A máquina de fazer espanhóis – Walter Hugo Mãe

“íamos ser todos dignos da cabeça aos pés. tínhamos ainda palavra de honra. que coisa tão estranha essa da palavra de honra, e todos estremeciam, porque se manifestava o mais sagrado que se podia ser. ninguém duvidava de tal verdade nem menos gozava.” – página 97

“já ouviu um discurso dele como deve ser, ó senhor silva. parece missa. só não nos põe a rezar porque a ele lhe interessa pôr a pata em cima da igreja também. é um génio, e os padres, desde que fiquem nos poleiros garantidos para engordarem, estão sempre felizes. que melhor discurso pode haver para os padres do que a promoção da beleza de se ser pobrezinho. é um casamento perfeito. o político que gosta dos pobrezinhos, com a igreja que gosta dos pobrezinhos e os mantém pobrezinhos. mas, quer o político, quer a igreja, dominam ou podem dominar o fausto. não é brilhante. isto inventado seria mentira. ninguém teria cabeça para inventar tal porcaria, só sendo verdade mesmo.” – página 159/160

“mas não é possível deixar de ter conversas comunistas enquanto não se largar a merda das ideias do capitalismo de circo que está montado. um capitalismo de especulação no qual o trabalho não corresponde a riqueza e já nem a mérito, apenas a um fardo do qual há quem não se consiga livrar, em que podemos ter esperança. por mais que amemos os portugueses que estão lá fora, o que vai ser de nós se eles voltam para reclamar um emprego nacional.” – página 182

É notória a graxa a José Saramago. O livro tem um excelente título. É de génio! Todos nós já ouvimos dizer que “de Espanha nem bom vento…” pelo menos aqueles que já ganham dinheiro para comprar livros, lembrar-se-ão por certo de já ter ouvido “isso” em qualquer lado! Fiquei mesmo muito curioso com o título, já li o “O Apocalipse dos trabalhadores” e gostei, o facto de ir a passar na feira do livro e ver ali sentado, sozinho, o Walter Hugo Mãe, não deixei passar a oportunidade de dar dois dedos de conversa e ficar com o livro autografado. Acho piada a estas coisas. Li o livro de um dia para o outro. Ainda estou à espera da parte que faça jus ao título. Que desperdício de título. Que título tão bom para um conteúdo destes…  Todo o ambiente envolvente do livro colabora para criar expectativa: ter sido escrito por Walter Hugo Mãe; ele ter estado em retiro para escrever o livro; o que já escreveu anteriormente; o estar na moda, a abertura das notícias na primeira noite de feira foi com a banca de “A máquina de fazer espanhóis”; a dedicatória que faz ao falecido pai; provam que a máquina de markting funciona. Este livro foi um fazer render o peixe, pelo que já li dele, sei que de futuro virá melhor do que um livro que recomendo à juventude que anda a tirar aqueles cursos de animação cultural, todos contentes a pensar que vão animar muuuuito os lares de terceira idade, por as velhinhas a participar em feiras de artesanato de tricôt e os velhotes em exacerbados campeonatos de sueca e dominó. Quando lerem a verdade sobre o que efectivamente pensam pessoas com mais de oitenta anos que namoram com a morte, no seu dia-a-dia, então nesse dia, através da leitura deste livro, são efectivamente elucidados sobre o que os espera: a verdade nua, crua e velha, quase a acabar, pois todos os dias se vê ir morar para o jardim das tabuletas o companheiro de quarto, todos os dias se vê que um homem só é velho quando perde a capacidade de amar, mas que o seu amor é platónico e mais rápido que uma banca dessas comidas modernas feitas lá na América, aquilo não tem sabor nenhum, não presta para nada, só faz é mal e um gajo fica com fome. Para não falar no desperdício de papel. Bom, mantenho a minha: é um desperdício de título, está a engraxar José Saramago, está a fazer render o peixe e foi espectacular conhecer o autor.

o apocalipse dos trabalhadores

11 responses to “A máquina de fazer espanhóis – Walter Hugo Mãe

  1. Caro Nuno.

    Não concordo consigo. O título é magnífico. Este título faz-me lembrar “O Estrangeiro” de Camus, na altura a personagem era um estrangeiro no meio de toda a história. Para mim, o autor, com o título afirma que os lares são máquinas de fazer espanhóis, ou seja, estrangeiros, pessoas que vivem numa outra realidade daquela que as pessoas que habitam esse mesmo país estão habituadas. Basta olhar para o comportamento da filha. Relativamente a Saramago, sim, por vezes, julguei estar a ler Saramago pelas afirmações que o livro tem.

  2. nunoanjospereira

    Não vi isso. Tenho que ler o livro outra vez. Ou porque o li demasiado depressa, ou com outra expectativa que me toldou a interpretação, mas o facto é que o seu comentário me fez pensar mais um pouquinho e agora que reflecti mais a frio, concordo consigo.
    Li o “Ensaio sobre a cegueira” no final da década de 90. A dica que a Mafalda me deu, em amena cavaqueira, “as coisas que as pessoas são capazes de fazer, com a simples desculpa de que ninguém está a ver” serviu-me de bitola durante a leitura.
    “O Estrangeiro” de Camus, hoje em dia, seria um extra-terrestre, alguém que não mente, ou que ouse dizer apenas a verdade, até já em ficção parece inacreditável.

