as pessoas ouvintes a comentar que “Antes assim do que a roubar, não faz mal a ninguém e ainda anima a rua”.

Sexta-feira, 25 de Julho

Um e-mail do Presidente do Executivo, ainda de ontem, quer dizer já eram uma e tal de hoje, diz que segunda-feira, em principio seremos avisados de quando será a reunião de cada um dos contratados. Boa, ao menos avisou-me, não me fez lá ir à escola.
Sofia foi fazer promoções. Fui sozinho ao hotel dos cães. Limpei jardim e tudo. Ingrata a tarefa de limpar folhas, especialmente quando o vento se lembrar de demonstrar a sua existência após largas dezenas de minutos a juntar folhas.
De tarde, em casa, dei por mim a assoprar. Esse gesto agora tem outros nomes, stressado, ansioso, dantes era: “’tão! ‘tás a bufar porquê? Alguém te fez mal? – mas isso era dantes, agora um gajo apresenta o peso disso tudo é no diâmetro que assume a falta de cabelo e o Banzé, que só sabe arranhar os sofás, ainda não fala. Eu digo ainda porque ele parece que lê muito, especialmente legendas de televisão, ele lá sabe.
Uma piscina inteira só para mim. Água tratada e aquecida. Vinte e cinco metros de comprido e de largura, não sei, está dividida em seis pistas. Sei que são seis porque nadei nelas todas. Bati o meu recorde pessoal fiz umas assombrosa trinta e duas piscinas, nem conseguia ver o suor. Claro que quem sabe destas andanças, perceberá que seria pelo facto de estar molhado. No início deste ano lectivo ainda chegamos a praticar natação, eu pela primeira vez, mas foi só de Novembro até Março, depois as finanças não no permitiram continuar a pagar. Mas a Sofia ainda tem três senhas de uso livre, gastei uma delas. Tenho pena de não ter tido vontade de me peidar, imagine-se uma piscina municipal daquele tamanho só para mim (…) Quer dizer sozinho, sozinho só mesmo na piscina porque nas instalações estavam a senhora da recepção, a senhora da limpeza, tentei molhar aquilo tudo o mais que pude para ela ter alguma coisa para fazer (…) Quando escrevi a Sofia ainda não tinha chegado (…) Trabalhar foi de certeza. Hoje era para dar bolachas. Sinceramente espero que desta vez a coitada não tenha por lá ninguém a dizer que é proibido comer dentro do supermercado.
Epá! Tive que voltar a escrever! Então não é que recebi agora mesmo um email com um vídeo a ensinar a fazer cópias de chaves de fechaduras (chaves de fechaduras, ´tá gira esta!) blindadas, a partir de um pauzinho de gelado!? Para que é que eu quero saber tal coisa?

Sábado, 26 de Julho

Perdi a cabeça. Estou farto de ser pobre. Quero um carro novo. Fui jogar no totoloto. Estou em condições de ser visto por um psiquiatra e aparecer num episódio do Dr.House dedicado a casos perdidos. Estou doido. Se não vejamos: A Sofia foi fazer promoções, o dia inteiro em pé a promover o que ninguém quer comprar; eu fui apanhar cocó de cão à pazada, literalmente. Depois fui novamente nadar. Desta feita tive companhia, o professor acompanhou-me. Ele é um ex-triatleta, então enquanto eu fazia três piscinas ele fazia seis, são setenta e cinco metros; enquanto eu parava para descansar um bocadinho, ele fazia outras seis. O melhor era a conversa. Falei-lhe do meu sonho de andar de caiaque no mar e ele sugeriu-me snorkelling. Gostei muito da ideia especialmente pelo preço apelativo do equipamento, custa menos do que uma bicicleta de supermercado.
Almocei sozinho. Conclui os trabalhos que o Zé do Talho me tinha pedido, aquele que é tio de um ex-explicando meu, fartei-me de o procurar, lá o encontrei – Temos que fazer contas, temos que fazer contas. – sempre a mesma conversa. E eu, com a esperança de ganhar algum lá fui dizendo – Eu não te levo nada. Tu é que sabes. – burro! Porque ele bem que me respondeu que – Depois, então fazemos contas, tá? Obrigadinho!” (…)
Por mais que tente escapar a minha consciência lá me mandar lavar a roupa. Verdade seja dita que seria um grande negócio a venda de “vontade”, especificando, não seria a venda de “força de vontade” mas sim de “vontade de fazer” e já nem digo “força”, alguma coisa bastaria. Aqui está um valente nicho de negócios.
21:30 quando chegou a Sofia. Então? Não hei-de estar doido?
É engraçado a quantidade emails espanhóis. Os powerpoints brasileiros estão a perder terreno face aos espanhóis.

Terça-feira, 29 de Julho

(…) Não aguentava mais ficar aqui à espera (…) A minha rota era tentadora: Baixa-Chiado, independente da hora a que se chegasse é sempre um passeiozinho pela Baixa; Almada Forum, sempre se faz uma travessia pela ponte 25 de Abril, centro comercial com vista para as costas do Cristo Rei, aviões, à direita o estuário do Tejo e parte da ponte Vasco da Gama; Costa da Caparica, matar saudades dos tempos em que dei aulas por ali. A rota era essa. Fiz meia dúzia de sandes, porque o plano apenas conta com uma refeição no Centro Comercial. Esta ida à escola conta como dia de férias, se não vejamos: viajar por auto-estradas caríssimas, baixa de uma capital europeia, histórica, já que a despesa tem que ser feita até ali, juntamos mais um bocadinho de animação, para o mês que vem vou para as peras, a Sofia, em principio irá trabalhar, damos um saltito até à Costa da Caparica, a travessia da ponte permite-nos uma paisagem única, os ferryboats navegam juntos com navios de carga enormes, cruzeiros atracados, um estuário enorme, vasto, assim largalhão, numa zona urbana é efectivamente uma paisagem a ter em vista; a Caparica embora saibamos que está em obras (descuidei-me e vi televisão) sempre mato saudades de quando por ali dei aulas e é efectivamente engraçado ver o homem munir-se de armas e bagagens, dinheiros públicos e se calhar também alguns privados, não sei não me informei acerca do assunto, a tentar travar o mar, quais holandeses. (…) Foi tiro e queda. Mais ou menos.
(…) Digna de uma fotografia foi a viagem de volta. Deixamos por o Sol na Caparica, cafezinho outra vez no shopping, aqui no meio das peras não há disso, e aproveitamos o acender das luzes para a viagem e volta, não é qualquer e-mail que faz justiça à paisagem, tirem-lhe o trânsito, já passava das nove da noite, tirem o pé do acelerador, abram a janela, lindo. As luzes da cidade eram cada vez menos e as da pista de corrida, aquelas que estão atravessadas por cima, sobressaiam dizendo: “Agosto 2007 – 85 Mortes”. É estranho porque os pilotos com carinha de rapazotes, que ziguezagueavam por entre os carros e obstáculos imaginários, recriando situações vistas em filmes de acção, pareciam perfeitamente conscientes e muito vivaços com as proezas que faziam, com o tal ar de felicidade, que é precisamente o oposto daquele “ar” que já pude presenciar em funerais, portanto e portanto é conclusivo, pronto.
(…) Passamos por uma festança aqui na terriola ao lado, ainda pensamos só um bocadinho em parar, tínhamo-lo feito se não fosse o preço da entrada. Não fomos.
Fiquei à mesma sem saber a data da entrevista, mas fiquei mais descansado. Na escola encontrei a minha coordenadora de departamento, que me disse. “- Ah, eu cá não sei nada disso!”
A Sofia comprou um casaco de inverno a preço simbólico numa loja que já estava em obras e aberta ao público, ainda impliquei um pouquinho com as funcionárias, porque estar a vender roupa com 70% de desconto e uns gajos a passar com tábuas de um lado para o outro, é obra. Também (eu sei que não se começa frases por também, mas isto é de autor e o diário é meu, não conta para avaliação de desempenho) comprei umas sapatilhas a ¼ do preço, mesmo assim consegui ver umas parecidas dez vezes mais caras.
Um email. Ainda por cima é um daqueles a dizer que rezei por “você”…. Naquele português falado na terra do Museu da Língua Portuguesa.

Sexta-feira, 1 de Agosto

Férias.

