No Alentejo, na fronteira da servidão

alentejo“(…) Na parte que calhou a Som Phong há um beliche com duas camas colado a uma parede e um colchão encostado à parede oposta. É difícil imaginar três pessoas de pé ali dentro. Som Phong encontra um saco pequeno com três álbuns de fotografias. (…) O presidente da Câmara Municipal de Odemira, José Alberto Candeias, visita as estufas da empresa de tomate na freguesia da Longueira/Almograve. Aparentemente tudo vai bem nesta sociedade agrícola, que exporta para Espanha e França 80% da produção, mas há um problema que incomoda o diretor: é muito difícil encontrar trabalhadores portugueses que queiram dedicar-se à agricultura. (…) À semelhança do que acontece em outras sociedades agrícolas da região, a solução, segundo Telmo Rodrigues, passa por dar emprego a imigrantes romenos, moldavos e tailandeses. Em breve, a empresa vai acolher um grupo de 20 nepaleses e mais 20 tailandeses, ainda que o diretor não saiba de que forma estes trabalhadores vão chegar a Portugal. “Se calhar são eles que pagam a viagem, não faço ideia”. (…)

“Não gosto quando começam a fazer muitas exigências salariais e de transporte. Quando acham que o salário é pouco…” (…) No caso dos imigrantes romenos e moldavos, que muitas vezes partilham casa em aldeias próximas, é mais fácil assegurar o transporte. Os tailandeses que vivem perto das estufas não precisam de se deslocar. Telmo Rodrigues diz ao Observador que, ao contrário dos outros trabalhadores da sua empresa, os tailandeses escolhem viver perto da quinta, dentro dos contentores. “Preferem viver mais apertadinhos. Estão habituados a viver em comunidade”. (…)

O empresário assegura que os trabalhadores não pagam renda, nem contas. A água canalizada que chega a estes contentores é a mesma que se utiliza na quinta de forma gratuita. Telmo Rodrigues diz que em breve serão instalados contadores de eletricidade para impedir que os trabalhadores ultrapassem um determinado nível de consumo e para prevenir situações de desperdício. “Às vezes estão aí com os radiadores ligados e as janelas abertas…” (…)

Telmo Rodrigues diz ao Observador que tenta não interferir na vida dos tailandeses, ainda que não lhe agrade muito as modificações que estes por vezes fazem, como os telheiros feitos de lona verde que muitas vezes cobrem os contentores ou funcionam como garagens improvisadas para os automóveis. Nas áreas de contentores acumulam-se centenas de garrafões de água e estende-se a roupa para secar. Também há hortas que os tailandeses plantaram e de onde colhem pepinos, ervas aromáticas e piri-piri. (…)

“Quando entram as condições são umas. Quando saem…”, lamenta Telmo Rodrigues ao mostrar alguns contentores vazios que em breve vão servir de casa a novos trabalhadores tailandeses. Na quinta da empresa na Zambujeira do Mar, João Gonçalves hesita em mostrar-nos os contentores porque, diz, “os tailandeses são porcos por natureza”. (…)

Alguns dos colegas de Palmira Encarnação Cruz desistiram passado pouco tempo. “Eram dez horas todos os dias e queriam que trabalhássemos aos sábados. Dentro da estufa faz muito calor. Alguns fartaram-se daquilo”, diz ao Observador. A antiga trabalhadora agrícola diz que o ordenado era baixo para “uma escravidão de tantas horas” e queixa-se que a pausa de 20 minutos durante a manhã “era paga com mais trabalho” porque saíam todos os dias às 19h20. (…) O médico disse-lhe que tinha três hérnias discais e que não podia continuar a trabalhar no campo. Palmira Encarnação Cruz diz que informou Telmo Rodrigues, que lhe disse: “É melhor a gente ficar por aqui… Fica em casa, vai-se tratar e fica assim. Uma vez que possas vir, tens a porta aberta”. (…)

Para além disso, a mãe, empregada de limpeza, trabalha toda a semana e tem um salário de 100 euros. (…)

“Isto para eles é uma maravilha”, diz Telmo Rodrigues, que sabe que alguns dos trabalhadores que tentaram voltar para os países de origem não conseguiram ficar, regressando à empresa. “Às vezes vão embora, mas depois aparecem outra vez. Já se habituaram ao nível de cá”.”

Original por Catarina Fernandes Martins

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