Monthly Archives: Agosto 2017

A criança no tempo – Ian McEwan

Não vale a pena inventar o que já está inventado. Basta-me citar a contracapa pois a minha opinião é idêntica: «[…] tão engenhosamente concebido quanto lancinantemente realizado.» The New York Times Book Review; «[…] vai ao mais fundo da existência humana.» Chicago Tribune; «Um grande prazer de leitura […] McEwan escreve como se Dickens, Laurence e Woolf corressem no seu sangue […]» The Wall Street Journal.

A narrativa permite ver pelo coração do pai o que é perder uma menina de três aninhos (a menina desaparece num supermercado e desaparecer, não é sinónimo de morrer). Ele continua viver como se ela estivesse viva mas, esse facto só existe na sua cabeça. Assim começa o conflito na cabeça do homem entre recordar, desistir, alimentar memórias ou seguir em frente (como?). A narrativa é repleta de analepses e prolepses, não é linear, de construção complexa pois vai buscar momentos familiares aos seus ascendentes diretos, que acabam por construir melhor o personagem que estamos a seguir; outros momentos da vida profissional antes e depois, tal como na vida de casal, com os amigos e até mesmo na profissional, mas a forma como estão linguados simplifica a leitura. De forma muito simples: está tão bem escrito que parece que Ian McEwan viveu a experiência na primeira pessoa! A dada altura ele vê a filha numa escola do 1ºciclo (já nem sei se se pode dizer primária ou não!) e, sentado perante o diretor, quando o mesmo lhe conta o passado da aluna, o autor conta-nos na perfeição como é que o cérebro do personagem vai deixando de ver o rosto que queira ver, que estava a imaginar e passa a ver algo parecido com a realidade… É de mestre!

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Breve história de quase tudo – Bill Bryson

“Em primeiro lugar, para que o leitor esteja aqui agora, foi preciso que triliões de átomos errantes tenham conseguido juntar-se, numa dança intrincada e misteriosamente coordenada, de forma a criá-lo a si. Trata-se de uma combinação tão única e especializada que nunca foi feita antes, e só vai existir desta vez. Durante muitos anos futuros (esperemos), estas partículas minúsculas irão dedicar-se sem qualquer queixume aos biliões de hábeis e articulados esforços necessários para o manter intacto e deixá-lo desfrutar da experiência supremamente agradável, mas geralmente subestimada, a que chamamos existência.” – página 15

“Tão grandes são as distâncias que, na prática, se torna impossível representar o sistema solar à escala real. Mesmo que juntássemos muitas páginas desdobráveis aos livros escolares, ou usássemos uma longuíssima folha de papel para fazer os mapas, nunca chegaríamos nem perto. Num diagrama do sistema solar à escala, com a Terra reduzida ao tamanho de uma ervilha, Júpiter estaria a mias de 300 metros de distância, e Plutão estaria a 2,5 quilómetros (e teria o tamanho de uma bactéria, de forma que não o conseguíssemos ver). Na mesma escala, a Próxima de Centauro, a estrela mais próxima de nós, estaria a 16 mil quilómetros de distância. Mesmo que encolhêssemos tudo de forma a Júpiter ficar tão pequeno como o ponto final no fim desta frase, e Plutão não fosse maior do que uma molécula, Plutão estaria ainda a mais dez metros de distância.” – página 39

“Quando os céus estão limpos e a Lua não brilha muito, o reverendo Robert Evans, um homem sossegado e bem disposto, coloca um velho telescópio no terraço traseiro da sua casa nas Blue Mountains, na Austrália, e põe-se a fazer uma coisa extraordinária. Põe-se a perscrutar o passado, e encontra estrelas mortas.” – página 43  Robert Evans astronomer

“Mas o acontecimento-chave – o nascimento de uma nova era – deu-se me 1905, quando, numa revista alemã de física chamada Annalen der Physik, apareceu uma série de artigos escritos por um jovem burocrata suíço sem afiliações universitárias ou acesso a qualquer laboratório, e que, como fonte regular de consulta, se limitava a usar o registo nacional de patentes de Berna, onde trabalhava como fiscal técnico de 3ª classe. (O seu pedido de promoção a fiscal de 2ª classe fora recentemente indeferido).

Chamava-se Albert Einstein (…)”

“Por norma, os físicos não prestam lá muita atenção a descobertas feitas por empregados suíços de registos de  patentes, pelo que, apesar da abundância de informações úteis, os artigos de Einstein não atraíram grande interesse. Já que se limitara a resolver vários dos mais profundos mistérios do nosso universo, Einstein candidatou-se a um lugar de leitor na universidade mas foi rejeitado; a seguir tentou ser aceite como professor de liceu, no que teve a mesma sorte. Voltou, portanto, ao seu cargo de fiscal de 3º classe, mas é evidente que continuou a pensar. Estava muito longe de dar por encerradas as suas actividades.” – páginas 129 – 132