  3. Não li o Ensaio sobre a Cegueira”, mas li outros, e em “Intermitências da Morte”, Saramago refere-se aos lares com “o sítio do feliz acaso”. Valter Hugo Mãe nesta obra vai mais longe ao demonstrar a realidade dos “felizes idades”. Relativamente a Camus, não sei se ele era hoje um extraterrestre,ou se todos nós somos estrangeiros para nós proprios.

  4. nunoanjospereira

    E eu ainda não li as “Intermitências”! Vou tentar.
    Epá! Estrangeiro para comigo? Não pode ser. Se existe alguém a quem eu não devo mentir e ser, não o mais possível, mas sim rigorosamente honesto, é para comigo. O dia que eu começar a viver um homem que não sou, a tentar ser aquele que agrada aos outros em detrimento de si próprio, vocês por favor, ajudem-me!
    Por acaso é também isso que me atrai na boa literatura. As verdades que certos personagens conseguem viver, as bocas à falsidade humana e o retrato de uma sociedade como ela é e que ninguém quer ver.

  5. Caro Nuno

    Não falo em termos indivíduias porque “O Estrangeiro”, tal como “A Maquina de Fazer Espanhóis” são livros que questionam uma sociedade e o seu comportamento. Repara numa coisa, quantas centenas de anti-depresivos são vendidos por dia no Ocidente. Numa sociedade em que existe 10% de desemprego será que as pessoas fazem aquilo que querem ou muitas vezes fazem teatro. E os que tem emprego, para os manter quantas fazer não assumem aquilo que pensam. O dramático de tudo isto, é que com o tempo muitos julgam esses comportamentos normais, ou seja, são estrangeiros para eles mesmos pois a sociedade moldou-os a terem um determinado comportamento. Com isso somos cada vez mais infelizes (continuo a falar como sociedade) e perdemos uma das principais características da personagem em “O Estrangeiro”, perdemos a lucidez implacável.

  6. nunoanjospereira

    Li recentemente “Os irmãos Karamázov” e “O Jogador” de Dostoiévski”; ainda não concluí “O Crime e Castigo”, após ler um autor desta envergadura, que retrata os meados do século XIX na Rússia, como hoje qualquer reportagem televisiva faria acerca da nossa sociedade. Neste ambiente literário que por altura das férias de Verão, vai na minha cabeça, “A máquina de fazer espanhóis”, não chega lá, não consegui ler de forma tão abrangente. É um livro, que pela tua recomendação, fica em lista de espera para que eu faça uma segunda leitura.

  7. nunoanjospereira

    “Terra onde fores ter, faz como vês fazer.”; é um ditado popular que sempre me assustou. Eu mudo de local de trabalho todos os anos e “Em Roma sê romano” é uma verdade assustadora. Mas estes ditados populares são efectivamente “trocos” quando comparado com um chefe que diz que “aqui quem manda sou eu!”; “Ou fazes à minha maneira…”; e infelizmente é verdade, são muito poucas as pessoas que chegam ao fim de um dia de trabalho e não contabilizaram as horas.

  8. Para mim, o livro devolveu-me o sentido da saudade. na página 91.
    Amei.

  9. nunoanjospereira

    “(…) como se se tivessem esquecido de a cobrir com a terra. porque a sua morte me aterroriza. não passa, américo, não passa. a morte dela não passa. o américo esperou uns segundos por que me acalmasse, procurou um silêncio limpo como uma folha muito limpa onde pudesse escrever uma frase mais digna e disse, um dia essa saudade vai ser benigna. a lembrança da sua esposa vai trazer-lhe um sorriso aos lábios porque é isso que a saudade faz, constrói uma memória que nós nos orgulhamos de guardar, como um troféu de vida. um dia, senhor silva, a sua esposa vai ser uma memória que já não dói e que lhe traz apenas felicidade. a felicidade de ter partilhado consigo um amor incrível que não pode mais fazê-lo sofrer, apenas levá-lo à glória de o ter vivido, de o ter merecido. tenho até inveja de si, senhor silva, porque eu tenho trinta e um anos e estou por aqui solteiro, já não vou a tempo de ter cinquenta anos de uma grande paixão.
    esse era o segredo que só o tempo guardava. Só o tempo revelaria tal milagre. o tempo, e a sensibilidade de quem via o tempo diante dos olhos a acabar-se cada dia.”
    – página 91 e três palavrinhas da 90.
    Realmente, lido assim, descontextualizado, solto, é que me permitiu ver a beleza das palavras, a profundidade do que eu penso que possa ser real no que acabei de ler. Dava não um, mas dois excelentes poemas para musicar.

  10. Pelo andamento dos comentários sou a única que não gosto.
    Cansa-me o tipo de escrita, as famosas palavras que apenas podem ser minúsculas pela sua igual importância. Dou por mim a tentar descobrir quem está a falar e não gosto de ler conversas se sou no final sei quem as está a ter. E não gosto do tema, mas isso são gostos.
    Pelo que li, e não li o livro todo, valter hugo mãe tem um vocabulário riquissimo e apresenta muito bem, acho eu que não gostei, o que é a verdade dos lares da terceira idade contada por um idoso. Gosto imenso de José Saramago, mas não consigo gostar da mesma forma de valter hugo mãe. Deve haver “muita graxa”, como foi dito, mas não chega, falta-lhe o resto…

  11. nunoanjospereira

    Exprimente “O apocaplipse dos trabalhadores”…
    Afinal já não sou o único que não gosto. Tive o prazer de travar dois dedos de conversa com o Walter Hugo Mãe e é uma daquelas pessoas com a qual gostaria de ter o prazer de conversar mais vezes.

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