Tag Archives: Álcool

Conduzir um bocadinho com os copos

Beber: uma história de amor – Caroline Knapp

beber uma historia de amorRecentemente fui operado a um olho. Ao ler este “Beber – uma história de amor” fiquei com a mesma sensação: um excelente ponto de vista interno, que  poucos tem a oportunidade de assistir do lado de dentro. A forma como Caroline Knapp escreve, permite ao leitor, com grande facilidade, “ver” os episódios da vida de uma alcoólica funcional. Funcional é aquela pessoa que mantem a vida toda em ordem, ninguém desconfia de uma doença tão grave como o alcoolismo. Deixo-vos algumas citações só para aguçar o apetite:

“As seguintes questões, compiladas pelo Conselho Nacional sobre Alcoolismo e Toxicodependência, foram concebidas para ajudar as pessoas a verificarem se têm ou não problemas com a bebida. Foi assim que lhes respondi, algumas semanas antes de ter parado de beber.

Sim Não
x 1. Costuma beber muito depois de uma frustração, uma discussão ou quando o seu chefe lhe dá problemas?
x 2. Bebe mais do que o normal quando tem problemas ou se sente sob pressão?
x 3. É capaz de aguentar uma maior quantidade de álcool do que quando começou a beber?
x 4. Alguma vez se apercebeu de que não conseguia lembrar-se de uma parte da noite anterior, ainda que os amigos lhe digam que não perdeu os sentidos?
x 5. Quando está a beber com outras pessoas, tenta beber mais alguma coisa sem que os outros reparem?
x 6. Há ocasiões em que se sente mal se não tem álcool à sua disposição?
x 7. Tem-se sentido mais impaciente e ávido pelo primeiro copo do que antes?
x 8. Sente-se por vezes culpado pro beber?
x 9. Fica secretamente irritado quando a sua família ou amigos abordam o seu problema com a bebida?
x 10. Reparou recentemente num aumento da frequência de «perdas de memória»?
x 11. Conclui com frequência que deseja continuar a beber depois de os seus amigos terem dito que já beberam o suficiente?
x 12. Nas ocasiões em que bebe muito costuma ter um motivo específico para isso?
x 13. Quando está sóbrio, lamenta com frequência coisas que fez ou disse enquanto estava a beber?
x 14. Já tentou mudar de marcas ou seguir planos diferentes para controlar a bebida?
X 15. Já tentou controlar a sua bebida mudando de emprego ou mudando de casa?
X 16. Tenta evitar a família ou amigos íntimos quando bebe?
X 17. Os seus problemas financeiros e de trabalho não param de aumentar?
X 18. Tem a impressão de que há mais pessoas a tratarem-no injustamente sem uma boa razão?
x 19. Come muito pouco ou irregularmente quando está a beber?
x 20. Tem por vezes tremores de manhã e sente que tomar uma bebida pode ajudar?
x 21. Reparou recentemente que não consegue beber tanto quanto costumava?
X 22. Fica por vezes embriagado durante vários dias?
x 23. Sente-se por vezes muito deprimido e interroga-se sobre o valor da vida?
X 24. Depois de períodos em que bebeu muito, vê ou ouve coisas que não existem?
X 25. Sente-se terrivelmente assustado depois de ter bebido muito?

– página 115/116

“Quando fiz 29 anos, Wicky morreu de repente, de um ataque muito violento. Tinha 42 anos. Alguns meses depois do funeral, a minha meia-irmã, Penny, irmã mais velha de Wicky, mandou-me uma carta contando como tinha sido crescer com ele e quebrando o silêncio a propósito do papel do álcool em tudo aquilo. «Nunca ninguém falou disso», escreveu ela, «mas é absolutamente óbvio para mim agora que ele sofria de síndrome alcoólico-fetal.» – página 57

“(…) No fundo, o alcoolismo é como uma acumulação de dezenas de ligações como essa, inúmeros pequenos medos, fomes e raivas, diversas experiências e memórias que se acumulam no fundo da nossa alma, coalescendo, depois de muitas e muitas bebidas, numa única solução líquida.

Claro que o problema da autotransformação é que, ao fim de pouco tempo, já não sabemos em que versão de nós acreditar, qual é a verdadeira. (…)

(…) Ao fim de pouco tempo, já não sabemos sequer as coisas mais básicas sobre nós próprios – de que temos medo, o que nos desagrada, de que precisamos para nos sentirmos confortáveis e calmos – porque nunca demos a nós próprios a oportunidade, clara e sóbria, de o descobrir.

