Pão sobre as águas – Irwin Shaw

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Na contra capa diz que: “(…) abordando magistralmente o choque ideológico entre as gerações conservadora e progressista, com um epílogo verdadeiramente inesperado, o presente romance narra o drama de um idealista que procura guiar os filhos no mundo em que nasceram e depara com uma resistência estranhar que faz perigar a própria sobrevivência familiar.” O que não diz é que “isto” nem é uma amostra do excelente trabalho contido no livro. Pensei que ia ler sobre o choque de gerações, mas deparei-me com muito mais que isso. Intenso e apaixonante, de um pormenor tal que me permitiu visualizar a acção, e “enfiar a carapuça” aos dias de hoje, sendo que a trama remonta aos finais da década de sessenta e início de setenta, na América. E esta realidade, ou melhor esta história ficcionada por Irwin Shaw, encaixa na realidade actual europeia.

Como se não bastasse um dos personagens principais é professor. Página 52 – (…)”Significa isso que é desdenhoso da autoridade, imune à disciplina, desconfiado das intenções dos seus professores…  – Das suas intenções também? – Receio que sim. Encanta-o provocar-me. Quando ensino de acordo com o currículo, como é a minha obrigação, é frequente levantar-se e sair da sala. Hazen abanou tristemente a cabeça. – Tanto dinheiro, tanto esforço, tanta boa vontade nas nossas escolas, e que obtemos em troca? – Rebelião – respondeu Strand. – Algumas vezes disfarçada, muitas vezes declarada.”

Vi um filme sobre máfia japonesa, no dia anterior a ter lido esta passagem, e o “padrinho” recorreu a este, dizia ele, “velho provérbio japonês” para ensinar ao aprendiz que: página 53 “- Por falta de um prego, perdeu-se a ferradura, por falta de uma ferradura, perdeu-se o cavalo, por falta de um cavalo, perdeu-se o reino… Esse género de coisas?”

Não quero transcrever para aqui o livro, mas esta é mais uma passagem que dá que pensar: página 214 – “Vou iniciar uma nova vida e tenciono escrever um diário a partir de agora. Se registar tudo por escrito, ou pelo menos fragmentos que, eventualmente, formem um padrão, talvez compreenda melhor o que me está a acontecer. Está tudo a mudar e eu estou a ser ultrapassado pelos acontecimentos. O tempo empurra-me e começo a sentir o peso dos anos. Se a História é um meio de compreender o passado, um registo pequeno e diário do presente pode ajudar a dar algum sentido ao futuro.”

Também não resisto a citar esta passagem, sobretudo pelo facto de ser professor e ter consciência / experiência sobre o que se passa, ou o que não se passa no nosso sistema de ensino, e lembro que os encarregados de educação, já nem digo pais, também fazem parte dele. Página 250 – “ Tenho estado a meditar nas diferenças entre o antigo sistema de educação nos países de língua inglesa e a ordem permissiva que temos agora e em que os alunos se licenciam nas superficialidades mais inconsequentes que se possa imaginar. Quando pensamos nos poetas, filósofos, estadistas e soldados formados pelo antigo sistema inglês e pelos colégios dos Estado Unidos orientados pela Igreja, e que resistem desde os tempos coloniais, é difícil acreditar que estamos a fazer tanto pelos nossos filhos quanto os nossos antepassados fizeram pelos deles.” – É tão bom poder e saber escrever romances! Assim lá se vai dizendo que o personagem disse… e este livro é ficção. Qualquer semelhança com a realidade é… puro talento!

Esta então está demais! Quando hoje em dia andamos por aí a proibir e permitir consumo de drogas e álcool e mais outras tretas para nos desresponsabilizarmos das nossas obrigações, eis senão quando este autor põe na boca do personagem mais uma verdade: página 319 – “Strand foi à casa de banho e pôs o frasquinho de comprimidos que o médico lhe dera na prateleira. Nepente em doses nocturnas, pensou. Retirada para o esquecimento. A resposta da civilização à religião e à ambição.” – tive que ir à wikipédia ver o que era Nepente: Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre. Nepente é uma droga do esquecimento mencionada na mitologia grega, com suposta origem no Egito.A primeira referência a esta droga surge na Odisseia de Homero.  Literalmente significa “aquele que afasta as penas” (ne = não, penthos = dor, pena). Na Odisseia, é uma poção que Helena de Tróia dá a Telémaco para que este esqueça a dor e a desgraça. Muitos estudiosos crêem que nepente poderia ser uma preparação à base de ópio, talvez semelhante ao láudano; os efeitos de nepente descritos na literatura são semelhantes aos dos opiáceos. O género Nepenthes foi nomeado em referência à droga nepente.

Página 383 – “(…) Com os nossos códigos jurídicos, sob o nosso sistema contestante, em qualquer causa importante quem sai do tribunal com uma sentença a seu favor é quem pode contratar os advogados mais caros. (…) Quando comecei a praticar a advocacia, acreditava que, pelo menos de modo geral, a Justiça era servida. Infelizmente, após muitos anos de serviço, já não posso ter essa crença…”.

Eu sei que estou a ser tendencioso, mas é o meu blogue! Página 387 – “O corpo docente é muito instável, há sempre pessoas que entram e pessoas que saem, como os professores errantes da Idade Média.” – Estou desculpado?

Página 391 – “Claro que, quando finalmente vemos pessoas acerca das quais já formamos uma opinião, existe a tendência de vermos o que imaginámos em vez do que realmente há para ver.”

Este romance, leva-nos a acompanhar uma família, que com o passar do tempo se vai dizendo, no seu seio, meias verdades acerca uns dos outros, com a maior das boas intenções e então aqui sim, verifica-se o tal choque de gerações. A contra capa não nos diz nada disto, por isso é que não resisti a fazer umas citações.

É só mais uma, não resisto, será que Irwin Shaw não morreu e anda por aí a ver as notícias na Europa? Página 396 “Além disso está grávida e eu encontro-me na perspectiva de ser avô. Quando ele ou ela for crescido, suponho que o meu neto ou a minha neta caminharão por cidades abandonadas e incendiadas, com automóveis espalhados por toda a parte, sem combustível e imobilizados na sua última viagem. Isto se ela ou ele tiver sorte e se os homens sobre os quais não conseguimos exercer nenhum controlo não tiverem decidido desencadear uma guerra nuclear.” – É de génio!

2 Respostas

  1. Muito interessante. Não encontro outras palavras…

  2. E para mim foi uma surpresa porque a contracapa depaupera o conteúdo.

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