Foram muitos os professores que reprovaram

professores“Sim, foram muitos. Em primeiro lugar, todos os que foram à prova: os que foram obrigados a fazê-la, para não ficarem liminarmente excluídos da possibilidade, mesmo que remota, de se empregarem e aqueles que foram vigiar essa prova. E, também, todos nós, professores, que mesmo revoltados, mesmo erguendo a voz, ou então, desalentados e desmoralizados, continuamos a dar aulas, a permitir que a máquina funcione. Todos nós que, por profissionalismo e respeito pelos seres humanos que temos nas nossas mãos, continuamos a alimentar o monstro. No fundo, os professores não são mais do que a triste imagem de toda uma nação, enxovalhada e encolhida.

Olhando para as imagens da televisão vi imagens tristíssimas. Professores a passarem por cima (metafórica e literalmente) de outros professores, para irem vigiar as provas de outros professores, que não as querem fazer. Sou pessoa que prima pelo respeito pelo outro, mas não me peçam que respeite ações ou opiniões que radicam na ignorância, na falta de solidariedade e na covardia. E não encontro qualquer outra razão para que professores tenham acedido a vigiar outros professores, quando sabem, deveriam saber, que os colegas que se sujeitaram a esta prova o fizeram de cabeça baixa, forçados a tal. Hannah Arendt perguntava-se, no julgamento do oficial nazi Adolf Eichmann, por que razão um homem, com todas as capacidades intelectuais, um homem comum, como nós, nunca se tinha rebelado contra a iniquidade que via em seu redor e tinha, candidamente, “cumprido ordens”. A mesma pergunta me fiz eu, quando vi as imagens que passaram na televisão. A banalidade mecânica daqueles professores “vigilantes”…

Os professores contratados que fizeram a “Prova de Avaliação de Competências e Capacidades” vão, certamente, “passar”. Aliás, já “passaram” pela humilhação de uma prova que põe em causa o seu trabalho. Mas há muitos outros professores reprovados: os vigilantes, os correctores a três euros a prova, e todos nós, que continuamos a permitir que, apesar de todos os atropelos, a Escola ainda funcione, com rigor milimétrico. Apesar da desmotivação, do cansaço, da tristeza imensa de tantos bons profissionais, os contratados até cinco anos, os contratados até 20 anos, os do quadro. Somos todos a mesma carne de canhão.

E desenganem-se as más-línguas e a ralé de opinadores, profissionais ou amadores de comentário de rodapé de notícia online: mais uma vez, o problema não é ser “avaliado”, o problema é que esta prova não visa avaliar, mas enxovalhar, visa “dividir para reinar”, política já do tempo da outra senhora, e, como se vê, com sucesso. Qualquer pessoa de boa-fé, informada e que se disponha a reflectir antes de falar, saberá que esta prova nada avalia da competência de um professor e até se torna atentatória quando os professores são avaliados anualmente – esqueceram-se já do filme da Avaliação de Desempenho Docente, que tanto entusiasmou a opinião pública? Essa avaliação é feita com base no desempenho real dos professores, em sala de aula, na dinamização de atividades na escola, no desempenho de diretor de turma, entre outras “funções” que agora lhes são atribuidas. E é, para os professores contratados, uma avaliação anual. Além de que, para acederem ao concurso como professores, estes profissionais já fazem uma profissionalização em serviço (o estágio) ao que se soma a apresentação de um trabalho escrito. O Ministério consegue, assim, não avaliar os professores, mas passar um atestado de menoridade tanto às universidades quanto a si mesmo, pois põe em causa o próprio modelo de avaliação de desempenho que implementou.

Fica claro, claríssimo, que o Ministério de Educação e Ciência não pretende promover a qualidade ou qualquer outro chavão que vai debitando nos discursos televisivos. Pretende, e está a conseguir, desmantelar a Escola Pública, “implodir o Ministério”, implodindo a própria Escola. Todas as ações que tem desenvolvido, com as trapalhadas habituais que, rotineiramente, arrastam as escolas e o brio dos professores pelas parangonas dos jornais, apenas pretendem vir a servir de justificação para a mudança. E os opinadores baterão palmas, alimentados pelo discurso mesquinho das regalias e dos privilégios. E são tão incoerentes, são tão “banais”, que se a cada um lhes fosse perguntado se desejaria que o seu filho seguisse a carreira docente, essa carreira cheia de privilégios e regalias, diriam… que não.

O MEC não só está a destruir a escola do presente, esmagando os professores. Está a destruir a escola do futuro: que bom aluno quererá ser professor? E aí, não haverá Prova de Avaliação de Competências e Capacidade que valha à Educação em Portugal.”

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