Férias…

Fui ao Zé do Talho como quem não quer a coisa, pagou-me. Conversa puxa conversa e o selo do carro é para ser pago no mês da inspecção. Ainda não se pode escrever asneiras a torto e a direito como nos filmes americanos, pois não? Ainda vamos tendo alguma educaçãozita. É que o meu carro foi à inspecção em Maio. O da Sofia em Abril. Bem que achamos estranho ainda não ter chegado pelo correio, como todos os anos, o postalzito a avisar para ir pagar o raio do selo. Fui à finanças paguei o meu, o da Sofia as respectivas multas e paguei ainda a multa e o imposto de um carrito que deixei no homem do ferro-velho, salvo erro em 2002. Isto quer dizer que o homem não deu o carro para abate, ou seja vendeu-o às peças, será que pagou imposto? Se não pagou deve ser um daqueles que se vai manifestando a pedir subsídio. Estranho país este. Aproveitei que estava com a mão na massa paguei a renda da casa. Passei pelo vídeo clube porque precisam de empregada, no feminino e não empregado, mas estava fechado. Tenho menos de duzentos euros na conta. Tenho que ir trabalhar para a agricultura, que é a única coisa disponível por estas bandas. O telefonema! Tenho reunião de avaliação de desempenho segunda-feira que vem. Só para que conste, oficialmente estou de férias. Pormenorzito. De tarde fiquei em casa, estou melancólico. Lá se me acabou as idas à praia… E um cafezito à beira-mar, que sabia tão bem… cafezito, não! Que eu bebia abatanado. Ainda me lembro da minha mãe quando dizia: “- Heim inte lé, isso tem algum jêto? Uma poucachinha de água no fundo da chávena? Ao menos encha lá isso!” – tanto acho que ela tinha razão que bebo abatanado. Quando a Sofia finalmente chegou das promoções, (…) A mãe diz que lhe disse que o cunhado Tonho lhe vai telefonar para a gente lá ir comer um petisco. Expliquei muito bem explicadinho porque é que não vou.

Quarta-feira, 6 de Agosto

Férias. Finalmente, graças a Deus, continuo psicologicamente preparado para não fazer nada. Plano para o dia: ler. E está o dia feito. A caminho da cozinha toca o telefone, era a Sofia: já foi às Finanças, está despachada – Queres vir beber cafezinho à esplanada? – nunca se nega um pedido destes. Fiz um esforço para perceber o que se tinha passado nas Finanças e é mais ou menos isto: “eles lá” enganaram-se nas datas de início de actividade e inventaram um ano suplementar ao de isenção que a Sofia tinha direito por estar a recibos verdes. Eu não percebo como é que é possível que a base de dados aceite uma informação errada, (…) garantir que os valores inseridos não sejam passíveis de criar estas confusões, se o inicio de actividade data de Junho de 2007, logo os impostos não podem ser cobrados a partir de 2006, simples, não é? Não obstante ainda falta perceber o tal requerimento, que é (mais ou menos) assim: o utente lesado pelo erro do funcionário das Finanças tem que preencher um requerimento para que lhe seja enviada uma certidão na qual estará explicito que o utente não deve o ano fiscal fantasma. Esse requerimento custa 4.32€. Acompanhei-a até ao museu. Queria mostrar-lhe o meu blogue porque ela é a minha melhor (e única) crítica. Chegados ao museu, gatos vadios – Oh, tadinho daquele… tá tão doentinho. – Abriu a porta, entrei e ela lá foi dar de comer aos bichinhos. Liguei o computador e … – ti, tri, ti…ti. – outra vez – ti, tri, ti… ti – Estranho!- pensei. – Ióh! Ióh! Huéão! Huéão! – O QUE É ISTO? – Ióh! Ióh! Huéão! Huéão! Ióh! Ióh! Huéão! Huéão! – É o alarme! – saí desalmado do museu à procura da Sofia, vem ela a subir a escada muito sorridente com um saco de comida para gato na mão – Eh! Eh! Parece que me esqueci de desligar o alarme, oops. – Vi-me embora. Depois ela vê o blogue. É tão bom não andar stressado… Almoço descansadinhos… (…) A sogra hoje faz anos. 60. Se ela gostasse dela própria, seria saudável, se alguém neste planeta acreditasse no meu diagnóstico de depressão nervosa profunda, grave e de dar com os outros em malucos, talvez ela não parecesse ser mais velha, talvez…  Expliquei bem explicadinho que não gosto de ir à casa das pessoas à hora de jantar, pela milésima vez. Depois da Sofia fechar o museu e demorar mais meia hora a alimentar gatos vadios, fomos dar os parabéns à sogra à hora de jantar e ainda por cima ela às sete e meia tinha que ir com não-sei-quem que vinha dali de uma terriola ao lado, para ir buscar um cachorro que o vizinho tinha lá uma ninhada deles e na fazenda e resumidamente eu ficaria entalado no meio disto tudo. Não, aproveitei e fui lá falar com o agricultor que me dá trabalho todos os anos na apanha da fruta. Começo terça-feira. Já fiquei descansado. Agora já posso gozar-me de férias, já fico descansado estes dias que se aproximam porque sei que para a semana tenho trabalho. Voltei à casa da sogra. Enquanto ficamos sozinhos aproveitou para fazer as queixinhas, deveria ter ido hoje a Torres fazer uns exames mas não foi porque o Sr. Zé teve que ir pulverizar as peras, o genro, entre outras menos significativas, como por exemplo: – Ele devia estacionar melhor o carro. – surpreendeu-me o facto de ela achar que ele é muito gastador, deveria poupar mais, nomeadamente nas saídas com as Testemunhas de Jeová – Gasta muito gasóleo! – disse. Ainda tentei sair em defesa dele, argumentando que se levar o testemunho e ser um homem de fé lhe faz bem, deixá-lo ir. As testemunhas de Jeová ao baterem à porta das pessoas querendo levar a palavra de Deus à maneira deles, ainda não serve de desculpa para crimes violentos, e sempre o alivia de toda a pressão do dia-a-dia. Uns fazem jogging, outros vão para os copos, outros são testemunhas de Jeová. (…) o Sr. Zé desde que fizessem pouco barulho para ele poder ouvir as notícias, estava tudo bem; a Ana estava com pressa porque tem uma reunião muito importante numa sala de chat; a Sofia anunciou que gostaria de ir para a universidade tirar mais um curso, porque nesta sociedade só se reconhece e se dá o devido valor às pessoas se forem doutores; nessa altura manifestou-se o Tonho – Então e vais ao dinheiro aonde? Vais assaltar um banco?; (…)  Eu nem digo nada, lembro-me é do mexilhão.

Domingo, 10 de Agosto

Moro aqui vai para meia dúzia de anos. Não sou daqui. A vida de professor fez-me ir mudando de sítio de vez em quando. Não só a de professor: sou filho de uma família de emigrantes. Desde cedo que para mim mudar de casa, mudar de sítio, era normal. Nasci numa aldeia no Ribatejo, na adolescência mudamo-nos para outra. Nos vintes saí do pais. Voltei para o Centro-Norte, depois Estremadura e finalmente aqui no Oeste. Não criei aqueles laços de amizade com os cá da terra. Esta tarde enquanto a Sofia trabalha, podia ir até ali à Associação beber uns copos com a malta, mas por ser professor as pessoas estão à espera sempre de algo mais, não-sei-quê. Então fico confinado a esta prisão domiciliária denominada pelo senso comum como: estar em casa descansadinho! Já fiz várias acções de voluntariado, defendendo causas sociais, indo para o terreno efectivamente mas, esbarrei com todo o protagonismo, que a maioria das pessoas procura. Não é uma acção social desinteressada, infelizmente quase toda a gente procura as luzes da ribalta e não ajudar o próximo. Para mim isso não serve. Não faz sentido fazer um peditório para quem tem fome, as pessoas darem e o arroz ficar guardado em stock até passar a validade, as empresas doarem roupa nova, por vender, e esta ficar em stock. Não faz sentido detectar casos de urgência social e “Ah isso tem que ser com a Dra. Tal e temos que marcar reunião!”. Assim não. Prefiro ficar em prisão domiciliária. Aliás, hoje para mim acabou por ser um grande dia: responderam a um post do meu blogue! Fiquei todo contente. Mais impressionante ainda: publicaram um comentário meu, fiquei mais do que contente, fiquei emocionado. Estava eu nesta euforia quando chega a minha quase-esposa. Passou pela casa da irmã, comentou que esta semana ia apanhar peras comigo, ao que ela respondeu muito prontamente – “Ah o Tonho não vai porque está arrasca de um pé.” – sem comentários. Ainda estava eu a tentar digerir o facto de ela ter sido condenada por defender a irmã, e a ajuda da irmã é esta, quando toca o telemóvel da Sofia. Lá foi ela reunir-se com uma colega dos elementos do núcleo duro da associação dos animais porque esta quer fazer um chavascal desgraçado porque viu um canil, num outro concelho, e o receio é que empregue o nome da associação em seara alheia. Almocei e jantei sozinho. Não queiram ser professores. 14 emails. A mamã voltou a telefonar. Voltou a convidar-nos para irmos lá no próximo fim-de-semana. São as festas em honra da Nossa Senhora Tal. Expliquei que estaríamos a apanhar pêra, por conseguinte não poderíamos ir. –Ai! – disse – mas sexta-feira feira é dia santo. – Eu sei mas temos que trabalhar! – Ai! Mas é dia Santo. – e continuou – já me tinhas dito, nã foi?

