Crime e castigo – Fiodor Dostoiévski

Durante a leitura do livro questionei-me várias vezes sobre o que escrever no blogue. O personagem é intensamente real, toda a conjectura social é assustadoramente actual. Voltar a ler um livro depois deste, com esta qualidade, vai ser difícil. Acho que li esta obra duas ou três vezes. Pois relia algumas passagens. A maneira como o personagem reage às situações sociais, dizendo uma coisa, tendo uma atitude mas pensando outra; o crime, as circunstâncias que levam ao mesmo, é de génio! Dos melhores livros que li nos últimos anos. Dostoiévski tem ao seu lado direito Gabriel Garcia Marquez e à esquerda Oran Pamuk. Eu não atribuo estrela aos livros, neste caso abro uma excepção para o coroar com seis. Não consultei na net mais opiniões porque a contra capa, escrita pela editora diz tudo: “Com Crime e Castigo, a Editorial Presença inaugura a publicação da obra de um dos maiores escritores de sempre, numa nova e criteriosa tradução, deita directamente a partir do russo. Datado de 1866, este é o primeiro dos grandes romances que Dostoiévski escreveu já na plena maturidade literária, e, provavelmente, a mais bem conhecida de todas as suas obras. Recriando um estranho e doloroso mundo em torno da figura do estudante Raskólnikov, perturbado pelas privações e duras condições de vida, é uma das obras por excelência fundadoras da modernidade. Pelo inexcedível alcance e profundidade psicológica, sobretudo no que implica a exploração das motivações não conscientes e a aparente irracionalidade nos comportamentos das personagens, este autor russo tornou-se uma referência universal na literatura, sem perda de continuidade até aos nossos dias. Esta nova versão em língua portuguesa das obras de Dostoiévski, cuja qualidade permite ao leitor fruir plenamente da extraordinária riqueza dos textos originais, é da responsabilidade de Nina Guerra e Filipe Guerra.”

– Atenção! Vamos ler esta passagem novamente: “Datado de 1866” – fantástica obra literária intemporal, leiam este exemplo transcrito da página 146: “E se no caso presente esta velha foi assassinada por alguém das classes mais altas, visto que os mujiques não empenharem coisas de ouro nos agiotas, como vamos explicar este desregramento da parte civilizada da nossa sociedade?

– Há muitas mudanças económicas… – replicou Zóssimov.

– Como explicar? – Razumíkhin aferrou-se à pergunta. – Precisamente pela falta enraizada de espírito prático.

– Como pode ser?

– Que resposta deu esse conferencista de Moscovo quando lhe perguntaram por que falsificara obrigações? Disse: «Toda a gente enriquece de uma maneira ou de outra, pois eu também quis enriquecer o mais depressa possível.» Não me lembro das palavras exactas, mas o sentido era este: gratuitamente, mais depressa, sem trabalhar! Habituaram-se a viver com casa, comida e roupa lavada, a ser levados pela mão, a engolir tudo já mastigado. Depois, na hora da verdade, cada qual mostra aquilo que é… “

242: “(…) a propósito de tudo e de nada dizem que «a culpa é do ambiente social» e de mais nada! É a frase preferida deles! E a partir daí concluem que, com uma organização normal da sociedade, todos os crimes desaparecerão de vez, porque já não haverá motivos para protestar e toda a gente se tornará justa num instante. A natureza não é tomada em conta, a natureza é excluída, a natureza fica sem razão de ser! Para eles, não é a humanidade que, no seu desenvolvimento histórico e natural, até ao fim, se transformará, numa sociedade normal, mas o contrário: o sistema social, saído dalguma cabeça matemática, é que organizará como é devido toda a humanidade e, num ápice, a tornará justa e inocente, sem qualquer processo vivo prévio, sem passar pelo caminho histórico e vivo. (…)”

Página 392: “(…) E agora sei, Sónia, que quem for forte de espírito e de mente será soberano dos homens! Para eles, quem muito ousar terá razão! Quem menos escrúpulos tiver, será o legislador deles! Quem ousar mais do que os outros, terá ainda mais razão! Sempre foi assim e sempre assim será! Só um cego o não vê!

Raskólnikov falava e, embora olhasse para Sónia, já não se preocupava se ela percebia ou não. Vogava numa espécie de êxtase sombrio. (De facto, havia muito que não falava com ninguém.) Sónia percebeu que esta catequese tenebrosa se tornara a fé e a lei dele.

– Descobri então, Sónia – continuou com entusiasmo -, que o poder apenas é dado àquele que ousar inclinar-se e apanhá-lo. (…)” – escrito em 1866.

Página 489: “ – Todos derramam sangue – replicou Raskólnikov quase em frenesi – , o sangue corre e sempre correu no mundo em catadupas, todos o vertem como champanhe e são por isso coroados no Capitólio e denominados depois benfeitores da humanidade. Olha melhor e vê!”

Um livro de compra obrigatória.

Um livro para ler devagarinho…

Os irmãos Karamázov

3 responses to “Crime e castigo – Fiodor Dostoiévski

  1. fernanda pedroso

    “…Toda a gente enriquece de uma maneira ou de outra, pois eu também quis enriquecer o mais depressa possível…”

    Esta passagem, que o Nuno descreve no livro ” Crime e Castigo”, levou-me de imediato a uma noticia que li no jornal, ouvi no telejornal, que aí sim, percebi que tinha entendido bem… (está abaixo), que me deixou sem palavras…
    Não vou dizer qual foi a passagem, vou deixar esse exercicio para ser feito por… alguém que o queira abraçar… mas depois coma doces (LOL), parece que é a solução…
    Tdo Bom e Bom domingo!
    FPedroso

    http://www.agenciafinanceira.iol.pt/dinheiro/dinheiro-apoios-familias-agencia-financeira-crise-governo/1170635-3851.html

  2. nunoanjospereira

    (dá-me vontade de começar a escrever assim: Ó Fernanda, mas não o posso fazer) Eu conheço, pessoalmente, casos de casais que tem um rendimento em subsidios superior ao que eu e a minha quase-esposa auferimos mensalmente!

  3. nunoanjospereira

    Quando fiz a análise criteriosa da atribuição de banco alimentar, eu e a colega com quem colaborava, inventamos um critério que não estava especificado nas directrizes: todos os que pediam “banco” tinham que ser mais pobres do que nós os dois!

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