Mario Vargas Llosa – Conversa na Catedral

As personagens vão sendo construídas e junto com elas são narrados os acontecimentos da acção. Em jeito de romance, lá se vai escrevendo umas verdades que tiram da escuridão e ao tentar fazer uma transferência de conceitos para a realidade actual, meio século depois, interrogo-me sobre, e isto após ter lido sobre a invasão da República Checa pelos Russos (Insustentável leveza do ser), sendo agora a vez do Peru a ser alvo de um revolução, se nós nos dias de hoje não deveríamos também começar a instar já uma revolução, não de regime mas de valores? Leitura algo complicada e difícil, o enredo não é linear, ao desenrolar da leitura do parágrafo é que nos vamos apercebendo qual o momento da história que está a ser narrado. É mais uma crítica detalhada e algo confusa da actualidade em determinado momento. Eu, infelizmente pois teria enriquecido a minha interpretação, não estou familiarizado com a situação no Peru, pouco sei além do que passa nas notícias.

“Teria sido nesse primeiro ano, ao ver que San Marcos era um bordel não o paraíso que julgavas? De que é que não tinham gostado, menino? Não era de as aulas começarem em Junho em vez de Abril, nem de os catedráticos serem decrépitos como as carteiras, mas sim do fastio dos seus colegas quando se falava de livros, da indolência dos seus olhos quando de política. Os mestiços pareciam-se terrivelmente com os meninos bem, Ambrósio. Os professores deviam receber ordenados miseráveis, deviam trabalhar me ministérios, deviam dar aulas em colégios, não se lhes podia exigir mais. Era preciso compreender a apatia dos estudantes, dizia Jacobo, o sistema formou-os assim: precisavam de ser agitados, doutrinados, organizados. Mas onde estavam os comunistas, onde estavam ainda que fosse os apristas? Todos presos, todos deportados? Eram críticas retrospectivas, Ambrósio, nessa altura não se Apercebia e gostava de San Marcos. Que seria do catedrático que num ano glosou dois capítulos da «Síntese de Investigações Lógicas» publicada pela Revista de Occidente? Suspender fenomenologicamente o problema da raiva, pôr entre parêntesis, diria Husserl, a grave situação criada pelos cães de lima: que cara faria o director? Que seria daquele que só fazia provas de ortografia? Que seria do que perguntou no exame erros de Freud?” – página 75.

“- A sabedoria das mulheres – disse Carlitos. – Se a Ana o tivesse pensado, não lhe teria saído tão bem. Mas não pensou, as mulheres nunca premeditam essas coisas. Deixam-se guiar pelo instinto e nunca falham, Zavalita.” – página 401.

Vários romances num só: CONVERSA NA CATEDRAL       Não tem jeito, mesmo, é preciso mais que 24 horas para ser leitor e viver os compromissos do dia a dia, por isso prorroguei o LEITURA DA SEMANA de CONVERSA NA CATEDRAL. Já reli 3/4 do romance, no entanto hoje acrescentarei apenas uma resenha-homenagem publicada em “A Tribuna” em 11 de agosto de 2009:        O MEIO SÉCULO DA CARREIRA DE VARGAS LLOSA                                     E SEU PONTO ALTO Este ano, o peruano Mario Vargas Llosa ( … Read More

via MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

6 responses to “Mario Vargas Llosa – Conversa na Catedral

  1. Tive a sorte de conhecer a obra desse senhor muito antes de se tornar Prémio Nobel, e de possuir grande parte dela. É que o preço dos livros de um autor, aumenta exponencialmente quando este vence um qualquer prémio internacional.

  2. nunoanjospereira

    Eu, por ter lido apenas um livro, e confesso que foi porque está na moda, logo a minha opinião é muito pobre, recorri ao blog do Alfredo Monte, que também postou antes da atribuição do prémio. Vá lá ler!

  3. Estou a ler A Tia Julia e o Escrevedor e confesso que estou a gostar muito. É mais um livro em que muito do que é questiona está nas “entrelinhas”. Tambem pouco sei da situação do Peru, mas para perceber a obra que estou a ler, pelo menos até agora, pouca diferença faz…

  4. nunoanjospereira

    Mais uma vez obrigado pela dica. Acabei de ler Murakami e comecei Jennifer Lee Carrel, mas estou curioso em ler algo mais simples de Vargas Llosa. Segui e tua sugestão e já folhei o livro, pareceu-me diferente do clássico comentário social e crítica política à época.