Quinta-feira, 28 de Agosto

Connosco, os nove, a trabalhar para o “Farmer” está um senhor vindo de Lisboa, homem dos seus cinquenta e poucos. Fala, fala, fala. Não diz nada de jeito. É impecável. Não é preciso a rádio sintonizar os parodiantes de Lisboa porque temos espectáculo ao vivo. Vou ver se consigo transcrever um pouquito: Sr. de Lisboa, Manel, chamemos-lhe assim – Eh, que pássaro é aquele? – disse ele apontando para o céu. Sr. do Ribatejo, residente no Oeste, eu – É uma águia, Sr. Manel. – respondi com um certo orgulho por tal animal ser meu vizinho. Sr. Manel – Só me falta dizeres que é a do Benfica, não? – respondeu com meia gargalhada. Sr. de cá, Zé das Barbas – É Sr. Manel, aqui hà águias, milhafres e penereiros. – interveio assim como quem apresenta um programa de TV. Sr. Manel – Pois, também no Benfica e não só, é o que mais há por aí! – sempre na gozo. Zé das Barbas – O Sr. lembra-se daqueles restos de pêlo que vimos lá em baixo no pomar? Então, são provas de que as águias andaram à caça, aos ratos ou coelhos. – falou com ar de suspense, apontando para o fundo do pomar e depois para o céu. Sr. Manel – As águias caçam ratos e os dragões caçam ratas! – e riu-se. Era efectivamente bom ambiente e divertido. E continua. Ouvimos dois tiros. Sr. Manel – Epá o que foi aquilo? Mataram alguém? – agora com um ar assustado. Outro Sr. Zé, cá da zona, já com cabelos brancos – É da caça! – resmungou. Sr. Manel – Lá em Lisboa quando se ouvem destes tiros também é da caça…. – sempre com a resposta na ponta da língua. Sr. Zé – Hoje é Quinta-feira… – resignado. Sr. Manel – Não me diga que andam a caçar as águias!- disse metendo as mãos à cintura. Zé das Barbas – Aí daquele que aqui se atrever a caçar uma águia, são espécie protegida. – gritou novamente apontado para o alto. Sr. Manel – E as ratas? Também há quem as proteja?

Foi mesmo um dia a trabalhar com ritmo e divertido com situações simples, bom ambiente e é isso que eu gosto na apanha da pêra. Por vezes esqueço-me que quem não é de cá, pode não saber que a Serra de Montejunto é paisagem protegida e zona de nidificação de aves de rapina. O cansaço físico e a boa disposição fazem-me esquecer de cismar nos meus problemas. Para ajudar a passar o dia, como se diz por aqui, o melhor remédio é “dar-se à paródia” e é efectivamente a melhor maneira da caravana ir passando. Evidente que o motivo primeiro deste trabalho é o pagamento. Mas também com o assalto à conta de internet, o dinheiro já tem destino. Hoje, nós os nove acabamos três pomares. O “Farmer” perguntou-me se eu me ajeitava com a carrinha, ainda me tentei salvar alegando que nunca conduzi com mudanças ao volante, respondeu-me que “aquilo” tem lá o desenho. Siga! Ele com o camião, o Zé das Barbas com o tractor e eu com uma carrinha de mudanças ao volante cheia de gente. Prefiro o tractor, dá para andar a fundo. Depois do banho pedi ajuda à Sofia e consegui conta-las todas! Tenho trinta e duas picadelas de insecto.

Segunda-feira, 1 de Setembro

Tal como previsto: Cadaval – Lisboa, A1; Baixa-Chiado, escola. Na secretaria foi um caos. Cheio de professores reconduzidos, recontratados, e eu, que queria o papelinho para o centro de emprego. Em conversa, outros já tinham levado o papelinho antes, tinham pedido na sexta anterior. Não consigo perceber, a mim disseram-me que apenas em Setembro poderia ser feito o pedido. Que se lixe. – E já agora, se faz favor, quero que me façam a contagem do tempo de serviço para que possa concorrer. – Os meus colegas estão de férias, só se for para a semana. Já que estou em Lisboa vou descobrir onde é a clínica dos “Sete Nós” que a mamã procura, assim amanhã será mais fácil dar com a coisa. Lisboa –  Torres Vedras, famosa calçada da Carriche e A8. Centro de emprego, esperar, esperar e esperar, manter o bom humor e… tchanram! Fica para amanhã. Sou o número cinco. Amanhã. – Mas eu amanhã vou com a mamã ao hospital, em Lisboa, não sei a que horas conseguirei cá estar! – responde-me muito rapidamente – Não tem problema, quando cá chegar venha ter comigo, mostre-me a senha e relembre-me. Torres Vedras – A8, A15, A1, A23 – mamã. A Sofia foi com a Albertina a uma sessão de espiritismo, não posso sair de casa que é logo isto. Ficou encantada com aquela história da Albertina ter visto um espírito encarnar em não sei quem.

Sexta-feira, 5 de Setembro

Taberna. Correio da manhã, classificados. Euromilhões, dinheiro da aposta foi para enviar um currículo por correio. Almoço. Vai acabar o seu subsidio de desemprego que está a receber, pode pedir o subsequente era este o conteúdo da carta que recebeu a Sofia. Estranho país este, que avaliação de desempenho esquisita, vamos ver se eu, e ela, coitada, percebemos: ainda não recebeu o dinheiro do subsídio de desemprego, já está a trabalhar, já está empregada e agora chega uma carta a dizer que o que (alegadamente) ela está a receber, vai acabar. Valha-me Deus. Isto contado ninguém acredita. A hora de almoço foi pródiga em correio. Cabovisão, pagar por prestações, assinar acordo, ainda falta o valor de Agosto. De tarde fui pagar a dívida / prestações todas do portátil com o dinheiro das peras e visitar a Sofia ao trabalho, coitada também não está fácil para ela. Telefonemas da associação, stressei. Eu acho que não foi a dança dos telefonemas mas sim tudo. Fui comprar um livro. Para relaxar.

Sexta-feira, 19 de Setembro

A máquina sempre veio. Nós também, o patrão lá ia dizendo “Haja vontade que trabalho não falta!”. A máquina vindima numa hora, aquilo que nós vindimamos num dia. Pronto, tenho dito. Até faz impressão a velocidade daquilo. A vinha tem que estar adaptada para que a colheita possa ser feita pela máquina. É uma questão de números: máquina, uma hora, um hectare, x; rancho, dezasseis pessoas, um dia um hectare, pelo mesmo preço! Assunto arrumado. Cheguei a casa. Correspondência. A Sofia telefonou à hora de almoço ao meu patrão para ele me dar a notícia, tenho direito a fundo de desemprego. Ele não me disse. Li a carta: tenho um par de meses a receber do subsídio anterior, que a segurança social optou por me atribui esse valor mais elevado, do que o que virá findo esse prazo que não chega ao ordenado mínimo. Optei mesmo por não escrever asneiras aqui. Até já a minha quase-esposa vai considerando a hipótese de eu abandonar o ensino. Eu sempre pus essa hipótese, ela é que lá ia dizendo – Não! Continua atrás do teu sonho, lutaste tanto, tens tantos cursos e agora desistir, não faças isso! – é a minha melhor (e única) motivadora. Não está nada fácil….

Domingo, 28 de Setembro

Fomos laurear a pevide até ao Parque das Nações para assistir à meia-maratona de Lisboa. Meia? por causa da crise, “eles lá” sabem. Para mim foi um momento histórico na minha vida. De felicidade. Consegui vaiar o primeiro-ministro. Pensei que seria  o único lá de cima do balcão. Depois de muita coragem lá comecei a minha vaia e foi um enorme alívio quando ouço um coro! Afinal não estou só! Gostava de ter visto isto na televisão! Não cabia em mim de contente, nem mesmo a mamã a ralhar comigo por estar a fazer uma coisa daqueles ao homem, conseguiu acalmar a minha alegria. Mas aconteceu. (…) Fomos dar uma voltinha. Uma voltinha não. Só uma ida, de telecabine. É tão caro que pensei que iria ter companhia feminina, sem ser a mamã ou a Lita, claro está. (…)

Sábado, 4 de Outubro

Encontrei uma colega com a qual trabalhei, aquando da minha passagem pela autarquia, que coincidiu com a passagem dela, também na autarquia, aqui na terrinha. Lá estava na janela do café uma miscelânea de braços desnudados e muitos dedos à mistura agitando-se freneticamente juntamente com um monte de sorrisos. Como é que apenas duas pessoas conseguem tantos sorrisos é que eu não sei! Entrei, bebi café e conversamos um pouco. Pantógrafo seria o instrumento ao qual eu recorreria para descrever a filha dela. A menina é um desenho da mãe reduzido, qual figura feita por um pantógrafo! Tal e qual! Lourinha, de olhitos azuis, com um sorriso enorme, ou para usar uma expressão da mãe “delicioso!”, e contrastante com um olharzito envergonhado. Conversa puxa conversa e ela trabalha lá para as bandas da cidade grande. A conversa continua, quais cerejas, a puxar mais conversa e… infantário! Ah e tal lá até dão beijinho à minha menina – dizia a babada da galinha-mor, conhecida também por mamã – Se fosse aqui, também davam, estavas com sorte, aqui só dão beijinhos aos filhinhos dos doutores, safavas-te. – comentei. Quer dizer não será bem um comentário, é mais um desabafo ao jeito de calhandrisse com veneno… Não sei se não deixará reflectir uma nesguinha de ciúme, escondido talvez, pelo facto de ainda não termos filhos? Não sei. Só sei que os outros lá vão tendo filhos e eu já me contentava em ter, já nem digo um carro novo, já me bastava um emprego (consta que é preciso antes do carro novo!). De tarde dei explicações pro bono. Uma amiga da minha quase-esposa anda de roda dos RVCCs, e como é muito esforçada, tenta mesmo, não espera que os outros façam por ela, é muito empenhada, é pobre, então até fico contente por poder ajudar. Chegou a noite e chegou a Sofia vinda das promoções, tão cansada que foi logo para a cama. Como é que eu hei-de ter filhos?

