O Labirinto dos Espíritos – Carlos Ruiz Záfon

“Nada como a química  para dominar a lírica. Mas não se habitue, porque a bebida é como o mata-ratos ou a generosidade: quanto mais se usa menos efeito faz.” – página 18

Após ter lido esta passagem parei logo! Tinha que tomar nota, uma coisa assim tem que ser partilhada. Pensei de mim para comigo. A intensidade de tamanha simplicidade é maior do que o espaço que ocupa no livro.

Outra! ” – Um roteiro é o que as pessoas inventam quando não sabem muito bem para onde vão e desse modo se convencem e a alguns outros patetas que se dirigem para um sítio qualquer.” – página 25

E pronto. Tenho que parar de fazer transcrições senão faço isso mesmo: transcrevo o livro.

Aguentei estoicamente até à página 178, esta sim, já é um vislumbre do que podemos por aqui encontrar: “Em fins do século XIX, uma ilha com a forma de café literário e salão de fantasmas desprendeu-se do mundo. Desde então vagueia congelada no tempo à mercê das correntes da história pelas avenidas de Madrid imaginária, onde se pode encontrá-la encalhada e a ostentar a bandeira do Café Gijón, a poucos passos da Biblioteca Nacional. Ali espera, disposta a salvar do naufrágio quem chega sedento de espírito ou de paladar, como se fosse uma grande ampulheta à deriva onde, pelo preço de um café, o mais incauto pode olhar-se no espelho da memória e acreditar, por um instante, que viverá para sempre.” – página 178

Página 190 mais uma paragem zinha… “Leandro passava os olhos pelas páginas do livro, detendo-se aqui e ali com uma expressão céptica. No fim, devolveu-lho e observou-a. Tinha um olhar jesuítico, daqueles que farejam os pecado antes que se formem no pensamento e administram penitência com um simples pestanejar.” de primeiríssima água.

“Fernandito deixou pender a cabeça, abatido. Enquanto o rapaz combatia as investidas do fatalismo, Fermín sondou o horizonte e avistou um par de enfermeiras de uniforme justo e constituição saudável que se aproximavam pelo corredor. A feliz arquitectura das duas e o menear das ancas ao caminhar despertaram-lhe um comichar na parte baixa da alma. À falta de outro empreendimento de maior envergadura com que ocupar a espera, fez-lhes uma radiografia de perito. Uma delas, com ares de noviça e não mais de dezanove anos no conta-quilómetros, lançou-lhe de passagem um olhar que dizia que semelhante manjar nem em mil anos seria para o dente de um pobretanas como ele e riu. A outra, que parecia mais experiente no trato com o pessoal ocioso que lhe prestava honras, lançou-lhe um olhar reprovador.” – in página 574

“- Não se envergonhe, que a vida é assim mesmo. Aprender a diferençar entre a razão por que fazemos as coisas e a razão por que dizemos fazê-lo é o primeiro passo para nos conhecermos a nós mesmos. E daí a deixar de ser um cretino é um pulo.

– Fala com um livro, Fermín.

– Se os livros falassem não haveria tanto surdo por aí. O que tem de começar a fazer, Fernandito, é evitar que sejam os outros a escrever-lhe o diálogo. Use a cabeça que Deus lhe plantou sobre as cervicais e faça você mesmo o libreto, que a vida está cheia de malandros ávidos de encher a cabeça do respeitável com as parvoíces que lhes convêm para continuarem montados no burro e de cenoura em riste. Compreende o que digo?

– Receio bem que não.” – in página 575

Estou quase a acabar! Só já faltam umas cinquenta páginas! É para saborear devagarinho. Página 797: “Naquele amanhecer o meu pai levou-me pela primeira vez a visitar o Cemitério dos Livros Esquecidos. Corria o Outono de 1966 e uma chuvinha pintara as Ramblas de pequenos charcos que brilhavam à nossa passagem como lágrimas de cobre. A neblina com que tantas vezes havia sonhado acompanhou-nos, mas levantou voo quando metemos pela Calle Arco del Teatro. Abriu-se à nossa frente uma brecha de sombras do meio das quais emergiu, pouco depois, um grande palácio de pedra enegrecida. O meu pai bateu ao portão com uma aldraba em forma de diabrete. Para minha surpresa, quem acudiu a receber-nos não foi outro senão Fermín Romero de Torres, que ao ver-me sorriu com malícia.”

Mas nada vos conto acerca de Alicia Gris. A personagem principal. Até parece que a conheço. Ou melhor, gostava de a conhecer, mas depois lembro-me de que se trata de ficção.

Com um pezinho antes da guerra, para por lá dar uns passitos e os restantes, a caminhada até à contemporaneidade, no pós-guerra em pleno período de ditadura, com polícias politicas, altas individualidades enterradas em… névoa. Um crime, um mistério a resolver, com livros muitos livros à mistura e uma excelente homenagem aos mesmos, que está tão bem elaborada, tão magistralmente concebida que acho que devo ficar preocupado com Carlos Ruiz Zafon.

O jogo do AnjoA sombra do ventoPríncipe de neblinaMarina

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