  5. Caro Nuno,
    Este ano, por passar o ano em casa de um familiar da minha namorada fui “obrigado” a ver o final da casa dos segredos. Confesso que ao ver o programa lembrei-me muitas vezes do livro de Mário Vargas Llossa, A Tia Júlia e o Escrevedor que tinha acabado de ler nos ultimos dias do ano.
    No livro, Pedro Camacho, o escrevedor, começou a perder a memória, por isso, trocava as personagens de um folhetim para outro, os donos da rádio, os empresários progressistas, (era o nome que Mário Vargas Llosa os chamava) vendo as audiências subirem não deram descanso o Boliviano. Camacho acaba mais tarde por ser internado num hospital para recuperar da doença. Vinte anos depois de ser uma das maiores estrelas no Peru, Pedro Camacho acaba a ser um simples informador de um jornal, e o que ganha mal dá para comer.
    Mário Vargas Llosa não critica Pedro Camacho mas sim os empresários progressistas, pois o Boliviano é vítima de um sistema que vendo lucro não olha a meios para os alcançar (as novelas de Pedro Camacho nunca pararam e este trabalhava de dia e de noite para as escrever), também critica duramente o publico que vendo personagem saltarem de um folhetim para o outro passaram a gostar ainda mais das novelas.
    Pois bem, com a casa dos segredos aconteceu um pouco como nesta novela do Premio Nobel de 2010. Havia umas personagens que davam espectáculo, (os concorrentes) havia os empresários progressistas que apenas o que lhes interessa é as audiências, mesmo que isso significasse má programação no ar (neste caso a TVI) e claro está, não podia faltar o publico miserável que gosta de ver as desgraças alheias.

    P.S. Se ler o livro vai ver que vai ver genialidade na troca de personagens, mas isso sabemos, nos leitores, que não se deveu a genialidade de Pedro Camacho, mas sim a profundidade que Mário Vargas Llossa dá as suas personagens. É que hoje podemos ser uma das pessoas mais respeitadas do país mas amanhã não sabemos o que somos.

  6. nunoanjospereira

    É mesmo isso que eu gosto na “grande literatura clássica”, a capacidade de a transpor para a realidade actual. Fascina-me como é que um escritor, não será um simples escritor mas alguém com um talento extraordinário de ver a realidade e conseguir comentar e criticá-la de forma mais ou menos dissimulada num romance. Caberá ao leitor fazer essa translocação conceptual para a realidade, que é o caso do que o Tiago nos diz. É a segunda sugestão tua que está na minha lista de leitura, obrigado. Dos génios mais espectaculares a fazerem isso, saliento Dostoievski, “Os irmãos Karamazov” é a minha obra de eleição, escrito numa época em que ainda não tinha sido inventada a máquina de escrever. “O jogador” foi ditado por ele em 26 dias.
    Engraçada esta coisa dos blogues! No Natal, também jantei com familiares e quando me apercebo da televisão ligada e dos comentários dos presentes, apercebi-me que estávamos a ver a tal casa dos segredos, que eu ainda nunca tinha visto. Entre os comentários dos convivas alguém disse que “aquela” era acompanhante de luxo. Fiquei tão curioso que perguntei se a gaja era puta, disseram que não, que era acompanhante de luxo, respondi que se ela tinha sexo a troco de dinheiro é puta. Disseram que a mãe dela estava presente mas não o pai, não consegui conter o riso e disse que, se eu tivesse uma filha que fosse para a televisão assumir-se como puta, eu também não daria a cara. Não fiquei por ali e alvitrei que se “aquilo” é o nosso programa de natal, da nossa gente, então estamos muito mal. Resultou! Fiquei atrapalhado mas mudaram de canal. Ainda mais constrangido fiquei mas entretanto a conversa mudou de rumo e a televisão passou para segundo plano.
    Um bom ano novo para vocês.

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