Quinta-feira, 9 de Outubro

Logo de manhãzinha fui ao pão. Não consegui evitar de ouvir as conversas alheias: duas senhoras comentavam entre si: – A minha filha tinha escalão “a” e agora tem “b”! – dizia uma – Agora tenho que pagar metade do preço dos livros – e continuava – com isto assim o meu marido até já está a pensar reformar-se. – como ainda não tinha percebido, continuei, mais ou menos muito atento – é que assim a trabalhar, ele só está a perder dinheiro! – entretanto sou atendido e a ouço a outra senhora, depois de uns poucos “Ah pois é!” e “o meu mais novo ainda vai tendo escalão” a perguntar-lhe – Então e tu? – ao que ela respondeu – Se calhar tenho de ir trabalhar também, não sei. – Estavam as duas a tomar o pequeno-almoço, constituído por galões, bolos e café! E eu, a olhar para os cinquenta e dois cêntimos que me custaram as quatro bolinhas… (…) Continua-me a doer o peito. (…) Fui para a sala tentar concentrar-me para conseguir ler. Nada. Na hora de almoço a Sofia comentou que chegou correio para ela na casa dos pais, diz (…) A sogra com conversas de dieta; a Ana, ainda em pijama a lamentar-se que, embora ontem tenha ido ao hospital de urgência, os médicos não lhe diagnosticam nada, ela teima que tem qualquer coisa na cabeça, e tem, o auricular do telemóvel, trabalhar que é bom, nada; os cães: uma tem isto, outro tem aquilo, irem com os cães ao veterinário não vão, mas souberam pedir à Sofia para ir lá, hoje à noite; a coitada gostava de mostrar aos pais e à irmã a entrevista que deu na rádio, mas eles ignoraram; já estava eu mais do que arrependido de ter lá ido, prestes a mandar os foguetes por me vir embora, quando de repente, e depois lentamente, e… nada! A chave não funciona. A outra também não. O Sogro veio trazer a Sofia ao trabalho, estava na hora. Tentei e tentei e telefonei para o reboque, o carro já está na oficina. Amanhã o electricista diz que arranja lá aquela coisa. Quando cheguei a casa até a dor no peito me tinha passado. O que me leva a concluir que não preciso de ir ao médico. Esta dor só pode ser, diagnosticado por mim, uma pilha de nervos! Amanhã vou ao centro de emprego ver as hipóteses de conversão de carreira! Já estou a ficar muito não-sei-quê.

Sábado, 11 de Outubro

Carro. A chave passou a funcionar, 1-0 ganha Deus. Não foi precisa a colaboração de “eles lá”, bastou que o rapaz programasse a chave. O “rapaz” é o filho do dono e trabalha muito bem. Muito feliz, muito aliviado por saber que segunda-feira vou trabalhar. É mais ou menos assim que me sinto. De repente a vida ficou mais calma, tranquila. Agora já tenho trabalho. Já tenho onde me empenhar, nem sei contar como me sinto, alegre, leve. Sobretudo mais descansado, embora pareça óbvio sinto que tenho de dizê-lo, estou mais sereno. Agora vejo o quanto não estava. Preparativos para a escola: ir descobrir o caminho para a mesma! Muito importante! Ainda de manhã, enquanto eu inventava espaço no computador, espaço na secretária, arrumava material didáctico, nada de grandes pressas, eis senão quando, vinda de não-sei-onde, aparece a estouvada da Sofia, precisava urgentemente que eu fosse com ela salvar um cão. Fiquei atónito: – Então tu não estás lá nos preparativos das adiafas, não estão lá mais elementos da associação que te possam ajudar, tenho que ser eu? – Disseram foi a mim e eu sei que tu até tens jeito para estas coisas e que és capaz de apanhar os cães… – lá fui ajudar a salvar mais um cão abandonado. Entretanto chegou a hora da abertura do certame. A primeira barraca a ser visitada pelo Senhor Presidente da Câmara, foi a da associação dos cães, até eu fiquei todo contente! Não deixei de olhar para o relógio, mas a verdade é que não me fazia diferença se fosse dar com o caminho para a escola até de noite, gostava era que a Sofia viesse comigo, resolvi esperar por ela. Nem mesmo de propósito, passado um bocado lá fui eu outra vez, desta com vontade, ajudar a Sofia a salvar outro cão. Veio mesmo a calhar logo no dia de todas as atenções. Fim da tarde, a cheirar a cão, sapatinho, calcinha de vinco, blazer e t-shirt da associação, lá fomos nós, todos bonecos, descobrir o caminho de carro para a escola. Demos com o sítio. Já que estamos aqui, vamos jantar ao Centro Comercial Colombo. Já no Colombo toca o telefone. Quem era para fazer o turno da noite falhou! Lá viemos a voar de Lisboa no único fim-de-semana que a Sofia não trabalhou… nem digo nada, só tenho mais é que apoiar a minha quase-esposa, ela até se passou…

Sexta-feira, 17 de Outubro

Tudo o resto não interessa, o despertador às cinco e meia da manhã; ter visto o radar da bófia disfarçado num Ford Mondeo cinzento dos antigos e eu a sessenta num local de cinquenta; ter sido e primeiro a chegar à escola (isso foi bom); não ter tido tempo para almoçar, etc… o mais importante foi que quase, quase consegui apanhar a Sofia na ratoeira do papel higiénico. Já não era sendo tempo. Não foi bem como eu queria, mas foi o que se pode arranjar! Eu queria que ela ficasse sem papel higiénico, sozinha em casa, mas o que aconteceu foi eu ficar sem papel higiénico com ela em casa. Tive de lho pedir. Só me apercebi da piada, quando ela, imagine-se: começou a refilar, ei! Que contente que eu fiquei! Eh! Eh! Acabou por ser ela a ter que ir ao papel higiénico, fixe! Mas eu nem teria aproveitado o prazer da situação se ela não tivesse refilado, que alegria! De noite fui até à festa das Adiafas. O meu sobrinho Ruben fez que não me viu. Os colegas cumprimentaram-me. Fiquei triste (…)

Terça-feira, 4 de Novembro

Transportes públicos, a viagem toda, assim sempre poupo o meu carrinho e fico a saber se será possível fazê-lo. Autocarro aqui ao pé da porta. Lotado. Todos os lugares sentados ocupados por crianças, que saíram na paragem seguinte: a escola. Uma delas tratou-me por “stôr” fiquei todo contente. Com os bancos já vagos sentamo-nos os três, que restamos para a viagem até ao Bombarral. Um casal de jovens, ela com dezanove, ele com vinte e um, eu com trinta e seis. Apanhamos o expresso, siga até Campo Grande os três em amena cavaqueira. De volta e chegado ao Bombarral, apanho o autocarro para casa. Vazio. Eu e mais um casal de velhotes, arriscaria mais de setenta anos. Cada um em seu banco, ambos a falar, muito parecido com ralhar, para a janela. Literalmente com o rosto virado para o vidro e cada um ralhava de sua coisa. Como cheguei cedo fui visitar a Sofia ao trabalho. Precisava de ir ao Campera trocar uma peça de roupa, como entretanto chegou a carta da Lita a provar que eles lhe tinham debitado a carteira duas vezes, juntamos o útil ao agradável. Perto das seis horas lembrei-me que tinha a minha nova primeira aula de natação às oito. Adiámos a ida ao Campera. Sete horas toca o meu telefone: – Zé Pedro! É da piscina, houve problemas com a água, hoje não há aula. – Vamos para o Campera? – já a Sofia tinha marcado e desmarcado não-sei-quê e hoje passou a ter uma reunião depois de jantar lá com os afazeres dela e da associação. Fomos num pé, viemos noutro. Se isto até aqui já é um dia normal, falta a cereja em cima do bolo: cheguei à escola! Onze e pouco da manhã a presidente do executivo na sala de professores – Bom, visto que ainda não há água, não temos nenhuma informação oficial sobre a que horas poderá voltar, não temos condições para servir almoços, casas de banho sem água, enfim… o executivo considera que não se encontram reunidas condições para o bom funcionamento escola, vamos mandar os meninos para casa. – Já não me basta as reuniões, a colocação tardia do professor, os feriados, quando é que eu dou matéria?! Mas isto não é o mais importante. Ter-me levantado às seis meia da manhã também não é razão de queixinha, porque eu tinha que o fazer assim como assim. Agora!… o que eu considero digno de nota, digno de notícia, digno de registo… não são os cinco mil golos do Benfica, nem as lojas de vender dinheiro a falir, é apenas mais uma maneira de dizer ao “Zé Povinho” – Vocês não tem vaselina, vai a frio! – mas sim o facto de mandarmos para casa, a meio do dia, centenas de alunos. Isto é que é importante! Em que condição é que vão ficar? Ficam na rua? Os pais? Provavelmente ocupados… então Senhora ministra, tenho que tirar o “S” maiúsculo; senhora ministra? Mas que raio é isto? Numa das zonas onde se encontram mais habitantes por metro quadrado, …da Europa,   falta a água e ninguém dá cavaco? Não se avisa com antecedência os pais das crianças para que possam organizar a sua vidinha? São pobres mas são gente!

