Daily Archives: Julho 4, 2019

A arte subtil de saber dizer que se f*da – Mark Manson

Nunca li título tão desadequado. Que se lixe. Verdade é que também não vem mal nenhum ao mundo por eu não ter lido um título tão desadequado como este. Como já por aqui coxeio à uns anitos, eu traduziria mais de acordo com aquilo que «eu acho» ser o nosso contexto cultural: A arte de saber dizer: que se lixe, é p’ra fazer é p’ra fazer! ‘Tá bem que o «F*da» chama ali um bocado à atenção ( e não «a atenção») mas, no contexto americano (talvez), não no meu. O que me apercebi, no decorrer da leitura, é que Mark Manson diz que o caminho para o sucesso é f*odido, eu diria é lixado, mas tem que ser feito. É isto que retive desta extraordinária leitura. E extra ordinária é o termo. Tanto faz assim, como assado, é para fazer, é para fazer, quer eu goste das dores de crescimento, das dificuldades, das lágrimas pelo caminho, quer não, não há Bela sem… se não. E tanto faz como fez, tentar disfarçar o sofrimento. Ele está lá. Temos que passar por ele.

Na página 70 diz (eu sei que se diz «tem escrito» mas, que se lixe! Não vem mal ao mundo por causa disso): “Se o sofrimento é inevitável, se os nossos problemas na vida são inevitáveis, a questão que devemos colocar não é «como é que eu paro de sofrer», mas «Por que razão sofro? – com que propósito?». Interessante, não é? E o que é que tem a ver com o título?

Ainda em busca de partidários da minha causa que tem lá a ver com o título, na página 88 podemos ler: “O primeiro, que analisaremos no próximo capítulo, é uma forma radical de responsabilidade: assumir a responsabilidade por tudo o que acontece na nossa vida, independentemente de quem tem a culpa. O segundo é a incerteza: o reconhecimento da nossa própria ignorância e o cultivo da dúvida constante nas nossas próprias crenças. O seguinte é o fracasso: o desejo de descobrir as nossas próprias falhas e erros, para que possam ser melhorados. O quarto é a rejeição: a capacidade de dizer e ouvir «não», definindo assim claramente o que aceitará ou não na sua vida. O valor final é a contemplação da nossa própria mortalidade; este é crucial, porque prestar atenção vigilante à nossa própria morte é, talvez, a única coisa capaz de nos ajudar a manter todos os nossos outros valores na perspetiva adequada.” – ‘tão a ver, ‘tão a ver? O que é que isto tem a ver com o título?

Querem ver porque é que recomendo esta leitura? Ora aqui está mais um parágrafo que li umas poucas de vezes: “O ambiente atual da comunicação social tanto incentiva como perpetua estas reações, porque, afinal, isto é bom para o negócio. O escritor e comentador Ryan Holiday refere-se-lhe como «indignação porn»: mais do que relatar histórias e questões reais, os media descobriram que é muito mais fácil (e mais rentável) arranjar qualquer coisa medianamente ofensiva, transmiti-a a uma vasta audiência, gerar indignação e depois retransmitir essa indignação através da população de uma maneira que indigne outra parte da população. Isto ativa uma espécie de eco de disparates que saltita entre dois lados imaginários, ao mesmo tempo que distrai toda a gente dos verdadeiros problemas sociais. Não admira que estejamos politicamente mais polarizados do que nunca.” – ‘tão a ver? – “O maior problema com a vitimização chique é que esta distrai a atenção das verdadeiras vítimas. (…) – página 107 – É a vantagem da leitura! Eu até já sabia isto mas, lendo e relendo, é diferente, é mais lento, parece que é mais verdade, permite algum tempo de reflexão.

Opá… na página 115 também parei e escrevi o número na agenda do telemóvel, não vou transcrever a página toda, leiam, mas… cá vai um cheirinho: “Tal como vemos com horror a vida das pessoas de há quinhentos anos, imagino as pessoas daqui a quinhentos anos a rirem-se de nós e das certezas que temos hoje em dia. Rir-se-ão por deixarmos que o nosso dinheiro e os nossos empregos definam as nossas vidas. Rir-se-ão do nosso receio de mostrarmos apreço por aqueles que nos importam mais e, no entanto, tecermos elogios a figuras públicas que não merecem nada.(…)” – Ora cá está! Nós até já sabemos isso mas, lê-lo… tem outra intensidade.

Esta então nem digo nada: “Lembro-me de discutir esta dinâmica com o meu professor de Russo, e ele tinha uma teoria interessante. Tendo vivido sob o comunismo durante tantas gerações, com poucas ou nenhumas oportunidades económicas e engaiolada numa cultura de medo, a sociedade russa descobriu que a moeda mais importante era a confiança. E para construir confiança é preciso ser honesto. Isso significa que, quando as coisas são uma porcaria, isto é dito abertamente e sem desculpas. As demonstrações de honestidade desagradável eram compensadas pelo simples facto de serem necessárias para a sobrevivência – as pessoas tinham de saber em quem podiam e não podiam confiar, e tinham de o saber depressa.” – página 159

Já que leste tudo isto até aqui, só mais uma porque é… mais uma vez o óbvio, lido e escrito mas, com necessidade imperativa de ser dito para poder ser repensado, na página 168: “A vítima, se efetivamente amasse o salvador, diria: «Olha, este problema é meu; não tens de o resolver por mim. Só quero que me dês apoio enquanto eu próprio o resolvo.» Isso seria verdadeiramente uma demonstração de amor: assumir a responsabilidade pelos seus próprios problemas e não tornar o seu parceiro responsável por eles.”

Em vez de pensar que posso andar por aqui a tentar pensar que posso ser o melhor do mundo, ou não querendo abusar, é mais proveitoso aproveitar-me como sou: uma pessoa… normal.

Muito fixe, este livro. Recomendo a leitura.

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