Zé Pedro no Facebook

Resistir era o meu mote. Já dedicava tempo suficiente ao blogue, considerava eu que não tinha tempo e se a verdade for escrita, o que eu queria era não abrir uma conta no facebook. Há sempre uma renitência mas… tendo em conta a fama que tal coisa foi tendo, nos filmes televisivos o facebook desempenha um papel importante, qualquer série americana fala disso e a verdade é que aquilo tudo parecia que iria aumentar o meu número de visitantes. Abri uma conta. Até a farmácia cá da terra têm facebook. A farmácia?! Gosto daquilo, é um paraíso. Quando estou triste ou deprimido, visito os meus amigos e pronto, vejo que está tudo a correr bem para toda a gente e fico mais alegre. Comecei a ficar com tantos amigos que deixei de saber onde é que param as notícias deles. É tanta a informação que aquilo de repente transformou gente em números. Foi gira a descoberta. Após umas centenas de amigos o entusiasmo por ter encontrado aquele especifico, mais saudoso, que já não via há muito tempo e nem sequer me lembrava dele, passou. O facebook é um excelente espelho social: os adultos mais solitários jogam jogos de criança e convidam outros solitários para companhia; as conversas, então as conversas são tal e qual o quotidiano, cada um que ouve algures uma opinião sobre uma tema aleatório, que acha ser muito interessante, dito por alguém bem vestido, coloca logo no seu facebook e aí começa o diálogo, é vê-los a adicionar um simples “gosto” à falta de se ter tido o trabalho de copiar uma frase inteligente algures na internet. Imbuídos de toda esta falsa capa social, continuamos a querer dar a entender que ter é mais importante que ser. Para os meus alunos aquilo até é bom e recomenda-se: conversam uns com os outros on-line, já que é demasiado perigoso estar na rua; ficam a saber umas palavras em inglês; colocam fotografias suas e dos outros em situações que julgam que ninguém vê, mas se põem na internet, então não é essa a situação? Toda a gente ver, gozar, julgar ou seja, também nos mais novos é um excelente espelho social: o rumor, a má-língua, o escárnio, está lá tudo mas aparentemente parece que são só boas notícias. E são. O mundo capitalista a evoluir, as pessoas ficam felizes por já saberem mexer no computador, cada vez mais a fazerem burrices pensando que estão a fazer alguma coisa de importante, cada vez mais dependentes dos privados, cada vez mais sozinhos numa rede social onde o que mais importa é demonstrar a quem não vê, que aparentam saber alguma coisa, na realidade, apenas pagam mais uma conta, a internet, apenas vão tendo automaticamente a memória do computador cada vez mais cheia, até que fica lento, obsoleto e mais uma nova compra, mais um novo crédito, cada vez mais sozinhos. Até os movimentos sociais reivindicativos, seja lá do que for, até estranho como é que ainda não surgiu um a reivindicar chuva, são reações (em vez de ações). Não aumentou o número de visitantes do meu blogue. Porque carga de água é que uma farmácia… bom, valha-me Deus.

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4 responses to “Zé Pedro no Facebook

  1. linda bunda

  2. É dos “posts” que tem mais visitas!

  3. Katrina Lindell

    Decent?

  4. As coisas têm a importância que eu lhes quero dar.

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