Os irmãos Karamázov – Fiódor Dostoiévski

Precisei de duas semanas para conseguir ler “Os irmãos Karamázov”. Esperei até ter tempo para consultar o que se diz por aí na net, a respeito deste livro, desisti. É simplesmente uma das maiores e mais espectaculares obras de arte que li até hoje. Vou escrever como me fez sentir: como é que um livro escrito à 130 anos atrás me fez reflectir tanto, não sobre a realidade actual, mas sobre mim próprio?! As questões que os personagens debatem, digladiam, entre eles, com as quais eu me identifico, incrível! Diz na contra-capa: “(…) Os Irmãos Karamázov é indiscutivelmente uma das mais lidas e mais admiradas criações literárias de todos os tempos. Analista de eleição das contradições e das estranhezas do comportamento humano (…) o alcance da filosofia subjacente a este enredo, em torno das complexas relações entre os Karamázov, vai muito além. Dostoiévski debate e uma forma sublime o problema do bem e do mal, a abjecção da natureza humana e do que a redime, das contradições entre racionalidade, sentimento e intuição, entre amor e ódio, assim como, em contraponto, a questão da liberdade e da dignidade humanas.” e não é preciso acrescentar mais nada.

Este excerto do romance permite parar e reflectir um pouco sobre o propósito da vida: “O mundo proclamou a liberdade, especialmente nos últimos tempos, e o que vemos na liberdade deles? Só escravidão e suicídio! Porque o mundo diz: «Tens necessidades, portanto satisfá-las, porque tens os mesmo direitos que as pessoas mais nobres e ricas. Não temas satisfazê-las mas, inclusive, multiplica-as» – eis a doutrina actual do mundo. É nisso que eles vêem a liberdade. Então, o que resulta deste direito à multiplicação das necessidades? Entre os ricos, o isolamento e o suicídio espiritual, entre os pobres a inveja e o homicídio, porque os direitos foram dados, mas não foram indicados ainda os meios para satisfazê-los. Afirmam que o mundo fica cada vez mais unido, entra no convívio fraternal mediante a redução das distâncias, transmite ideias pelo ar. Infelizmente, não podemos acreditar nesta união das pessoas. Entendo a liberdade como a multiplicação e a rápida satisfação das necessidades, deformam a sua natureza, porque geram em si muitos desejos, hábitos e invenções absurdos e estúpidos. Vivem apenas para ter inveja uns dos outros, para a intemperança e para a arrogância. Ter banquetes, carruagens, graduações e criados-escravos é considerado já uma necessidade tal que, por ela, sacrificam a própria vida, a honra e o humanismo, por ela matam-se a si mesmos caso não possam satisfazê-la. Vemos o mesmo entre pessoas de poucos haveres e, entre os pobres, a falta da satisfação das necessidades e a inveja são por enquanto abafadas com a bebedeira. Mas não tarda que, em vez de vinho, derramarão rios de sangue: a isso são levados. Pergunto-vos: será livre um homem assim?”- Vol. I pág. 377

“Exibem-se. «E vais então expor essas tuas ideias na secção de crítica?», pergunto-lhe eu. «Ora bem, eles não vão deixar-me fazê-lo abertamente», ri-se ele. «Mas estão, como é que o homem vai viver?», pergunto-lhe eu, «sem Deus e sem vida eterna? Nesse caso, tudo será permitido, não é?» «E não sabias disso?», diz ele. E ri-se: «A um homem inteligente tudo é permitido; um homem inteligente sabe apanhar lagostas, não é como tu, que mataste e foste apanhado; e apodreces na prisão!» Foi a mim que ele o disse! Porco! Dantes, eu escorraçava indivíduos assim, mas agora ouço-o. Porque ele também diz muita coisa razoável. Também tem jeito para escrever. (…)” – Vol. II pág. 309

Existe um momento certo para ler este livro, um timing que cada um descobrirá em si.

Uma obra divida em dois volumes, 1ª e 2ª partes, 389 páginas e 3º, 4º partes e Epílogo, em 525 páginas. Só o epílogo dava um livro!

Fiquei a saber que existe o “Grande Prémio de Tradução Literária APT/Pen Clube” porque foi atribuído a Nina Guerra e Filipe Guerra pelo excelente trabalho de tradução, feito directamente a partir do russo. Parabéns.

Crime e castigo

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