Sexta-feira, 7 de Novembro

O Zé do Autocarro explicou-me muito bem explicadinho o que significa andar a apanhar bonés! Apanhar o bonezinho do chão e estendê-lo às pessoas que passam… Não gostaria de escrever esta parte do dia, mas é mesmo isso que ela não deixa de ser; parte do dia-a-dia: violência! E nada de grandes trocadilhos com as palavras, violência física mesmo, entre alunos em plena sala de aula. Não quero entrar em grandes conversas, porque se já custa a crer em metade do que aqui se passa, nesta vida, então a verdade toda, nua e crua, pareceria irreal. Não tenho medo da verdade. Não tenho nem nunca tive mas, cá está o mas, como disse António Aleixo: “Não sou esperto nem bruto, nem bem nem mal educado: sou simplesmente o produto do meio em que fui criado.” Esta é a verdade, nunca tive, não é agora que vou começar a ter. Nestas situações só quem passa por elas é que sabe. Só quem dá aulas é que sabe como está o ensino, só quem olha bem nos olhos, no olhar, dos alunos que não têm livro é que sabe a tristeza que vai lá dentro pelo facto de os outros terem e eles não! Eles, além de não terem livro, ainda têm falta de material. Vamos para o metro. Outra lança em África: ligaram-me de uma escola, fui colocado a leccionar TIC. Fez-me bem ao ego, fez-me bem por dentro, senti que as minhas chances de ter trabalho para o ano aumentaram, e isto dá-me tranquilidade, que tanta falta me faz. Expresso. Ia para escrever senhora mas, cá está o tal mas, a mulher sentada à minha frente, inclinou o banco para trás, sem dizer água vai, e eu para passar as páginas do livro tinha que o inclinar, não morri por causa disso, às vezes um bocadito de boa-vontade lá me vai impedindo de ficar nervoso com coisas sem jeito nenhum, depois (que é o que vem a seguir ao mas) quando lhe fizeram o mesmo a ela não gostou – “O sinhô podi chigar o banco pa frente fax favô!”- não consegui evitar um sorriso. Sai do Expresso, dei boleia a uma senhora da Igreja, diz que tem saudade minhas e tal, que eu faço lá falta… lá me fui desculpando da melhor maneira que me veio à cabeça – É para dar a vez aos outros!

Sábado, 8 de Novembro

A mamã ligou – Venham cá vocês pelo Natal! – Não vás lá para a manifestação que aquilo é perigoso. – Não mamã, os professores não são pessoas perigosas, são pessoas educadas. Sofia ligou, um pouco confuso, consequência de falta de organização por parte da entidade patronal para a qual ela foi fazer promoção, e agora é a parte do mas…  60Km/hora. Fiz um esforço para ir devagarinho, apesar dos sinais de luzes da pick-up que, se não soasse assim um bocadinho gay, diria que seguia em cima de mim, até ter visibilidade para me ultrapassar independentemente do traço contínuo que estava desenhado no cruzamento! Fez-me lembrar quando estou parado no semáforo de velocidade da Chão de Sapo ou no Sanguinhal e sou ultrapassado à mesma, depois eu é que sou multado. Bom, isto porque vou sozinho a caminho da manifestação, da outra vez fui, desta também vou. É um bocado chato, saio daqui sozinho, pensei em ir de carro mas como tenho o passe pago, vou de expresso, ter com as colegas da escola, e aí, já com companhia, vou até à manif.. Nesta já posso tirar fotografias, tenho um telemóvel com câmara fotográfica, a Lita deu-me um, sim porque eu não tenho dinheiro para comprar um luxo destes. No metro telefonei à colega que estaria na estação junto à escola – Estamos aqui poucas, podes ir ter à estação da Baixa-Chiado, encontrar-nos-emos lá. – melhor para mim porque a linha amarela estava cortada entre duas estações e eu não sei andar de autocarro em Lisboa. O casal sentado à minha frente no metro vinham dos Açores, nos bancos ao meu lado direito, as quatro senhoras sentadas apenas falavam nas aulas, tal como as restantes em pé, ainda me lembrei das “conversas na padaria” mas, uma sala de professores dentro de uma carruagem de metro? Dessa eu não me lembraria nunca! Imaginei-me a ser entrevistado por um jornalista da TVI. Naquelas manifestações de capitais de distrito, fui a meia-dúzia, o repórter da TVI entrevistou-me mas Portugal e arredores foram privados da minha opinião, chamei àquilo tudo fait-divers e não tive direito a nada. A esse propósito, senhor jornalista, fait-divers é um facto não necessariamente importante mas decididamente interessante, só por via das dúvidas… o professor ainda sou eu, pormenores. E então, dono de uma imaginação muito profícua, lá lhe dei asas. – Ó Zé Pedro e tal e coiso… – esta é a parte do repórter – Então eu vou-lhe explicar: imaginemos que o senhor é jornalista, não é um microfone com um autocolante da TVI e um operador de câmara, que fazem de si um jornalista, – esta é a boca para o rumor que a pessoa dentro da sala de aula, com uma turma à frente, não é “um professor”, mas o jornalista que subentenda isso – hipoteticamente está aqui a tentar fazer o seu melhor para que esta reportagem tenha o efeito pretendido, mas o seu patrão diz-lhe que tendo em conta os níveis de audiência da reportagem anterior, para que o senhor seja um bom jornalista, esta reportagem terá que subir um bocadinho mais o nível de audiência. Sim senhor conseguiu. É um bom jornalista. Na próxima reportagem, o seu patrão diz-lhe que depois de ter lido o relatório por escrito desta reportagem audiovisual, quer que o nível de audiência suba. Sim senhor é isso que torna a coisa competitiva. Se o hipotético jornalista, que agora já é avaliado com “Bom” não subir mais o nível de audiência, já não é classificado como um bom jornalista, independentemente do seu trabalho, é melhor começar a fazer reportagens sobre arrumadores de carros, para ver se há vaga para si, porque candidato a jornalista não volta a ser. – e seria mais ou menos isto que eu diria ao jornalista, só para começar com a tão badalada avaliação de desempenho, visto ser apenas essa parte a que é possível de fazer audiência, um aluno que excede o limite de faltas, no primeiro período, propõe-se a exame, passa o ano, é um bom exemplo a dar aos colegas se devem ou não estudar, violência física, falta de respeito, falta de condições, de material, turmas enormes, esses detalhesitos que só os encarregados de educação é que sabem e nunca admitem, não fazem reportagem. Imaginei um buraquinho no chão, na terra mais propriamente. Um buraquito pequenino, daqueles onde passa uma formiguita, depois imaginei que esse buraquito seria a saída de um formigueiro. Nessa saída de formigueiro, uma câmara da National Geoghraphic, porque começou a sair de lá o maior “enxame” de formigas que eu já vi! Havia formigueiros por tudo o quanto era canto: a saída das estações de metro do Rossio, da Baixa-Chiado; daquela estação de comboio, que eu agora não me lembro o nome; os autocarros ao fundo do Terreiro do Paço; os polícias a mandarem parar e avançar o trânsito independentemente da cor do semáforo; eu ainda fiquei de telefone ligado aponte para o rio a pensar que a qualquer momento saia gente debaixo de água, e eu a pensar “sozinho”! que disparate, estamos cá todos. Encontrei pessoal dos meus tempos de universidade, colegas de escolas anteriores e os meus vizinhos. Ri-me no metro. Estava à cunha de gente bem disposta… No dia e no auge da manifestação parei. Parei com duas colegas da escola, uma mais nova, outra mais velha do que eu. Numa esplanada a beber café, eu ainda bebo abatanado, parecia um mundo imaginado: ele ali sentado, com duas colegas de profissão, cada uma de seu grupo disciplinar o qual eu partilho, e lá ao fundo a manifestação a passar, com os restantes colegas de profissão, todos. Não parecia real. Parecia uma passagem de um livro digno de Nobel de Literatura, no qual estão sentados na esplanada da baixa, de onde saiu muita arte, três gerações de professores, a ver desfilar diante dos seus olhos, todos os professores de um pais, unidos pela mesma causa. Aquela que os levou a ensinar, um mundo melhor! Ainda assinei um “abaixo-assinado” contra a privatização da água! Chegado ao autocarro a mesma, e única pergunta que toda a gente faz, como se fosse esse o único ponto da questão – Então ó Zé Pedro, vocês não querem ser avaliados, porquê? – Vamos lá a ver se eu me consigo fazer entender, deram-te este horário, certo? – Certo, agora como há mais passageiros, de semana o último carro a sair daqui é às dez horas! – OK, a empresa entendeu que era preciso, fez-se mais uma carreira, o número de passageiros significa dinheiro em caixa… – Não! Tem noites em que não dá para o gasóleo! – Mais me ajudas, imagina que o responsável para que o autocarro tenho cada vez mais passageiros, para que a viagem renda cada vez mais dinheiro é o condutor, ou seja és tu! – Isso não tem jeito nenhum! – ‘Tá bem mas tu é que vais ser avaliado, imagina se o autocarro avaria. – Não tenho culpa se o carro que me dão para trabalhar está todo velho e pode avariar! – Pois mas essas são as condições segundo as quais tu tens que fazer aumentar o lucro da viagem se não és um bom condutor. – O que é que uma coisa tem a ver com a outra, os colegas que fazem as internacionais têm melhores carro que a gente, e isso não quer dizer que eles são melhores que a gente! – Mas é o que se passa com a nossa avaliação… – Isso não pode ser assim, havia de ser comigo, engarrafávamos aí o trânsito todo. – Pois viu-se quando foi a greve dos camionistas, até os emigrantes ilegais levavam cargas para os hipermercados… – E a conversa continuou viagem fora a falarmos de potências de motores e consumos de autocarros. Até fiquei parvo com a fortuna que se gasta em portagens e gasóleo. Ainda não sei se me fiz entender…

