A Filha do Capitão – José Rodrigues dos Santos

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Pág.15 – “Esses eram os infelizes, os dilacerados pela revolta até serem abatidos pela resignação, os que percorrem a estrada da vida vergados pela saudade do que poderia ter sido, do futuro que não existiu, do trilho que nunca percorreriam a dois.” – Só esta citação é suficiente para uma tertúlia. Se lhe retirarmos o “a dois” ficará: “Esses eram os infelizes, os dilacerados pela revolta até serem abatidos pela resignação, os que percorrem a estrada da vida vergados pela saudade do que poderia ter sido, do futuro que não existiu, do trilho que nunca percorreriam (…)” – então temos muito que ensinar aos nossos filhos, aos nossos alunos, uns aos outros… Ou então como alguém muito próximo me diz: “Pelo menos tentei. Isso, ninguém me pode tirar. Não foi por falta de ter tentado.”

Se tem romance, filosofia também não lhe falta: pág. 88 – “Ou seja, o mundo não tem sentido, nós é que lhe atribuímos um sentido, nós é que lhe inventamos um sentido para nos reconfortarmos.”

Pág. 136 – “Mata um homem por dinheiro e és um criminoso. Mata mil homens por uma ideia e és um grande génio.” – acho que o comentário vem logo a seguir: “São assim as coisas.” – espelha bem este conformismo português.

Eu não sei o suficiente para comentar uma obra destas. Por isso comento algumas passagens, nos poucos momentos em que consegui parar de ler para registar, que enriquecem a minha apresentação desta obra, vejamos: pág. 287 – “Os portugueses são desorganizados…”, avançou Agnés, sorrindo, como quem diz que isso não é um pecado muito grande.” – ora cá está! Pelos vistos a nossa desorganização é histórica. Tal como histórica é a desculpa para a mesma desorganização aos olhos dos estrangeiros. (Fico mais descansado, afinal a minha desorganização pessoal é cultural, fixe!).

Não leiam este livro no metropolitano. Pág. 309 – “… a ambos tiveram de se contentar em ficar a observar as chamas a crepita na lareira, o lume mostrando-se já muito brando, lambendo com suavidade a lenha carbonizada que se amontoava numa amálgama negra e quente, as pequenas labaredas incandescentes isoladas naquela massa inerte como gotas de lava a brilharem sobre o carvão, como lágrimas de ouro choradas pela madeira no seu derradeiro sopro de vida.” – Pois é. Como é que se comenta poesia desta? Não comenta. Tira-se prazer na leitura da mesma. Por isso é que eu digo: Não leiam este livro no metro, eu não o fiz. Tenho ali um sofá, junto a umas plantas, uns passarinhos na varanda e tempo, condição muito importante para ler este livro, tempo.

Pág. 429 – “… como quase todos os altos oficiais estava habituado a dar ordens para outros morrerem e a pregar o sacrifício que terceiros deveriam fazer pela pátria, mas desconhecia o que era sofrer…” – Eu ouvi uma coisa parecida nas notícias quando uns “altos oficiais” apregoaram que era necessário “apertar o cinto” e não me lembro se foi pela boca do JRS.

Pág. 430 – “Agora isto? Isto não, isto não é nada, isto é não querer decidir, isto é fugir às responsabilidades.” – pois… É à português, ou seja cá está a ferroada literária que não é qualquer escritor que sabe dar.

Pág. 573 – “Na verdade, a escolha dessas estâncias de veraneio para o local da acção era bem representativa da forma como alguns oficiais encaravam os seus deveres na guerra (…) Afonso conhecia alguns que até se gabavam de ser pagos para irem gozar a praia, beneficiando de um absurdo sistema de subvenções que premiava o desleixo. Enquanto um capitão que arriscava a vida nas trincheiras se limitava a ganhar a subvenção de campanha (…)” – ainda hoje é assim, passear de avião com o dinheiro dos impostos (dos outros!).

Pág. 605 – “A guerra é feita por jovens, que se matam para a glória de velhos. Para os jovens, claro que não valeu a pena. Para os velhos…”

Volta a poesia: pág. 625 – “As velhas trincheiras mostravam-se irreconhecíveis, tapadas pela vegetação, a natureza encarregava-se de ocultar com plantas as cicatrizes abertas no solo.”

A nossa República nasceu torta. Como diz a sábia voz do povo: “Quem nasce torto, tarde ou nunca se endireita”. Afinal somos o que sempre fomos, um país de emigrantes a combater guerras alheias. Parabéns José Rodrigues dos Santos. (Onde é que arranjou tempo para tanto trabalho?) – Nota final; pág. 631: “Tratando-se, é certo, de uma obra de ficção, este romance procura reproduzir factos históricos ocorridos na Flandres em 1917 e 1918.”

Este meu exemplar segue para bookcrossing familiar europeu, em sentido inverso ao percorrido por “O Codex 632”.

Este post só fica completo com um link para um verdadeiro comentário a esta obra escrito em NLIVROS.

O último segredo A mão do diabo O Anjo Branco Fúria Divina A vida num sopro O sétimo selo A fórmula de Deus O codex 632 A ilha das trevas

O Homem de Constantinopla – Um milionário em Lisboa – A chave de Salomão – As flores de Lótus

7 responses to “A Filha do Capitão – José Rodrigues dos Santos

  1. Pois é, daqui a pouco vou à falência. Visitei o link NLivros, li o comentário e … comprei o livro…

  2. nunoanjospereira

    Os livros são muito caros. Eu não compro 1/10 do que gostaria. Há duas horas passei pela FNAC no Fórum Almada e tem lá Pearl S. Buck a 6 euros, três livros!
    Ler os comentários do Iceman em NLIVROS é problemático porque dá efectivamente vontade de os ler. Gosto muito da forma como ele comenta as obras.

  3. nunoanjospereira

    Ah! Só mais uma coisinha: prepara-te para chorar no fim.

  4. Rosa Carioca

    Obrigadinha, mas já tinha essa impressão…

  5. nunoanjospereira

    Eu acho que assim é que vale a pena: vibrar com as leituras. Tal como no cinema, se assistir a uma comédia é para me rir, se o filme for de ficcção cientifica, não vou para lá pensar que “aquilo” seja mentira. Eu gosto dos autores que apenas escrevendo me fazem despertar os sentimentos, acho fantástico, talentoso.
    Um dos primeiros que me lembro de ter ficado muito triste com o final foram “As vinhas da ira” de John Steinbeck, ainda hoje lhe mudava o fim:

  6. Rosa Carioca

    Érico Veríssimo era um escritor brasileiro que, com a sua escrita, tinha o dom de fazer com que eu “viajasse” pelos seus romances. Gostei muito de ler: “Clarissa”; “Música ao Longe” e “Olhai os Lírios do Campo”. Ele sempre colocava factos históricos nos enredos de suas obras. Outro livro que fez-me chorar em vários momentos foi “Coração – diário de uma estudante”; de Edmundo de Amicis. Um livro cheio de emoção. Também sou assim, vibro com as leituras, com os filmes, com as músicas, enfim…

  7. nunoanjospereira

    Apenas li “Olhai os lirios do campo”. Obrigado pelas dicas sobre os autores.

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