Horizonte Perdido – James Hilton

Quando eu era rapazote, havia um bar no Rossio ao Sul do Tejo, que se chamava “Shangri-lá”. Não me lembro muito bem se era um bar ou um café, porque eu nessa altura, se já tinha idade para ir ao café, não tinha dinheiro. O que me ficou nos arquivos bolorentos da memória era o café que se chamava “Shangri-lá”, tinha um candeeiro de estilo indiano, era em tons laranja, a esplanada trabalhada em ferro forjado e o facto de eu não saber por que carga de água o bar tinha aquele nome. Agora já sei. Descobri numa biblioteca de uma escola primária este livro que eleva a conversa para o nível de literatura mundial. Quando voltarmos a ter aquela conversa sobre o que é e não é literatura, este livro tem de ser incluído. A forma de narrar intensa, a ambiguidade da língua, a mensagem subentendida, ao pensar que estou a ler um romance, consciencializo-me de que cada personagem representa um grupo social em articulação com outro, escrito num período pós primeira guerra mundial e a seguir à crise americana (também poderíamos ter aprendido qualquer coisita com essa crise) que o blogue “Literatura Fantástica” explica muito bem: “Em “Horizonte Perdido”, James Hilton cria uma utópica localidade, um lugar mágico entre as belíssimas e inacessíveis montanhas congeladas do Tibet, onde pessoas de diversas nacionalidades diferentes vivem de forma livre e desabusada, partindo do princípio do uso da moderação em todas as suas atividades e atitudes. Shangri-La é a espécie de Neo-Eden que dá o nome desse sonhado local.
A obra de Hilton reflete perfeitamente toda a instabilidade política e econômica do momento. O mundo vivia um período de forte depressão impulsionada pela quebra da bolsa de Nova York, além da instabilidade político/militar pós primeira grande guerra mundial. Shangri-La seria então, um refúgio, um local onde poucos privilegiados poderiam conhecer. Mas será que o homem está pronto para isso? Essa é uma questão que Hilton de certa forma responde, mas para saber você terá que ler o livro.
Uma obra que todos deveriam conhecer, já que todos nós, mesmo que em apenas alguns determinados momentos da nossa vida, buscamos a tranqüilidade e paz de um local como Shangri-La.”

Pág. 112: “- De modo algum. A nossa gente não gostaria de ser forçada a apoiar uma politica qualquer, considerada absolutamente boa, em detrimento de outra, tida como absolutamente má.

Conway sorriu. Simpatizava com este ponto de vista.”

Pág. 115: “Quando um indivíduo viola as leis, é obrigação de todos os cidadãos que as respeitam deitar-lhe a mão e entregá-lo à justiça – sempre na hipótese de se tratar de uma dessas leis que não é permitido violar.” Ah! Valente sociedade utópica! Continuando com a frase seguinte: “E a lei relativa a cheques sem cobertura, acções e balanços falsos, é sem dúvida uma delas. Bryant transgredira-a, e, embora Conway não tivesse tomado grande interesse pelo caso, tinha a impressão de que fora dos mais escabrosos. Tudo quanto sabia era que a falência gigantesca empresa Bryant, em Nova Iorque, causara prejuízos que montavam a cerca de cem milhões de dólares – um passivo enorme, mesmo num país onde pululam cifras gigantescas.” Não quero traduzir o livro todo, mas acho que uma boa investigação policial, estou-me a lembrar de Maria José Morgado, sugeria a leitura de mais uma frase: “De uma maneira ou de outra (Conway não era entendido em finanças), Bryant fizera trampolinices em Wall Street e o resultado fora uma ordem de prisão contra ele, a sua fuga para a Europa e pedidos de extradição dirigidos a meia dúzia de países.” – ah! É verdade, isto é uma obra de ficção com oitenta anos.

Pág. 152: “ – Naturalmente. Mas que valem as opiniões dos homens razoáveis diante do ferro e do aço? Acredite-me, essa visão do velho Perrault tornar-se-á realidade. E esse, meu filho, é o motivo por que eu e o senhor estamos aqui, e por que podemos rogar a graça de sobrevivermos à destruição que nos ameaça por todos os lados.”  

James Hilton Wikipédia – “Nasceu em Leigh, Lancashire, Inglaterra, a 9 de setembro de 1900,(…) na adolescência já revelava marcante inclinação literária, escrevendo seu primeiro romance, Catherine Herself (1920), com apenas dezassete anos de idade. (…) Horizonte Perdido (Lost Horizon, 1933). Este último, um verdadeiro best-seller, fala simbolicamente da ambição humana e do ideal de paz e sabedoria, tal como se manifesta no reino de Shangri-La.”

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