Sexta-feira, 21 de Novembro

A Sofia tirou o dia de folga e fez-me companhia a atravessar o pais. Afinal é a primeira vez que vamos ver o Alqueva, ou melhor a margem sul do Alqueva. Fiquei um pouco preocupado porque é ao pé de Barrancos, e Sofia e touradas é coisa que não joga bem. Chegados à escola ninguém, ainda é muito cedo – disseram-me. Acordei às cinco e trinta, saimos de casa, seis e meia da manhã, nove e trinta na escola e agora dizem-me que ainda é cedo. Onze e meia quando alguém me recebeu, sentado, no escritório do Executivo, deu-me um horário de português, para desenrascar porque não devia ser assim. – Este horário deveria ser de quatorze horas. – morri! – Homem que raio de conversa é essa, eu aceitei um horário completo, se fosse de quatorze eu não estaria aqui. – Não, não, isto é apenas a minha opinião porque vais ter muitas horas de biblioteca. – Biblioteca, eu? – Sim, depois alguém te explica. – Quando? Quem? – Talvez segunda-feira a presidente tenha tempo da parte da tarde. Secretaria. Pró formes do costume. Fui visitar a escola, de mão dada com a namorada, lá fui perguntando e conhecendo os cantos à casa. Graças a Deus que a Sofia veio, pediu a lista na secretaria para arranjar um quarto, perguntou às pessoas e nada. Valeu-me o contacto que ela tinha tirado na internet. Resolvemos fazer um desvio e passar pela mamã, que chegava de Lisboa após uma consulta no dietista. Contei-lhe. Custou um bocadinho a acreditar.

Segunda-feira, 8 de Dezembro

Hoje é Dia Santo, não se diz feriado! Aprendi esta com o padre. Feira do Pinhão, chama-se assim a feira anual aqui na terra. Fui acompanhar a Sofia, claro já que cá estou de fim-de-semana, e tenho estado uma nulidade, pelo menos vou acompanhá-la. Tenho dificuldade até em andar. Tomar banho foi uma tortura. Médico? Para quê? Do centro de saúde enviam-me para o hospital. No hospital mandam-me fazer uma pazada de exames, diagnosticam-me uma merda qualquer que depois afinal, ainda bem que não era nada e depois logo se vê! Quem vai trabalhar por mim? Tenho ADSE, nem sei sequer como é que isso funciona. Uma vez, estava eu colocado na Ericeira, ainda fui a um dentista em Mafra, era só pagar a consulta mais barato, porque tinha ADSE e pronto. Agora os médicos já não assinam acordo, primeiro é preciso pagar, só depois é que se é reembolsado, ora eu não tenho dinheiro, o que é que vou fazer para o médico? Ouvi-lo dizer que estou doente? Isso já eu sei! Estou cheio de dores! Pode ser que passe… Embora pouco ou nenhum trânsito, é a vantagem de viajar de noite, fui um bocado duro: muitas dores e, como se não bastasse, bastante nevoeiro. Pensei de mim para comigo: um dia hei-de ter um carro com faróis de nevoeiro!

Quinta-feira, 11 de Dezembro

Cinco e tal da tarde, estava eu na biblioteca, de serviço, eis senão quando:  – O que é que ainda estás aqui a fazer? – pergunta uma colega que por ali entrou, estranhando eu estar ali sozinho. – Aproveito para fazer testes. – Não me digas que ninguém te disse que nesta escola na última semana de aulas não se fazem testes? – retorquiu (escrevi “retorquir” porque tenho lido que os jornalistas que agora escrevem livros variam muito os verbos introdutórios do diálogo, embora tenha a sensação que na linguagem corrente não seja assim, deixo já aqui a porta aberta para um verbito mais repenicado). Não obstante, quem se lixa sou eu se não tiver uma avaliação dos alunos escrita, vou fazer e pronto. Quero lá saber se a escola concorda ou não concorda. Alguém tem que ensinar os alunos, se estão na escola é para estudar, que eu não tenho culpa de eles não terem tido aulas. Depois quando eu for avaliado, o lixado sou eu, porque não fiz avaliação! Esta situação de obrigatoriedade de formação está a meter-me em apuros. O ano lectivo vai passando e eu formação, que é obrigatória para a minha avaliação, népia! Eu até concordo com tudo isso, acho muito bom que os professores tenham e procurem formação profissional contínua, aliás eles já o faziam independentemente da obrigatoriedade. Agora o frustrante é eu ser penalizado por não fazer formação, mas quando? Onde? Como? Em que disciplina? O ano já está de resto e eu….

Sexta-feira, 19 de Dezembro

Hoje é dia de almoço de Natal na escola. Não vou. Continuo a sentir-me um outsider portanto não vou. Mas de manhã passei pela secretaria: o meu processo ainda não chegou. E, ainda bem que lá fui, o Executivo está prestes a lançar as vagas para a última cíclica. Como é que é? Fico disponível para concorrer? Eu já com a ideia de apanhar a vaga da minha antiga escola. Acontece, tudo me acontece, que a colega que estou a substituir e se apresentou ontem, pediu “isenção de componente lectiva” ou lá o que foi, por conseguinte, a Sra. Presidente aguarda um telefonema da colega para saber como é que é! Para depois me informar como fica a minha situação visto que tenho contrato até ao final do mês de Dezembro. Almocei em casa, (…) Contei-lhe a história desta nova reviravolta, nem sabe o que há-de dizer. De tarde volto à escola, informam-me que aguardam telefonema “deles lá” para saber como é que fica a minha situação. Como se não bastasse, informar-me-ão, para a semana, “Depois agente diz-te qualquer coisa, vai lá descansado! Temos o teu número de telefone, não temos?”. Não sei se hei-de arrumar tachos e panelas, levar a tralha toda, não sei se volto, só sei que já não posso concorrer à última cíclica, porque a senhora que eu substituo não sabe o que há-de fazer à vida! Voltaram-me aquelas dores insuportáveis na boca do estômago, já estou farto de beber água e não passa. Vinte e duas e trinta e quatro minutos quando saí da escola. Na mesma. Quer dizer… um bocadinho pior. Jantei. Sozinho. Espero pelo dia de amanhã. E pela semana que vem. E pelos resultados da última cíclica. E que não seja ninguém colocado na minha vaga anterior. E que seja eu. Que a colega que substituo meta baixa. E que o dinheiro chegue. E que tenho de pagar o seguro do carro que segunda-feira irá para a oficina, se aguentar a viagem. E a senhoria disse que vinha cá hoje e não veio. E não sei o que fazer à chave da casa. E por hoje… vou ver televisão até às quinhentas.

Domingo, 28 de Dezembro

Ah! Belo domingo, dia de descanso e dolce fare nhiente. Não deve ser assim que se escreve, mas é assim que soa. Acordei cedo, comi uma laranja, fiz um café, sentei-me na sala a ler, descansado. Finalmente, calma sossego e um livro interessante. Pelo fim da manhã, a minha quase-esposa acordou, tinha os pés frios, mas era apenas uma desculpa para me passar um pouco de todo aquele calor e dividir suspiros e sorrisos. Correu tão bem que era vê-la a cantar a fazer o almoço. Tofu. Cafezinho no Centro Comercial Colombo? Porque não. Viagem até lá, abatanado no Alessandro Nanini, também tenho que ir ver se é assim que escreve, visita à loja de instrumentos musicais, sonhar com guitarras, mais um par de voltas pelas lojas, montras e trocas de bom gosto, cansaditos de tanto laurear a pevide, pausa, lanche: um doce! Duas horas na FNAC, jantar e cinema. Após o cinema, de carro por Lisboa, passeio para ver as iluminações de Natal. Sem trânsito, nas calmas. Lindo. No regresso a casa, rádio desligado, um pouco de conversa e relaxe. Pés quentes, para a camita ver televisão. Tudo isto teria sido possível se eu tivesse recebido subsídio de Natal, tal como as pessoas normais, mas já fico contente se tiver trabalho para a semana que vem. Estive aqui a ver na net duas vagas para Setúbal, uma para inglês, outra para TIC, tenho que pensar em concorrer antes que fique desempregado.

