O Anjo Branco – José Rodrigues dos Santos

O Anjo Branco é uma narrativa romanceada da nossa história recente. José Rodrigues dos Santos já me habituou com as aventuras de Tomás Noronha, aliás personagem do qual é muito difícil descolar-se e isso é notório neste romance. Na “ilha das trevas” reportou-me para momentos que vivi mas de uma forma pouca mais do que ilusória, pois a guerra era lá distante, O Anjo Branco dá cor às histórias que fui ouvindo com o passar do tempo. O meu pai é veterano de guerra, tenho amigos com esta experiência na primeira pessoa e alguns dos pais dos meus alunos passaram estes horrores. Assim, de romance em romance, lá me vou inteirando acerca da nossa realidade. Com “O sétimo selo”, os problemas do aquecimento global; com “A Fórmula de Deus” uma grande lição sobre a fé.

A técnica é comum a todos, dois momentos distintos no espaço e no tempo que quase que se pode adivinhar quando vão ser unidos, dois grupos de personagens que vão crescendo com o desenrolar da narrativa e as qualidades que vimos os personagens adquirir, são aquelas que no fim do romance acabam por prevalecer. Aquela parte de adivinhar quando é que as personagens de juntam… é uma grande surpresa. Para quem se queixou da falta de sexo na “Fúria Divina”, o problema está…

Página 65: “A novidade colheu o capitão de surpresa. “Para que preciso eu de automóvel com motorista, meu coronel?”(…) “É a dignidade do cargo, meu caro(…)” (…) Sempre achara que um dos problemas do país era a proliferação de pessoas “importantes” e, talvez por partida do destino, esse estatuto questionável era-lhe agora atribuído em todo o seu esplendor(…).”

Página 141: “Um homem bom gosta das pessoas e usa as coisas”, enunciou. “Um homem mau gosta das coisas e usa as pessoas.”

Página 176/9: “(…) Se todos somos igualmente portugueses, por que razão sou apenas o segundo negro moçambicano a tirar um curso superior? (…) Portugal não parece ser um país racista. (…) Mas o racismo existe nos costumes, no tratamento do dia-a-dia e também, de uma forma sub-reptícia, na própria lei. (…) a coisa funciona de outra maneira: faz-se a discriminação racial pela via da discriminação por classes sociais. (…) Qualquer negro pode ter os mesmos direitos de um branco desde que faça prova de que é civilizado. Chamam-se assimilados. Um negro tem de provar que goza de estabilidade económica e de um nível acima da média portuguesa. Tem de viver como um europeu, pagar impostos, cumprir o serviço militar e ler e escrever correctamente o português. Se fizer isto tudo, será classificado como assimilado e terá os mesmo direitos que um branco. (…) Eu tenho vivido na Metrópole (…) tive contacto com a realidade da província. Sabes o que vi? Um país atrasado. As estatísticas mostram que quarenta por cento dos Portugueses são analfabetos e que o nível de vida de que gozam é o mais baixo da Europa. (…) se submeterem os metropolitanos aos critérios civilizacionais que se aplicam em África (…) quase metade dos portugueses não teria sequer direito ao estatuto de assimilado! (…) Os colonos portugueses não têm cultura, não têm instrução e não têm dinheiro (…) Só por milagre um país assim consegue ter uma influência civilizadora sobre quem quer que seja. (…) O problema central é que os negros são discriminados na sua própria terra. Repara: apenas 0,3 por cento da população negra da África portuguesa é considerada assimilada. Os restantes 99,7 por cento são descritos como não-civilizados. Ora o que é que a lei prevê para os não-civilizados?”

Página 229: “Os países africanos estão todos a declarar independência e esse processo é apoiado pelos Americanos. Não vejo porque motivo (…)” – é muito simples! Querem eles ir para lá mamar na vaca.

Página 233: “Pode se um disparate, mas os Americanos dão-lhes razão e os comunistas entregam-lhes armas. E queres saber uma coisa? Até a ONU votou a favor dos terroristas!”

