Nem quero crer

image002“HM – Bater com a mão no peito… Creio que no AT não existia uma palavra para traduzir o que nós designamos por “consciência”. Parece que esta pequena e misteriosa palavra foi emergindo gradualmente na história da humanidade. Todavia, o AT já a sugere com uma palavra ainda mais forte “coração”. Se calhar é por isso que, quando dizemos “a minha consciência”, pomos institivamente a mão sobre o coração… Mas dizia que o sentido cristão do exame de consciência não é apenas…

VM – … bater com a mão no peito, ou melhor, no coração. É bom que isto fique claro: o exame de consciência é uma tomada de consciência positiva e proveitosa. Examinar não é só ver os erros para corrigir, mas sobretudo ver o que está bem para agradecer e progredir. Faz-se não para lamentar, mas para poder partir melhorado para o dia seguinte.

HM – Diria que o exame de consciência andou, e anda ainda, excessiva e redutoramente ligado, e até confundido, com a confissão.

VM – Anda muito! E é uma pena que se perca esta práctica do exame de consciência (…) Ora, em primeiro lugar, o exame de consciência não tem que estar ligado necessariamente à confissão: é uma prendizagem com a vida, com a experiência, busca um “saber de experiência feito”! Chega-se ao fim de um dia, de um mês, ou de um ano, e então vamos tirar as lições desse período para poder ver quais são os passos a dar no período seguinte. Isto é que é o exame de consciência! Por isso a primeira coisa é a tomada de consciência. Vamos lá a ver: o que é que se passou, quais são os dados importantes, o que é que esta história me revela? Isto para ver se descubro, na minha experiência de vida, linhas de rumo. E, se for assim, o exame de consciência é uma coisa altamente saudável. Não um momento de negatividade para a pessoa evitar coisas terríveis, com medo de castigos, o que é uma visão pessimista do exame de consciência e não um exercíco de libertação como devia ser.”

Este é um daqueles livros que fui lendo cada capítulo com um certo intervalo de tempo. É preciso “tempo” para digerir esta leitura:

“VM – E por isso temos de corrigir as imagens infantis e míticas para perceber o que está escrito naquele texto, que é um texto metafórico. O diabólico e o demoníaco são, isso sim, todas aquelas realidades que se nos apresentam e fascinam como caminhos de sucesso (e que prescindem de Deus): o dinheiro, o prestígio, o poder. São diabólicos porque se apresentam como “deuses alternativos”, como caminhos de felicidade rápida que me desviam do essencial, da justiça e da verdade, sem ter que passar pela pobreza, a humildade e o serviço.

HM – E se formos à raiz da palavra etimológica “diabólico” vemos que é precisamente tudo aquilo que separa, enquanto que a etimologia do “simbólico” traduz tudo o que une, liga, junta…”

“(…) Já agora, acrescento aqui uma opinião pessoal: acho que se devia dizer “amar o próximo bem como a si mesmo”. É que nós amamo-nos sempre muito mal e o mandato de Jesus no NT é “amai-vos como Eu vos amei” (Jo 15,12). Este é que é o paradigma! (…)”

HM – E, curiosamente nunca houve tanta informação!

VM – Mas há uma informação sem formação, muito anárquica. A “formação” que a TV dá, por exemplo, é a mais anárquica e deformante que pode existir.”

Página 139 /140 – Ainda pensei em escrever acerca do assunto mas a velocidade de pensamento não se compadece com a da escrita e assim, citando o livro, é mais fácil deixar-vos a pensar, como não consigo partilhar pensamentos, e não plagio o autor (nem depaupero o conteúdo!). Ora então: “(…) Era nelas que estava a pensar. E a compreensão da família está hoje posta em causa de propósito, por se pensar que não há talvez razão de ser para que a família seja ainda a célula base da sociedade, embora se repita continuadamente que é. Mas estão-se sempre a apresentar modelos alternativos. E, por outro lado, isso não é novo, foi por várias vezes uma tentação da história marginalizar a família…

HM – Quantas vezes no regimes autoritários se pretendeu que as crianças pertencessem ao Estado, a quem pertencia educá-las.

VM – Claro! E esta tentação de o Estado ser dono da sociedade, e de toda a educação e todo o enquadramento social passar ao lado da família, existiu tanto em regimes de direita como de esquerda. Essa tentação volta agora, mas há outras…”

Só mais uma citação de um dos livros mais esclarecedores/enriquecedores que li:

“VM – E não é verdade? A Igreja voltou a sentir-se “atacada” pelas ideias do evolucionismo, pela velha questão do poligenismo. É pena não as agarrar de frente. Voltaram à tona os fantasmas do Modernismo do princípio do século. Não temos que ter medo, Deus só ganha mais lugar.

HM – Agora há até movimentos ao contrário: criacionismos fundamentalistas…

VM – E estão a aumentar… Importante é ver que os primeiros capítulos do livro Génesis (os textos de Adão e Eva), que misturam literaturas muito ricas de significado, não são “históricos”, nem sequer são textos filosóficos, mas constituem a tentativa de dar, revelar, de uma maneira religiosa, o drama da condição humana. Não são portanto, textos que falam da Criação, mas falam da condição do homem-criatura, dos seus dramas de relação com os outros e com o mundo. Estamos ali todos representados.

HM – Não queria que nos desviássemos, mas parece que estou a escutar ouvintes a dizer: “ó Senhores, digam-me lá, o Adão e a Eva existiram ou não?”.

VM – Adão e Eva existiram, e existem, somos nós! O primeiro homem e a primeira mulher que existiram também viveram essa história de ser Adão (= matéria, húmus, mas “soprado”, posto a respirar, por Deus) e Eva (= mãe, maternidade de vivos, e “costado”, ou coração de amor) e ambos em conflito de relação e de acerto com o Bem. Eles foram “Adão e Eva”, como nós continuamos a sê-lo! O Adão e Eva dos relatos (não históricos) da Bíblia são figuras-tipo, “primigéneas”.

HM – Não são, portanto, figuras históricas, mas literárias.

VM – O que não quer dizer que sejam falsas ou irreais – a condição humana é ser é ser Adão e Eva! Todos os homens e mulheres vivem a seu modo aquelas tensões e questionamentos – Adão e Eva representam-nos.

HM – Em síntese: a fé bíblica não pretende descrever o modo como o mundo começou e se desenvolveu, pretende apenas afirmar que ele é inteiramente dependente de Deus. Logo, a ideia da Criação bíblica não é incompatível com os modelos científicos.”

A minha ousadia já é publicar este excerto. Agora para que eu possa crescer, como em tudo na vida, faltam os outros, os vossos comentários, nem que sejam apenas desse lado do monitor, já são comentários, já é uma atitude de questionar, de crescer. E, estão a ver, não o fizeram sozinhos!

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