Maria da Graça (no seu 8º Aniversário)

 joão de deus Gostas de contos Maria?…

Pois um te vou eu contar

Que me contaram um dia

E me há-de sempre lembrar:

Houve um tempo uma menina

Dessa idade ou pouco mais

(Chamava-se ela Angelina)

Que era o encanto dos pais.

Os pais eram pobrezinhos,

Não a podiam trazer

Bem vestida, coitadinhos,

Mas que haviam de fazer!

Nem tudo a todos é dado,

E vestir bem, vestir mal…

Andar limpinho, asseado

É o ponto principal!

Ela o cabelo, as orelhas,

O rosto, o pescoço, enfim

As mesmas chitinhas velhas

Cheiravam a alecrim!

Só isto, fosse ela cega,

Lhe dava graça a valer;

Quanto mais sendo tão meiga,

Que mais não podia ser:

As vezes, que não havia

Nem um bocado de pão,

E a pobre mãe não podia

Disfarçar a aflição,

Já ela, toda ansiada

Por ver chorar a mãe,

Principiava, coitada,

Com as lágrimas também:

– Não sei porque se consome

Em não tendo que me dar;

A mim não me custa a fome,

Custa-me vê-la chorar!

E beijando e abraçando

A mãe para a distrair,

Toda trémula, chorando,

Fingia que estava a rir!

Quando chegou à idade

De já dizer tudo bem,

Claro e com facilidade,

A mãe fez o que convém:

Pô-la na escola que a gente

Não é como os animais,

Que vêem unicamente

Com os olhos, nada mais.

Quem teve a grande desgraça

De não aprender a ler,

Sabe só o que se passa

No lugar onde estiver.

Assim como um porco imundo,

Que vê dois palmos do chão:

Do mais que vai pelo mundo,

Nunca pode dar razão.

Pô-la na escola que havia

De uma senhora de bem,

Que ensinava, e recebia

Só dos ricos, mais ninguém.

Lá a levou vestidinha

Pobremente, já se vê,

E toda envergonhadinha,

Talvez sem saber de quê!

A mestra que se a algumas

Tratava com mais amor,

Era as pobres; disse a umas

Das que trajavam melhor:

-“Todas são alunas minhas

Aqui todas são iguais

(E ás vezes as pobrezinhas,

Tendo menos, valem mais…)

Façam lugar as meninas

A esta que agora vem;

Como é das mais pequeninas

No meio, ai, fica bem.

E ela assentou-se no meio

Das tais que por sinal até;

Mostrando certo receio

De se lhes chegar ao pé.

Com efeito era mania

Das tais meninas mofar

De alguma que não podia

Tanta riqueza ostentar.

E mal viram descuidada

A mestra com outras diz

A que era mais estouvada

Zombando da infeliz:

“Quem lhe deu esse vestido?

Isso era da sua mãe?

Porque lhe está tão comprido!

Isso que préstimo tem?”

Diz a outra “Olha esta fita

Do cabelo!…Era melhor

Atá-lo com uma guita…

Já nem se lhe sabe a cor!”

Assim levaram o dia,

A ponto de já as mais

Entravam na zombaria

Que estavam fazendo as tais.

A pobre com a vergonha

Por que a fizeram passar,

À noite deita-se e sonha…

Que havia ela de sonhar?!

Que vê cair uma estrela

Do grande colar de Deus,

Tão brilhante, que só ela

Alumiava esses céus;

E a estrela vinha descendo,

Amparando-se no ar,

Como uma pomba sustendo

As asas para poisar…

E poisou a poucos passos;

E ela, cega de esplendor,

Sente que a tomam nos braços

E a beijam com muito amor:

Beijos como só lhe dera

A própria mãe que a criou;

Mas essa mãe… bem não era…

Quem era?! E nisto acordou.

Abre os olhos, vê na mesa,

Onde a mãe tinha uma cruz,

Oh que enxoval! Que riqueza!

E põe-se: – Jesus! Jesus! –

Acode a mãe e pasmada,

Espantada do que vê,

De mãos postas ajoelhada,

Reza sem saber o quê!

Ergue-se então e desdobra

Uma capa, um xaile, um véu,

Vestidos muitos, de sobra,

E tudo feito no céu…

Daquela seda tão pura

De tão delicada cor

Que a gente vê nessa altura

Onde está Nosso Senhor;

E assim toda entremeada

De estrelinhas tais e quais

As d’uma noite estrelada,

Brilhantes como cristais!

Ao outro dia Angelina

Vai à escola e mal entrou,

Parece que a luz divina

Toda a casa alumiou!

Oh como aquelas vaidosas

Não haviam de ficar…

De vergonha as presunçosas

Nem levantaram o olhar!

Assim é que a providência

Costuma fazer aos vis,

Que levam a insolência

A zombar de um infeliz!

Hoje é dia dos teus anos;

O presente que te dou,

É mostrar-te os desenganos

Que esperam quem se exaltou.

Quisera que toda a vida

Te conservasse o Senhor

Meiga, humilde e condoída

Com a miséria e a dor.

João de Deus

(Portugal 1830-1896)

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