O álcool oferece protecção contra tudo isso, defende-nos da dor da autodescoberta, um protecção maravilhosa e reconfortante que é altamente insidiosa porque, sendo absolutamente falsa, nos parece tão real e necessária.” – páginas 75/6

“Lembro-me de escutar os argumentos e contra-argumentos, e de pensar: Não estou a perceber nada. Ninguém fala do álcool. O álcool surgia de quando em vez, apresentado como factor que piorava as situações – a própria Roiphe escreve acerca de «recordar noites complicadas, com muitos copos de vinho, em camas conhecidas e desconhecidas.» Mas, no geral, o excesso de álcool era discutido como um elemento acessório, algo com consequências palpáveis: beber tolda o raciocínio, enfraquece a capacidade de comunicação. As ligações mais profundas entre o álcool, a auto-estima e a sexualidade, a forma como as mulheres (pelo menos as mulheres como eu) se servem do álcool para abafar uma vasta gama de sentimentos conflituosos – desejar e temer a intimidade; desejar a união com os outros e recear perder-se nela; grande incerteza acerca de como e quando estabelecer barreiras, como e quando abrir mão delas – eram assuntos abordados de modo ligeiro, sem detalhe nem profundidade.” – página 80

“Doloroso e extraordinariamente comum. As coisas que nos levam a beber, podem levar-nos com a mesma facilidade a qualquer uma das outras coisas terríveis. Para Janet, a autodestruição surgiu na forma de bulimia (…).” – página 128

É esta uma das (possíveis) diferenças entre ver televisão e ler um livro: podemos voltar para trás, refletir, ler sem limite de tempo e formar uma opinião mais fundamentada. Em vez de nos limitarmos a acreditar em tudo o que se pode ver na TV.

Beber: uma história de amor – Caroline Knapp

beber uma historia de amor“(…) No fundo, o alcoolismo é como uma acumulação de dezenas de ligações como essa, inúmeros pequenos medos, fomes e raivas, diversas experiências e memórias que se acumulam no fundo da nossa alma, coalescendo, depois de muitas e muitas bebidas, numa única solução líquida.

Claro que o problema da autotransformação é que, ao fim de pouco tempo, já não sabemos em que versão de nós acreditar, qual é a verdadeira. (…)

(…) Ao fim de pouco tempo, já não sabemos sequer as coisas mais básicas sobre nós próprios – de que temos medo, o que nos desagrada, de que precisamos para nos sentirmos confortáveis e calmos – porque nunca demos a nós próprios a oportunidade, clara e sóbria, de o descobrir.

O álcool oferece protecção contra tudo isso, defende-nos da dor da autodescoberta, um protecção maravilhosa e reconfortante que é altamente insidiosa porque, sendo absolutamente falsa, nos parece tão real e necessária.” – páginas 75/6

A um passo do alcoolismo

Retirei este vídeo do facebook porque, compreensivelmente, estava associado a muito humor. Procurei-o no youtube e até um canal televisivo americano explora a “hilariante” comédia. Aqui ainda vou tendo uma categoria dedicada exclusivamente ao “Álcool”. Republico o mesmo vídeo sem humor, noutro contexto: o real. Este gajo vai a caminho de casa. Este gajo vai a caminho de casa de alguém. Muito mais fácil comentar a consequência do que colaborar para combater a causa.

Maldita ressaca?

expressoAgradeço a “Maria Fernanda Pedroso” pelo alerta acerca dos perigos do álcool. Já há muito tempo que não postava nada a esse respeito. O alcoolismo lá vai passando e ressacando e nós vamos-nos esquecendo de que é uma doença socialmente aceitável, tolerada e até mesmo estimulada. Lembrem-se que por cada alcoólico sofrem quatro pessoas. Pensem um pouco, olhem à vossa volta e dêem mais do que um bom-dia ao vosso vizinho. Esta notícia do Expresso é um bom exemplo de como a preocupação é no prazer fácil e imediato, não tem em conta as eventuais consequências nefastas dos actos.

“Arrisca-se a ser o lado menos agradável da sua passagem de ano, mas se recebeu 2010 com uns brindes a mais que o desejado, não tem outro remédio a não ser esperar. É que, contra os excessos de bebida e apesar dos muitos remédios e mezinhas apregoados, não há outro antídoto além do tempo. É científico. “Quando alguém ingere álcool a mais, este é absorvido e nada o tira do sangue”, afirma Rui Tato Marinho, hepatologista e dirigente da Sociedade Portuguesa de Gastrentologia. Para este especialista, os produtos que anunciam ter a a capacidade de anular os efeitos adversos do pós-bebedeira, não passam de “um negócio”. Nem pastilhas de ácido ascorbótico, nem cafeína, nem nomes mais estranhos como glucoronamida. Pode sempre recorrer ao velho Guronsan, mas várias pesquisas são unânimes em reconhecer que qualquer medicamento pode tanto contra o excesso de álcool como a alcachofra ou o chá de camomila. Pior que a ressaca, Rui Tato Marinho alerta para outros efeitos negativos do álcool: “Violência, acidentes de viação e sexo desprotegido”, além do abuso provocar também a diminuição das defesas do organismo. Posto isto, a única receita eficaz contra a ressaca resume-se pois a uma evidência: não beber. Tarde de mais, não é? Então tenha paciência e votos de rápidas melhoras.”

Alcoolismo disfarçado de violência doméstica

Ora aqui está mais um caso de alcoolismo disfarçado de violência doméstica. O importante não é o facto de ser no feminino mas sim de ser uma dramatização da vida real. É urgente esclarecer quem ignora as situações de perigo de vida, situações de derrocada familiar, situações de “doença” social, se a designação doença for muito forte chamar-lhe-emos maleita social, que vai dar no mesmo, e assim com um videozito, estrangeiro, publicado no youtube, lá vamos deixando as pessoas a falar sozinhas deste assunto. Falem, fazem muito bem. Questionem-se.

Saúde em Jogo – o Álcool e a saúde