A Sombra do Vento – Carlos Ruiz Záfon

“Uma imagem vale mais do que mil palavras”. A imagem da capa deste livro, introduz o que vai lá dentro, milhares de palavras depois, voltamos à mesma imagem e olhamos para ela com os mesmos olhos mas, desta feita marejados pelas lágrimas e encolhidos pelas rugas do sorriso.

“Ainda me lembro daquele amanhecer em que o meu pai me levou pela primeira vez a visitar o Cemitério dos Livros Esquecidos. Desafiavam-se os primeiros dias do Verão de 1945 e caminhávamos pelas ruas de uma Barcelona apanhada sob céus de cinza e um sol de vapor que se derrama sobre a Rambla de Santa Mónica numa grinalda de cobre líquido.

– Não podes contar a ninguém aquilo que vais ver hoje, Daniel – advertiu o meu pai. – Nem ao teu amigo Tomás. A ninguém.

– Nem sequer à mamã? – inquiri eu, a meia-voz.

O meu pai suspirou, amparado naquele sorriso triste que o perseguia como uma sombra pela vida.

– Claro que sim – respondeu, cabisbaixo. – Para ela não temos segredos. A ela podes contar tudo.

Pouco depois da guerra civil, um surto de cólera tinha levado a minha mãe. (…)”

Eu gosto muito daquela literatura onde o autor conta um romance entre A e B, ao qual passando dois ou três capítulos de apresentação dos personagens e situações, me é dado a questionar se o respectivo autor diz o que quer dizer, ou se deva estabelecer o paralelismo com as diversas realidades sociais, que vou interpretando a meu belo prazer. Afinal o que ele, ou ela, escreve é uma coisa, o que quer dizer é outra e a carapuça serve aqui numa situação que eu estou a pensar. Esse tipo de literatura, para mim é de génio! Vale a pena comprar com uma boa encadernação. Depois há aquele tipo de literatura que até dá origem a uns filmes fixes. Carlos Ruiz Zafón escreveu um livro para românticos, perdão para os muitos românticos; para quem gosta de livros e de histórias de livros; para quem lê devagar; eu nem sei o que diga! Por isso é que este post tem música, particularmente esta: para me ajudar a passar a mensagem do prazer de leitura desta obra de arte:

“A Sombra do Vento”.

“Um manto de nuvens faiscando electricidade cavalgava do lado do mar. Teria largado a correr para me refugiar do aguaceiro que se avizinhava, mas as palavras daquele indivíduo começavam a fazer o seu efeito. Tremiam-me as mãos e as ideias. Levantei o olhar e vi o temporal derramar-se como manchas de sangue negro entre as nuvens, cegando a lua e estendendo um manto de travas sobre os telhados e as fachadas da cidade. Tentei apertar o passo, mas a inquietude carcomia-me por dentro e caminhava perseguido pelo aguaceiro com pés e pernas de chumbo. Abriguei-me debaixo do toldo de um quiosque de imprensa, tentado ordenar os pensamentos e decidir como proceder. Um trovão descarregou perto, rugindo como um dragão a enfiar pela embocadura do porto, e senti o solo a tremer debaixo dos pés. A pulsação frágil da iluminação eléctrica que desenhava fachadas e janelas desvaneceu-se uns segundos mais tarde. Nos passeios encharcados, os candeeiros pestanejavam, extinguindo-se como velas ao vento. Não se via uma alma nas ruas e o negrume da falta de luz espargiu-se como um hálito fétido que ascendia das condutas que vertiam para os canos de esgoto, a noite fez-se opaca e impenetrável, a chuva uma mortalha de vapor. «Por uma mulher assim, qualquer um perde o senso comum…» Comecei a correr Ramblas acima com um único pensamento na cabeça: Clara.”

“- Aqui para nós, esta coisa da sétima arte não me diz nada. No meu entender não passa de pasto para atordoar a plebe embrutecida, pior que o futebol ou os touros. O cinematógrafo nasceu como invenção para entreter as massas analfabetas, e cinquenta anos mais tarde não mudou grande coisa.”

“O Julian tinha-me dito certa vez que um relato era uma carta que o autor escreve a si próprio para contar coisas a si mesmo que de outro modo não poderia averiguar.”

Poderia acabar no quarto capítulo antes do final, pensei eu. Tal como pensei o mesmo no antepenúltimo e penúltimo. Quando chegou ao fim, se já não tinha palavras que definissem o que estava a pensar, fechei o livro e revi a capa. “Ah!” – exclamei e assustei o gato – “Agora percebo o porquê desta foto! Não é apenas uma introdução.”.

O Jogo do Anjo Marina O Príncipe da Neblina

One response to “A Sombra do Vento – Carlos Ruiz Záfon

  1. Fernanda Pedroso

    Divinal!!!!
    Obrigada

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