Sexta-feira, 2 de Janeiro

Liguei para a escola, nada. Telemóvel, nada. Depois da menina Sofia se despachar, chegamos ao Centro de Emprego pelas onze e tal da manhã. Em conversa com o técnico fiquei a saber que o meu pedido era o número mil novecentos e noventa e dois a dar entrada hoje, desde as nove da manhã. Até fiquei parvo! Pouco passava das duas da tarde e já quase duas mil pessoas se tinham inscrito ou pedido ajuda ao centro de emprego! Vêm aí um ano novo esperto! Entre a malta que estava por ali era muito fácil distinguir os portugueses dos russos. Os russos bem vestidos, de barba feita, ar simpático, sorriso; os portugueses, barba por fazer, com uma tromba em vez de cara, calças ao fundo do cu, ou os mais velhos com camisas desabotoadas, havia um que até estava a ler “A Bola”. Ora aqui está uma excelente atitude. Como é dia de comemorar os oito anos de namoro, um almocito de fast-food no shopping, terá que ser! E foi. Eram três da tarde quando chegamos ao centro comercial, estava cheio! Não percebo. Também não deve ser para eu perceber.

Segunda-feira, 19 de Janeiro

Dia de greve. Não fiz greve. Não tenho dinheiro para fazer greve. Gostaria, mas não posso. Ainda fui brincado com a situação dizendo que tenho o futuro garantido pedindo o primeiro-ministro em casamento. Hoje, além da greve dos professores, um outro assunto do dia é o facto do primeiro querer permitir por lei, casamentos civis entre homossexuais (‘tá bem! casais do mesmo sexo, mas assim estraga-me a piada). Ora com o que ele já me faz nas minhas costas, doa lá como doer, quer eu queira quer não queira, tenho que o gramar, melhor será a piada de o ir pedir em casamento. Rir ainda vai sendo um bom remédio para não levar tudo a sério. Mas passou-me quando fui buscar o jornal e, tal não é o meu espanto, tipo burro mesmo, ao ler que o presidente, o representante da associação de pais do país, ameaça que irá para tribunal se os professores voltarem a fazer greve! Até fiquei parvo. Se eu pudesse convocaria uma greve, agora quem quer fazer greve sou eu! Então o homem afirma que estamos a tirar o direito aos filhos dele de almoçar, e que as auxiliares e executivos devem garantir o funcionamento da escola! Então e os professores? Bom, fui actualizar a caderneta. A Segurança Social já me pagou. Fiz contas ao que terei que devolver (é justo fui colocado a doze), à renda da casa, ao passe e à internet, fico quase com metade do ordenado mínimo nacional, tenho duzentos euros, até ao dia de S. Receber, a vinte e três de Fevereiro. Já me sinto mais calmo. Mais relaxado, a situação está sobre controlo e o dinheiro já chega, ufa!

Quinta-feira, 29 de Janeiro

O seguro! Esqueci-me… o outro caducou ontem, o novo inicia a validade hoje, mas o selo não está no vidro, está sim em cima da mesa da sala. Hoje cheguei a casa mais cedo. Como entreguei a ficha dos objectivos individuais, sou contratado, não tive coragem de ir à reunião com os colegas que não entregaram. Acabei de jantar, sozinho, porque a minha mulher está numa acção de formação. Ouvi a notícia de abertura nos telejornais. Com que então o Sr. Primeiro-ministro não gosta que falem mal de si. É bem-feita! Para ver o que é que custa os outros falarem mal de nós sem termos culpa. Eu ia sentadinho no metro, a ouvir as pessoas a falarem mal dos professores, não tenho escrito na testa que sou professor… A beber café aqui na Vila, na taberna, a ouvir as pessoas a dizerem mal dos professores, pois é Sr. Primeiro-ministro, não tenho escrito na testa que sou professor. E vou continuar a ser. Apesar das tentativas do governo para denegrir a minha imagem. Ontem fui ao banco, à Caixa Geral de Depósitos perguntar porque é que recebi uma carta a pedir um comprovativo da situação profissional. A resposta que obtive foi que o Banco de Portugal assim o pediu. O funcionário informou-me que o Banco de Portugal quer saber o que é que eu ando a fazer. Não me chamo BPN, nem José Sócrates! Já pedi na secretaria da escola um comprovativo da situação profissional. Com certeza, eu não tenho nada a esconder. Se o Banco de Portugal não tem mais nada para fazer, lamento. Se as pessoas agora dizem mal de si, é bem-feita! Agora que são 20:22 vou corrigir os teste de hoje, depois de lavar os dentes vou para a cama, que amanhã tenho que me levantar às 5:30. E o Sr. não merece que eu escreva mais a seu respeito.

Segunda-feira, 9 de Fevereiro

Cortejo fúnebre. Sai do Expresso e entrei num cortejo fúnebre, com as características todas, só lhe faltava uma! Muita gente, o chão cheio de gente, todos vestidos de preto, todos vestidos de preto não, uns vestidos de escuro, mas todos cabisbaixos, em silêncio e a rumarem ao mesmo destino, notava-se que não se conheciam uns aos outros e o único que primou pela ausência foi o morto. Nem a portagem do gang dos sinkueros com as sirenes no máximo espevitou os amigos do morto que continuavam como que carpindo a sua perda, parecendo dizer em murmúrio: “Adeus, adeus fim-de-semana”. Até eu, que sou humano fiquei, desta vez na moda ou seja: fiquei triste, como o próprio dia, cinzento. Esperava eu pelo transporte que nos leva para baixo do chão (tem tudo a ver: funeral – buraco no chão – metro), parecia que estava tudo em “pause” quando de repente alguém clica no “Play” mas só se mexem dois personagens: eu e quem gritava “Proféssooor! Proféssooor!” (esta é a minha tentativa de aproximação à escrita com sotaque brasileiro). Uma ex-aluna do ano passado. Chiça como cresceu! Dirigi-me a ela e aqueles sorrisos próprios da juventude, alegres e divertidos, ainda bem que são contagiosos, graças a Deus sai do cortejo fúnebre. Vamos lá trabalhar. Isto sim, já é disposição que se apresente para ir para uma escola. Siga. Já está. De volta no autocarro, fui encontrado por uma passageira da terceira idade que diz conhecer-me cá da terra, não resistiu e perguntou-me mesmo: – Disseram-me que nem parece professor porque o viram a fazer não-sei-quê! – Fiquei em silêncio, olhando para a senhora (velha calandreira) num impasse sem saber muito bem o que responder.

Sábado, 14 de Fevereiro

Hoje o meu dia começa pela noite, afinal é noite dos namorados. Estava eu a lavar os dentes antes de ir para a cama, curiosa e raramente a minha-quase esposa já estava na cama, voltando aos dentes, a lavar e tal e vem-me um cheiro que não se pode! Que é isto? Questionei-me conforme se pode ver pelo ponto de interrogação. Olho para a banheira e… parei de escovar os dentes. Pasmei. Volto-me para o lavatório, abro a torneira e acabo de lavar os dentes. A água que escoava do lavatório aparecia, ou emergia, na banheira, não sei se a água emerge, com todo aquele lixo que prova que os canos estão entupidos. Sábado à noite, a mulher na cama, noite dos namorados, e eu, a desentupir canos. Após tenebrosa tarefa de ter desenrascado aquilo, voltei à cama onde me aguardava a censura por não ter oferecido pelo menos uma flor. Ainda tentei argumentar dizendo que… não vale a pena. Durante a tarde consegui ter algum sossego. Para tal bastou ignorar as tarefas domésticas e as escolares. Passei a tarde de roda dos e-mails e do blogue. Não fiz assim mesmo nada de produtivo. Ao almoço fui agradavelmente surpreendido pela rosa e pelo poema que a minha quase-esposa me ofereceu. Confesso que me apanhou mesmo desprevenido. Ainda por cima foi ela que teve de fazer o almoço. Quando chegou ainda cá estava o Zézinho que eu resolvi compensar pelo simples facto de ter vindo. Tinha estado a fazer as minhas coisas da escola enquanto esperei pelo das dez, que desta vez não telefonou a dizer que já acordou, nem coisa nenhuma, nem a sua presença foi registada neste humilde e desarrumado pequeno T2. Bom-dia! Até ao Sábado tenho que acordar de despertador, compromissos! Vida de professor contratado.

