1984 – George Orwell

George-Orwell-1984Do melhor que já li em toda a vida. Contei à minha quase-esposa que já tinha chegado ao fim de mais um livro e ela perguntou-me: – Então e que tal? – a resposta que saiu foi “do melhor que li em toda a vida” e é verdade. Sempre ouvi falar do 1984 mas lê-lo… é outra conversa. George Orwell consegue ficcionar em 1949 “um Estado futuro omnipresente e omnipotente (…) caracterizado pelo exercício do poder como valor absoluto. (…) Não há casa que escape à vigilância do Super-Estado, o Grande Irmão cuja presença chega às actividades mais íntimas do ser humano.” E agora é que é a sério: “O Grande Irmão, esse olho que tudo vê, inspirou o nome de um dos programas que mais êxito teve nos últimos anos dentro do género dos reality shows (…)” .

Assustador a atualidade real desta ficção: “Se alguma esperança havia, tinha que residir nos proles, pois só deles, desse imenso e desprezado formigueiro, 85% da população da Oceânia, podia alguma vez brotar a força para destruir o Partido. O Partido não podia ser derrubado a partir de dentro. Não havia meio de os seus inimigos, se é que os tinha, se reunirem ou se identificarem sequer uns aos outros. (…) Mas os proles, se de algum modo chegassem à consciência da sua própria força, não precisariam conspirar. Bastava-lhes erguerem-se e sacudirem-se como um cavalo sacode as moscas. Se quisessem, podiam reduzir o Partido a coisa nenhuma já amanhã. (…)” – página 79.

Curiosamente hoje, em 2014, está aberta a emigração para o Canadá: “(…) O que interessa é que esses capitalistas, e mais uns tantos advogados e padres e gente assim, que viviam à custa deles, eram os senhores da terra. Tudo existia para uso deles. Vocês, as pessoas vulgares, os trabalhadores, eram escravos deles. Eles podiam fazer de vocês o que bem entendessem. Podiam meter-vos num barco e mandar-vos para o Canadá, como gado. Podiam dormir com as vossas filhas se quisessem. Podiam mandar-vos açoitar. (…)“ – página 99.

Não me tinha lembrado desta, por mais disparates que escreva no blogue, de uma destas ainda não tinha chegado lá; apagar o passado para não haver referências: “(…) Não percebes que o passado, incluindo já o dia de ontem, foi completamente abolido? Se nalgum lado esse passado subsiste, resume-se a meia dúzia de objectos sólidos, desligados das palavras, como aquele bloco de vidro que ali está. Já nada sabemos, literalmente, acerca da Revolução ou dos anos anteriores à Revolução. Todos os documentos foram destruídos ou falsificados, todos os livros reescritos, todos os quadros pintados de novo, todas as ruas, estátuas e edifícios rebaptizados, as datas foram alteradas. E este processo avança, dia após dia, minuto após minuto. A História parou. Nada existe a não ser um presente sem fim em que o Partido tem sempre razão. – página 164.

E depois arranja maneira de um dos personagens explicar a “Teoria e Prática do Colectivismo Oligárquico”: “(…) Passam-se longos períodos em que a classe Alta se julga firme no poder, surgindo logo um momento em que os seus elementos perdem a confiança uns nos outros, ou a capacidade de governar com eficiência, ou ambas as coisas. São então destronados pela classe Média, que, no seu fingimento de estar a empreender a luta pela liberdade e pela justiça, consegue o apoio da Baixa. Mas mal atinge os seus objectivos, a classe Média volta a empurrar a Baixa para a antiga servidão, e converte-se ela própria em Alta. Ao fim de algum tempo, nova classe Média se formou, a partir de um dos outros grupos, ou de ambos, e tudo recomeça. Das três categorias, só a Baixa nunca consegue, ainda que temporariamente, atingir os seus objectivos. Seria exagero dizer que ao longo da História não tenha havido certo progresso material. Mesmo hoje em dia, no actual período de declínio, o ser humano vive, em média, materialmente melhor do que vivia há alguns séculos. Mas nenhum acréscimo de riqueza, nenhum abrandamento dos costumes, nenhuma reforma ou revolução fizeram recuar um milímetro sequer a desigualdade humana. Do ponto de vista da classe Baixa, as mudanças históricas pouco mais representam do que a mudança de nome dos chefes.” – página 210.

Já nem sei o que cite mais, leiam o livro! Descobri um parágrafo que… era quase bom que fosse verdade hoje em dia, e não ficção: “Mas os problemas ligados à perpetuação de uma sociedade hierárquica são mais profundos. Só há quatro maneiras de um grupo dominante perder o poder. Ou vencido do exterior, ou governa de modo tão pouco eficiente que as massas acabam na revolta, ou permite que se forme um classe Média forte e descontente, ou perde a confiança em si próprio e a vontade de governar.” – página 213. Amigo Eric Blair, só acertaste na parte do Big Brother.

Ah! Só mais uma! O Partido limita a forma de pensar, limitando a linguagem. Lembro de, na década de 90, numa aula de Ética, chegarmos à brilhante conclusão que a liberdade só existe no pensamento. Depois daquele esforço todo, a professora destronou o nosso castelo: “Nós pensamos e português, logo somos limitados pelo idioma e pelo quadro cultural.”.

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6 responses to “1984 – George Orwell

  1. há livros assim. não precisam do autor para continuar. precisaram dele para nascer. isso é literatura.

  2. Ainda bem que eu não descontinuei o blogue. Já não escrevo com regularidade certa, apenas de vez em quando publico alguma coisa. Hoje, ao ler o comentário de FranzeEscritor, apercebi-me do quanto ainda estou disposto a aprender. Grande Franz; grande frase, em poucas letras muito conteúdo: “Há livros assim, não precisam do autor para continuar, precisam dele para nascer. Isso é literatura”. Espetacular!

  3. Obrigado. Se puder ser útil fico feliz. E só por isso escrevo. Se te desperto o interesse pela escrita, ainda bem. Abraço

  4. Mais uma vez obrigado pelo comentário. Tenho partilhado com as minhas colegas e a todas a tua frase arranca um sorriso de concordância.

  5. estou surpreendido. É uma frase tão simples. Não imaginava que teria esse efeito. Ainda bem.

  6. A diretora da biblioteca cá da escola; mais uma colega também ela autora; outras duas que são um poço de sabedoria literária; mais duas a quem peço sempre uma sugestão de leitura… muita gente!

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