Monthly Archives: Abril 2018

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RASCUNHOS

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O Périplo de Baldassare – Amin Maalouf

Excelente. ’tá cá tudo. Romance; viagens; marinheiros; mercadores; aqui pelas nossas terras em volta do mediterrâneo; judeus; cristãos; islamitas; ateus; livros e mais livros; o fim do mundo, sim como nós o testemunhamos em 2000, ou teria sido 2012, já não me lembro muito bem; século XVII; diários de viagem; jovens e menos jovens; encontros e desencontros; ricos e pobres; vontade humana e vontade divina, tudo no mesmo livro ainda mais um bocadinho. Com “O Périplo – e o título faz-lhe justiça – de Baldassare” volto ao prazer de uma boa leitura.

Janízaros. Janízaros?! Desconheço mas são um par de personagens que aparece muitas vezes e toda a gente tem um medo deles que se pelam! Fiz uma pesquisa pela net, fui parar à wikipédia: “Os janízaros (do turco Yeniçeri, ou “Nova Força”) constituíram a elite do exército dos sultões otomano. A força, criada pelo sultão Murad I, era constituída de crianças cristãs capturadas em batalha, levadas como escravas e convertidas ao Islão. Seu código de conduta era rigoroso (…) Pena capital como instrumento de misericórdia (…) Os jovens cresciam tendo o próprio sultão como uma figura paterna, por quem estariam dispostos a defender até a morte mesmo contra seu próprio povo de origem. A justificativa para a adoção de um corpo de soldados convertidos em vez de turcos nativos era que os turcos deviam lealdade ao seu povo e às suas famílias, e poderiam tornar-se rebeldes em caso de uma ação do sultão contra outros turcos. Já os jovens cristãos só deviam lealdade ao sultão, e lutariam contra qualquer inimigo por ele. (…) Assim, tornou-se uma prática comum (…) capturar meninos nas cidades conquistadas e levá-los para os centros de treinamento turcos. (…) Eram inimigos temíveis, e isso, provavelmente, se devia ao fato de terem sido os primeiros a adotar as armas de fogo, antes mesmo da difusão destas.” – as coisas que se podem aprender lendo livros.

Mais uma engraçada, tirada do contexto: “(…) E quero acreditar que o Criador prefere, de todas as suas criaturas, justamente aquelas que souberam tornar-se livres. Um pai não fica satisfeito por ver os seus filhos saírem da infância para se tornarem homens, mesmo que as garras nascentes destes o arranhem um pouco? Porque é que Deus havia de ser um para menos benevolente?” – página 146

Esbarrei num parágrafo “zinho” que me desconcentrou da leitura e me fez enveredar por caminhos de reflexão: «Simplesmente, quando eu disse, durante a troca de impressões, que em minha opinião um dos mais belos preceitos do cristianismo era “Ama o teu próximo como a ti mesmo”, notei em Maimoun um ricto de hesitação. Como eu o encorajasse, em nome da nossa amizade, e também em nome das dúvidas comuns, a dizer-me o fundo do seu pensamento, ele confessou: – Essa recomendação parece, à primeira vista, irrepreensível, e de resto, ainda antes de ter sido tomada por Jesus, encontrava-se já, em termos semelhantes, no capítulo dezanove de Levítico, versículo dezoito. Contudo, ela suscita em mim certas reticências… – Que lhe censuras tu? – Ao ver aquilo que a maioria das pessoas fazem das suas vidas, ao ver o que elas fazem da sua inteligência não quero que me amem como a si mesmas. Eu queria responder-lhe, mas ele levantou a mão. – Espera, há outra coisa mais inquietante, em meu entender. Nunca se poderá impedir certas pessoas de interpretaram esse preceito com mais arrogância do que generosidade: o que é bom para ti é bom para os outros; se tu deténs a verdade, deves reconduzir as ovelhas tresmalhadas ao justo caminho, e por todos os meios… De onde os batismos forçados que os meus antepassados tiveram que sofrer em Toledo, outrora. Essa frase, tu vês, eu ouvi-a mais vezes na boca dos lobos do que nas das ovelhas, por isso desconfio dela, perdoa-me… – As tuas palavras surpreendem-me… Ainda não sei se diga que estás certo ou errado, preciso de reflectir… Sempre pensei que essa frase era a mais bela… – Se procuras a mais bela frase de todas as religiões, a mais bela que alguma vez saiu da boca de um homem, não é essa. É outra, mas foi igualmente Jesus que a pronunciou. Ele não foi buscá-la às escrituras, apenas escutou o seu coração. Qual? Eu estava à espera. Maimoun parou por momentos a sua montada para dar solenidade à citação: – Que aquele que nunca pecou atire a primeira pedra!” – páginas 75 e 76

A opinião do blogue “Rascunhos“.

Uma pedra contra o peito – Isabel Pereira Rosa

Uma pedra contra o peito. Só o título! «Uma pedra contra o peito» deixa antever, indica, sugere um problema no peito, certo? «Peito» como o sacrário da centelha divina, o coração sinónimo e reservatório de todos os sentimentos, e não uma pedrada no tórax! Com um calhau… Pois foi o que desvendou a leitura. Com um enlace atual que toca em várias feridas sociais abertas sem nunca as magoar, sugerindo uma atitude que as permite aceitar, para que evoluam do estatuto de «ferida» para «diferença». Não seria mais fácil se todos soubéssemos viver com a nossa singularidade, respeitando a dos outros?

Poesia q.b. não em «quantidades brutas» mas o suficiente para tornar a leitura mais harmoniosa. Uma leitura leve, que fiz lentamente aproveitando até o grafismo do livro, todos os espaços sem letras, convidaram a um momento de respiração. Não é necessário explicar o comprimento das unhas para descrever um passeio de mãos dadas. A velocidade e a qualidade que a Isabel Pereira Rosa permite na leitura, deu-me tempo para imaginar o prazer, o amor presente num simples passeio de mãos dadas, com quem amo, pela natureza, pela Serra da Neve porque não?

Pois, e calhoadas no peito, será poesia ou andaram mesmo por ai à pedrada uns aos outros? Sugiro a leitura.

Memórias de uma professora – Folhas soltasO tesouro da Serra de Montejunto