Página 452: “Os milicianos, esses, querem é tratar da vidinha e que ninguém os chatei!… Tome nota do que lhe digo: nesta guerra os comandos, os paras e os GE andam atrás dos turras, os turras andam atrás da tropa e a tropa anda atrás das gajas. É assim que se combate no Ultramar.” – Engraçado, parece que ninguém aprende com a História! Tal como no Iraque e Afeganistão, também aqui o inimigo não se distingue da população, permitam-me a ironia: Porque é que será!? Exploram a casa alheia, sugam tudo o que é possível e depois os inimigos são os residentes! Estranhos, estes americanos.

Página 618 (sim 618 num total de 678): “Caminhando em silêncio no meio do grupo de combate, Diogo não via em seu redor irmãos de armas, mas miúdos a quem a tropa tinha desumanizado e transformado(…)”

O último segredo A mão do diabo Fúria Divina A Filha do Capitão A vida num sopro O sétimo selo A fórmula de Deus O codex 632 A ilha das trevas

O Homem de Constantinopla – Um milionáio em Lisboa – A chave de Salomão – As flores de Lótus

Vaticanum

Anúncios

6 responses to “O Anjo Branco – José Rodrigues dos Santos

  1. Caro Nuno,

    Estou nesta altura a ler “O Anjo Branco”. Não gosto muito de falar dos livros enquanto não os leio até ao fim, mas até agora, é indiscutivelmente um bom livro, contudo confesso que esperava mais.

  2. nunoanjospereira

    Eu também esperava mais, aliás vou mais longe, considero que é explorar um pouco a personagem de Tomás Noronha dos livros anteriores mas, é o que vende, o publico gosta, faça-se-lhe a vontade. Não precisa de ser um livro tão extenso. Eu próprio entro em contradição, confesso que já estou um pouco farto da literatura clássica e às vezes um policial para relaxar sabe bem, nos livros do José Rodrigues dos Santos o que eu acho curioso é o facto de serem uma autêntica reportagem do National Geografic, ou algo do género, transformado num romance. Agora prepara-te porque a coisa para o fim… aquece. O meu próprio pai é um daqueles que tem as cicatrizes dos estilhaços de granadas nas costas; alguns dos pais dos meus alunos sofrem a ressaca desta guerra e eu sempre fui a ainda continuo a ser cada vez mais, e cada vez mais convicto anti-militarista. A mim, ninguém me obriga a dar um tiro a outrém.

  3. Já acabei de ler o livro. Confesso que o livro no fim ganha aquilo que quanto a mim lhe faltava, contemporaneidade. Esta é mais uma obra que defende que não é através da guerra que se consegue ganhar as populações (o Afeganistão e o Iraque também são exemplos disso), também gostei bastante das descrições de descriminação relatadas ao longo da história. Este é mais um livro que vem defender aquela tese de que os livros são para ser lidos até ao fim. Se parece na pagina 250 ficaria com uma imagem bastante diferente da obra. Confesso que gostei bastante de a ter lido.

  4. nunoanjospereira

    Já somos dois!
    E recomendo a leitura, as atrocidades da guerra que nós vimos nas notícias são graves, mas depois o noticiário acaba. As pessoas que eu conheço pessoalmente, vítimas desta guerra, ainda cá estão a sofrer com as consequências da mesma.

  5. Numa altura do livro, JRS diz que os negros tinham menos direitos de que as vacas, é normal que qualquer ser humano se revolte em tais circunstâncias.
    Há quem afirme que o livro tem a lacuna da reconstituição histórica não ser a mais verdadeira. A mim isso pouco importa, a mensagem que fica neste livro é que temos que respeitar os direitos dos outros para podermos viver em paz, além disso, não é através da guerra que se conquista populações. Também nos fala dos massacres que as tropas especiais andam a fazer por todo o mundo. Para mim, apesar da reconstituição histórica ser excelente o livro vale mais por aquilo que mencionei em cima.

  6. nunoanjospereira

    Eu gosto de sentir a leitura, tal como de me rir quando assisto a uma comédia, pouco me importa a verdade histórica, no momento da leitura o que para mim é importante, são os sentimentos que despertam em mim determinadas passagens que o autor escreve. Assim sim, é ser-se um grande escritor que faz o público sentir o que ele diz, visualizar o que ele escreve e se, depois de lido o livro ficamos mais cultos, mais informados, mais conscientes das situações pelas quais passam os outros, tanto melhor.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s