Notícia de 1ª página / abertura dos telejornais / Prime time

Sem título

Esta notícia é que deveria ser badalada, prioritária em relação ao futebol e outros faits divers que tapam o sol com a peneira: a malta não respeita a sinalização. E, uma notícia destas assusta!

“Um casal (…) caiu de uma arriba (…) e morreu (…)

e os filhos menores terão assistido à queda dos pais.

(…) O local é de “muito difícil acesso (…)”.

Isto é assim: Praia da Nazaré no pontão, está lá a placa a proibir a passagem. Não é um alerta para os perigos, proíbe e pronto. Estávamos lá, eu e a Carla, atrás da linha a fotografar as 27 pessoas que estavam do lado de lá, quando chegou um casal muito jovem, daqueles em idade de escola secundária. Ela ralhou com ele, alertando-o para a proibição. O rapaz queria passar. Foi o único casal, além de nós, que não ultrapassou a faixa de, não é de segurança, é de proibição!

Praia da Nazaré (eu sei, outra vez Praia da Nazaré. É por causa do berbigão n’O Santo) bandeiras todas amarelas, menos uma, a mais próxima do promontório. Fomos até lá. Dois metros após entrada na água, deixa de haver pé. Passei a rebentação para lá, nadei perpendicular à costa o suficiente para me afastar do efeito das ondas, uns dez, quinze metros, e fiquei por ali, agora sim já paralelo à linha da costa. Desafiei a Carla a entrar. Não entrou. Saí, fui até ao pé dela “Nããão! ‘Tás tonto ou o quê? Eu entrar aí? Só se fosse maluca!”. Voltei a entrar. Sozinho não fiquei por lá muito tempo. Tento sair com as cautelas todas mas, já com o pé no chão, viro-me para trás a tempo de entrar na rebentação que estava acontecer mesmo por cima da minha cabeça e… pimba! Ainda mergulhei mas a onda levantou-me e fez comigo um mortal de costas. Eu não sei fazer aquilo sem o mar! A água ao recuar para a onda, deixa a areia a descoberto. Quando aterrei violentamente na areia ainda levei com o peso da água em cima e, finalmente, para descansar um bocadinho, lá fui sendo arrastado junto com as pedras até ficar mais pesado do que a água. A ferida, corrigindo: as feridas que ficaram na canela direita, ainda não estão a cicatrizar. Normal, ainda só passaram trinta horas. Claro que fiquei cheio de areia. Tive de voltar ao mar. Para me lavar, evidentemente! Areia? Até dentro dos ouvidos! Boiar de costas, baixar os calções e limpar aquilo tudo. Sair com o maior dos cuidadinhos… Eu não sou nenhum peixe. Mesmo agora acabei de levar uma sova do Atlântico, não vou levar outra! Duas rebentações seguidas. Mandei uma cabeçada tão grande na areia que, quando fui com a mão ao nariz e senti aquele corrimento todo, pensei que era sangue. “Já ‘tou f*****!” Foi o que me passou pela cabeça. “Isto já pára” – pensava eu referindo-me a mim mesmo – “Já paro de rebolar e isto não há-de ser nada”. O que vale é que o treino já ensinou a manter a calma, controlar a respiração e “quando vier ao de cima, logo se resolve!”. Tenho as escoriações aqui na testa para testemunharem a bandeira verde. Costumo dizer, meio a brincar, meio a falar a sério, que para morrer afogado basta saber nadar. Ou só morre afogado quem sabe nadar. Falem disto aí em casa hoje à noite. Cumpram as regras de segurança. Vive-se mais tempo.

A Carla ainda me perguntou: “Estás a ver alguma mulher na água?”

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