Segunda-feira, 23 de Fevereiro

Tive que esperar até passar das nove horas para ir actualizar a caderneta. Recebi. Mas recebi pouco mais de metade do que deveria receber. A mim tudo me acontece! O que é que será desta vez? Porque carga de água é que eu não recebi a totalidade do que me é devido? Cheguei a casa a “bufar” por todos os lados, qual comboio a vapor. Já a Sofia estava agarrada ao telefone da associação, acabou a chamada porque tocou outro, fui fazer café. – Então meu amorzinho o que é que tu tens? – perguntou-me. Expliquei-lhe e ela sugeriu-me que telefonasse para a escola. Evidente que não estava em condições para isso, se o fizesse ofenderia alguém. – Então vens ajudar-me a limpar a casa, pode ser que fiques mais calmo. – resultou, fiquei mais calmo, liguei para a escola e – Pois é Senhor Professor (como se trata da minha pessoa tem que ser com letra grande) nós quando recebemos achamos sempre que é pouco. – foi a primeira resposta que obtive, fiquei sem respirar, comecei a contar até dez e fez-se luz na minha cabeça: – Parece-me pouco para quase dois meses de trabalho! – continuei em linha e a senhora teclou algo no computador e disse-me para não me preocupar que afinal o colega que trata desse assuntos enganou-se e que só me pagaram um mês – Depois vê-se isso. – foi a resposta. Por acaso até foi o mesmo ao qual eu perguntei o que era isso de ter que desistir do concurso, mas os meus nervos não aguentam mais. Fui ao gás, fui pagar a internet, não percebo como é que somos “obrigados” a ter internet e temos que pagar pelo seu uso, fui pagar a conta do telemóvel, almoçar e, finalmente, ah! Assim sim! Fomos beber um café à praia! Graças a Deus! Já tinha saudades disto.

No caminho de volta passamos pela sogra. O costume. Coitadinha da Ana, coitadinho do Diogo, disto não tinha eu saudades, pelo contrário: estou farto! Especialmente de todos aqueles que reclamam que as coisas estão mal mas nada, absolutamente nada fazem para mudar seja lá o que for, nem que seja procurar trabalho. Já o sol se tinha posto quando chegamos a casa. Como ficou cheia de gatas despidas e a vestirem-se, e a pintarem-se umas às outras, ultimando os pormenores estéticos do grupo de folionas felinas que representam a associação de cães nas festividades carnavalescas locais, fugi. Fui para a taberna, aproveitei para pagar os jornais do s CDs em atraso. Voltei a casa, silêncio e calma. Estiquei-me no sofá, tapei as pernas com o cobertor do gato, liguei o candeeiro de mesinha de cabeceira, e a seis páginas do fim, eis que entram as gatas sobreviventes ao baile. Entre chá, licor e bolachas, conversas e reconversas, lá se foram desmaquilhando e comentando como correu e não correu. Esta do “reconversas” é influência de José Saramago, era o que eu voltei a ler quando a Sofia foi para a cama.

Segunda-feira, 2 de Março

Não percebi muito bem a conversa de alguns colegas, colegas não, professores mais velhos, velhos rabugentos, que lá vão dizendo que a culpa desta avaliação de desempenho é dos contratados porque não se manifestam o suficiente. Além de não ter ouvido bem, nem me dignei a responder. Daqui a três meses fico desempregado, essa é que é essa! Na viagem de volta o metro parou no Colégio Militar / Luz o tempo suficiente para que eu perdesse dois expressos. Estava a ficar mais do que a ferver quando fui encontrado por mais um ex-aluno, que festa! E que bem que me fazem estes encontros. Já no expresso que consegui apanhar liga-me a Sra. Presidente. Não há professores. Muitos debandam para a reforma e os mais novos também vêm as notícias. O mal dos outros é o bem de alguns e é bem verdade! Questionou-me se eu estaria disposto a fazer horas extras. Eu? Caso estivesse, falaríamos amanhã de manhã. Não há fome que não dê em fartura, eu? Fazer horas extras na própria escola? Não ter que ir a correr para dar explicações a alunos que não aparecem, procurar que nem um perdido por formações profissionais, chegar ao ponto de jogar no totoloto, se eu quero trabalhar mais, e ainda por cima na minha própria escola? Cheguei a casa tão contente que até fui ajudar a carregar as coisas para o novo escritório da associação dos cães. A câmara cedeu-lhes um espaço, no quarto andar sem elevador, para fazer de sede ou de escritório, ou lá o que é.

Terça-feira, 10 de Março

Comichão nos tomates! Desta eu não estava à espera. Agora tenho comichão nos tomates. Valha-me Deus! Ao começarem as aulas, além da comichão, mais uma Directora de Turma a entregar-me a lista dos alunos que excederam o número de faltas à minha disciplina. Vinte para as sete quando me ligou o Zézinho. Queria saber para quando é que tinha ficado marcada a explicação. Expliquei-lhe bem explicadinho que tinha sido para as duas horas do Sábado passado, visto ele hoje ter um trabalho para apresentar! Abençoado rádio que tem o autocarro: “ Os concursos são na próxima sexta-feira!” Assim que meto a chave na porta, a primeira coisa que ouço não é o Banzé, mas sim um dos telefones da Sofia, ela não está, mas os telefones estão! Durante o jantar contou-me, com um misto de revolta e lágrimas que quer ir para a universidade. Fartou-se de ser desprezada por não ter um curso superior! Vou apoiá-la até naquilo que eu não puder.

Sábado, 14 de Março

Ainda não eram sete da manhã quando me apercebi que se continuasse na cama apenas iria acordar a Sofia. Uma laranjinha, café, pomadinha nos tomates e trabalhar! Testes de recuperação para os alunos que excederam o número de faltas do quinto ano; do sexto; respectiva correcção; grelha de avaliação em excel; digitalização de imagens não necessariamente por esta ordem. Preparar as revisões para os alunos do sétimo, visto que os resultados do teste diagnóstico recordaram-me da existência da oração, assinalar no livro o que quero rever, estudar, ensaiar, enfim contar o tempo que tenho para dar o que quero, mais exercícios e primeira tentativa de telefonema para a Leta, hoje faz anos. Fiz o almoço. A Sofia desafiou a um abatanadozinho na esplanada, não resisti. Duas explicações. Segunda tentativa de telefonema. Mais trabalhos da escola. Liguei à mamã, também não consegue. Ao telefonar para a Lita fiquei muito contente porque o meu sobrinho acaba o curso no final deste mês, já tem emprego no hotel de cinco estrelinhas onde está a servir à mesa e, como é o único com curso, será uma espécie de chefe de sala. E só fuma ganzas nos dias de folga. Também não consegue ligar à irmã. Mais trabalhos da escola. O facto da Sofia ter chegado do trabalho serviu-me de desculpa para ligar à Leta novamente. Conseguimos. Está uma pilha de nervos. Os resultados dos testes indicam que o menino não é hiperactivo portanto o relatório está errado! A psicóloga não sabe nada! Vão tentar arranjar outra que seja mais competente porque eles sabem muito bem que o menino é hiperactivo. Obrigado pelos parabéns. Dez da noite quando a Sofia se fartou de ralhar comigo para parar de fazer as coisas da escola e jantar. Realmente os meus olhos ardem, e muito, é melhor parar.

8 responses to “Um ano na vida do Zé Pedro

  1. É pá não te preocupes com isso ! Da maneira como falas (escreves) até parece que o Zé é de carne e osso e está até sujeito a ir ,por exemplo, parar a pildra ou a Freixo de Espada á Cinta .
    Outra coisa , na minha idade já não crescem cabelos nos poros , muito pelo contrário ….caem ; e esta em ,pró que me havia de dar a propósito de comentar a vida de um meco que eu nem saquer conheço… a pensar em velhice , médicos ,etc .Não é por “coisas” mas está a ficar “perigoso”.

  2. Tens de me dizer quem modera e com que critérios os meus comentários , alguém com um lápis azul, não ? hihihihi , peço perdão mas não consegui resistir .

  3. nunoanjospereira

    Os critérios são os generalistas de todos os outros blogues: o comentário deve servir para enriquecer o artigo e na melhor das hipoteses, suscitar diálogo, discussão, mas ainda não consegui um tema que suscitasse isso nos leitores. Também ainda não tentei. Como diria o “Dr.Funkstein” os blogues servem um pouco para combater a solidão e “Olhares perdidos na cisma” os comentários enriquecem o blogue.

  4. nunoanjospereira

    Uma das minhas idéias com o “Zé Pedro” é criticar a sociedade actual, a qual não gosto, porque faz-de-conta, não é uma coisa a sério, acho que é ainda uma sociedade especialista na arte do desenrasque, coisa que já devia ser do passado. Em vez de desenrascar deveria ser profissional. Quantos mais comentários melhor! Quanto mais falarmos com as personagens melhor. Vocês que comentam o “Zé Pedro” são os meus editores. Enviam-me sinais sobre como guiar o personagem, e digo-te Carlos, por este andar ainda vou mas é tentar publicar qualquer coisa mais acutilante, que meta mesmo a mão toda na ferida!

  5. Rosa Carioca

    E como há tantos “Zé Pedro´s”… Quando as pessoas vão ser respeitadas pelo que são? Quando os Professores vão ser reconhecidos pelo seu Profissionalismo e não pela quantidade de papel que preenchem? Não, não vou desistir do que gosto de fazer…, pelo menos, por enquanto…

  6. nunoanjospereira

    Não nos devemos envergonhar de esclarecer a opinião pública acerca da verdade efectiva, de tudo o que os professores passam na realidade! Este “Ano na vida do Zé Pedro” é a minha tentativa de demonstrar tudo isso.

  7. nunoanjospereira

    A realidade tem essa vertente: encarada como ficção, concordo contigo Bruno, é excelente!

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